terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Outro desejo


Senhora, tenho caminhado com ligeireza entre uma tristeza muito antiga – um banzo – e uma saudade aliviada. Por todo esse itinerário pousa um musgo escorregadio que é a seiva dos dias em que foste minha e eu fui teu. A época do ano corrobora uma certeza: eu não pareço mais comigo. Nas redondezas de ti eu ganhei um nome e quase um sobrenome. Fui de terreno baldio a apartamento em chamas.

Uma estrada assim, vazia e cheia de rastros de pneus e passos, coloca as gentes em desespero, tem vezes. Hás de entender um dia: tudo, pra mim, é viagem de volta. E, se voltares desse teu próximo retorno, tenho um pedido:

Lembra um tiquinho de mim, como quem recorda de uma febre pegada na infância e que, aumentada a gravidade pela preguiça de ir pra aula, serviu como doença de ficar em casa. A tua mãe não reclamou, por seu turno, de que observasses os cuidados que punha em cada tempero da comida que esperaria o teu pai. Como dobrava zelosa todas as roupas dele e como ficava feliz quando já faltava pouco pro meio dia.

Podes fazer isso? Lembrar o tanto que uma febre foi capaz de te ensinar sobre o amor? WDC

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ocupá-la

Descuidado, incerto ao pé de sua porta. O mero assopro do vento me desmonta. Espero desmilinguido que ela me recoloque nos eixos, reforme minha estrutura. A calma é apenas um detalhe frequentemente esquecido. Eu a chamo de minha, pois sou um incompleto, um idiota feito. Que a minha vontade era essa, prendê-la, guarda-la do mundo. Somos todos assim, os homens da minha idade, das idades antes e finalmente os homens de todas as idades. Mesmo os que dizem por ai que libertam. Fechar-se à fina tortura dos olhos alheios que a descobrem nos pátios do mundo não é liberta-la. É prender-se à estupida oferta da tranquilidade inventada. Sou todo o contrário do que planejei, do que me disseram para ser diante dela. Sou aquele que espera uma simbiose completa, porque assim poderíamos ter um único nome eu e ela. Líquen. Ou lume. Porque acendemos a noite e tudo se aquece. Porque parados num canto todos vêm a perguntar como fazemos. Não há resposta. Eu sou eu. Ela é ela. Que tal ser assim o estado de nossas coisas – encantado –, fico incrível, engraçado. Até comento sobre uma obra de arte. Pelas noites intumescidas ou dialogais o teto aberto traz o frio. Se eu espirro, ela me enxuga. Se ela treme, eu fico com parte do movimento involuntário de seu corpo. Ela descobriu que meu corpo é marcado, que sou descuidado com a saúde. Que estou cansado. Sua chegada, sua forma única de receber meus defeitos me faz lamber os ossos. As lembranças não doem mais. Sinto a fisgada aguda de uma nova modalidade de entrega – doar, fazer vontades, antever pedidos. Seu tato me convence que ainda narciso o ideal. Sou lindo e forte como ela me torna. Sem mais nem menos – convencido. Tenho essa vontade permanente de tirar suas roupas e ver novamente onde meus dedos cabem. E mais e mais vezes feri-la, abusa-la na medida em que possamos não ser desumanos ou julgados. E nesse começo de inquietação que se achega, prestes ao nosso jantar, tenho a completa visão das coisas: ocupá-la é ser o que sempre estive destinado a ser. Uma farsa, um impostor para meus pares. O amor da vida inteira para ela. Sim, isso me basta e realiza. J.M.N.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Um Desejo

 

Se eu tentar sair por aquela porta, por favor, senhor, me impeça. Não acredite em nada que eu falei, se o que sair da minha boca criar lonjuras entre nós dois. Usa da tua carpintaria pra mostrar como esse tempo todo estava tomada por esses caprichos de criança.

Chega perto de mim, com a serenidade de uma castanheira, e ouve cada palavra como quem olha pra um escaravelho.

Fala que o meu amor te salvou e que o teu é mais intenso que o sol. Que a tua paciência não finda e que a tua espera será mais forte que a vida.

Vem aqui em casa, diz que tudo é teu também. Vem te apossar dos teus despojos e que, bárbaro, seguirás me invadindo. Desmancha as minhas dúvidas junto com as rugas do lençol. Se eu resistir, sabes como me afofar. Se eu me abrandar, sabes em mim onde os incêndios todos estão. Se eu dormir, senhor, coloca a boca junto à algaravia dos meus sonhos, e pronuncia, num marulho, o meu nome. Te peço isso confrangida porque só nos volteios da tua voz descubro quem de fato sou eu. WDC

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Po(e)magem #7

Sobre a bela e trágica imagem
partilhada por Imad Alremony
Em: 06.12.2012

homeless

Trago nas costas a minha casa
Mas não sou um bicho, um crustáceo – fugitivo, refugiado?
Quem sabe circunscrito num mundo de mil imagens, afeto não
Estou à espera. No mesmo lugar de ontem
Nas mesmas perguntas, mergulhado há anos:
- Sou de quando? Quem me sabe? Quem redime?
E sigo calando a tua verdade – não há paz que se compre
Não há mundo melhor, sem que crianças não tenham abrigo
Sem que imagens denunciem o que não temos:
Razão ou tempo para cruzar os braços!

J.M.N.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Compromisso

Às três da manhã eu levanto em sede e sono, desregulado. Chego ao pote de biscoitos, encontro a sobra da carne do jantar. Minhas mãos caminham feito aranhas pelas paredes a procura de um interruptor. Tateio o macio molhado da esponja de lavar louças, penso no asco que sinto entre sabão e restos de comida. Certamente fiz uma careta. Meu joelho foi na direção da tragédia. Meu cotovelo beija a quina do armário. Um raio agudo percorre o corpo. Amanhã haverá hematomas por todo canto do corpo. Mesmo assim não acordo. Encontro a água, o copo transborda. Me farto na mentira de matar a sede que é própria de toda água, o copo flutua. Não sei de onde vem um cuidado secreto e quieto que me acompanha na vida inversa do meu sono andarilho. De repente tudo faz sentido na semi existência noturna. Volto por outro caminho. Não conheço obstáculos. Meu joelho parou de doer. Tenho um guia que me entrega suave ao mesmo ponto da cama. Os travesseiros se ajeitam. O cobertor vem por sobre. Calor e tranquilidade. De manhã sou sempre calado. Recebo um beijo. E finalmente ela pergunta se meu joelho está doendo, se eu tive um sonho ruim ou se sentia frio, mas não queria desligar o ar condicionado por sua causa. Segundos em silêncio. Seu rosto é tudo o que vejo. Agradeço no íntimo a sua presença. Não, nada me dói, nem sinto frio, mas desligaria o ar por sua causa. Ela me beija. Meu dia começa. Percebo que é sempre assim desde que ela está em minha vida. Sou guiado durante o sono, saudado na vigília e isso sem nem sequer haver um nome entre nós. Sem nem ao menos termos feito votos de comprometimento. Acontecemos, simplesmente. O rastro da proteção da noite ainda me encima. Hoje sou eu quem conduzirá a madrugada e ao seu mínimo desassossego, devolverei justamente o que nos une, aquilo que nem precisa ser dito para sabermos que se encontra, seja nos descaminhos do sono, seja na claridade do dia. J.M.N.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Naturalmente

Agora que o beijo é constante e as pragas enviadas supostamente pelos céus esmoreceram, pergunto fino na calada da noite: ainda tens o poema escrito que te fascinou noites atrás? É uma pergunta perdida. Uma retórica estúpida que pretende tão somente saber se ainda pensas naquilo tudo. Se teu sorriso incontido é sinal de que moramos secretos um no outro. Quero que saibas que tudo quanto ainda escrevo, faço por não te ter deixado morrer em meus escaninhos, nas minhas relíquias. E talvez seja esta minha maior inconformidade, pois no fundo sei que nenhum assassinato tiraria tua presença. Enquanto resolvo parte do suposto saber que nomeia agora meus planos para o futuro, vou enganando a fome da tua presença com mais páginas mergulhadas em confissões e alardes. Como se fosse natural contar coisas depois da morte. J.M.N.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A partir de ontem

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Já publiquei e retirei este texto várias vezes do blog. Já o inseri em coletâneas, em outros trabalhos. Vejo agora que seu lugar pétreo é aqui mesmo. Retorno-o pela última vez. Ele nasceu em 2010.

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Agora não existe barulho em meu sono. Posso dormir sossegado. Não há reajuste de corpos e cobrança de dívidas antigas debaixo das cobertas noturnas. Posso correr no torpor de meu cansaço, sem obstáculos.

Não há razão para comemorar.

Sem celebrações fica difícil entender se as horas passam e mesmo quando vejo o avançar dos ponteiros tenho dúvidas.

Hoje não posso dizer vulgaridades, não posso cantar por ver a manhã acesa em paz, café na mesa, livro na mão e poemas. Não posso comer falando absurdos. Teus barulhos se extinguiram.

Hoje estou entregue à minha chatice, meus obséquios para comigo mesmo. Estou servindo de alvo para o destempero que são meus atos sem as lutas frenéticas de nossas carícias mais aterradoras.

Machuca não ter intenção nos gestos.

Não consigo justificar meus abraços e os entes amados ficam a deriva, envolvidos por braços injustificáveis.

Fica decretado em estatuto que a vaga de tua presença jamais será preenchida. Que mesmo não voltando - por impertinência ou impossibilidade - não haverá outro para me reconhecer olhando para mim de onde estiveste, e, aquela que fui, nos segundos de nossas mortes sucessivas - as sedes infinitas - estará finalmente no seu calabouço, não haverá de ver a luz do sol nunca mais e sem saber como se parece com o passar do tempo, poderá ser uma pedra ou a própria cor da tarde, uma opção para o infinito.

Nessa condição, a única possibilidade de indulto é encontrar caracóis perdidos, que estes são mais lentos que o esquecimento.

Esta porção de meu ser – sem o teu reconhecimento – escreverá, um dia, um romance sobre o acontecido e não haverá pessoa que não chore, não existirá dureza que não ceda diante daquela história.

E quando deixarem de se encher meus pulmões e tudo for um grande e último espirar de despedida, teu nome retornará à minha boca e ao dizê-lo num riso sussurro, ficarás para trás.

Resumida a um último segundo de vida, a menos de um decibel de fala, como quando dizias que jamais te perderias de mim e quase arrancando meus cabelos pedias para eu dizer que te pertencia. J.M.N.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ocupá-lo

É como chegar a casa e tirar os sapatos experimentando o tapete da sala. Fisgar com os pés micro sensações incríveis de animação táctil que sobem e descem pelos caminhos do corpo, representando-me aos poucos, dando-me curvas e gostosura. Pondo-me com gosto para ser saboreada. Isso me desperta, me cura das suspeitas do mundo sobre meu estado de alma. Usufruir-me por um segundo de plenitude, os pés ambivalentes querendo me destinar à firmeza do chão e ao mesmo tempo impulsionar-me num voo sem fim. Rumo ao imaginário fulminante de suas fantasias. Usá-lo de qualquer maneira. Abrindo muito os braços em gestos esquisitos, inumanos ou como pássaros fazendo suas cortes. Plumas desreguladas pela euforia de descobrir que sou ainda mais eu quando perdida em casa do seu tato. Seviciá-lo, cuspir em seus restos, cumprir a maratona de agasalhos dos beijos noturnos, minhas costas esperando que ele se aloje. Eu cheiro. Cumpro-me, a perdigueira feita mulher cachorro, assim mesmo misturando os gêneros, como aquela do escritor de asneiras facílimas sobre o ridículo que é sentir amor em Terabytes e coloca-lo nas redes sociais. Lambo seus dedos. Dentro da mais cerimoniosa desposse eu sou tudo quanto queiram suas mãos de artesão. Chamo-o de homem. Nunca de meu. Sou antes, dele. Decido passar aos outros aposentos. E sem precisar de espelhos ou desguias, me perco. Ocupá-lo é como rastejar de sede no deserto e ainda assim não suportar uma gota sequer quando resgatada. Salva. É isso que estou. E num último gesto de redobro volto ao núcleo de mim – um feto – abraçando as próprias pernas esgarçando o couro dele que me envolve. Firo. Curvada sobre mim mesma. Vestindo sua pele cedida as expensas de uma intensidade que sempre quis e não suporto. Finalmente compreendo: ocupa-lo é ser o que sempre estive destinada a ser. Detentora de minhas incertezas. E nada mais. J.M.N.

Fotografia–Cenas da Cidade (Parauapebas, 2012)

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O olhar que os passantes lançam pra aquelas fotos é o mesmo olhar da criança que se vê pela primeira vez no espelho. A presença daquele estranho tão nosso, que nos imita em alguns gestos e palavras, incomoda e nos remove do meio das lembranças boas das origens. Logo somos expulsos pra dentro do mundo e, através dessas fotografias, nos recolocamos na cidade.

Parauapebas tem luzes insones na madrugada, dos trabalhadores do turno, dos ônibus que carregam gente pra cavar a terra atrás das preciosidades subterrâneas. Na madrugada ainda, nascem os primeiros seres que sentirão a maior saudade do mundo, a saudade da própria terra. Nas fotos apareceram crianças de uma pele cobre. Ao fundo o céu anil lhes convocando à permanente lida pela invenção de si mesmos e desse lugar que a cada prédio exige um novo olhar.

Graças aos fotógrafos Anderson Souza e Felipe Borges agora a cidade onde moram tem cartões postais que não se resumem a gaviões e onças. Das paredes do Centro de Desenvolvimento Cultural da cidade desabrochou como milagre um povo plural e, por isso, singular. Uma gente em estado bruto e, por isso, rara.

Trata-se de uma filigrana, um quase-nada, mas esses cliques são de um atrevimento desnorteante. Quem teria a ousadia de parar de espernear como um recém-nascido que espera a atenção de um cuidador que não vem? e, pior dos esconjuros, revelar a beleza que se nega? Esses meninos tiveram! Vamos odiá-los por isso. Por mostrar a nossa cara. Por mostrar que temos uma cara. Por nos lançar nessa aventura dolorosa que é o crescimento. WDC

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

No dorso do tempo

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Compartilho com vocês o primeiro texto de outro livro que finalizei e que, em breve, como venho me prometendo há tanto tempo, estará impresso e circulando por ai.
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Já vão fundas no meu dentro caduco, aquelas tuas imagens. Tua pele não é mais pele. Um manto. Proteção para saudade que frequentemente rompe e a deixa escapar. Me deixa escapar. O que disseste em linhas tão duras não durou mais que o instante. E resta da frieza do teu ferro, apenas o tal bolero com o qual dançamos nosso amor no escuro. Sem futuro, como um câncer decidido e bastante espalhado. Fomos desde o início, início e fim.
Nosso amor sexagenário dos quinze anos e depois dos vinte. Repetido pela estirpe precedente dos insondáveis, meus ratos imundos – a família ultrapassada pelo escuro. Passeantes da memória e dos conluios feitos antes de mim para que eu não chegasse a dar certo. Para que eu não resultasse.
Fico feliz por terem falhado. É o que penso. Era o que desejava desde sempre.
Nosso amor de descuido, de rua, caminhante. Repetido em termos e prazos, nosso amor fazia seus passos pé ante pé com a virtude que não geramos, que não quisemos. Alavancado por oboés sonhados. E aos suspiros, o mar de azuis e lençóis nos cobrou caro a entrega, força bruta pelo que não sabíamos. Cansaço. Um punhado de missas enjoadas e confissões pretendidas.
Nosso amor não alcançou nada além de si mesmo.
Nosso amor de mais nada formado senão do magma incandescente da pouca idade, do muito uso.
Haveriam de nos por limites as três grandezas indissolúveis da vida: o tempo dos anos que rói tamborins e deixa o som – antes ardente – meio murcho, mais inseguro; a quilometragem do corpo em uso, inconstante e sem jeito como qualquer carne pronta para o consumo; e o dorso do mesmo tempo sobre o qual escorria nosso amor e nossa parceria, escangalhados por tanta incerteza.
Trombetas dos que se foram. Assovios salientes. É isso o que ouço. E tu? Onde acabam teus ouvidos? Eles cansaram?
Aquela última grandeza, a mais sequaz, longilínea dentre as nobrezas que não funcionaram, dentre a destreza que se cancelou pela escolha – a incrível semelhança do que nos separou e nos uniu – vai descolorindo.
Já soa a nada esta lembrança agora e mesmo assim tem força.
Nesta lembrança, em cuja profundidade mergulhou meu som, faço silêncio. Deste passado tão presente em cuja distância reclama minhas faltas, faço questão...
Faço questão de te dizer que não sei nada e não quero nada.
A licença da lua será usada para por traços quando for procedente pintar, quando chegar meu tempo de não poder concatenar as ideias. Assim direi o que não posso. Estarei arrependido do que não sou agora, aquela imagem que queres ver em meus atos tão desesperadamente.
Vou dizendo este sem jeito que são as coisas. Esse negócio mal fadado que foi nosso último beijo. Apenas para que lembres – não fui o primeiro a dar de ombros ao que nos vinha.
Não fui sequer, tão obstinadamente o que te queria.
Tímido, desejo apenas não ter mais idade, não ter peso. Desejo que não me venhas com meus erros listados uma a um. Eu sei exatamente o que eles são e o que fizeste depois me socorrer dentre muitos.
Se não tens mais falas, fica sentada ao lado. Eu também já fui apunhalado tantas vezes pelas costas que é quase sem pele que me despeço finalmente. É assim que as coisas são.
Preciso decretar o fim, inventar que foi tudo por acaso. Assim poderei passar para os autos do meu tempo. Emergir. Poder, sem tempo ou carne, corpo ou percurso, usar de novo o emblema de amado. Estatelado e surpreendente.
Estampado com muito cuidado no acabamento. Como se fosse uma imensa flor de cacto cosida inteirinha numa de minhas camisetas mais anis. J.M.N.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O olhar sequestrado (ou a via da imagem eterna)

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Texto sobre o tema geral: “ícones da sedução em todos os tempos”, escrito para uma nova revista impressa que deverá circular em breve na cidade. Terei de escrever outro, pois ainda não sei calibrar direito a objetividade desejada para um texto de revista e o peso da poesia nas minhas palavras. Quem sabe não saiba mesmo fazer isso – ou não deva. J.M.N.
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O olhar é um grande descuidado! Suscetível aos perigos mais imediatos de um encontro. Talvez por sua infantil pretensão de alcançar todos os horizontes na visão, talvez pelo imperativo de comandar as regras na cegueira. Mesmo quando mudo – mergulhado momentânea ou fatalmente no silêncio da escuridão – arfa a compensar seu desespero por reconhecer e guardar na memória aquilo que o mobiliza, encanta, seduz.

Quando impresso no olho – uma visão, quando consumado em artefato – uma pintura, uma escultura, uma série de sinais com as mãos – outra linguagem. O olhar é transmutável. Seu encontro com objetos funde ideias ao poder dos sentidos. Resulta a imagem. A imagem alimentada pela imaginação se mostra um ícone. Representante sublime com o qual traduzimos o que nos captura no íntimo de todos os segredos.

O olhar é uma eterna vítima de crimes hediondos – especialmente o sequestro – relâmpago, de dias, meses, décadas. Sua única esperança é possuir meios de pagar o resgate, seja com a mais bela lembrança, seja com a eternidade de uma busca em repetir o sumo impressionante do primeiro encontro. Comumente não deseja escapar.

Entre sucumbir e viver devem ter ficado aqueles que em 1935, viram estarrecidos a aparição espectral de Bette Davis no filme Dangerous, ícone eterno do olhar da sedução. Sob suas safiras, como dizia devotadamente Arthur Miller – ao mesmo tempo em que estava marido de Marilyn Monroe – sucumbimos nós, meros espectadores, nós homens em sexo e desejo, e, sobretudo, nós do gênero humano, despossuídos da capacidade de suportar a presença daqueles olhos tão potentes, ao mesmo tempo, desejando-os intensamente.

Rita Hayworth revelou os estranhos sinos que vinham de além do tempo e espaço das salas de cinema e perpetuavam-se dias a fio, zunindo em campanários longínquos, transportando homens e mulheres ao incômodo reencontro com sua beleza ferina e sensualidade ainda sem pares, cujo maneio de cabeça e o balançar de cabelos marcou a forma como as mulheres deviam conduzir seus jogos de sedução a partir de então. Sua beleza flutuando sobre o noir do filme Gilda, nos anos 50 é mais uma destas materializações do sagrado artístico que nos enleva.

Carlos Drummond de Andrade, poeta dos muitos resíduos decretou que de tudo fica um pouco/ do meu medo/ do teu asco/ dos gritos gagos/ da rosa fica um pouco. Os ícones são gravuras que deixam suas marcas, gravam-nos de volta, espelham-nos. Amá-los, assim, como ídolos fica fácil. Basta lembrar Marilyn Monroe, Burt Lancaster, o automóvel Aston Martin dirigido pelo melhor James Bond da história: Sean Connery, a Vênus de Milo que requer a devoção do abraço, a Vitória de Samothrace e sua imagem decapitada a proteger marujos incautos.

Um sem fim de redutos para o deleite. Assim são os ícones. Elvis ainda me leva para o trabalho todos os dias, quase rezando a letra de suspicious mind, cuja primeira estrofe sentencia: fui pego numa armadilha/ não posso escapar/ porque eu te amo demais querida. Misturados os sentidos, o final do poema citado de Drummond, Resíduos, clama o fim do mau cheiro da memória pela simples abertura de vidros de loção. O olhar também pode ser seduzido pelo cheiro. O olfato é cúmplice habitual em seus sequestros.

Coco Chanel transformou a alta costura e influenciou definitivamente a perfumaria mundial. Como arma da sedução, seu Chanel nº5 atraiu muitos. Seus prisioneiros eram erroneamente advertidos pelo reduzido tamanho do frasco. Talvez com Chanel e sua invenção, o dito popular que toma por mais letais os venenos guardados em frascos pequenos tenha alcançado outra dimensão, refinando-se numa epifania garantida pelo deslumbramento das imagens de venda junto às quais o perfume era apresentado nos cartazes.

Nas artes, na moda, no cinema, na literatura os ícones abundam. A sedução, como resultado da mistura de elementos, desde a paixão do artista, do criador, até a ferida tocada no peito de quem admira a obra, o produto cálido da excitação instantânea ou duradoura que advém da imagem e sua luz, seu gosto, sua textura e seu cheiro fazem com que a experiência assuma um significado especial e particular, cosido em definitivo nas referências simbólicas das pessoas e repassadas ao tecido que as torna participantes ativas da vida através de histórias, demonstrações e repetição da exposição de seus ícones particulares.

Falar sobre o que é universal, assim, soa pequeno ou impossível quando a profundidade do que se sentiu diante de uma imagem só chega à compreensão externa quando outros elementos ajudam a retomar a força elementar da experiência. É o que penso. Desta feita, para terminar o que me foi pedido – falar sobre os ícones universais de sedução – recorro àquilo que me é mais caro e secreto atendendo ao impulso de registrar o vivido ao mesmo passo em que temo não ser compreendido ou parecer fora de contexto. Afinal, o universo está em cada um.

Meu ícone não é uma foto de Henry Cartier-Bresson a suspender o tempo e eternizar um homem que anda anônimo pelas ruas de uma Paris devastada. Não é um casaco Visom, um óculos de sol Dolce & Gabbana, um terno Armani. Nada tem a ver com Sônia Braga subindo no telhado de Nacib para pegar uma pipa fazendo com que a geração de meu pai não pudesse conceber outra mulher sendo a Gabriela de Jorge Amado, como disse o próprio autor, numa entrevista nos anos oitenta. Não é, enfim, a Carla Camurati, alma gêmea de um amigo querido, insuspeita diante da decepção que provocou ao não retribuir-lhe um olhar anos atrás.

Termino voltando ao começo, a falar sobre a via prima da sedução – o olhar, ícone do deslumbre. Constante e destreinado na modernidade apressada da produção em massa, das metas de trabalho, do impossível aos encontros com a família. O olhar como Coliseu das batalhas pela supremacia de quem quer ser apanhado no turbilhão crescente da entrega, do perder-se em si para ser recuperado pela voz e pelo toque do outro.

Falo do olhar como a suprema corte do que esquecemos em nossa humanidade; via que se refaz a cada novo brilho, em cada novo foco. Olhar de comer fotografias como em Chico Buarque ou como a lança da incerteza na Monalisa de Leonardo Da Vinci.

Meu olhar também foi sequestrado.

Meu ícone é esta pessoa de gestos simples e arquitetura morena que vem sempre antes do meu sono e diz que tudo está bem e que dormirei sem calor ou maus presságios. Esta pessoa de carne e osso que tem nome de santa, mas não o cumpre. Meu ícone foi “esculpida” em carne, ossos e ternura e me mostrou que estar em cativeiro por desejo é o contrário de uma prisão – é liberdade a dois. Não precisa, afinal, de um nome meu ícone, ela sabe o que representa para mim e o preço que pago por estar seu cativo é também um prêmio.

Um amor simples. Talvez a maior das artimanhas de sedução em todos os tempos, em todo lugar.

Belém, 28 de outubro de 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Palavras de Outrem

Vou publicá-lo. Nunca pergunto se posso. Assim vamos vivendo esses anos de amizade. Aparados pela possibilidade do encontro – quando der, deu. Ofertou-me generosamente este texto maravilhoso. Imprimo-o com dedicatória e tudo, pois como dizia meu mestre Sigmund, temos defesas contra os ataques e somos indefesos diante de um elogio, neste caso, uma dedicatória. Texto de Gustavo Autran Rodrigues

[Para José Mattos Neto]

ela é doce
ordinariamente doce
como a reconhecemos
como recolhemos seus sumos
como a redimensionamos
e, claro, isso também é ordinário
mas como ornas essa carcaça, esses ossos roídos pela flor dos dias
no teu fôlego
na lâmina do afago
nas janelas em chamas
chovendo tuas folhas
do cubículo úmido que cabe no teu salário
tuas fomes,
teus prenomes
outono, ourives
esquartejando a vida
ligando os pontos
não sei como fazes

não sei como engendrar teus cuidados
não sei como inventar teu hálito dândi
não sei como manufaturas
essa mentira primal
– onde nos refugiamos –
onde douras a noite, a cave
tentando tão somente
transgredir a morte

Anotações às margens do romance II

Nada explica essa falta. Nem mesmo a presença, o tempo transcorrido em dobro. Começo o dia de cabeça baixa, chamando atenção de ninguém. O espelho espera. O café sequencia meu abandono, sua fumaça fina e perfumada atraindo apenas quem não possui alimentos. Ao cabo de uns minutos a sensação perigosa da eternidade. Viver para sempre seguindo apenas o tempo. Um horror impensável. Nada explica esse momento de eternidade e instantânea agonia que se encontram ao mero sussurro do teu nome. Alguma coisa muda. Insignificante. É minha alegria debruçada na imagem finíssima do teu sorriso, no balanço dos teus cabelos. Onde andarás agora que nunca nos encontramos que a propriedade de tuas partículas é igual àquela teoria dificílima que diz ser possível um elétron passar por dois lugares ao mesmo tempo, desde que não estejamos olhando. Mas meus olhos estão tão abertos e voltados para o outro lado. Por que então não sinto sequer a tua presença? Me vem uma música e a última linha da peça de teatro que escrevo desde que foste embora: o amor é feito de pequenos atos e de pequenas palavras – amor, dor, sempre, frio, manhã e fim. Não queria ter escrito isso. Mas a música levou o crédito – When we woke up that morning/ we had no way of knowing. E sem saber começamos o dia. E sem o dia saber, foi o nosso último. J.M.N.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma palavra

É perigoso dizer teu nome. Já não escutas quando te chamo. Esse fosso, entre a súplica e tua identidade não me traz de volta. Vou declinando.

A existência sem tua voz é uma farsa. O que reconhecias de mim anda nas bocas. No lixo daquele lugar amistoso, porém falso que éramos nós. Um do outro, a ilha obscura da fatalidade.

Outra distância se me encurta. Meu passo a passo dado a nordeste. A fuga é como toda noite em que nos tínhamos – um fogo vermelho, incandescente, a supressão das vontades. Terminávamos nada, porque nada começamos.

Uma das coisas que ainda conto se trata em livros, amor de antes, outros tantos deuses. Nosso sagrado – corpo e sangue – a ternura indisponível aos que se seguiram apenas humanos. Eram pouco demais entre nossos prantos. Eram demais no apelo por nossas culpas.

Não as sentimos, esse é nosso trunfo. Será nossa morte, mas pouco importa. Se a manhã cumprir a promessa de se deitar sempre em nossas bocas, calaremos. Seremos nada. Verbos nulos. Seremos sempre mais próximos.

Logo, logo nos chega a hora. J.M.N.

Para ler escutando…

Insuspeito

Olho através da fechadura. Estou comprometido. Atrás de mim a pouca vida sem sentido que me havia. Do outro lado, através do pequeno furo, a imensidão de coisas que não tinham preceito no meu pensar. Não sabia que palavras fazer juntas para aquilo. Dei de inventar. Enquanto mais entrava pelo buraco, mais se espremiam palavras. De tarde sempre eu tenho invenção de pessoa, me furou o olho a impressão da mulher nua. Ali estava eu. Sentindo através da brecha. A fehadura corrompida. A porta fechada ainda. Atrás de mim não era coisa nenhuma senão soldadinhos sem missão e carros de aluguel para minha inutilidade. Ali sim, fazi sentido. O corpo que eu ganhara, o sabor da tarde nascendo na lingua – com pelos, pele escura, um peito enorme. Ali eu nasci para dentro. Foi meu primeiro parto. O nascer, assim dito, foi apenas a estréia da luz sobre o que eu tinha de carne e incertezas. Aquilo ali foi a minha primeira certeza e junto dela, eu tinha a palavra. Mas preferi ficar em silêncio mais um pouco. Enquanto ela fingia que se escondia e eu fingia estar entendendo que eu existia. J.M.N.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Anotações às margens do romance I

O outro jogo não se ganha. A vida passa depressa demais. Apostas na mesa. E... fim, 22 vermelho sangue. Meu dia de nascimento foi quente como não sido em mais de uma década. Ninguém sai do útero impune. Fui logo reclamando da medida das cobertas, do muito branco daquele lugar, da intempestiva decisão de se colocar o meu nome em mim. Mas não colou, tudo ajustado à vida alheia. Eu começando virei assim pro camarada que me pegava no colo feito uma mortadela degelada: qual é a situação desse lado de cá heim? A resposta foi um grande e melancólico silêncio. Só entendi o que viria depois quando já era tarde demais. Custo a entender por que nascemos. Mais fácil é saber a razão da morte, vem no laudo, naquele papel que te determina o fim da existência legal, quando jamais se vai poder comprar um pedaço de terra. O que eu digo além dessas coisas é pra esquecer. Hoje eu sentei aqui e me aconteceu de estar disposto a escrever sobre esse dia. Esse dia de muitos invernos atrás, quando eu sentei no corpo que me conduziria vida afora. Caucasiano de mentira sentado nas obrigações de antes de existir no papel. Foi isso que eu escrevi: às duas horas da tarde a sede apertou e eu não tinha nada para beber. Sem graça, expressão sublime de não ter nada a dizer e depois apenas um conforto imediato e puríssimo, resultado de uma expressão muito antiga e de cálculo fácil. A foto dela decepou meu estado de espírito. Fiquei vago, vagando. Vazio coberto de anteontens. Um sujeito que explode quando escreve e quando ama faz um bocado de merda. Naquele silêncio que me foi oferecido nunca ninguém me explicou com um olhar sequer o que são as palavras esvoaçantes que nos esperam do outro lado da morte, nem mesmo o silêncio me pode convencer que está tudo certo e que amar é isso mesmo. Sentei para escrever um romance e me veio quente e úmido a lembrança do nascimento, das coisinhas inúteis que fiz até suspender meu próprio corpo e errar o primeiro caminho. E se tudo mais que fiz de errado me veio à mente, talvez eu esteja pronto para seguir no trabalho. Escrevo um livro que se chama assim: ninguém devia usar o corpo. Há uma esperança neste título – me tronar parte da estante de alguém. Esse é o triunfo do romance. J.M.N.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Outubro Insano–Cinema e Loucura

No dia 10 de outubro comemora-se o dia mundial da Saúde Mental. É uma data reservada para a reflexão sobre o lugar da loucura e do louco. Além de marcar inúmeras manifestações pelo Brasil todo.

Esse ano resolvemos unir esta data à trincheira cinematográfica que se tornou a cidade de Parauapebas, graças aos corajosos membros do Labirinto Cinema Clube. Pra vocês terem uma ideia, esses caras fazem mostra de curtas (Curta Carajás), mostra competitiva, curso de roteiro e direção e rola sessão na Câmara de Vereadores toda semana.

Esse mês, eu e a Sara Giusti resolvemos provocar o Labirinto pra que todas as sessões fossem sobre filmes que abordassem a loucura ou a dependência química. Claro que, com um critério tão vago, daria pra fazer 10 anos de sessões só sobre cinema e loucura. Mas escolhemos os filmes que aparecem no cartaz.

Quem mora em Parauapebas, apareça nas sessões pra ver filme e conversar. Tem pipoca e guaraná de graça. Espero vocês. WDC

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O que nos faz desiguais

 

Ele tinha mais livros lidos e mais livros por ler. Ele tinha mais anos que ela. Ele tinha mais amigos que ela. Ele tinha mais família que ela. Ele sempre teve mais que ela, e quem olhasse de longe chegaria à conclusão óbvia que aquela era uma relação desigual. Poderiam pensar: quando tudo terminar, ele vai sentir menos saudade que ela. Depois do fim ele não estará tão à deriva quanto ela. O desespero baterá menos à porta dele à noite. A loucura e o medo não o ameaçarão. Já a ela...

A realidade das roupas não coincide com o real da pele. O escondido de todos nós é o que nos nomeia e, com uma fome incontrolável, vai comendo nossas certezas. Não segue lógicas, fala em outra gramática. Fala em línguas esquecidas, o amor.

Estas foram matérias vistas por ele nas primeiras séries da vida. Sempre passara arrastado, por isso não entendeu quando livros, amigos, exercícios, filosofias, todas essas quinquilharias não preencheram a vaga deixada por ela. Só percebeu que a fila não andava quando viu que o chão fugira dos seus pés.

Alguns paliativos ela tinha deixado: a promessa de, mesmo depois de 10 anos, lembrar do vestido azul marinho minusculamente florido que ela usava naquela manhã de sábado em que os dois ultrapassaram juntos os limites da cidade pra que ela pagasse contas. Meia garrafa de vinho na geladeira dela. O desejo compartilhado de que um dia a geladeira fosse deles e que aquela garrafa enfim se esvaziasse. As fugas. A timidez da mão dada no meio da rua. A lasanha que ele não esperava tão gostosa. O corpo dela que devagar se convertia no seu templo mais que sagrado.

A saudade lhe passava rasteiras, batia-lhe a razão, a estética. Afinal sentia falta de suas imperfeições. O nariz torto, o cabelo ralo, o lodaçal das palavras quando tomada pela ira, a bizarra capa amarela ocultando o estranho hábito de vestir-se no trabalho nos dias de chuva. A tolerância sempre ínfima com horários, com mensagens, com ligações, enfim, com o tempo que restava para os dois se pertencerem. WDC

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não fosse

Não fosse eu ter sonhado aquele tempo, não o teríamos
Não fossem meus primeiros passos, não darias os teus mesmo me seguindo
Não fosse a canção no escuro que dispersou teu medo, não dormirias
Não fosse eu, colado ao pé da cama enquanto tremias de febre, não estarias mais aqui
Não fosse eu ter sonhado o que não terias, ganhavas mais tempo
Não fossem teus passos prisioneiros, os meus não acampariam nos sonhos
Não fosse teu dormir mais que sossegado, não teria eu o medo de cantar no escuro
Não fosse teres estado aqui, a febre de viver colado não passaria, seguiria
Não tendo teus passos bem juntos, dei os meus passos sozinhos, pela primeira vez
Não dormisses sempre ao pé dos sonhos, cantar-te-ia mais o que me cantavam os meus
Não fosse ter sarado nosso tempo, ainda estaria colado, ao pé da cama, em silêncio
Esperando ter as respostas que nunca viriam

J.M.N.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O cacto

Vi o cacto morto, tombado desde o parapeito de sua janela até o vazio da área entre os quartos, espaço de nada guardar, de nada ser, sem serventia para a casa. O cacto partido com seus espinhos feridos e as fagulhas da tarde ensolarada lhe mordendo as últimas expressões de resistência. Tínhamos nos amado indecentemente naquele dia.

A plantinha tão dura e desértica que bebia tão pouca água estava morta. Não se sabe quem a jogou por desafeto aos seus espinhos. Jamais se saberá se decidiu levar seu tempo, por si mesma e atirou-se. Se assim foi, peço-lhe perdão por qualquer desgraça que lhe tenha feito. E entendo seu gesto como a última fortaleza do seu espírito de cacto.

Morria com seu verde desmilinguido o meu amor, morria. Naquela tarde de farpas heliocêntricas sobre o silêncio de nosso corpo único e desalmado em cama dela. Consumíamos um ao outro e ao lado, a dotação verde da esperança encarcerada de espinhos, falecia. Tão frágeis as nossas vidas no tempo em que o amor respondia por toda ferida, toda dívida.

O cacto se foi sem nome, sem deserto próprio para viver condizente. Foi ter com seus outros pares, as verbenas, os xique-xiques, outros cactos. Foi ser da aliança insuperável da vida eterna que se não nos chega. Deixou seus espinhos.

Quando me levantei de dentro dela para lhe sossegar o cadáver de planta banida, os seus espinhos ainda presentes perfuraram minha carne. Doer não doeu. Não causou uma assim ferida ou chaga. Mas um fio de sangue. Solitário e retinto de memória e nunca.

Aquilo devia bastar para que eu soubesse que “eu e ela – nós os dois” já era uma coisa só, que ia saindo gota por gota de dentro do peito. De seu último préstimo como ser vivo, o cacto, fez afluir o quilate sangrento do que morria. E deu sua vida para que eu compreendesse esse mistério.

O segredo de quando é o espinho que indica a validade das coisas.

J.M.N.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Coimbra

A pessoas que não me saem jamais da memória:
Alexandra Pereira, Noemi Cubas, Jonas Zavala, Pedro Hespanha,
Fernando Ruivo, Kika Freyre, Margreet De Looze, Bo French Baizas (Mel),
Ana Sofia Clareu, João Porfírio, Fernando Paixão, Elias Oliveira
Iver Moller, Alexandra Felipa, Stuart Holland, Inês Cerca,
Daniela Veiga e José Camilo Silva.

Ela me caça. Astúcia secular em suas ruas, as vias de meus encontros. Eu cedo. Vou aos cantos de sua tristeza nua, seus tijolos desgastados pelo ar do saber – há um peso de sabedoria em cada animal que transita pelos escombros, em cada pássaro que remonta a dança suave de seu céu tão anil. Sua sujeira ensinou-me quanto.

Ela me viola. Violenta e suja como uma qualquer. Sou perdido nela, com vigor de quem retorna sempre à mesma alcova, repetindo-se. Deu muito mais do que tomou. Na verdade não tomou nada. Ofertei-lhe o coração em pedra, a flor muito vermelha da lapela, meu sangue de estranho. Ela acolheu. Chorou comigo os últimos dias à capela.

Ela tem mais encantos na despedida. Tenho mais dela na busca que faço dentro de meus labirintos. A cidade inchada como uma vulva que parindo. Sangra um pouco cada vez que choro minha saudade. Sei disso em segredo. Como em segredo sei que as suas ladeiras me têm por certo. Cada beco em que me encontro, cabe nela.

Ela pousa na minha calçada todos os dias. Ativa, cercada e fortificada por seus segredos, por seus vãos onde os homens que a protegem deixaram as peles. Pétrea e fixa em seu patrimônio, tem meus espólios. Fina e fluida pelo Mondego, tem meu soluço. Sou-lhe a parte viajante e acidentada.

Em minha morada a cidade toda se conforma. Minha Coimbra sem tempo. A saudade vive a caminhar sobre ela. J.M.N.

Meus medos

O que faço com o que fica?
Essas chusmas de toadas e trovões me alteram
Alteram a face de como, antes de dar, eu recebi
Eu me escondo do agora. Esse tempo que carcome minha digital
Está o volume dos exemplares aumentando
De amores, os melhores; dos beijos, os mais molhados; está sobre mim o que eu fiz de errado
O muito de endereço, onde mora minha desculpa. Longa sala de espera
Os ossos culminando minha estrutura desde sempre abalada
Nasci, quem sabe, com um pedaço faltando
O que faço com quem me deu seus quartos, esperanças;
Com quem me deu esse lago de água mansa que eu não cuido?
Sou de lança e ruptura, não sufrago penas, as escuto; cumpri-las é outra coisa
De quando o vento assoprou os termos do absurdo, me sobrou a tinta
Com a qual traço o indigitável artifício de amar para sempre
De tudo o que ficou, das sementes, apenas a clareza é que cultivo
E ela não funciona quando, de olhos, fechados, peço perdão pelo que mais me assuta. J.M.N.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Micro-romance XIII (ou “Silogismo”)

Não, eu não disse nada a respeito, no início. Apenas sua presença aconteceu. Meu sorriso envergonhado porque ela estava ali, ao alcance do meu precipício. Mas não deixei escapar nada. Ela estava ali e era o bastante. A noite nos presenteara com um calor de conforto. Eu não tinha razão para sentir frio ou tremores, portanto. Mas ai ela saiu do carro. Íntima de toda minha saudade, essa estranha que elege os piores momentos para me lançar suas escrituras. Tenho certeza que meu rosto corou. Eu não sabia o que dizer e troquei seu nome. Ela riu. Mas, afinal, qual a razão dos convites? Enquanto eu repassava três tomos de um tratado qualquer em revista – um tenebroso exercício de medo e astúcia – seus braços me fizeram algo. Tomaram minhas certezas, escavaram os limites de meu canteiro de obras – reparos na estrutura mais profunda. Seus braços foram até o portal da minha entrega, e não ousaram ir além. Ela sabia. Sentiu no mesmo instante a fúria perigosa daquele apego repentino. Seu hálito me fez primaveras. Eu seria dela sem som algum. Próprio e completo como um ser que já viveu várias tormentas. Ou podia ser o que fui depois que sai de seu toque – alguém que a quer. Que ocupa o mesmo lugar comum daqueles que a veneram de longe. Que não sabe se isso chegará a se chamar amor um dia. Entretanto, alguém que seria dela caso seus braços ficassem ali por mais meio segundo que fosse. E ficaria entregue àquilo que seu código pessoal ainda não permite atinar sobre o mundo, sobre o cerne e a margem do leito, sobre a honra molhada do mais incrível beijo de amor. Aceitei seu convite. Com o temor de quem teria de conquistar um triunfo para voltar e ser aceito em Esparta. Aceitei o apreço fulminante que a idade imputa à debulha dos sentidos. Me vi saindo das favas, núcleo de alguma coisa que alimenta e deflora. Essa mão mágica da descoberta sobre o que não deve acontecer. Os mil tópicos da moral que se cobra por ai. Lambi os dedos, depois de enfiá-los na textura suculenta do que senti ao seu afago. Essa calma dominante e progressiva que não paralisa e dá mais certeza ao que virá. Depois do adeus, aquela orquestra imaginária que desanuvia. Altissonantes os acordes do impensável. Um sobre o outro imitam o que não foi dito, mas houve. Todos os sons apontando incertezas e todas estas descascando a fina pele protetora dos meus estragos recém-vividos. Não houve beijo, não houve muitas cores e, certamente, não haverá sossego até revê-la. J.M.N.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dos pais, um dia

Para o Cauê, meus Josés e o Leon

Meu filho tem quinze anos. Metade dos anos quais contava meu pai, quando nasci. A mesma idade em que eu descobri a ferida eterna de um beijo não acontecido. Disse-lhe algo sobre isso. Ele assentiu. Fez que sim com o dedo, meu menino. Hoje ele me chama pela palavra. Ancora-me sujeito. As três letras mais íntimas e divagantes do mundo. Ele me chama de seu para os amigos. Falando mal ou bem ele se instrui daquilo que pega nas minhas falas, nos meus erros. Ele se equipa do que eu sou para não ser repetindo as mesmas bobagens. Assim eu espero. Espero que de todo corte que lhe infligi, de toda ausência que eu tenha erigido e de toda resposta que não lhe tenha dado, ele passe por sobre. Faça suas pontes, descubra como cruzar lamaçais. Que eu tenha um dia a mais sobre este mundo. Mais um ano em sua admirável pergunta de sempre: quem tu és afinal? Que é a questão a interpelar minha inconstância. Recorrerei a mitos, a passados. Buscarei nas bocas que me pecaram as cotovias poéticas que resignam toda sorte de tragédia, pois suas asas batem ao por do sol. Escreverei, até que murchem os dedos e sangrem meus pulsos, os romances que inventaram quem sou, e soltaram mundo afora o personagem intranquilo que muitas vezes me cumpre. Quero que ele e mais ninguém sele meus olhos no dia final. Sopre em minha boca a palavra fim. Que seja a sua mão e de ninguém mais a me tirar os laços das garras para que eu toque a gente que talvez me espere do outro lado. Ele um dia me trará notícias. Farei como sempre fiz ante qualquer impacto. Um sorriso pequeno, essa glória nostálgica que é a constante vida que me executa, meu coração batendo a mando de um punk muito antigo. E direi resumido, como tem de ser: esta é a única coisa que te fará ser ainda melhor! J.M.N.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A arte de esperá-la

Toalhas e lençóis limpos. Sabonetes. Ligação dela informando “estou saindo”. Cálculos mentais. Preocupações com a estrada. Ligar para a pizzaria. Pedido: uma pequena de frango com catupiri e dois refrigerantes. Entregar apenas daqui a hora e meia. O jantar precisa chegar meia hora antes, pra que ela encontre a pizza ainda quente e o refrigerante gelado. Espuma de barbear. O passear lento da lâmina pelo itinerário que a língua dela encontrou no rosto dele. Banho. Desodorante. Roupas de aguardar. Folgadas pra que ela veja que ele a aguarda de corpo inteiro. TV. Jornal para mantê-la informada. Um pouco da novela pra puxar assunto antes do sono. Relógio e celular sempre na órbita da cama. Ansiedade pela chegada daquele segundo exato em que ela chega e sorri, e o tempo vai embora. WDC

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A rua continua escura, minhas certezas é que encontraram a luz

“É noite. A noite é muito escura.
Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.”

A Noite É Muito Escura, Alberto Caeiro
em Poemas inconjuntos

Não quero eucaliptos no meu banho quente. Nem esfoliantes ou coisas de cuidado, riquezas não quero, as possessões de minha pele. No ato, quero tocar e ir. Ir até os confins do mundo é o que eu quero. De lá para o sono, um pulo, e deste para a alegria, uma única imagem, a imagem da tua forma torturando minha espera em lindas saliências. Não quero contrastes sutis, nem esperanças morrendo, lascas da árvore dos meus genes ou dos teus, nosso dilúvio arcaico, não quero. Estou apto para revirar noites e esperar a poeira sentar sobre teu colo moreno, dormindo e se transformando em areia para castelos. A água os lamberá, nossas terras, teu raciocínio tão pronto e irredutível. Não arderá a pose para os retratos, minha postura, minha guia que não condiz com a tua religião não verá impiedades. Tua mãe preta assobia bênçãos e eu as elejo com a firmeza da entrega. Faço parte dos teus. Estou perto do achado, uma memória, meu melhor romance. Quietudes podadas, bocas serpentes. Não as quero. Não quero o mel duvidoso da paridade, do que só é igual quando me anulo. Semelhança impossível. Quero ser o que pretendes e até onde eu possa te seguir que quero ir. Quero esse rumo incerto para dentro do tempo e de mil álbuns com as fotos seletas de nossas aventuras. Quando chegar a noite e andarmos por ruas absolutamente desertas e escuras, começarei a te contar nossas histórias. Todo o horror passa. Passa inclusive o frio que por ventura caia. Em carne e ossos e urgência, encontraremos o fim para qualquer escuridão. J.M.N.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[...] que seja de amor

Se vires minhas garras, meu pelo eriçado, é sinal de que parto ao ataque. Se vires meu pranto, meu medo ou minha pata partida trata-se do preço que pago de olhos fechados por ser quem sou. Se antes da linha, por trás do desenho entrevires um igual é capaz de eu ter acertado no ponto, ter feito a escolha certa e a tinta do que somos é própria pra nossos rastros. Se de repente sentires vontade de perguntar, não faça. Saberás a razão às portas do céu. Se és quem dizes ser, presa fácil para essa totalidade que nos escalou e botou frente a frente com vidas sucessivas, aguarda, sente. Vibra estarrecida por termos a mesma frequência, sermos feitos da mesma carne. Se torceres pelo fim dos receios, pela compra de supérfluos ou viras a noite cantando velhas músicas que ninguém quer mais ouvir, dispara. Meu peito tem um alvo posto para esse teu tiro. Passarei devagar por tua mira. Acerta o que vires. Se sou o que sou, podes ser quem és. E se assim pudermos ser e sustentar juntos, que seja demais e absurdo, como apenas os desguiados e estúpidos poderiam querer. Ninguém mais merece explicações. J.M.N.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Exausta nota

É para sempre esta distância. Declaro a morte daquele meu último sorriso. E mais: estou com dores de idade, não consigo comprar fiado um único fósforo para acender a última fogueira, estou cheio de sorrir aos outros e mostrar meus dentes sem dar uma boa mordida na felicidade alheia. Enfim, civilizado. De tudo o que ficou – mais medo e experiência que qualquer coisa – esta violentíssima vontade de gritar teu nome. Por nada mais senão memória e vício, costume ou sintoma. Mas não sai. É para sempre este silêncio. Teu nome preso no meu engasgo. Agora é esquecer a condição de antes, aquela completude exuberante, lábios, poemas e pernas entulhados por todo canto da casa. Em cada veia, em cada tipo de circulação, teus nutrientes atingindo minha pouca alegria de espécime. Escavo papéis e encontro a saudade doendo e latejando sobre tudo. A cada palavra que descobri, perdi mais da substância que me fazia teu. E porque falei de tudo quanto sentia pelas linhas desta mortalha dos ditos e dos contos de amor, agora não irás à minha estreia. Sequer poderei te oferecer um livro. É para sempre este cansaço de esperar o que nunca mais virá. J.M.N.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Porque já houve um amanhã

Hoje penso no amanhã como uma janela sempre aberta. Nada de morrer novo e com muitas histórias mal contadas sobre mim. Amores por ai pensando no que fazer com minha loucura. O que fiz, fiz nesta existência, sob a ocupação noturna das estrelas. Em nome de romances que nem sequer escrevi, porém, contei a tantos. Vivi mais humano que muitos, subitamente entregue à manhã das manhãs. Acordei como água nascente. A lamber a terra de todos os caminhos. Algumas vezes fiz desgraças. O peso dessas lições ainda está. Por vezes eu fiz pessoas amadas sofrerem, mas não sem antes sofrer imenso. Há mais uma nota a ser escrita. Mais uma data a comemorar. O dia exato em que nasceram a latitude e a longitude do que fui e sinto nesta altura da vida. Este dia que vai morrendo. E porque o tempo já vai seguro em novo barco, posso dizer. Posso açoitar lembranças com as nossas lembranças. Posso fisgar os peixinhos cardumes de quando eu fazia a felicidade deste dia. Data de abrir-se. Entre abraços e cópulas com as palavras vou me saciando a existir, sem medo, nas lembranças deste dia. E se repito isso por mais um ano é por não haver razão em desfazer as relíquias. Ainda não há sentido fazer-lhes de testamento. Haverá o dia certo para esse pago. Enquanto isso, repito brados e a vocação de extinguir-me entre os braços amados, oferecer a distância segura e o morno da carne num beijo comprometido. Apenas para celebrar quem renasce em mim, independente dos calendários, de convites ou das palavras. J.M.N.

Para ler escutando…

terça-feira, 10 de julho de 2012

Império

Eles me disseram vem. Vem a nós com as próprias pernas, teus estranhamentos. Vem encarregado dessa coisa utilíssima que é a tua graça. Resina a unir nossas pontas soltas. Carrega outros quantos quiseres.

Eles estavam às portas do meu futuro, por onde entrei e finalmente encontrei a cama feita, meu suspensório da infância, minhas fotos dentro do circo, com muitos palhaços e seus malabares. Nenhuma das minhas roupas seria descartada ou se tornaria pano de chão.

Encontrei no calor de sua recepção a distante paz dos afastados, dos que se pedem por toda a vida, mas não chegam nunca a si mesmos. Eles. Feitos de cedro, cheirando a milênios e fazendo as mesmas imensas coisas de cuidar que faziam no vale das almas, antes do tempo. Amplidão sem tato que é o olhar daquela gente. Um universo inteiro em seu sorriso.

A gente de um presente mais que humano, a vencer o medo de se apegar fácil. Emprestam suas redes. Cedem seus quartos e penhoram a tranquilidade do sono para que eu esteja. Essas pessoas monumentos que não fazem abrigo, pois são abrigo. Sob quem eu felizmente esqueço a minha dor.

Aquela gente de um templo antigo, cuja reza, além da cura, traz a harmonia desejada desde o ventre. Gente que empresta seu Cristo não por caridade, mas por respeito. Gente sem a qual, certamente não haveria sentido em proclamar esperanças, afundar-se num abraço ou seguir adiante. J.M.N.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Palavras de Outrem

Esse cara de quem abaixo ponho uma poesia, foi a primeira pessoa que distribuiu um conto meu. Foi, na verdade, a primeira pessoa que abriu as portas da sua casa para eu ler minha pobre literatura e me ajudou a conseguir a façanha de pessoas gostarem de uma ou duas linhas.
Confesso uma alegria extra em poder chamá-lo de amigo. De Gustavo Autran Rodrigues... no Palavras de Ontem.

contrabajissimo

ando
ando e sei que sina
é esquina e susto

ando
e dobro apostas
como se tudo fosse caminho
como se nada medisse vida
como se os sinais nunca falhassem
como se o tango seguisse além dos quatro quarteirões

pra ver
que te ver me impele à vida
me impele à morte
algo de tragédia

rápida
ríspida
risível

quase leve
quase desejada

e que se volta
contra mim
num doente
contrabajissimo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Personagens Indistintas IV

Sim, elas me doem como a última expressão da liberdade que será perdida daqui a uns dias. Elas corroboram a minha condição sem mais nem menos, sendo apenas aquilo que eu não sou. Suas perguntas, minhas ofensas. Minha senha para a traição. A mentira de querer voltar para reparar tudo, pela última vez. Tudo isso me dói como se fosse uma mulher encravada no canto mais inflamado de minhas unhas. Queria me livrar delas, mas parece que estão nos meus átrios e ventrículos. Queria expeli-las tosse afora, mas estão oclusas em meus bronquíolos, em minhas vênulas. Mais secretas e artistas do que eu poderei ser um dia. Estas linhas delas. Minha rudez e preconceito se esvaindo pelo amor gutural que me preenche quando elas chegam. Aquela impressão de instantâneo que tem o filme recém-apresentado à luz. Tudo o que é delas me retrata, tudo o que eu sou já foi nelas também. E mesmo assim, secretamente fico incrível ao topar com uma novidade que explode num novo beijo. De dentro de um nome descoberto, de um adeus dado com mais entusiasmo. Essas mistura indivisível que nos torna elementos combinados da mesma substância. Procurá-las, vê-las, magoá-las e depois sofrer mais que antes é simplesmente ser homem. Função demais para alguns. J.M.N.

Lealdade

Eu não existo
Compulso
Réquiem do desejo

Eu não me entrego
Evoluo
À solidão acedo

Sou mínima aqui
Sozinha e láctea
Áurea

Mas não pura
Puta de mim
Primeira e última

Eu não canso
Possuo
Inimiga íntima

Morro
Na mesma boca
Que me promulga

J.M.N.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Isso é de quando eu morri

Eu inventava mundos. Era divino
Mamãe me passava pimenta para não roer os dedos
Eu chupava o ardor dos dedos que não roía
Eu matava a minha mãe, já muito pequeno
Não de ira, matava de horror. Ela não me sabia
Nem Ela nem ninguém me sabe. Isso é de vida
Minha dívida para com a sorte
Ninguém saber de você é não existir – diziam
Mas como eu vivo?
Isso não faz calo na minha pensa
Não diz mais que a certeza de que é cada um por si
Isso não é de quando eu virei amendoim de tanto que doía
Isso eu não aprendi no catecismo
Minha divindade padecera
Eu já não criava mundos, eu trabalhava
Eu era fiel. Trazia alimento a um amor de prateleira
Isso não era de estanho. Não durou o que eu durei
Isso é de quando eu morri

J.M.N.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Personagens Indistintas III

Mulheres de fogo e avencas. Mulheres lindíssimas de ornadas almas e tenebrosas mentiras. Mulheres que vivem para o sonho de outrem, que concorrem com elas mesmas pela posse de nada. Eu as quero. Eu as comeria impiedosamente fossem bater à minha porta. Sem demanda preestabelecida eu daria minha pele para segurar-lhes o orgulho no cimo de seus mistérios e a orfandade da beleza que os outros oferecem e tiram ao bel prazer. Eu calibraria todos os espelhos do mundo para evitar que sofressem com o tempo. Àquelas que estivessem de bem com os gracejos da derme, do desalinhar dos traços divinos, eu agradeceria a oportunidade de vê-las segurando suas maquiagens. Preparando-se para sair. Ir à missa, mais recatadas ou à noite, mais perigosas que nunca. Sim, eu esperaria as eternidades sonhadas pela volta do primeiro olhar e seria aquele caderno da canção para receber os traços, os dramas e suportar todas as faltas e também todos os excessos.

Aos amores involuntários

Eles me acontecem. Quando vejo sou esses amores sem piedade nem controle. Fui instruída a não voltar não abdicar de minha dignidade, mas amar com voracidade é um fator de risco que poucos tomam para si. Amar acordada e reles, quase uma sem nome. Se fosse Zé Régio e tivesse parte naquele seu cântico negro, diria que minha vida é um átomo animado. De tão potente que eu amo, decifro tão pouco dos outros, mas tenho a totalidade do que eu sou na palma da mão. Ao me acontecerem os amores sou completa. Sou toda. Permanente e mais dura que as rochas lambidas pelo mar. Cheiram tão bem esses amores urgentes e platônicos que eu não controlo. Que quando me escapam sou melhor do que eu costumo ser e a vida ganha matizes mais vivos e sagazes, estou pronta para as novas latitudes. Mandada para fora de mim. Ser do outro completamente é ser poderosa em tudo quanto não sou na solidão pretendida e difícil. Não sei para onde vou. Não sei se te direi quem sou. Não sei, sequer, abrir mão do anonimato que te invade e ocupa. Mas sei que não vou por ai. Ser involuntária no amor, não quer dizer estar perdida. Sei exatamente onde anda minha alma e minha harmonia. Dá-me um beijo e saberás o que eu digo. J.M.N.

Música de amores involuntários acontecidos…

sábado, 23 de junho de 2012

Personagens Indistintas II

Fedem nas manhãs em que acordo violado de bebida, as narinas cheias de acordeons e suficiência. Uma a uma me pedem abrigo. Eu dou tudo o que posso. O que devia guardar, inclusive. Estão lá, como montanhas ardilosas que me fizeram obstáculos no passar do tempo. Insuportáveis que me têm mais do que a mim mesmo. Sou delas, enfim. Ensinando e aprendendo. Lambendo os dedos pelos prazeres ofertados, pelos roubados, pelos inalcançáveis. O que querem de mim? Meu traseiro? Minha história? Querem ter esperança novamente? Eu pergunto isso com tamanha piedade e sou tachado de arenque, pervertido, um borra-botas que não teve coragem nunca de ficar. Às favas é o que eu digo. Estou com todas elas em meus cemitérios, na beirada de meus abismos. Estou colado a suas fotografias desde que os primeiros beijos surgiram e eu pude soprar-lhes um punhado das coisas doces que aprendi e faziam meu mundo melhor.

Personagens Indistintas I

Alumbram minhas noites as desgraçadas da ponte. Aquelas mulheres dependuradas. De umas vidas imundas à beira do mundo. Meu mundo as colhe e rapta para dentro do tesouro da letra. Viram Margaridas, Tulipas, Mirabilias, Vitórias. Mas a coisa feia de as ter comprado tão barato se insinua perpetuamente. Esfregam em meu rosto as minhas escolhas. As feias com as abandonarei se de seu amor sem rosto eu me venci e acordei para o mundo. Como negar as empregadas suspensas nas porções mais nostálgicas de minha adolescência. Todos escondiam ou preservavam-se para a pessoa certa. Sempre achei que a pessoa certa não viria. Como não veio sempre e como continuará sem vir. Pois certo mesmo é que aquelas mulheres me culminam. Admiro-as todas em seus corpos bem feitos, mal feitos, corpos esquálidos, corpos de sirenas, alados corpos de aves fugitivas.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Tomara

Sim, por causa da música do Vinícius
Porque a vida só acontece uma vez
E porque se não fosse isso, eu não estaria aqui.

Tomara que incerteza venha cada vez mais potente e que as palavras me vençam todo dia. Que sempre possa procura-las no correio pela manhã, nas páginas do jornal, nos lábios de quem eu amo.

Tomara que a ineficácia da clausura não se estenda e eu vença essas paredes frias com a mesma violência com a qual te possuo. Pois ver ceder um corpo ante a bravura de um amor indômito é o que me faz continuar. Quero o pó das paredes vencidas.

Tomara que a pouca idade na qual te encontras, dê a chance de enxergar que não deixei de lado tua companhia, apenas quis me encontrar para ter meios de te dizer quem sou. E saibas de uma vez por todas que o Pai é um Deus terreno e que o Homem, este sim, divindade.

Tomara que as ideias e as pessoas que me cercam sobrevivam para contar que eu não fui o único. Que não estava só quando chegaram os mais de mil ávidos e errantes. Quando chegaram aqueles que não tinham outra coisa que dar ao mundo, senão suas palavras de amor e as cores de seus quadros.

Tomara meu amor, que a distância de agora não seja eterna e que ainda possa te cantar aqueles versos que tanto gostavas antes de chegar o fim desse tempo em que pisamos a mesma terra, banhamos no mesmo rio e ouvimos o pôr-do-sol cantar, apenas porque acreditamos nisso.

J.M.N.

Trilha sonora obrigatória…

Cartas a ninguém (11.06.2012 – 03:32 a.m.)

Caro amigo,

Tudo dará certo. Não há com o que se preocupar. Ainda temos esses incríveis anos de juventude pela frente. Somos os legítimos herdeiros de Cronos, não os que lhe calaram a boca, nossos irmãos onipresentes, mas os que se salvaram da divindade a peso de letras, rosas e um bocado de dor.

Não peça nada a ninguém. Esses pedidos são indelicados, de todo. Ademais, ninguém está pronto para dar além do que pode como queres. Ou como queremos nós. Preciosos filhos de um poder ser par que arranha a vida com sua língua férrea e malina de poesia. Ora vinga, ora executa. Diante do medo, a maioria simplesmente fecha os olhos e come as unhas.

O que queremos é demais, tens de entender. Não pelo preço em si, pelo valor. É demais porque temos de pedir. Nunca esqueça que o que se ganha de presente pode ser tudo o que o outro tem para nos ofertar. E se a tudo temos, podemos estar com os monóculos da impiedade. Olhos vidrados na inconclusão do outro. Uma má ideia, afinal.

Dá de si, meu caro. Não pede. Dá até que a manhã seja o mesmo tempo do teu sono. A frente da nau imperial da solicitude te entrega, mostra tuas habilidades. Não pede perdão antes do tempo. Perdão indevido é a morte anunciada de qualquer amor. Perdoa-te a ti, primeiramente. Pelo quê? Ah meu caro, sempre temos o que perdoar em nós mesmos.

Não antes do fim do ano nos veremos. Sei que reconhecerás a semelhança do que te digo nestas linhas com o que te contei do meu último sonho de amor. Faço assim agora. Entrego. Minha entrega. Meu amor cuidadoso e o lascivo. Entrego a pele e o escoadouro da alma, meu olhar pasmado sempre pelo que sinto de novidade, na novidade da presença dela. Entrego os pontos. Vou a festas terríveis e até o que não sinto, entrego também, pois sei que ali fecunda.

O resto é o resto. Literatura. Livros estocados. Uma casa que não cheira a nada senão à presença dela e a onipresença dos amigos. Mais que isso não suporto. Mais que dar, ter de pedir, é um ofício do qual desisti sem remorsos.

Sinceramente,

J.Mattos

domingo, 10 de junho de 2012

Bö Dohida

 

Amo em ti essa festa que fazes ao acordar, como se o sono fosse uma jornada para a fora da vida, e vivesses a celebrar o teu retorno incontáveis vezes ao dia. Eu faço morada em frente à nudez do teu sorriso, pois diante dele não há tempo, só memória. Essa tua risada me devolve o dia em que meu irmão me levou pra conhecer o centro; me transporta à quietude de um lago em Minas; me embala nos colos de mil avós.

Amo essas imanências lácteas que se desprendem das tuas dobras quando te pões em movimentos descoordenados à busca do teu alimento. Amo te ver interrompendo o banquete pra usares a linguagem primeva dos homens. Balbuciando vais dando notícias do teu mundo e sentido pra vida dos que esperam pacientes os teus dentes nasceram, teus cabelos crescerem, os teus ossos se fortalecerem e a tua cabeça se fechar.

Amo ter certeza que eu não tenho dons de Abraão. Que não ouço vozes divinas e que não cederia aos caprichos de qualquer deus que me exigisse ficar longe de ti. O meu lugar é aqui, na órbita da tua respiração. Guardião dos teus panos e dos teus segredos. Balançador de redes. Palhaço e malabarista de um só expectador. O meu lugar aqui, e te amar me faz ter raízes onde pousares os teus pezinhos. WDC

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Saudades intrusas

Chegaram sem aviso, nem à porta bateram. Teriam entrado pela janela? Ah essa minha janela sempre aberta.
Vieram insuspeitas, trazendo de borla todas as vozes caladas das bagagens que deixei por ai. Minhas cidades invisíveis e desertas é o que me diziam as vozes silenciosas enfurnadas nas sacolas e mochilas.
Cheiravam à alfazema de uma avó muitíssimo amada. Ora os odores eram a pura madrugada ou fruta mordida ao meio, deixada no campo depois do revés da sorte.
De repente moravam todas dentro de mim, mais uma vez. As fotos regressaram lagrimosas e empoeiradas. E do fundo das gavetas soltaram mais intimidade do que eu estava pronto para sentir. Noite sozinha.
Primeiro foram as mais antigas. Tão ancestrais que os nomes não haviam sido escolhidos, porque as palavras não tinham sido inventadas. Temi a tristeza das coisas e das pessoas sem nomes e utilidades. Só eu sabia o que eram para mim. E esse egoísmo de gente me deu uma dor por nunca sumir inteiro. Fica voltando.
Nessa visita inesperada, todo mundo que zunia fininho e tinha de lidar, vis-à-vis com a verdade de meu choro, de meu luto ainda por muitas delas – deixaram a sedução. E tive medo pelo animal indefeso no qual me converti para receber as saudades intrusas de uma vida inteira e de mais as outras vidas inteiras de quem as dividiu comigo.
Tomaram meu vinho, comeram minha comida e até sentaram à mesa para olhar bem no fundo dos meus olhos e requerer explicações.
Por que não vêm mais frequentemente? Por que foram deixadas? Por que havia tanto silêncio?
Eu não sabia responder. Cozinhei-lhes o tempo até o cansaço da manhã chegar. E enquanto rasgava as frestas, o sol matinal, foram embora. Desatendidas as saudades intrusas. Morrerei entre os indiferentes? E se não suportar tal destino, posso pedir perdão? Foi tudo o que pude pensar depois que se foram juntas encontrar outra janela aberta às perguntas que não calam jamais. J.M.N.

De manhã

para Iva

Sua carne se anuncia. Existo levíssima
Manhã bem cedo. Ela me invalida
Sou água. Todo escorrido. E ela me lambe
Líquido. Açúcares. Vaidade. Ela aparecida
Bem na porta do dia. Madrugada vencida
À flor da pele – alegria. Eu peço mais peso
Quase escapo de mim. Ela me beija.
Azul, seu gosto. Do mar ao firmamento.
Tão leve. Seu corpo me golpeia de canto.
Por toda parte sou seu. Tão leve.
Líquido suspenso por sua pele que pergunta.
Sobre nós a única benção possível.
Selados. Conjuntos. Desavisados.
Tão leves como alguém que acaba de nascer.
Para o bem e para o mal. O amor não escolhe.
Como acontece é próprio de seus segredos.

J.M.N.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Onde estão os portos IV

 

no 18 de maio, para os trabalhadores de saúde mental

 

Eu tenho uma pedra atravessada no peito. A pequena rocha me irmana com os índios que fizeram Potossí sangrar prata durante mais de um século. Quem me conhece pouco acredita piamente que a minha figura resume-se a este corpo esquálido e essas roupas noturnosas. Dizem que não tenho mais avessos. Que a pedra me chupou os interiores. Que a pedra me tomou a forma do rosto e que virou meu sobrenome e lugar. Acham que quem está no meio do caminho é a pedra e não eu. Que ela acabou com o amor e extraiu algo vital que morava no meu olhar. Para o bem de si mesmos não adivinham em minhas entranhas as suas próprias devoções. Desembaralham-se dos pecados ofertando-me seus préstimos, sua moral e acima de tudo seu perdão. Mas a minha residência final será sempre o esquecimento, pois sou sumo restado dos ódios, soma de planos fracassados, poeira de traições amorosas. Querem saber o que quero hoje? Dinheiro, e um pouco de silêncio onde eu possa matar a saudade da minha própria voz. WDC

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O que menos se entende sobre aquilo

Ah esta premissa de sofrer por amor. E tanto. Tão severamente que há no rigor dessa dor tanto mais de disciplina e inconsequência que de realidade ou desejo. Amor em si não dói. E, se nos opera, anestesia. E se nos esquarteja é apenas depois da morte. Da sua morte. Ou de uma deixa calada na cena. Após acabar o enredo e todos ficarem pasmos com o fim da trama. Quem chegou primeiro protagonizou as melhores falas, os versos, o frescor com que a história se desenrolou por sobre as peles. A fala demarcada de mais nada, senão alegria. Aquela folhagem espessa de antes da primavera varrer o que restou da outra estação, não cabe. Assim é que amar não compreende a podridão de vastos campos de folhas mortas. Amarelo sépia. O passado do amor apenas vem se convocado, pois quando acontece é naquele estado de intensidade e pressa. E tão depois de passar, seus rastros sussurram descontos aos maus pagos deixados. Há lugar para sombra. O sol da desgraça ou o breu da solidão noturna desaparecem por uns instantes. Sequenciado nos secretos tomos de nossa história. O amor contrariado, ferido, oculto ou desgraçado, emerge. E se nos pega na segunda feira mais desastrada de nosso trabalho, quem sabe na última hora do prazo de entrega da mercadoria. O amor desacelera o passar do tempo e se encaixa. Enquadra tudo. E se deixa humildemente num dos cantos da casa. A casa corpo que o serviu. A casa teto que o salvou da chuva. A casa abrigo que dele depende para continuar a proteção, contra todo o mal do mundo. Contra todas as vezes que usamos o seu nome para chamar um ódio qualquer. J.M.N.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aquelas Rochas

Esse chão é assim mesmo?

Como?

Cheio de vazios e paisagens que só de olhar dá a impressão que tem um nada imenso dentro do nosso peito. São esses alumbramentos quase esquecidos que puseram essa dor dentro de mim? Ou foste tu, depois que resolvemos que o nosso amor abria mais feridas que as curava?

Já tentei químicas que preenchessem o espaço onde antes estavam as tuas visitas e as tuas pernas que, como prêmios ao meu bom comportamento, estavam via de regra lisinhas e untadas em óleos misteriosos. Esses dias tenho lido livros, na verdade, tenho comido as palavras. Mastigando algo que me deixe ocupado.

Eu poderia jurar que essas inexistências não te habitavam assim como estão em mim há tanto sem autorização ou aluguel. Tu, um navegador tão experiente que pra nenhum destino precisa de cartas geográficas, que já se molhou em lágrimas feitas com o sal de desertos e mares, que já soube o que é ser amado desesperadamente por uma mulher. Tu que sempre trouxeste as mãos repletas de significados.

Antes de ti, eu era existido em demasia, pelo menos essa era uma fé dura em mim. As tuas juras e esconjuros mostraram que uma vida é pouco pra se dar todo o amor que uma mulher demanda. Portanto, os meus relatos de viagem nunca te fizeram deixar de querer navegar só nós dois, pois toda água se renova e o humor dos ventos nunca é o mesmo quando se está com quem se ama.

A tua predileção pela espera sempre me enervou, sabe. Achavas que aquelas rochas antiguíssimas se esculpiriam a si mesmas num longo entalhe do tempo. Achavas que as dívidas que eu te impunha seriam mitigadas apenas com a tua presença. Achavas que a santidade das tuas palavras seriam capazes germinar dentro de mim o auto perdão. O que mais me intriga é ver que mesmo agora, que já lambemos o amargo gosto do fim, e já decidimos que este é o prato que sorveremos com a lentidão de um condenado, mesmo assim sustentas a certeza de que estavas certo quando, naquela manhã, afirmastes que eu deveria conhecer os teus itinerários.

Curioso como os erros, mesmo os deliberados, ensejam mais vida que os acertos. Vê agora, passado um ano desde o primeiro dia em que passei todo pensando ti, já somos tão outros que até dá uma saudade do que nós éramos antes. Por ora, não saberei de mim, talvez não queira saber. Quero apenas ser o que todo homem se torna quando está longe de ti, um desterrado. WDC

Hystera sine masca

para um de meus personagens preferidos

Eu te quero. Mas antes eu tenho de inventar uma porção de caminhos elementares ou estupidamente complicados para te provar. Eu te devoto uma porção enorme da minha inconsciência, pois a parte acordada do que penso já não dava conta. E para isso passei um deserto, dois infernos e a gruta frequentada por aquele antigo filósofo de que me falaras para explicar o medo de ser, lembra? Eu te cultivo como a última orquídea anã de um jardim inteiro de flores raras que se despedaçarão quando eu passar correndo pela saudade e for me instalar na estufa em que elas nascem. Entretanto, sou demais eu mesma para notar que fazendo isso, mato mais possíveis nascimentos e alegrias, por mínimas e delicadas que sejam, abrindo de fato as gavetas intermináveis do que não suporto mais guardar, e grito a plenos pulmões que sinto a tua falta. Sim, eu te odeio o amor eterno de alguém que espera o mesmo reconhecimento que dás a todos ao meu redor e não à indiferença clínica que te convence ser melhor estar livre do que ao meu lado. Mais que isso, eu protagonizo todo tipo de cena medíocre, de trama faminta, de novela mal feita, apenas para repetir que te magoarei por todas e tão medonhas vias do desespero ao acinte, da infância com suas totalidades até a velhice extrema da morte, apenas para que me sorvas de qualquer jeito, para que consideres parte deste teu mundo imaginário e plúmbeo, do qual só tenho notícias, por teus incontáveis amores romanceados. J.M.N.

domingo, 29 de abril de 2012

Seria o tempo?

Imaginar-me morto dentro dos sonhos de alguém, deixado no mirante de um farol qualquer no fim do mundo. Ir dando vez a um fantasma que me alucinava havia 17 anos, fantasma meu, que me deixou claro, fugiu de vez daquilo que ainda eu tinha dele em minhas incertezas. Agora sou mais honesto, enfim. E posso desejar voltar por meus próprios passos, mesmo que isso cause furor nos demais. O temer nascente de uma palavra dura e inventada, pelas mãos de outra pessoa – quem nunca soube o significado do perdão, da não interferência, de outra forma de ser sem sentir-se deus absoluto de todos ao redor – não servirá de ferrão mortal. Não fará arder num fogo reles o que levei tanto tempo para crer e sentir. Hoje, finalmente, ouvi com minhas próprias possibilidades sensitivas, com minha pele toda horrenda de abandono que estou só e só deverei atinar para o que fazer diante do tempo, diante do filho, diante de quem mais for. Se não tenho palavras mais que usar para fazer sentido, que sejam estas que ora me vem, a dar-me calor, sustento e participarem de vez da última casa que construirei, em cujas paredes atarei minhas redes, em cujos corredores viverei os restantes dias de minha vida, em cujos pilares soldarei meu ser ao ser da Terra. Seguindo certo para o despertar da solidão adquirida e feito um homem livre, para usar da razão apenas quando for possível. J.M.N.

Trilha sonora…

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cartas a ninguém (27.04.2012–16:15 p.m.)

Meu Caro,

Choramos juntos e juntos exortamos as práticas secretas, as músicas que ninguém mais ouvia, livros poeirentos e filmes em preto e branco, mudos e com aquelas belas peças de Gottfried Liebniz enxertadas nas restaurações modernas.

Andávamos por ai cumprimentando apenas os mais velhos, as senhoras suspeitas e todos aqueles meninos de nos queixávamos enquanto o recreio passava no colégio. Umas roupas esquisitas e anacrônicas, com cores muito mortas e sapatos a la Buddy Holly.

Trancados nas insuspeitas tragédias inventadas, nos regaços de nossas criações tão vis e burguesinhas demais para aceitarmos, mesmo não querendo aderir àquilo da esquerda, isenta, radical ou ultra radical. Exercíamos a política do que era melhor para nós.

Duas cidadelas empedernidas e encorajadas por sabe-se lá que ânimo celeste ou longínquo, como que genes atávicos atacando de supetão toda a casta de uma só vez. Ali estávamos, doentes, moribundos em plena juventude e aziagos aos olhos de tantos. Não tínhamos pares.

Ai um dia nos encontramos e passamos a observar cada indecência na fala, cada desarrumado perfeitamente engendrado em nossas roupas, nas nossas falas. Passamos a recorrer cada vez mais a palavras próprias e a duvidar de que conseguiríamos sobreviver um ao outro.

E sem nunca usar a palavra amizade nos despedimos ao mesmo tempo. Um virou a esquina, o outro as páginas de anotações com seus projetos em conjunto e pronto. Instantaneamente se tornaram desconhecidos. Atacando-se e/ou exaltando um ao outro em secreta admiração ou medo de reencontros.

Hoje eu o encontro na mesma cidade. Sei seu nome. O rumo da sua vida. Sei, inclusive, o nome de sua nova namorada. Entretanto não números seus em meus cadernos. Não há uma foto nossa na gaveta e somos assim, distantes e atados por tudo o que jamais dissemos. Essa espécie de irmandade abrasada entre os dentes, entre a troca de farpas e, definitivamente, estocada num lugar intranquilo, pois sempre que pesamos no nome um do outro é isso...

…Uma carta, um pedido de perdão, uma música que toca dias e dias no aparelho de som da sala. Sempre antes de sair e de dormir, momentos estes em que celebramos nossa mutualidade e semelhança a uma distância segura, fechados às palavras e dados a laços que era nenhuma desfará, mesmo que isso custe sete passagens por este Planeta.

Com imensa sinceridade,

J.Mattos

Memórias paternas 7

Idade ignorada...

- Pai, não tenho notícias muito boas
- Conta logo cara, não adianta sofrer escondido
- Tenho notas muito ruins
- Em quais disciplinas?
- Inglês e filosofia
- Mas logo em inglês? Não fazes um curso extra?
- Foi desleixo pai, prometo que vou me esforçar...
- Não é a questão do esforço filho, é prometer e não cumprir
- Nunca prometi notas boas em filosofia e nunca,
                           nunca deixei de te contar meus fracassos
- Então fazemos assim, como posso te ajudar?
- Me dá mais uma chance?

(A resposta, por mais óbvia e temperada de amor paterno,
me fez sentir uma funda distensão em minha alma
Quis naquele momento ter mais espaço para aquela pessoa
continuar sentindo que podia existir no seu próprio tempo)

- Claro filho! É uma chance pra mim também.
- Como assim?
- Um dia eu te explico... Conta comigo.

J.M.N.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

In memoriam vitae

“Que não se cale a voz que de mim veio,
Mas que minha não é, sendo nobre e sentida.
Voz do meu coração que me escorre da pena.”

Oração – Augusto Frederico Schimidt (1946, pp.93-94)

Eu os encontro e vigorosamente trato de me desconectar deles. Faço perderem o sentido, todas as coisas que me ligam a eles. Este é um exercício simples. Concentração e sorte. A noite corre. Meus músculos tensos exaltando-se em esquecê-los dentro de mim. Infortúnio que são as horas compartidas. Alguém se levanta e vai. Outro minuto que perco, penso. E logo estou tão concentrado em me perder deles que me acho. Sou o que sou. Não tenho mais vergonha. Minha literatura emerge, tal como emergem minha sede pelo novo, pela inquietação do mundo, pelos povos coloridos dos deuses de outrora. Lá fora os negros, os brancos, os povos todos me mandam convites. Mas eu fico insinuando ainda, talvez eu parta se não me partir primeiro. Sou esse pequeno humano que se descuidou muito tempo de si. Gentilmente lembro as coisas de fora. E eles presentes. Levanto-me afinal. Com seus olhos pendentes em mim, com suas expectativas de que eu os alcance durante a semana e lance ao menos um beijo do balcão imaginário de onde eles me esperam sufocados e invioláveis, porque são mais ideias e material fantasmagórico do que nunca. Não penso em outra coisa a não ser não sê-los. Não repeti-los. E isso, incrivelmente ao contrário do que parece e me rende, me faz mais deles. Faz-me mais próximo. É insuportável a semelhança dos relativos. Embora eu amaldiçoe todos os males que enfrentamos ou criamos ou refizemos por inutilidade e doença, por vergonha ou crueldade simplesmente, num instante de ilusão me ponho em suas peles. E nesse micro sonho diurno, como num lampejo, eu faço uma poesia, declaro meu amor à mulher que me cuida e doa o seio, sou melhor que Picasso em sua fase mais azul. E assim, na simplicidade de não querê-los, eu os renovo. Faço do contrário a maior semelhança. Eu, mesmo bêbado ou febril, não choro pelo que eles não foram ou não alcançaram de minhas dores ou moléstias. Quero apenas dormir um bom sono, dando-lhes alento. Alento de saber que fazem parte de mim e mesmo que não queira, sacodem meus muros e comem da mesma comida imaginária da qual me sirvo abundante – querem superar o tempo, acontecer felizes na memória de alguém. Isso, sim, eu posso fazer por eles. J.M.N.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A razão da falta

Porque quando eu me faltava vinhas em socorro e me chamavas pelo nome para eu saber que ainda era alguém. Era todo teu neste instante, criado nas ondas de som da tua voz. Como um pensamento, que, inovador ou medonho, descrevia algo jamais visto. E nascia o eu coisa, teu produto, apenas existindo no teu chamar. Sinto falta dessa nulidade. Estar acontecido secretamente enquanto apenas tu me chamavas de amor em punho para salvar-me.

Falta-me tudo quanto mais aprendi sobre domínios e planos perfeitos. Mesmo que jamais tentados. Abordavas as coisas com tamanha precisão que eu sinto o gosto do nosso futuro em comum. Das igrejas que me farias entrar, das natas adocicadas nas panelas de domingo. Um bolo, um doce de recriar a infância era o que teríamos.

Falta-me, ademais, um pouco de sorte. Daquele tipo que me fazia sempre chegar antes do teu choro, porque escondida dentro de tantos prantos e mantos e razões desconhecidas, resolvias dizer teus as menos abertos, consoantes faltavam e eu previa que alguma tortura cruel estava te partindo à alma. Intervinhas quebrando o silencio com um beijo ou com as velas para um jantar a dois, esforçada para que não chegasse a hora de eu dizer adeus.

Por estas razões e pela noite que avança em minha vigília e me volta a confundir os dias como fazia antes de eu me desatar, quero dizer que sinto essa falta. Falta de uma pessoa entre tantas. Falta de um abraço entre muitos. Falta, enfim, do ser reconhecido que eu era quando dizias que estavas esperando eu chegar para acabar com a tua tristeza. J.M.N.

Trilha sonora…

terça-feira, 17 de abril de 2012

O novo homem

Nasceste quando a aurora dos tempos já era história da história. Teu planeta já conta os anos em casas de potência décima segunda. Se o tempo, como algum cientista disse, é retornável, posso muito bem ser teu afilhado e não tu, o meu. Nasceste afilhado para minha completude humana mais imensa e se não tiver certeza de que sou eu ou tu o predecessor, quiçá minha própria humanidade ainda tenha mais uns anos a descobrir-se, tornar-se. Adornaste-me o sonho enquanto não vinhas, mas esperava. O encontro e o amor de teus pais me deram honras, as quais sempre nunca tive ou renegava inexplorado, pois não me sabia coisa alguma, nenhum alguém. Nem sei explicar como vencerei os anos para te ver duvidar de si. Sim, pequeno, tentarão te convencer que isso é perigoso. Eu, de minha parte, espero poder me fazer ouvir. Em decibéis suficientes para que me escutes e decidas questionar quem és, o que és e quando és. Apenas pergunta quem sabe e quem sabe é porque já desistiu de contrapor-se, de ser contra inutilmente. Te recebo em braços e traços e coisas ímpares que viveremos. Te dou a benção sem ser mais que um homem, mas me atrevo. Que assim teus espíritos sejam quais forem saberão que há coisas de gente que reclamarão e coisas de deuses que te farão escutar as estrelas. Se assim cresceres e puderes me dizer adeus e um canto ou palavras, saberei que cumpri a missão. Fui um homem que outro confiou para ser guia. A cria que agora recebe com tua vinda é amor indubitável, sabor humano na mais antiga concepção da palavra. J.M.N.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Caravana

Esqueço-me de que foi você a inventora do adeus. Tem algo chamando no segredo do lago. Às margens de lá dorme um segredo, um resíduo. De quando me chamavas de cúmplice. Mas agora é tarde demais. Mas posso ver nosso animal abatido sussurrando atrás dos meus passos e da velocidade constante de minha caravana. Partida ou chegada. Caravana de além. E vejo teu sorriso no luar que me engole, como a boca celeste dos mil dias. Maravilhas da noite. Vejo as luzes de cidades inexploradas aonde chego e sou recebido de braços e pernas abertas. Aonde irá esse senão de agora. É apenas comigo que o castigo acontece. Não vem de fora, não se destina a mim, é verdade. Talvez eu tenha uma porção de raiva acumulada. E esse vento desértico parte as palavras do meu amor de agora, que também é de ontem. E é o mesmo de quando eu atendia pelo nome que outros me deram. Agora me chamo eu mesmo e assim fico. Cravado na face. Puxando quem quiser vir e ver. A caravana que segue adiante não mais a minha. Sou passo e destino num mesmo modo operante de ser simplesmente. Dá tua mão. Quem sabe eu me despeço. Quem sabe eu me perdoo. Quem sabe a vida se reconcilia com aquelas nossas aquarelas de ontem. Vale à pena deixar as janelas abertas e a loucura a meio passo da fuga. Se não me dizes mais nada, então é porque a hora já passou. Ou quem sabe, é tua velha maneira de esperar – quieta, viva, vaga, sem propensão para ilegalidades, imensidões. Quem sabe sou apenas eu, inventando coisas para não deixar de pensar em ti. J.M.N.

Trilha sonora…

Antes do teu beijo

Antes do teu beijo um branco, uma revolta incontida
Diligências incertas aos confins de mim
Esbarravam na vertigem, réplica mal feita de tudo quanto era eu
E neste impreciso ocultava-me, perdia-me
Um tempo morno e sem guarida
Eu amado em pretéritos, puerpério e esquecimento
Sempre à margem de ser, sempre à mingua
E quando beijaste aconteci, violento em princípio
Morto por assim dizer no lamento, naquilo antes
Esse refeito esmerado em entregas que sou eu, teu
Partilha apenas o que é recém-nascido
Redescoberta muitíssima de ser, de caber
De aceitar e compreender
Fez-me a mim, esse de hoje, aquele beijo teu.

J.M.N.

terça-feira, 27 de março de 2012

Perguntas de Ontem

E agora eu não posso mais falar de nós. Não posso sequer te desejar desventuras ou citar maldades com teu nome finalizando todas as frases ruins que vêm à cabeça. Agora (e para sempre?) não posso te dizer o quanto me fizeste rir, mesmo em meio ao dolo, ao assassínio de nossa história. Porque, afinal, nada que perambulou demais em todas as minhas camadas pode sumir assim. Até quando resisto? Foi tão pior? E tenho de esconder todas as imensidões que me dispensaste. Todas as noites velando meu sono e cuidando da imagem de minha família por toda a vizinhança. Não posso lembrar Belém e o mar de Pessoa. Dos Jerônimos e dos pastéis com açúcar e canela. Nossa vida doce, mesmo que passada, que fica finíssima quando agora tenho que engoli-la a cada segundo de não poder dizer que existes, que existimos. Dizer que virá um dia ou uma noite de arrebentação e talvez, num grito ou numa mera loucura compulsiva, venhas transbordante, existir completamente e invisível num choro meu, numa pintura impressionista que eu tente ou, na pior das hipóteses, numa lágrima que ainda tenho presa desde a última vez em que te vi. J.M.N.

Pergunta de Ontem: o que fazer com as memórias secretas que não somem jamais?