domingo, 13 de março de 2011

Cartas a ninguém (28.02.2011 – 23:47 p.m.)

Mamãe me julga pelos anos que passei odiando as pessoas. Papai talvez ainda sinta esperança em me alcançar depois de Jacarta e do Tennesse. Dois mundos distintos – minhas culpas, meus medos. Entre eles a solidão constante das linhas. E como escrevo aturdido e veloz enquanto penso em pedir perdão, comprar uma casa e sonhar o que todos sonham. Resolvi escrever meu testamento.

Não tenho muito a deixar. Meus discos, meus trapos, meus livros e papéis anotados. Toda minha confusão consignada nas histórias que escrevi e deixei nomeadas em grandes pastas com os nomes delas. Verás que todas já se foram. Todas se tornaram gente demais e comeram meu personagem. Lutei, mas, no final, a tal realidade vence sempre. Porém ainda tenho aguas para enfurecer com minha dureza e persistência.

Escrevo do centro do mundo, querida, de dentro da máquina do tempo que instalei para uns passeios. Corpo e alma infligidos ao que parece. Toda vez que rodo o botão do passado é como se não fosse comigo. Tinha umas trinta dimensões chocadas contra o fundo da minha última parada em mil novecentos e noventa e dois. Justo no beijo que demos em sua cama. Quando decidimos ser apenas bons amigos.

Ou nos amávamos ou morríamos de vez um para o outro. Foi o que fiz. Atirei. Rápido em sem remorso. O problema é quando evoco a engenhoca a me levar futuro adiante. Nada feito. Dá sempre um sinal de defeito. Um tilt que ainda espero, seja reparado pelo fabricante. Pensando bem, talvez essas coisas estejam fora do contrato. Não li as letras miúdas. Apenas comprei: máquina do tempo em perfeitas condições, dizia o anúncio.

Tô num beco sem saída amor. Não sei se peço para deixarem tudo como está ou choro aquelas últimas lágrimas de arrependimento que tenho. De uma amaneira ou de outra, estarei chegando em setenta e seis já, já. Malas prontas para ver de onde eu vim. Uma máquina antiga para ainda fazer os retratos que nunca fizeram de mim quando era inocente.

Me deseje boa sorte, meu anjo, parece que o dia em que tudo aconteceu estava ventando muito e tudo era bronze e silêncio. Ah, deixa pra lá. Tenho apenas uma pergunta mesmo: o que eles estavam pensando quando me puseram aqui? Volto antes do anoitecer para te contar o que diziam de mim enquanto eu chorava recém-nascido.


Sinceramente,

J.Mattos

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