quarta-feira, 16 de março de 2011

Saudade

Quando nasceu o dia e a noite percebeu que não viveria sozinha na aurora dos tempos, aconteceu de Deus soltar um sorriso sacrista. Ele tinha inventado um monte de coisas com apenas aquele contraste entre a luz e a escuridão. Tinha sido uma sacada genial. Tinha definido o tempo de vigiar o mundo e o tempo de ver-se por dentro no sono. Tinha encontrado um meio para esquecer a dor de quem passa o dia com fome, pelo menos por umas horas durante a noite adormecida. Deus tinha criado o manto celeste para dar amparo às lagrimas dos anjos e dos aldeões que perderiam suas terras no decorrer do mundo. Tinha assustado de uma vez os monstros detrás dos armários. Tinha tornado divinas as imagens das mulheres lendo nos púlpitos das igrejas. Tinha destilado com tamanha perfeição as cores da aurora que os filhos terrenos podiam ver nascer o dia e sentir o mesmo fio de cor que o filho Dele sentiria no dia de seu nascimento. Deus, sobretudo, tinha dado aos homens a possibilidade de descansarem uns dos outros apagando metade do planeta e deixando a outra metade acesa. Só não contava, o genio primo, que o clamor do dia pela noite e vice-versa, que essa nostalgia perpétua que se desenha no cume do toque dos dedos celestes quando as fases da existência permutam seus destinos, seria a metáfora permanente da saudade, com lembranças que lambem os extremos dos dias, ratificando as distâncias e aumentando o sem número de vezes que temos de olhar bem dentro daquilo que está tão próximo mas se esconde até que outro movimento do mundo traga de volta a dor ou a alegria do que aconteceu. J.M.N.

Um comentário:

Isolda disse...

Confissão: tem gente que coleciona selos. Eu coleciono textos sobre saudade (tentando talvez sublimar a saudade imensa que sinto de todos e de tudo e de tudo o que ainda não vivi...-coisas de pisciana?).Amei este teu.