terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre o que me conclui

 

Dor, companheira de horas últimas. Amiga pra depois do fim. Quantas vezes já andei levado pela tua mão aflita até os confins escondidos no apego e na entrega? Se achegue sem perguntar o que ocorreu. Vai sentando nesse sofá antigo que meu pai deixou. Sabes que foi morte ou abandono, algo assim - a lentidão dos passos dessa contradança na qual costumo enroscar minhas pernas em noites com copos e desabafos. O que ocorre é que a tua companhia é a única que me deixa só. Que o teu amparo me deixa à mercê. Que a tua misericórdia me condena. Que quando me reconcilio contigo me aparto do mundo. Mas que quando estou contigo me assemelho mais a mim. Dor, assim te nomeio, e não sofrimento, pois esse foi causado, e tu, dor, chegas sempre depois das tormentas e acorda meu corpo e me crispa com um assopro e me sacode com um gesto e me manda: vai escrever. Não, dessa vez não te prives dos acentos e dos hiatos, faz o teu trabalho. Faz-me acreditar que o esquecimento existe e que um dia chegarei a ele como um pajé diante de uma árvore desconhecida. Faz a raiva suturar os meus cortes. Só não me tires a capacidade de amar, pois sem ela não há manhãs e minhas pernas se descoordenam. Sem ela, eu e tu não tomaremos esse café tão longo enquanto me mostras as tuas quinquilharias de crescer. Sei, não há razão no pedido, mas fica. Pois não tenho mais o que comentar do jornal, e nem culpas pra confessar. Estou fronteiriço. Limítrofe. Nessas horas, costumas me levar pro meu continente e me mostrar um rio próximo de onde nasci. Já te agradeço a paciência com os meus cubos mágicos, com meus esconjuros, todos esses reinícios. Já estou à espera da hora singular em que me mostrarás, sádica e orgulhosa, como me devolvestes as minhas faltas, e assim retornei inteiriço.WDC

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A figura toda

E que alarde ela fez quando chegou. De cruzar a porta o dia ficou pleno cheio como um litro do melhor perfume. Chegou encostando no meu tempo não consumido, alargando-o. Abriu tudo que foi chaga e se ajeitou por sobre. A dor passou. Que quando ela me visita, a vista tem paisagens que eu nunca vira, voou sempre. Além do tudo que eu achava era meu mundo. Ela se entorna feito qualquer líquido que dura, uma água milenar. De pedra em pedra, do meu peito fez sua casa. Ela pertence ao que me escapa, ao que nunca me contaram que vinha. Ainda bem. Sua surpresa está na risca que desenhou curva no meu papel. Sem querer dizer nada, escreveu te achei finalmente na minha esperança. E me ondula e faz frágil. Como eu era antes de saber que uma boca era capaz de me causar infinitos. Isso sim ela não faz. Não vai além do mais fundo da fenda que é meu nada. Onde encontro aquele Deus que me enjoava desde criança e que me deixou tão só, como castanha esquecida. Casca dura e redobrada pelas chuvas da vida. Ela é chusma de nau para oceano. Ela é traço de mapa ainda verde, com terra de ninguém. Ela é consagrada, sem ser o corpo de Cristo. Ela é uma mulher. Que quando fecha os olhos o mundo inteiro dorme e quando os acende – dois sóis potentes – invade me presente. Diz todos os dias que me consome e é linda. Figura inteira essa uma que me ama. J.M.N.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O mal em cada outro

Eu assim te esqueço, príncipe do que não é. Esqueço teu nome vago que me arrepia e consagra como seu fosse feita do que quiseres. Eu que era tão boa e tão perfeita antes de entrares na minha vida de fulaninha, antes de arrancares os aventais que mamãe me deu. Toda quebrada, ordinária até eu almejo teu fim, desgraçadamente contrária ao que me vai bem no fundo. Hoje não posso te querer do mesmo modo ou além. Hoje eu sou apenas a ambição da perfeição que os outros perderam há tanto tempo. Comecei a julgar que todos os que amam daquele jeito impiedoso que era o meu também, não merecem indulto. Eu não mereço inclusive. E por isso apaguei teu nome da agenda, troquei meu endereço e fiz votos para que os céus te levassem com mais pressa. Mas não morres. E a cada vez que escuto teu nome vivo sei que de mim também vem essa tua força de viver, pois te componho como verbo, pois te contrato como saudade. E se já não sou boa o bastante para todos os outros olhos que me viram sucumbir ao que fomos eu os mal digo. E arranjo mentiras e absurdos sobre o que são. E desconto de suas conquistas as avarezas, as perfídias. Enquanto houver força para eu te amar de tamanha sorte que eu nem respiro se não penso em ti todos os dias, haverei de citar o que mais propende à escuridão nos outros. Pregando que o mal dos outros é o que não tenho. Como uma voz que adora do avesso. Como quem espera estar entregue e sem fim novamente. J.M.N.

Para ler escutando…

Recados de geladeira

Sobre o teu corpo, uma esteira ao sol me esperando. Eu principiei meu fogo, meus pelos íntimos encontraram os teus e fizemos um filho. Naquele dia atrás do vento corríamos soltos, desesperados por ninguém nos seguir. Achávamos que o mundo era nosso. Onde foi parar a esperança? Não sei! De todo modo é ultrajante que te aproximes de mim apenas pelas contas do fim do mês. E de todos os recados diários que deixas, o que mais odeio é o que me lembra de fechar a porta da geladeira. E daí, se deixo fugir o frio? Onde estamos? Ancorados nos exílios escolhidos. Eu nas Antilhas, tu no Ártico. Precisamos de mapas e de corações tementes a alguém maior que todos. Quem sabe Deus volta aos nossos encontros. Não reza agora, ainda estou dizendo frases infernais. Mas eu te amo. Por hora vale dizer que ainda sou teu. E que o sol que nos fez nascer e criar outra vida ainda me banha. Farei menos segredo disso de agora em diante. Desde que faças menos drama sobre a geladeira aberta. J.M.N.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Romances sujos I

A verdade marcha e nada conseguirá detê-la (Émile Zola, 1887)

A coisa que tinha me desmentia feito um dedo topado, feito um átrio de coração constipado ou mal feito. Era como a cabala secreta daqueles homens mal intencionados, que de calamidades infestaram o mundo a mandado das graças de ninguém. Aquilo que me prendia o ar antes da vida era a junção de todos os meus medos, a remota frieza com que costurei meu sorriso ao desmanchar-se dela. Era feio demais para atender ao chamado do mundo meu ímpeto. Era como um grunhido ferido muito mais que o animal que o dispersou no ar. A palavra que eu tinha no bolso escondido podia ter sido a liberdade dela e, no entanto, foi minha prisão mais destroçadora. Em cada fiapo de luz da manhã que entrava por entre as grades, lambia-me a culpa serena e doce de já ter visto o que a mentira faz no rosto lindo de quem se entrega. A coisa que eu espremia dentro da boca, a língua afiada passando-a de um lado ao outro feito o fumo de corda nojento, saiu-me por todos os lados. A coisa que me servia apenas de tortura me escapou. Mas ela não ficou liberta. Não comeu as flores de tão belas e apetitosas. Ela me cumprimentou de volta, aceitando eu ser seu amigo por mais um dia. Essa enormidade de tempo que a destruiu e que agora me congela com a bondade vinda de seu abraço final. J.M.N.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Dos ciclos e das possibilidades

Hoje alguém chorou em meus ombros. Chorou daqueles choros que apenas os profundos choram. Aquela água desembestada que faz brilhar o rosto e mesmo dentro da dor faz a gente encontrar a beleza de quem a derrama. Água de um universo inteiro em colapso e expansão. Tudo ao mesmo tempo. Ouvi desta pessoa que chorava todas as coisas que já provoquei. Todos os elementos negros de minhas miragens. Meu deserto de vento e saudade se me abateu. Estava escutando como se fosse destinada a mim a adaga desembainhada para o ataque mais feroz. E recobrei a noção de tempo pouco antes de me quedar sem história, milésimos antes de me arremessar contra o muro. O telefone toca. Do outro lado alguém conhecido. Alguém que eu fizera sofrer. Minha vida revisitada – uma culpa atroz e larga. Por um momento eu quis pedir perdão. Por intensos minutos pensei em oferecer meu sacrifício. Até que o choro que eu amparava cessou e eu finalmente entendi que mesmo torto, desigual e indevido eu me qualificara a ser porto. Em cujas margens ancoram desde caravelas a corvetas de mar e guerra. E finalmente senti o perdão que tanto esperei. De nenhum lugar além do horizonte, mas dentro de mim mesmo. J.M.N.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Meu coração

É isso! Não o tenho. Ele me tem. Entre seus átrios, seu pulso, com sua forma de punho, seu soco ardente. Ele me põe na cama se estou cheio e me põe de dores se vazio. Ele me esfrega os olhos todas as manhãs e chama minha atenção à moça que passa. Em seu passo descontrolado aprendi a ser, sentir, extinguir. Aprendi que ele bate independente e suas razões, meus outros íntimos não frequentam. Ele pulsa em nome do que se lhe foi programado seja lá por quem. Se parar de chofre, a morte certa pode ser apenas mais um amor despertando. E por esses seus inventos ele me cria, me domina. Põe sua rede elétrica entre as minhas palavras e acende sem combustível a ilusão. E para que volte ao ritmo desconhecido que só a ele pertence, eu canto. Não me importa que ele me habite e nem pague o soldo. Não importa que ele se alterne e me deixe na mão. E por sua vontade crua e fértil, eu já morri mais de mil vezes, entretanto, nasci bem mais que isso. J.M.N.

Trilha sonora…

É tudo isso

Eu te peço – escute!
Abriu fevereiro mesmo antes de eu chegar
E se o ano vai assim, meu jeito será andar menos
Não por fraqueza, cansaço, tristeza
Mas para ir nos teus passos, andar e viver
Escuta mulher, eu só quero dizer que te amo
E o que guardar em silêncios e desculpas, espera
Um dia nascerá o som do que tem de ser dito
Enquanto isso o amor diz tudo por mim
Todo meu toque é esse amor
Toda minha cura e explicação também
É próprio desse amor meu perdão a mim
E disso nasce mais frátria e abraços
Meus irmãos sentem
Todo meu medo é igualmente esse amor
Que infantil esconde a cabeça para não ser pego
E, desesperado
Salta no caminho do tiro dado meu amor
Seja para salvar quem eu amo
Seja para entender a sua imensidão.

J.M.N.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Tautologias I

Guardar-se é expropriar o terreno onde as descobertas do outro se desenvolvem, tomam forma, ganham substância. Faltar com o coração à procura de tantos é estar vendido mesmo sem ter vindo à luz – objeto apenas, por que nem mesmo a ausência afasta a culpa de nossa porta.

Dar-se inteiro, até o último vaso sanguíneo, até a última lembrança de nada é se apagar antecipadamente da vida. Estar-se pondo em redoma, o silêncio dentro, o ar escasso e as coisas acontecendo bem diante da gente. O olhar nessa condição propende a não ter infinitos, mas sofrer deles eternamente.

Não ir ou vir fora do eixo, mesmo que num segundo de delírio. Não apresentar as armas antes do tempo ou escondê-las para lutar de punhos nus e alma esgarçada é atar-se ao marco de lugar nenhum, em cuja topografia a luz não chega, pois o medo é maior. A boca nesses sistemas de medo duro e imponente resseca expele palavras feito farpas, diz alegrias querendo dizer vilezas e, sobretudo, não sente nenhum sabor senão o dos próprios dedos perdidos.

É como se o tato não fosse mais do que algo que muito dói ou muito inutiliza nossa pele.

J.M.N.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cartas a ninguém (05.01.2012)

Querido,

É com uma ansiedade cujo único remédio é a tua presença entre nós que esperamos a tua chegada. Sabemos que vens de um lugar distante. De um passado tão antigo quanto o teu nome, até mais que o teu sobrenome. Próximo à idade da tua respiração nos nossos sonos mais profundos. O teu leito está arrumado. Tens um guarda roupa e camisas novas. Decoramos as paredes com animais ferozes naquela hora rara em que dispensam amor e proteção às suas crias. Não queremos que fiques com medo das novas configurações que o anúncio da tua chegada talhou em nossa rotina e nos nossos corações, mas devo te avisar que chegarás distribuindo papéis pra quem estiver em tua órbita, e significados para palavras puídas de tão guardadas. Não estranhes que tu, estrangeiro, batizarás as coisas daqui na tua língua. O nome que deres a elas, será o nome delas. É assim por um tempo, até te tornares um dos nossos enfim.

Mas não tenhas pressa. Vem no ritmo do teu nado solitário, com braçadas nos horários mais impróprios. Senta e descansa quando achares conveniente. Esse é o teu reino, e ele te espera. Vais dividi-lo com uma conterrânea que pula e estala os dedos quando o teu nome é pronunciado. Esperar-te a faz feliz. O nome disso é amor. Aprenderás com o tempo. WDC

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Até o fim do amor

Não tenho nada a pedir. Sem condições. Sem a deselegância dos contrapedidos, sequer o terrível fazes isso e eu pior. Apenas sigamos até que as cortinas baixem, nossos olhos cansem ou a vida nos diga para deixarmos de lado o sopro, as enguias debaixo de nossos lençóis e sentemos à beira da estrada, esperando outro dia. Siga-me com essa alegria de jovem que te transborda e cumpre todos os dias. Sinto falta desde tão antes, quando eu mesmo era jovem e tinha as duas asas ganhas ao nascer. Era como uma esperança e agora é como uma bombada de ar em meus dias. Não tens aquelas perguntas estúpidas sobre como resolver as crises, apenas segue. Isso, já vi por ai. Um dia, terei a sorte de ver que acordas sempre com uma determinada coisa que te é específica. E serás aquela que matou o medo de as coisas repetidas serem mortais ao espírito. Venha comigo até o fim do amor. E que este fim seja a morte, a derradeira parada, ou seja, o fim, uma tragédia, uma loucura, um outro amor meu ou teu. Enquanto durar e for profundo como neste exato minuto, quero ir ao fundo dos teus sorrisos, ser, de alguma maneira impensada, tua falta de limites. Espelho duplo que cria tantas imagens nossas e pende ao infinito. Venha exercer-me como gente, como teu sonho, como teu melhor investimento. Até o fim do amor. Até, quem sabe, sabermos que o fim nunca chegará. J.M.N.

Para ler escutando…

Vidência

Se o mundo acaba, não vai se hoje
Hoje a fronha do universo recebe minha pensa
Sou envergado de passados que eu nem conheço
Mas amor, amor mesmo, tenho montes
Tenho infinidades de letras e líquidos
Palavras para dizer e sentir
Feito que a luz de todos os dias fosse só minha
Sou desse material humano e insatisfeito
Todo comprido de ter rodado em mim mesmo
A dor de nascer, a saudade do que não escolhi
Se o mundo acaba, não vai ser hoje
Que hoje, ao que me lembro do que sonhava
Tem um riso moreno que me enleia
Que me prepara para uns muitos tudos,
Para essa minha alma solitária.

J.M.N.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Minha única outra pessoa e o perdão da vida inteira


Para o meu filho Cauê dos Santos Mattos, a melhor pessoa que conheço.

Em cada mínimo dedo meu havia uma dor de fratura. Encharcava, ardia, rasgava em cada veia, em cada feixe nervoso uma violenta tempestade. Minha boca que acordara banhada de um astro logo logo adormeceu, como que para sempre. Nenhuma palavra eu daria à luz porque dentro de mim havia um deserto de sentidos, de significados. Escuridão de erro e descuido. Havia um ato de contrição inscrito, por cada ano de minha idade, por cada número de meu registro civil. Eu era simplesmente frêmito e ocaso. Como não faltasse mais nada a que se debridar em minha musculatura, houve aquele aceno de morte, aquele olhar de desgosto. Como tantos que já vi. Uma lança em meu peito. Senti-me um fracassado. O desalento do meu dia culminou em lembrar exatamente de cada uma das vezes em que fui ferido. Cada momento de fúria em que dispus de minha autoridade infundada para dobrá-lo e, pretensamente, chama-lo à realidade. No mesmo momento porém em que tive de lhe dar a mais triste das notícias, ele me veio com a salvação própria das pessoas iluminadas. Com a força titânica daqueles seres que antes de virem ao mundo, receberam o tato da bondade e a língua delicadíssima da compaixão. Seu olhar não trazia raiva, frieza. Não era o olhar de alguém que estivesse destroçado. Ele me olhou bem no fundo e disse para eu ter calma, todo mundo erra, não fica assim. Dentro de um luto potentíssimo que se instalava como por algo que jamais me viria sequer como memória, seu perdão nasceu e benzeu toda ferida e toda tristeza que me inundavam. Sua mão na minha, reprogramou a bomba relógio na qual me tornara. Mas houve explosão. E o alastrar dessa explosão foi de conforto. As ondas de impacto reacenderam cada carinho que eu recebera em vida. Uma memória quase mítica e reveladora. Num único gesto, em uma única frase, aquele menino mostrou o tipo de homem que ele é. Mostrou-me o tipo de amor que tanto nos falta pela vida. Ele não será uma pessoa de bem. Ele já é. Minha boca acesa, de mil astros ensopada, novamente festejou. E pude dizer-lhe que tinha orgulho em ser seu pai, que não aprenderia com mais ninguém e em tempo algum o que ele me ensinou num único minuto de fraternidade. Diante do gesto dele, não há outra possível coisa a fazer, senão lidar com tudo, até que eu mesmo me perdoe. Se esse tipo de irmandade é possível. Se esse tipo de paternidade filial pode existir. Então, quem sabe, a humanidade tem mesmo a chance de durar. J.M.N.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da distância entre os acenos

 

Estava naquela casa como quem mora numa certeza. Sabia suas paredes, suas goteiras e seus esconderijos. Sentia-se bem, dizia, e esse bem, no pensar de Zélia, traduzia-se em estar aliviada dos descaminhos da vida, os quais se acumulavam em seu íntimo desde os seus primeiros choros. Desde as dores do parto de sua mãe. Era como um azedume que reaparecia com uma frequência não desesperadora, mas incômoda. Era tipo um alheamento, um esquecer-se de si.

Por isso engoliu várias respostas possíveis até pronunciar um não faminto e esquálido ao gesto do Cizico. A mão pousada em direção ao céu convidando-a para um passeio de barco, com provisões suficientes pra não voltar naquela vila. Ele a queria por perto quando se abrisse a boca daquela primeira curva do rio. Aquela curva respingada de filhos de seus irmãos, de panelas de sua mãe e lembranças do seu pai. Aquele rio que tinha cheiro de pessoa idosa. O cheiro do seu avô, pescador dos bons.

Zélia não veio. Apesar de saber que seus corpos se sabiam de uma forma tão perfeita que parece que Deus pessoalmente veio talhar o lugar de encaixe. Cizico iria sentir falta da sua comida, dos seus sucos e da sua forma de deixa-lo incendiado de ciúmes. Zélia nunca mais veria um amor nascer bruto de uma raiva provocada pelo silêncio dele. Cizico queria estar no meio de algo vivo e corrente, mas ali, no colo do rio, enquanto durasse seu navegar, inventaria preces e bênçãos pra que aquela água o fizesse esquecer o tanto de sua carne que deixou por baixo das unhas vermelhas daquela mulher. WDC

Exegese à moda de um canalha

Este ano já não trocamos mensagens de aniversário; as de boas festas possivelmente não chegarão. Teremos árvores de natal, felicidades. Cada um em seu canto. Ganharemos presentes e votos de um ano bom. Os que ofertam, não sabem das alianças escondidas – não esquecer. Daqui pra frente teremos, finalmente, duas vidas exclusivamente nossas. A de cada um, em seu tempo preciso. É uma merda dizer isso. Constatar. É tão odioso que não assines mais o meu jornal. Que todos por ai digam que sofres de exílio. Este ano já não lembrei direito do rosto dos teus pais, da estupidez do teu irmão. Não gravei mais nada em meu corpo. Fiquei pensando nos teus bichos enterrados no quintal. Às vezes, em meus romances escritos de maneira tão imprudente, registro que eu devia estar lá. Junto deles. Para que a terra me comesse. Morri exatamente em três de abril de dois mil e seis. Foi quando tive de vez a tal compreensão. Eu me encontrava preso, como o poeta que avista a Terra em uma fotografia. Vi meu mundo tão pequeno e impermeável naquele quarto da residência. Eu já estava acabado. Eu devia ter tido um enterro. Devia ser um defunto. E assim talvez, mas só talvez, não tivesse que comer a terra de tantos caminhos, sorrir dizendo que não me importo, seguir sentindo que já não tenho lugar entre os bons. É terrível que eu continue vivo. Entretanto, ainda tenho esses botões que premir, essas linhas a me socorrer. Posso confessar que vivi. Posso até te dizer muito obrigado por não confiar mais em mim. J.M.N.

Pedras de papel e poemas Teutões antigos

Assino: coisa. Simples assim. Minha substância acabou mais que depressa quando saí da aldeia. Fui-me enchendo de mundo, do cheiro dos abraços de pessoas que nunca mais iria ver na vida. Costurei minhas roupas feito alfaiate. Meus ternos foram feitos para durar. Minhas peles para esfoliar de quando em quando. E acontece que era eu atirando aquelas bolas de papel no parque. Para te acertar mesmo. Se abrisses uma delas que fosse, verias tantos monólogos impróprios: conversas com meu corpo, sujeiras para as mulheres da noite, abelhas nos ouvidos para cooptar raposas. Infesta-me essa civilidade perfumada da gente. Acaba que nunca acabamos. Apenas dissemos o que precisávamos naquele momento. O ponto final nos haverá senhores idosos, acho eu. Tantos rascunhos por terminar e ai, te vejo comprada com ursinhos de pelúcia. Queria ser tão simples. Ou simplista? Dane-se, no fim das contas a horda passou ao que somos e um dia o que somos passará a outra coisa. Assim caminharemos. Espero não estar mais. Por hoje chega. Não te ofereço nenhuma mais palavra. Tem só um verso escrito em maio ou janeiro, já não sei. Em resumo ele diz que posso seguir em frente. Isso mesmo: autorização pessoal. O que diz suas rimas? Quem disse que poemas desse tipo – libertador – tem que ter rima. Lá vem você com seus esquadros. Até mais! Com minhas próprias palavras. J.M.N.

Agora que acabou eu começo

Agora que acabou eu começo tristeza
Quais coisas me pedes? Um terno? Um pente?
Minhas abotoaduras de ouro?
Não reconheço essas dívidas que apresentas
É um fim de vida que não houve amor
Não é a minha. Contradições sim, desterro...
De onde vens com esses vilões de preto?
Vi que te acompanham com as bocas secas
Beberam tua água, tuas lágrimas, teu suor
Como te revelarás humano?
Não urinas, não choras, não resfrias
Agora que acabou eu começo a dizer
Diante do que fomos, fui muito pouco
Ainda faço todo o expelir de meu corpo
E ácido me onero com a eternidade
E furioso me reconstruo com o que sobrar
E tendo sido acusado:
Espero passar os anos para que sintas
A culpa é um peso de dois fardos

J.M.N.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Show Antônimo e o Nome da Coisa

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De volta a Belém, esta semana, depois de dois anos de ausência initerrupta, o músico Antonio Novaes mostra ao público paraense a fusão de dois projetos que foram criados em São Paulo e na Europa. “Antônimo e O Nome da Coisa”, mais do que isso, será para ele uma celebração, pois vai reunir antigos e novos parceiros no mesmo palco. As cantoras Ana Clara Matos, Gláfira Lôbo, Aíla Magalhães e Juliana Sinimbú e os músicos Patrick Florêncio (baixo) e Artur Kunz (bateria) estão confirmados. Além deles, o show ainda conta com participações especiais das guitarras de Renato Torres e Tom Salazar Cano. O show começa às 20h, no Teatro Gasômetro – Parque da Residência (Av. Magalhães Barata – São Brás).

Texto integralmente retirado de: Holofote Virtual

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quando toda a razão cabia nos vídeo games

Acontecia entre os estragos da casa. Ele se arremetia, sempre que o pouso indicava perigo. Ia aos carros forjados de sua imaginação, andar por ai entre Limoges e Malibu. Muito próprio ele era de ser julgado o agressor, o puto. Aquele que esfregava em suas caras, o que não suportavam. Era ele, sim. Ele o malfeitor de empregadas e adorador de mantras. A despeito de altas malícias, a casa cheirava a prosperidade. O odor enganoso da vitória. Havia alguém empurrando outro alguém goela abaixo constantemente. A loucura sempre arranja um jeito de procriar e vencer a normalidade. Não havia infortúnio pior que os abraços. Antes de mais, voltemos a ele, o inútil: sabes qual será teu fim, não é? Era isso que lhe impunham. A pergunta respondida pelo medo de ele vir a ser o que não coubesse no alhures de suas simpatias, de suas dulcíssimas invalidezes. Estes programas de hoje que repetem infinitamente que podemos. Autoajuda refrescante e idiota. Era ao que vinham uns aos outros. Ajudar-se a sentir, viver, destruir as vontades fundantes de todos. Ele esperava o almoço passar. As duas mais odiosas horas do dia. Todos à mesa, contando o que não puderam vencer. Calados e sorvendo o sal da carne de panela. Ele acometido de impossíveis. Quieto e ardente, trocando sinais com a menina da vez enquanto servia-se de arroz. Violador de normalidade era o que ele era. Ainda bem. E quando o ritual desimportante acabava ele sorria. E sempre que perguntavam, respondia ter-se lembrado de uma piada. Seu jogo perigoso começava. Um desafio no qual seu caráter se fundara. Quando aquilo passava e as brevidades da fome cessavam, viam-no rindo em frente aos seus jogos eletrônicos. Disperso vivente entre os sufragados. E quando insistiam em saber se ele estava bem – perigosíssimo ele atirava: acabei de perder duas vidas, e você? Aprendera desde muito cedo a dizer a verdade, acima de tudo. J.M.N.

Trilha sonora…

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Nós os dois e a vida inteira

Isso não se ensina na escola. Tampouco a vida nos ensina. Não há manuais, compêndios e ainda assim, tema mais que conhecido, pertencimento. Ouvi essa saudade como uma dor de vento que me entrava ouvido adentro e fazia silêncio em todo meu corpo. Esse vazio desconcertante que não engolia a mínima desculpa. Explicações jamais seriam suficientes. Estávamos lá. Nós os dois. Terríveis, cercando cada qual com mais e mais carinho e entrega, paixão e velo. Entupimo-nos. Não era assim? Aquela nossa concepção falha de totalidade. Eu me pertencia mais do que a ti e por isso, quando me tomaste, fiquei sem pertencer a ninguém. Coisas soltas que completavam então: ver um filme sozinho, leitura em voz alta, alguém chegar e dizer – que lindo que tu és. Saber-me estranho a ti era uma aventura. Curtia aos montes. Nunca desisti do egoísmo. Essa parte pendente de todos nós, a solidão. Ora querida, ora amarga, odiada. Referida como a desgraça maior. Para mim o último degrau de mim mesmo. Não a detesto, não conviveria com ela se não fosse tua lembrança. A vida inteira estava ali, diante de nós. Acho que, afinal, tínhamos algo de diferente. A noção de vida, a fração inteira. Ou então era isso: não nos cabia uma vida inteira, apenas nós dois – enquanto durasse. Enquanto o infinito não viesse nos cobrar seu empréstimo. J.M.N.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Que assim seja

Fúria minha, livrai-me da ternura e de qualquer outro sentimento que faça o coração pulsar azul. Dai-me a tormenta e a guerra. Sem trincheiras, por favor. Quero me preencher com uma química que não deixe sobreviventes ou significações. Hoje só quero o amor como pretexto pra uma lascívia qualquer. Abre dentro de mim uma senda sem retorno, uma clareira sem pousos, uma varanda sem cadeiras. Desmonta o que o processo civilizatório fez de mim e faz-me desejar a solidão como quem se lança ao mar. Quero ser a ilha vazia onde nasci. Ser menos que nada nem flor pra se cheirar. Quero estar apartado de tudo, inclusive da história compartilhada. Inclusive do tempo em que fui tão de alguém que não sobraram narrativas contáveis que forjassem, em amarelo artificioso, um final edificante. WDC

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Escrito para excluir solidões

Lá vêm as vespas todas zunindo. Enchendo cada centímetro do ínfimo ao redor com sonzinhos de peito cheio. Gritos de presença. Lá vêm as lanchas riscando os rios, lá vêm deixando-se depois de irem. Seus rastros nos quais meu olho se esvai. Meu mundo líquido é de dentro e de fora. Corre em mim, incorro nele. Lá vêm as pessoas da família e seus ancestrais e histórias. Lá os vêm dependendo uns dos outros, seus risos, seus encontros esparsos. Não saber se podem amar. E depois aquele silêncio queixoso de quem sabe que nada será como antes, mas pode ser muito bom de vez em quando. Lá vêm meus irmãos todos juntos como em um retrato cantado – se houvesse. Aquele de sangue, os que escolhi e os que me escolheram. Lá vem a frátria animada, pronta para vendavais. Garrafas secas deixadas, muita esperança sorvida. Filhos, afilhados, orações pela vida – os irmãos já estão. Lá vem a vontade do tempo, reinando sobre tudo quanto vive, reinando sobre meus risos, minha pele que descansa das mentiras e se solta, cheias de traços e vícios – minha pele demais usada. Lá vêm as marcas do amor. Todas juntas em dias de ócio, todas duras em dias de mágoa. O que fica não é mais que um pó fino sobre as coisas vividas, o pouco pó do esquecimento diário. E o que se leva daqui deste assoalho terreno senão a biografia contada por outrem, fomes decorando a mesa, os conselhos de tantos, os senões de nós mesmos? Nada cala se há uma palavra para ser dita, se há razão em dizê-la. Se há uma solidão por perto, daquelas que quer comer tudo sozinha. J.M.N.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Porque ela chegou tarde demais

Ela veio quando eu já tinha pernas e braços, podia morrer por ai, enlaçar corpos potentes ou fracos demais. Ela chegou depois que a maior madrugada que tive, acabou na boemia de um porto egípcio – uma história que nem sei se é minha. Ela veio depois que eu fraudei a receita, andavam me procurando. Carnês de pagamento na mão. Um vexame. Ela chegou tão depois de eu ter sentido o sangue entre meus dentes e, obviamente, depois de eu ter corrido com a carne roubada por ai afora. Ela chegou com sua certeza e finesse muito, mas muito tempo depois de eu ter esquecido regras básicas de convivência, de como utilizar os talheres. Ela chegou bancando a oferta de quem me deixara penhorado. Ela chegou para policiar territórios, muito depois de eu ter me tornado um ausente, um cigano, um preposto de atavismos, de ideais, de eleições do óbvio. Ela chegou atrasada no único dia em que não poderia – minha partida. Sem poder dar adeus ela chegou perguntando se alguém me vira, se sabiam como me encontrar. Mas eu estava lá. Nem escondido nem às vistas. Estava ao seu lado, ao redor de seus medos. Eu estava sendo preciso no que eu sentia e muito maior do que me cabia no peito, meu coração dela se enchia. Mas ela chegou muito tarde. Chegou a mim, antes mesmo de ter chegado a ela. Que longa estrada ela tinha. O presságio me disse que esta imperícia teria um preço. Mesmo antes de ter-se chegado, ela demorou muito tempo buscando as razões de não se encontrar. E sem uma coisa nem outra – razão e tempo – ela ficou perdida, acenando para quem não estava mais. J.M.N.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nunca é cedo demais para partir

Quando a gente sai gritando de dentro do quarto abrigo, o corpo da mãe deixado de repente, em meio a um cochilo, bem prestes a começar o medo do que virá. A vida vem feito um sopapo, e por essa dor inicial, fundante até, a gente chora. E se acostuma a chorar sempre que perde, sempre que ganha, sempre que a tarde não traz senão a ausência de alguém. A gente já cai vivendo no mundo e espera viver mais depois da morte. A gente espera que a eternidade seja melhor do que a água da chuva explodindo nosso romance, liquidando nosso sono profundo. Nunca é cedo demais andar mais perto de si. A gente fica apertada dentro do quarto da casa. Esperando que a vida invada nossa garganta, que desafie nossos limites e não pare nunca. E se a gente esquece que já está na escada dos anos, na corrida pelo descanso mais quieto que existe? A gente que já tem escaras suficientes aos poucos anos da juventude, ao insulto mais vergonhoso que atiraram – a gente, essa gente de escaras francas e não eufêmicas cai no mundo, segue a estrada. Qualquer estrada que rime: fuga e solidão, saudade e vontade, amor e ódio. A gente segue. E às vezes não escreve pra casa. Não dá notícias em anos. Não é por maldade, por esquecimento, por orgulho ferido, mas pela vida que se conquistou na renuncia. Durante a digestão do impropério, das horas extras de vigília culpada. Razões mil para ferir-se e jogar com a sorte. Nunca é cedo demais para pedir as contas e não querer mais escutar que a sua casa não é sua. Que a presença física é uma espécie de moratória incômoda do que os outros não foram e veem na gente. Nunca é cedo demais para partir. De dentro de alguém para o mundo, de dentro da gente para o infinito. J.M.N.

Trilha sonora… (versão magnífica de Antony para a música de Bob Dylan)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Permissão

A febre não cedia. Ele envelhecia anos sem conta bem diante de nossos olhos. Resolveu pedir. Não queria ficar. Todos ao redor queriam tentar. Ele não. Depois se ficou falando em direitos humanos, processos judiciários, possíveis culpas. E ele lá, dedicado a sofrer tudo por todos naqueles últimos dias. Puxava fraquinho, a beira do vestido dela e ela envolvida na conversa segurava sua mão com carinho, porém nenhuma cumplicidade. Sua voz sumia. Neste minuto o menino entra no quarto. Olha fixamente para aquela pessoa esquecida por todos no recinto e se aproxima. Segura sua mão e pergunta o que ele quer. Um cochicho, um sorriso. O menino se deita ao seu lado. Ninguém repara. A respiração vai descendo até os últimos andares daquele corpo surrado, maltratado pela conjunção de medicina, desencontro e o medo impermutável dos filhos, irmãos, parentes, enfim, que não suportavam vê-lo ir. Jamais lhe perguntaram a vontade. O menino cantava uma música que aprendera e em cujo refrão, havia as palavras céu e azul. O menino ia diminuindo a voz. Muito tempo depois, quando finalmente todos resolveram deixar-se e repararam em quem realmente importava naquele lugar. Viram-no morto. Assustados com a cena, o menino tranquilo ainda cantava, com a mão do doente segura em suas mãos. E aquela imagem de paz inaugurou o fim daquela pessoa dentro deles e os trouxe à verdade da libertação, com uma única e impressionante revelação. Alguém perguntou gritando: o que você fez com o vovô? “Eu deixei ele ir”, respondeu o menino. J.M.N.