terça-feira, 14 de maio de 2013

Sobre o chão que não pisei

“Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre,
un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo.
Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.
Le apreté sus manos en señal de que lo haría,
[…] no pude hacer otra cosa sino decirle que así lo haría,
y de tanto decírselo se lo seguí diciendo aun después de que a mis manos
les costó trabajo zafarse de sus manos muertas.”

Pedro Páramo – Juan Rulfo

Eu bem que podia ser o que diz vim aqui, pois queria conhecer meu pai. E estar na presença deste homem. Que me feriu e ainda fere. Que me trouxe consequências e recaiu sobre minhas paixões inúmeras vezes. Podia ler essa palavra curta e funda em qualquer parede cheia de apelidos revolucionários – e quem sabe tê-lo por companheiro, camarada, revolucionário. Seria, seu emprego, contra os desmandos, a violência, aquilo que escapou à sua geração e que chegou pesado sobre a minha, tardando as escolhas, macerando a coragem. Usaríamos os dois o mesmo apelido. À paisana poderia andar secreto entre os caminhos do meu filho, pesquisando suas amizades, antevendo os perigos depois de cada esquina. Mas escolhi deixa-lo fazendo a trilha, apaixonando-se pelo que encontrar no caminho. Na paisagem queria ver o pai estancado como que fotografado pela minha lembrança na melhor viagem que fiz em sua companhia. Paira no ar meu desejo sempre que penso no que não disse, na valentia que se engaveta. Vira uma espécie de dolo, ao que parece – querer me encontrar sem um guia. Alguma coisa não acontece. Minha barba por fazer, sugere o descuido que eu mereço exercer. Sem que a amizade seja uma obrigação. Sem que campainhas lhe soem preocupantes anunciando uma ou outra insuficiência minha. O nome veio e não o conheço por inteiro. Ainda falta ir e dizer o que ando deixando de lado. Por hora um gosto indeciso. Compaixão pelo que não me significa e que é necessário significar. Queria saber a hora de espairecer as ideias. Ser leve e comer devagar. Enquanto não posso, digo por ai que sou um escritor e que meu estilo não tem nada a ver com a tristeza. J.M.N.

O jogo acabou e faltou um pedaço

Foram vinte e três tentativas. Todas ocorridas durante a noite, período em que estávamos mais vulneráveis. Montávamos quebra-cabeças. Peças espalhadas pela mesa, um bom vinho, pertencimento. Às vezes uma música clássica. Acalmava. Tudo posto. Quando acabávamos de montar mais um era o que dizíamos. Assim foi. Mais ou menos dez anos. Um quadro de Tarsila, obras de Paul Cézzane, pictóricos de Da Vinci. Uma coleção de arte feita a quatro mãos. Sob as vontades da noite, as tonturas do vinho, a arrebentação da entrega. Haveria de não compreender a razão de ela não acreditar em mim. Mas depois parei de pensar. Não faz sentido. Estou aqui todas as noites, construindo, montando o espetáculo refinado de nossos polegares opositores. Tínhamos talento. Eu nunca tive dúvidas durante aqueles jogos. Talvez por isso ganhássemos sempre. A única vez em que duvidei foi por causa de um monte de peças de cor escura que não se encaixavam de jeito nenhum. Era um trabalho complicado formular as bordas daquele puzzle em especial. Fui tomado pela dúvida. Duvidei da beleza, do almanaque de nossos dias. Duvidei que fosse capaz de garantir-lhe segurança, mesmo naquilo em que ela vacilava. Te perdoo por não acreditar. E nada mais. Nesse único e triste trabalho, falhamos. Um cão comeu uma das peças. Só vimos depois. O papelão tufado e estragado em saliva. Disforme o pedaço que já faltava. Não tivemos coragem de tocá-lo. Os contornos escuros, a indecisão sobre a validade do artista que emprestou sua obra ao nosso brinquedo. Mas, sobretudo, aquele pedaço que faltava. Aquele espaço no meio da completude. Um vão na beleza deitada. Completamos o mosaico de mil e tantas peças e por causa de um furo, abandonei o que foi feito. Nem vi que a luz também cabia naquele espaço não ocupado. J.M.N.

Para ler escutando…

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Teoria Geral do Esquecimento

Esse é o título do último romance do autor angolano José Eduardo Agualusa. O livro retrata as reivenções necessárias nas vidas de uma cidade sendo devorada pela guerra – no caso, Luanda. Ludo, a protagonista, sobrevive no seu auto-exílio numa mansão no meio da guerra, emparedada e se alimentando da carne de pombos e os restos dos tempos de fartura. Se aquece em fogueiras de livros e móveis. Mantem a sanidade com a companhia do cachorro Fantasma, e escrevendo. Primeiro em papéis e, quando estes acabam, nas paredes da mansão. Agualusa pediu à poeta brasileira Christiana Nóva que se vestisse de Ludo e escreve alguns poemas pra servir de epígrafe de alguns capítulos. Nóvoa concebeu os poemas “Haikai” e “Exorcismo”. Este último reproduzo aqui, pra quem ainda não entendeu, entenda que a escrita não é hobbie, é bote, é abrigo e trincheira. wdc

lavro versos

curtos

como orações

 

palavras são legiões

de demônios

expulsos

 

cortos advérbios

pronomes

 

poupo os pulsos.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primal

Sou um pouco de cada coisa que me aflige: a unha que soa a navalha, que risca a noite livrando o orvalho por sobre. Sou do apelo à pedra da ponte. A que segura o peso da minha tristeza quando a atravesso. Indo, as libras do abandono; vindo, as toneladas de mundo que me injetaram. Sei das coisas que me acalmam: a mão do filho igual a minha, suas notas desesperadas no caderno. Sou pelo beijo que a noite dá nos vagalumes. O lado errado do lençol na pele. Sou pelo desvio numa estrada que encima o ar. O tão longe da esperança que vai por ela. Aprendo a areia – o princípio delicado do vidro; aprendo a canção – inocência de quando meu pai era imenso; aprendo a morte – hematomas e vênulas rompidas na pele dela sem movimento, o lugar nenhum da minha solidão. São estas as coisas que aprendi. A partir das quais infiro ser deste ou daquele mundo. Dentro de onde o disfarce é meu rosto, o inimigo sou eu e a ponta da lança está a um dedo da garganta. E grito de todo meu ser – avance. J.M.N.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Reboco

Arranho as unhas nas paredes nuas
Firo, incontável
Perco o rumo, anão imenso esse amor
Me assusta e vence

Sou da parede quando ela me empresta a dúvida
A casa cai sem ela?
Subo as escadas, o paraíso
Ando por naves e níveis de pó

Oboé tocado assim quase me nasce
Mas intercalas
O suave meretrício da minha náusea
Com vícios de verme e pudor
Tuas pernas assim abertas

Comem o tato, a palidez da virtude
Expande, tudo quanto não nutre
Resseco, avassalado
A casa não cai sem ela

Eu é que não tenho onde morar

J.M.N.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Todos os nomes, toda essência

Qualquer nome te serve. Qualquer engradado te estoca. Posso te chamar aos gritos, te repetir como promessa, por vingança ou por crença na eternidade. És o maior suspeito pelos meus erros macabros. Mais ainda pelos meus acertos inteiros. Vens com lama pelo corpo. Límpido como quartzo esfumado. Vens. Alegre. Triste. Como um braço amputado que na canção padece com as fisgadas da saudade. Vens como o tempo que se uniu em minha inconsciência: ontem, hoje, amanhã e sempre. Linha junta no infinito. Fixo e enfocado como a imagem preferida de alguém. Trocado por uma carta alega distância ou medo. Covarde ou bravo. Em batalha ou calmaria surges e vens. Andando. Em berlindas. Sob o sol ultrajante dos desertos. Conquanto feliz por ser mais antigo que a antiguidade, fazes parte da primeira nuvem de poeira cósmica. Fazes parte da primeiríssima célula do mundo. Tantos te chamam de luto, melancolia, esforço sobre-humano de existência. Inalcançável te chamam outros e outras. Os esquecidos te chamam de qualquer coisa que podem levar à boca e matar um décimo da fome que os traga. Profuso, ostentando encouraçados, feito uma armada pronta para finalizar uma costa e matar todos com sua carga explosiva. Vieste desde antes de meu despertar. Vieste cheirar os restos da minha mãe sobre meu corpo logo após ela me dar à luz. Aquele misto de entes e entidades – surpresa e afeto – o só elemento que nos acomoda a todos pela primeira e última vez nas tenras horas de existência. Não dependo de ti. Mas me apresentaste a novidade da divisão, da partilha. E agora não chego a sozinho senão com esforço e faca. Eu que era só pra mim um naco de totalidade e pedra. Alguns te chamam de culpa, chamam desespero, dor que não cessa. A maior das alegrias, vivenda dos quereres e da entrega. Não sou eloquente. Não uso temas ou artigos indefinidos. Chamo-te pelo nome que aprendi ao lamber a solidão das descobertas e a quentura inquieta da carne fresca. Chamo como fosse um romance inteiro, tuas quatro letras amor. J.M.N.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Convite Especial - “Sabarau aos Vivos”


Segue o convite de nossa primeira promoção “aos vivos”. Felizes em poder realizar este momento na companhia de um grande parceiro: Gustavo Rodrigues e no espaço da Saraiva que tanto tem feito pela cultura de Belém, sob o comando da querida Tainah Fagundes. (J.Mattos)
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Sabarau III

quinta-feira, 4 de abril de 2013

As palavras a continuam

Ela sumiu completamente. Nem memória ela deixou.
Isso que se escreve quase sozinho sobre ela e o que não ficou é como um reflexo.
Incontinência das palavras que buscam significar até o que não significa mais nada.
Choveu muito naquele dia.
Choveu a chuva de dez anos.
O nível do rio subiu. Cardumes ficaram afogados.
Todas as pegadas e relíquias pré-históricas se foram. Mas as palavras continuam.
Tomam forma. Têm sequência. Não pensam, não adoram, não lambem os dedos por causa da intensidade do gosto.
Aquela chuva foi tudo o que eu queria chorar quando ela se foi, mas não pude. Porque sou apenas um homem sozinho e a água que eu tenho no corpo ainda precisa me dar sustento, fazer a maciez da pele para ser a cama de alguém.
Só por isso não chorei uma tempestade.
O que me sai quando escrevo essas linhas não é mais do que minha prisão de palavras.
Meu escravo se curva.
Sou sempre preparado para o trabalho de escrever. Por isso, mesmo não chorando, deixo derramar esse monte de letras e palavras sobre o sumiço dela e sobre o que ela nem me deixou.
Talvez as coisas sejam assim.
Uns choram e logo sua dor passa.
Uns se matam e logo viram nuvens que chovem feito a debulha de toda a água do céu.
E têm aqueles a quem não basta chorar ou morrer, torcer-se ou vingar.
Aqueles que vertem letras e escolhem palavras para fazer bem feita a ação de esquecer. Mesmo que o processo deixe o preto no branco.
Mesmo que outras pessoas se caiam sobre as teias finíssimas que sustentam esses escritos.
As intensas simplicidades escritas a respeito de alguém que se foi e sobre aquilo que não foi deixado e que, mesmo assim, incomoda e causa espanto.

J.M.N.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

cinco anos e o quê mais…

O amor nasceu na linha um. E fui tocando. Semelhante a um diário, um tratado de sem sentido, o gosto impune do beijo em cada vírgula, e, nas sentenças extremas, o tratar de feridas, costurar dos tecidos infeccionados e doloridos que ficaram ou que demoravam em cair. Pouco a pouco uma forma própria se anuncia. Novo corpo de vaidades e sentidos. Engolida a peçonha do tempo e da imprudência, nasce um furor como aquele de três décadas atrás. Um furor pelo novo, pelo nunca visto. E isso em mim foi como um banho de lavagem profunda, entre as camadas, as lâminas da consciência se afiando direto na carne. Dedicadas palavras. Palavras de cada dia e de tempos sem tempo algum. Os olhos de quem se foi, veias de quem ficou e perdeu no fim. Esse gosto de apelo na língua. Essa língua ocupada em criar a serviço da mágoa, do renascimento, da escolha, enfim, da saudade. Há quase uma era ando correndo por aqui. As letras se adiantam e como um raio destinado à catástrofe reaprendi a ver as cores do mundo, o peso das palavras, o infinito que pode ser morrer mil vezes antes acabar. J.M.N.

O homem dentro do que digo

Olhai e cobiçai minha derrota. Imolaram-me
Tornardes dente da engrenagem que me destrói
E com o corrosivo abraço, uma cadeia cinza
Envolve-me mais uma vez nos teus quetais

Tendes à boca, a víbora peçonhenta do algures
Ser nenhum assina tua obra – és um fantasma
Que quando aparece, açoita o escravo em nós
Teu pó viceja como a zoada do abate – o morto

E o morto soçobra de teus passos, agilíssimos
Embora finados esses mesmos passos, vilão
Tu és a oposta força que me escarnece, és nada
Tendes a lei e a doutrina como irmãs, e eu, nada

E teus tratados não conversam como eu, livres
Dos atentados da soberba, das miragens gastas
Internado no futuro, sou o que jamais serás
Homem, morno e estúpido, a carne simples

Feito a guisa de liberdade.

J.M.N.

terça-feira, 12 de março de 2013

Antecedente

“Parai tudo que me impede de dormir:
esses guindastes dentro da noite,
esse vento violento,
o último pensamento desses suicidas.”

O sono antecedente – Jorge de Lima

Aos que andam pela noite sem princípio nem fim, eu rezo com a voz nublada e sem limites – somos todos irmãos. Somos todos da mesma pedra no caminho de tantos.

Aos marechais das guerras vencidas por outrem, oferto meu uniforme de gala. A pose, a fome, meus objetos de pendurar luares. Somos todos, guirlandas de festa e fatalidades para algum covarde que não viu nossos sinais de alerta.

Aos homens do esgoto. Aos cérebros malignos. Às artesãs do corpo, minha coragem. Revolvem o que apodreceu, pensam em tantos assassínios que não lhes sobra vida para cultivar amigos e, por fim, dormem com tantos insones que não lhes sobra cansaço para que venha alguém e queira velar.

Aos amigos que partiram. Aos amores que morreram ou se mataram porque pequei. Aos fedores das lembranças sobre as cômodas de alguém, minhas desculpas mais sentidas. Não lhes soube as raízes e, portanto, não as alimentei. Não me soube a tempo e, portanto, envelheci.

E como aos cheiros não se emprestam carícias, sinto não ter chegado antes de ter sido usado. Apenas para evitar a lucidez tardia da derrota. Apenas para caber no tempo antes de toda a dor. J.M.N.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Desposse

Era meu apelo chamando e chamando
Agora, é o que não grita nem
Há silêncio em todas as notas
E avisto a distância impensável
Que antecede o lugar que me atém

O beijo fundo e sem gosto
Com que me gosma a língua do destino
Vai sucumbir – ferido e deposto
No que sentir a viva em seda
Nascente, doce e inteira

Do que não tenho, mas procuro
Um gosto que decerto antecipa
Lugar que não contem quase resposta
Todas as letras e, entrementes
Encontra-se toda a humanidade

Justo o que falta ao carrasco.

J.M.N.

Po(e)magem #9

Sobre foto de Affonso Romano (grupo Nanos)

image

Quando eu chego ao fim de tarde alaranjado
Venho minguado na grandeza que me alteia
Em todo canto me transformo e vou caindo

Não como os deuses de antigamente vou sumindo
Vou como homem me agasalhar adormecido
Dentro da noite que minha luz assopra e vence

Saudoso da eternidade em seu sorriso
Que ao ser solto me procura e reacende
Torna-me um sempre, ser alado e radiante.

J.M.N.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Porque voltei

Voltei por amor. Por medo. Por achar que não podia conquistar o planejado. Voltei por razões secretas, escusas até. Jamais simples ou impertinentes. Voltei porque a terra me saia da boca, porque meus olhos estavam cada vez mais admirados pelos campos de cereja em flor e pelas peles mouras dos cantos de lá. Sem mais, eu voltei.

Pisei os mesmos percalços, as mesmas intrincadas dúvidas sobre ser ou não ser. Pisei nas dores de outrem, nas esperanças de muitos, no silêncio insuportável de um. Pisei, afundando meus pés nas areias traiçoeiras do exagero, da instância última – a língua precipitada de afloramentos. Pisei meus princípios, meus medos, minha genealogia complicada. Cheio de forças, pisei no passado.

Agora a volta é antiga. A hora trágica da descoberta da solidão é um sonho repetitivo e as conversas sobre quem serei ou o que deixei do outro lado não andam mais na moda. Agora é o presente pastoso de pássaro sem grades, de monstro sem sustos e de canalha exumado. Meu amigo escravo persegue meus riscos. Agora é a memória dos amanhãs e a certeza de que muitos passos dados vazaram pelo caminho.

Voltei para repetir os triunfos sobre mim mesmo. E falhar mais uma vez às portas do tédio. Voltei para certificar os pecados mais desejados, os cumpridos, assumidos. Até aqueles, que levarei para o túmulo. Voltei, uma vez que por dentro eu era o mundo e por fora a mesma rua por onde passava a minha esperança de vê-la. Voltei para os pastos idosos dos meus campos da infância, ao choro fino pela morte de Dadá.

Voltei para esperar que meu dentro de mundo se revele e me rapte uma vez mais. Para mais um sempre medido – um ínfimo imenso. Quero que isso tome conta do que não suporto e me atire ao acaso. E me atire ao além do que é possível. Tão somente canção e poema. Tão somente o que sou mais no íntimo – tantos sentidos dentro do mesmo e finito conjunto de ossos. Um nervo percorrido pela vida.

J.Mattos

terça-feira, 5 de março de 2013

Sem defesas

Ando todo sensível.
Durmo quem nem por sobre um monte de plástico-bolha. O estalar crescendo, micro batalhas atestam-me a vida. Bolhas de ar extinguindo. Somos eu e minha ansiedade adormecendo.
Distante, o crepitar dum fogo. Lareira que dentro de casa acende o teu rosto. Venho atônito. Descambando. Tivesse escadas em nossa casa, eu teria caído. Tivesse a memória bem feita, diria meu primeiro poema como se fosse teu, que te espero uma vida e meia, inteirinhas.
Disseram que eu viesse aqui, sempre ao papel.
Confessar.
Fosse um padre, não falava.
Fosse meu pai, teria vergonha.
Fosse você, teria perigo para minha estadia. Podia afinar feito um líquido, indo seguir uma grota qualquer dentro da terra.
De tão urgente de ti, sou medroso.
De tão cheio de intento, meu tato sacode as palavras.
Elas se criam.
Comidinhas de nervoso e impressão belíssima sobre o que mais me agasalha – teu olhar me amando baixo e firme.
Não sou desse tipo que se renova.
E ao ficar mais velho, aprimoro o único sentido que me faz bem, o olfato. Com ele tuas distâncias se encurtam, os dias sem a tua presença se expandem e eu acrescento mil descrições sobre a perfeição de quando estás.
Faz-me uma certeza que seja. Morde meus livros, bagunça as fotos, termina minhas frases de despedida.
Faz isso para que eu supere a sensação desgastante de desejar ilusões. Para que não avoem as sementes envoltas de algodão – amor e medo. Fuga e fingimento.
Não que eu queira te dar todo o trabalho, mas experimenta levar um quarto do que trago nos olhos e entenderás.
Sempre que te vejo, são cem desertos que percorro, são mil as liras que me acompanham, são milhões os raios que me alertam e apenas uma a razão.
Vê o quanto o amor tem de companhia e a verdade ou os dias, têm tão poucas defesas contra sua chegada.

J.Mattos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pra quando a dona chegar

Sou teu de um tanto
que quando corto as unhas
faço como quem afia a lâmina
que revelará os teus confins.

Cuido dos pelos e dos cheiros.
Premedito o esquecimento dos cotovelos
só pra produzir a tua implicância,
pra que digas que tenho que me cuidar mais
e ofereça os teus préstimos.

Não te parece lindo
que todos necessitem de alguém
para se ter a si?

Por isso sou teu esse tanto.
E tomo banho como quem lava a casa
pra chegada da dona
E corto o cabelo como quem capina um quintal,
recanto de estar alheio ao tempo
E guardo lágrimas num potinho
que te envio por um conhecido
junto com um recado:

"Aqui quando chove
faz um frio maroto
que só aquele abraço de noite inteira
é capaz de extinguir"

E despacho o embrulho
imaginando que tingirá de verde
o teu olho alagado de saudade.
WDC

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Perguntas de Ontem

O carnaval passou, minha máscara caiu. Não há folia em meus salões e depois que a noite cai fica um silêncio que me assusta. As ruas não têm passistas. Alamedas não têm namorados. O som das coisas é apenas o cotidiano tomando corpo novamente – um bater de copos, afiar de facas, um sem fim de saudações sem sentido. A manhã depois de tudo acontece sem perdão. O sol é fustigante. Doem os olhos, as juntas, as paredes do coração e da memória. E apenas uma canção anima tudo. Fina, dissidente. A canção da esperança que sopra seus versos: foi melhor assim, vamos saudar o amanhã...

Pergunta de Ontem 1: o que farás agora que a tua máscara caiu?

Pergunta de Ontem 2: o que sopra tua canção da esperança?

Cartas a Ninguém (23.01.2013–19:47h)

Querida,

Há muito não te escrevo. Nenhum motivo à mão para te apresentar. Entretanto, não posso dizer que foi somente um silêncio. Existe um motivo, certamente. Mesmo que ainda me seja oculto, desavisado ou, simplesmente, reservado ao mundo discreto dos meus esquecimentos.

Dia desses fui à tua casa. Aquela sem portas e janelas. O abismo do entregar-se a qualquer preço, mesmo que seja a carne toda investida num único beijo. Fui para meditar sobre a frequência cada vez menor de minha angústia em relação à felicidade.

Como sempre, andando nos avessos.

E te encontrei por lá toda limpa, cores diferentes nos cabelos, nos olhos, no costume das roupas. Estavas na moda. Na velha vitrine que oferta e, cujo estilo, espera ainda alguém que desabotoe do engasgo finalmente. Estavas simples.

Fixei uns minutos tua presença. Não me viste. Não fiz questão de me mostrar. No fim dos minutos tudo passara. A saliva secou na boca. O vento extra da respiração exauriu. Mudou o ressonar de minha pele à tua presença. Eu estava descansado. Eu estava completamente.

Nesta hora tive a certeza de que em mim, o poeta nasceu primeiro que o homem. E o que mais o poeta encerra senão o mundo dentro de si. De maneira que minhas cicatrizes são as mesmas que separam os continentes e, no entanto, cabem em mim os bilhões de esfomeados que nos acercam. Os mesmo todos infinitos que esperam para ser o que eu já fui.

Soprei-te um beijo convincente. Passaste a mão na nuca, quase se declarando ao arrepio. De repente alguém chamou meu nome e eu voltei de onde estava enquanto te via existir tão distante. Voltei do mundo íntimo que me procria. Cheio de sal e textos e Orixás.

Sou aquele que protegido de mim mesmo, ainda comete infinitos em nome do que levo dentro. Uma inteireza por não saber nada sobre o futuro. Esta certeza de que meu passado não reclama mais o retorno dos meus passos.

Sinceramente,

J.Mattos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quem escreve os romances?

Ontem assisti minha terceira versão de “Os Miseráveis”, incrível saga sobre as condições de vida e relacionamento do povo francês com a justiça e outras instâncias estatais entre a batalha de Waterloo e os motins populares da Paris de 1832. É, para mim, além do mais, uma história sobre amor e revolução, esperança e sonhos maravilhosamente escrita pelo francês Vitor Hugo no século XIX. Sobre o filme-musical de Tom Hooper, diretor que já venceu o Oscar com o “Discurso do Rei”, tenho apenas uma coisa a declarar, e o farei com a mesma simplicidade entusiasta com a qual, imagino, o editor de Vitor Hugo tenha recebido os manuscritos originais: brilhante!

Emocionado pelos efeitos visuais e intenso apelo emocional que a história sempre me suscitou, passei toda a sessão em misto de enlevo e falta transido por um pensamento fixo, uma busca silenciosa por lembrança que fosse acerca de talentos contemporâneos similares aos de Vitor Hugo, Prosper Merrimée, Machado de Assis, Lúcio Cardoso, Juan Rulfo e tantos outros grandes escribas. Quem escreve os romances de hoje? Quem são os sagazes observadores de nossa sociedade, que emprestam talento e tempo para delinear nossas lutas e vitórias, nossas contradições e dissensos?

Talvez coubesse mesmo perguntar: quem se importa com isso nos dias de hoje? Tudo à mão, a reflexão entocada nas gavetas, as ousadias política e social sedimentadas por discursos sub-reptícios e estéreis, a imagética bombardeada pela TV e pela Internet, disparando preconceitos e compreensões totalitárias e perigosas sobre tantos assuntos importantes, permitindo a proliferação virulenta de expressões inconsequentes, de opiniões, de gestos. E, por outro lado, tantos assuntos emergentes sendo tratados com velhas fórmulas intelectivas, escumalhos de racionalidades cristalizadas e amiúde perdidas entre os momentos da história. No caso do Brasil, a não tão longínqua ditadura e a ainda não bastante amadurecida redemocratização.

O chavão “temos que repensar os paradigmas”, talvez requeira algo mais radical – o repensar da própria concepção de paradigmas. Não estaríamos chafurdando no caos de modelos defectíveis e ultrapassados? Pior, há modelos seguros a empregar?

Os personagens de Os Miseráveis encarnam, em meu ver, estamentos sociais que necessitam nossa permanente vigilância e revisão: Fantine, vítima do abandono e da injustiça – atacada por ser mãe solteira e obrigada a dispor de sua dignidade às margens da cidade, por leitos alugados, o corpo invadido; Jean Valjean, aprisionado por roubar um pão para saciar a fome de um sobrinho e marcado com um número que o descaracteriza como humano e o transforma em objeto do estado.

Mesmo tornado cidadão exemplar, Jean não se desgarra do passado, moldando-se pela culpa de ter sido substituído em juízo por outro homem e relutante em aceitar seus bons feitos como pago da dívida sagrada que mantinha com seu Deus. O duríssimo inspetor Javert, cuja insígnia policial e o passado militar o fazem executar as leis de maneira inflexível e impiedosa. Esta é a razão pela qual, ao ver-se conflitado pela busca de redenção de Jean Valjean e o seu ato de libertá-lo em vez de mata-lo na barricada por estar espionando os rebeldes, não suporta o conflito interno e tira a própria vida. Atira-se no rio, não sem antes questionar como seria possível viver com o peso de um condenado aos seus olhos, ter sido piedoso quando ele mesmo não conseguira ser. Este não é um conflito presente? Não está sulcado na textura social dos dias de hoje?

Sem perdão para si, o personagem permite que a culpa seja mais forte do que o perdão e atualiza a perspectiva de Hanna Arendt sobre o auto perdão como uma potentíssima via de acesso para um melhor convívio com a diversidade social. Assim como o auto perdão, o reconhecimento de um ato de amor transforma o olhar exclusivamente revolucionário do jovem Marius, em um sentimento de cuidado ainda mais profundo em relação à sua amada Cosette, filha adotiva de Jean Valjean, o rebento pelo qual Fantine lutara em busca de sustento no início da trama. Perto da morte, Jean Valjean é declarado quite em sua dívida com a vida, tanto pelo reconhecimento de Marius, quanto pela confissão de seu passado à Cosette.

Nesse emaranhado de sentimentos e símbolos, o breque da revolução tira a vida de jovens idealistas e corajosos, relegando-os ao abandono da camada à qual, precisamente, destinava-se sua luta e soerguia-se sua voz contra a tirania, a exclusão, a falta de direitos e quitais. Entrementes, a mesma revolução mobiliza outros tantos perecidos na tutela de um estado opulento e sectário, cuja abandalha atiça as brasas da pobreza para servir-se do conforto dessa fogueira de perdidos. Quem são Os Miseráveis afinal?

Ao sair do cinema, uma imagem ainda me arrancaria uma última lágrima. Uma senhora muito idosa sendo amparada por duas outras senhoras levantava de sua poltrona e declarava baixinho: que maravilha, que maravilha. Musicado, filmado, encenado com cores e luxo nas óperas de Londres e Paris, a história de Os Miseráveis é mesmo uma maravilha. Ler o romance, escutar as belas músicas criadas para potenciar os diálogos e incrementar a dramaturgia da trama é um excelente exercício de aprofundamento no espírito humano para qualquer pessoa em qualquer idade. Desde as que tiveram a oportunidade de ser educadas com romances, até aquelas que esperam ver resolvidas as tramas romanescas em uma imagem, nas letras da última legenda.

Quem escreve os romances de hoje? Minha pergunta, enfim, fica aqui sem resposta. Apesar disso, ao terminar este texto, me dou conta de que o mais importante é que o romance ainda existe. Pode ter o nome de maravilha, maravilha, pode ter o nome do amigo que me acompanhou ou da pessoa amada que segurou minha mão enquanto eu chorava no escuro. Basta-nos olhar ao redor, reconhece-lo, ter vontade de questionar e registrar pequenos gestos, grandes experiências. Quem sabe assim, o escritor do maior romance sobre nosso presente tão fecundo e ao mesmo tempo tão terrível, pode ser você. J.M.N.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Contra o trágico

Dói minha mão pelo não feito
Meu peito aberto dói igual
Arpoados nos leitos, nos fins, na desgraça
Os cardumes de amor
Nadam em fuga, tão longe de nós

O mundo dói em mim
Quando a vida de alguém termina
Dói semelhante quando nasce
Ao riso grotesco dói minha língua
Há sabores demais neste desamparo

E cuido menos quanto mais dói
Meu ser finíssimo vai desaparecendo
Dói o espelho ao perder sua função
Sofre do avesso o verso que escrevo
Dói afinada e entrementes cuida.

Prescrita contra o demais, a minha solidão.

J.M.N.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Somos todos um teu poema


Hoje percebi que os anos já te pesam como segredos de ex-amantes. Que contas histórias com nitidez de detalhes: a renda do teu vestido de casamento, o nome dos teus netos legítimo e dos contrabandeados por essa tua descendência sem freios. Narradora trabalhada nos preciosismos, mas que não lembra pra quem contou as histórias, repetindo-as como quem quer se eternizar.

Afumentar, jejuar, catar, alinhavar, cerzir. Esses verbos que, de tanto uso, só a ti pertencem. Dos tempos anteriormente a nós mesmos vão saindo psicologias que nos explicam a todos.

Daí de casa nos observa, rainha, como formigas morcegando a perdição.

Esses filhos teus. Já obraram coisas que mais se assemelham a oficinagens do capeta. Mesmo assim nunca abriste o portão desse vazio pros crentes que batiam. Te reservava às novenas e Deus te obedecia (ai d’Ele!). Quando salvar era a tua súplica, ele acorria. Quando era para o Bem trazer e o Bem deixar, Deus operava bonitezas de não poder. Inclusive na vida deste um no que a tua demão parece que já se desbota.

Mas não. Não te ponhas em engano. Eu cheirava os livros do Zeca a te buscar, essa tua ternura que eu fingia ser pra ele sendo pra mim.

Queria teu olho abandonando a máquina e rebrilhando a avivamentos como quando eles se fecham na roxura do açaí. Queria tua mão pintada e o teu cabelo, mais uma vez, vermelho. Poder te dar uma última chance de reveres os teus sete erros como quem mira sete versos, e não encontra um poema. Queria essa tua liberdade de viver apenas pra quem se ama. WDC

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Fúria

“Thou therefore whom thou only canst redeem,
Thir Nature also to thy Nature joyn;
And be thy self Man among men on Earth,
Made flesh, when time shall be, of Virgin seed […]”

John Milton – Paradise Lost, Book II, lines [280-285]

O Paraíso é certamente sem sentido. Dominante o gosto pela morte. Vem sempre a despeito de tudo. Remédios, coragens, escritos. Esforço-me para usar a maquiagem de todo dia, por o disfarce e sair por ai. Hoje não, hoje não. Espalho os frascos de mentira. Serei apenas eu e minhas todas desgraças. Hoje o contato com a mais secreta estrutura me acende. O mais essencial e primitivo me expulsa da cama com a força dos megatons de Hiroshima. Primeiro, esmurro a parede. Depois decreto a morte de alguns amigos de antigamente. Execro o sorriso dos vizinhos e vejo tão pouco à luz do dia que dispenso a visão. Será, então, o que sinto. Apenas isso. Mais do que posso diminuir com eufemismos. Prefiro a boca amarga da dúvida que de cima do muro acena solícita e sedutora. Como podem as ruas me dar caminhos? Não sigo seus mapas. Quero estar perdido. E quero tanto que orações invento, que deuses exumo. Não vou por essa retidão sem graça que me impinge os parentes, os professores o amor até. Vou degradado e sincero, a preferir o sangue dos pés que andam à saudável refeição de quem não sai do espelho. Isso me custa um bom pedaço. Pedaço que dou como fosse uma fúria, como se fosse a carne de Milton – “And be thy self Man among men on Earth, Made flesh, when time shall be”. E se é isso e apenas isso o que tenho – a fúria – dou-a também a quem neste dia se encontrar comigo. Fúria de ver tudo novo e cuspir aos que me acusam de absurdo, fúria de descobrir que nenhuma tragédia é maior do que o alcance das palavras que aprendemos. E continuar aprendendo palavras para escarnecer o sentido duvidoso da alegria, fazendo-a tão sensível ao corte, como é a solidão quando invadida. J.M.N.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Detesto Belém

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Escrevi esse texto em 2010, esperando poder publicá-lo numa revista da terra. Infelizmente não foi possível. O amigo Angelo Cavalcante o abrigou em seu blog Veia Pop e por lá ele ficou conhecido. Recebi uma ótima quantidade de e-mails comentando o texto e fiquei com a impressão de que tinha acertado a pena. Num começo de ano onde pipocam discussões acaloradas sobre Belém nas redes sociais, evolvendo, inclusive, amigos meus, acho que vale à pena reproduzi-lo em nossa casa. Entre idas e vindas, bem ou mal, falar sobre Belém é sempre instigante.
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Detesto Belém! Seus azulejos e sobrados antigos. Detesto esse charme de cidade-luz, incrustada na densidade das matas do Norte. Algo que não nos abandona nunca, mesmo que estejamos de passagem. Não gosto de imaginar as ruas cercadas de mangueiras centenárias por todo o centro da cidade. Muito melhor percorrê-las, sentir o corpo de suas lendas. E partindo de um desagrado ambivalente a respeito da sombra de suas árvores e da distância entre aqui e meus sonhos é que entendi que meu coração já estava cercado de presenças, da alegria dos encontros, dos cheiros esquisitos das coisas de minha terra. Descobri, em meio ao tumultuo de ir e vir, que o mais triste seria não ter raízes, não pertencer a lugar algum, não poder dizer que nasci em uma cidade cujo nome em si é um poema – Santa Maria de Belém do Grão Pará.

Em minha cidade tem chuva farta, a qual não cansa até que sequem as nuvens e estas, vizinhas da floresta mais imensa que já se viu, não sossegam assim tão fácil. O choro dos céus regula a vida das pessoas, ordena o dia e faz com que os amantes marquem seus encontros para depois de passar a chuva. Um banho nessas águas longas de, às vezes, dias seguidos é mais do que uma experiência, do que uma brincadeira infantil, é sentir-se limpando escaras escondidas no centro de nossa existência. A chuva de Belém é como um outro rio a descer sobre nós.

No mercado do Ver-o-Peso, mulheres certas das simpatias de amor vendem suas efusões em garrafas coloridas e perfumadas, chamando os clientes a resolver seus problemas sentimentais com alguns banhos de ervas e iguarias que só existem aqui. Há praças e cantos que exalam história e triunfos de civilidade e vanguarda. Foi de seu Forte do Presépio que partiu a primeira esquadra de guerra que acudiu o vizinho estado do Maranhão cercado pelos holandeses, no século XVII.

Quando estou longe, o pensar em minha terra dói muito além de meu peito. Dói no esqueleto que sustenta minhas aventuras pelo mundo e minha estrutura de gente recorre às linhas de Dalcídio Jurandir, Rui Barata e Paes Loureiro, além do Verde Vago Mundo de Bené Monteiro. Quando estou longe, doem-me os versos da canção de mestre Edyr Proença e Adalcinda Camarão, em cujas linhas se pode reconhecer um amor de adoração infinita pela cidade natal, traçado no morno de tardes descalças, nas lembranças do povo, do rio e dos peixes. Estas lembranças salvaram muitas noites solitárias em terras frias e distantes.

Tudo se vê em Belém. Esquisitos monumentos ornando as vias. Casas antigas com imagens de santos nos cumes mostrando a força de uma fé que congrega a todos e se renova. E a cidade anda pelo mundo. Seus filhos são fiéis adoradores do pertencimento, bem mais que simples bairrismo. Espalhados pelo Brasil e pelos continentes, ao falar sobre Belém, parecem querer traduzir a necessidade de levar a cidade no bolso, onde quer que se vá, como uma memória mágica, um amuleto para as horas de saudade intensa ou um código para o reconhecimento dos pares. As pessoas daqui não dizem que são familiares de Silvas, Mattos ou Oliveiras. Elas são de Belém.

A Belle epoque nos deixou o Theatro da Paz, onde ainda hoje podemos assistir festivais de ópera. Tem uma praça que congraça boêmios em frente a uma igreja, onde se podem escutar raridades da música brasileira ao ar livre, comendo um bom peixe frito e escutando as histórias dos loucos de plantão. A cidade tem tradição em reunir sagrado e profano, de concluir os rituais religiosos com festas pagãs de rara beleza e personagens inesquecíveis.

Em outubro de cada ano, as pessoas, como santos, andam e rezam e pedem graças, compõem ofertórios, visitam parentes, cozinham pato no tucupi, maniçoba e amenizam suas culpas. Caminham horas pelas principais ruas da cidade, numa procissão pela Virgem de Nazaré. Muitos destes fiéis vão atados a uma corda que, vista de cima, parece uma imensa cobra d’água a serpentear no sacrossanto espaço da fé – o Círio de Nazaré é para mim o boato mais forte de que neste ponto da Amazônia, encontram-se muitos dos bens celestiais, a confirmação de que o Brasil tem terra e gente abençoadas.

No último dia desta festa, os fogos abrem o manto negro da noite e riscam nos olhos da multidão como que estrelas efêmeras de cores várias trazendo para dentro de nossa genealogia, uma lembrança de existência bem próxima ao paraíso. Como não ter o ritmo do coração alterado ao ver o espetáculo da noite em festa? Como não percorrer o arraial e tentar a sorte nos folguedos? E como não provar as comidas, não querer saber da história ou conter os sentidos nesta girândola de novidades?

Assim como vive banhada pelas águas do rio Guamá, Belém banha as palavras que escrevo desde sempre. E essa presença em nossa biologia é difícil de vencer. Mesmo tendo de criar asas, de buscar fugir um pouco dos seus contrastes e derramamentos, e ir cheirar o mundo que sempre vi nas revistas e sobre o qual ouvia nas histórias de família e amigos, não foi fácil partir. Não foi simples deixar estas ruas. Impossível esquecer a arquitetura, ainda mais achando seus traços em lugares como Minas Gerais, Bahia e mais distante, em Portugal.

Detestei Belém por me causar esse tipo de espanto. Por se esconder em minhas histórias sobre o que temos aqui – palácios, palacetes, a Catedral da Sé, as obras de Antonio Landi, a igreja de Santo Alexandre. Por promover texturas em minha fala delegando-me um sotaque único.

Como tudo o que se ama e teme, Belém vive em mim como a morena que primeiro inspirou meus versos, como a cigana que leu em minha mão a verdade líquida de minha alma, sublinhando que eu vinha de um lugar onde o céu tem estrelas únicas, que só reluzem deste lado do mundo. Algumas vezes tenho vontade de partir, outras vezes vontade de nunca tê-la deixado. Belém dorme junto comigo sempiterna e dolorida quando me ausento, escancarada e turística quando regresso. Oferecendo sempre algum canto novo, alguma nova forma de me seduzir e manter.

Conquistei títulos, avistei lugares, li manuscritos de poetas admiráveis, mas voltei correndo. Cruzei o Atlântico sem pestanejar, assim que senti que os sabores daqui morriam em minha boca, que meus amigos iam ficando íntimos de novas pessoas, dos novos lugares, dos monumentos e prédios reabertos. Dá medo pensar que esta cidade pode me esquecer. Que pode pensar que eu a traí em outros portos, em outras praças, maravilhado pelas descobertas. Quando parti sentindo raiva por sua existência, remoendo o infantil apego pelo que não era meu – o desconhecido. Quando atinei para sua presença em minha saudade mais sofrida, achava, presunçoso, que ela era minha. Foi de longe que descobri ser seu prisioneiro e como nos versos do poeta português Luis de Camões, este, sem dúvida alguma é um estar-se preso por vontade. J.M.N

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Imprudência

Para A.P.D.

Poucas vezes vi tamanha confluência de perfeições.
Olhos, cor, cabelos negros, atrevimento.
Incômoda presença que não me está ao lado, mas numa tela, solando sua incrível textura de impossível por muitas horas da minha tarde sobre as ondas da rede.
Será possível que eu esteja vendo um ídolo antigo, esculpido em virtual realidade? Não em bronze ou pedra – carne, osso, funções renais, coisas assim.
Tão viva que nem a distância do espaço ousa calar o que ela causa.
Olho-a com os temores de quando eu descobria meu corpo e de pronto me vem uma janela suspensa.
À noite, relicário dos amores primitivos, entravam ilusões e cristais pelo balcão onde eu esperava que o mundo me conhecesse.
Ferve a têmpora desacostumada a ser tomada de surpresa. Sinto esse corpo que não pode ser meu. Tão potente. Tão estrangeiro.
A imagem dela mais que perfeita em seminudez projetada, feita pelas mãos do fotógrafo para desmantelar a gente.
Arrasto o trabalho. Golpeio tudo que não diz respeito à perfeição. O dolo acontece por tê-la na ponta dos dedos, tocada na inviolável figura de musa.
Ela cede ao meu olho e parece piscar-me de longe. Uma única chance.
Seu maneio de cabeça da foto seguinte foi para mim, certamente.
Vou com fome.
Boca aberta direto à luz daquela imagem.
A língua em pluma sente o deslizar estéril da tela. Led ao que parece, sem gosto algum.
Ela não entrará nos meus sentidos por essas vias. Não há tato que eu possa dedicar a ela e então construo o que me recompensa.
A ideia de que foi apenas intuição.
De que alguém assim não pode existir. Se não a vejo frente-a-frente, inexiste.
Minha tarde está refeita.
A partir de hoje andarei com a cabeça baixa, impune por ter lambido a mera possibilidade e com medo de encontra-la por ai, tornando-se aquela que me diria para eu ter cuidado com o que desejo. J.M.N.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Porque ela disse “quem sabe?”

“Na dúvida me reconheço.
Quando ela propõe incertezas,
amo-a de fazer universos,
amo-a
como um demente animal.”

Cantídio – O livro dos esforços mínimos

Hoje acordei propenso a simplicidades e idolatrias. Me vens sem compromisso, mas por primeiro. Não herdaste nada do nosso último encontro. Eu, entretanto, fiquei com os pesos, os ouros, trejeitos até. Aumentas a frequência da tua música. Impetuosa e certeira como uma corredora de curtas distâncias. Me chamas aos fatos. E pedes. Que nosso maior encanto seja o silêncio esmagador dos nossos olhos se encontrando, a despeito do toque e do sabor que dedicamos um ao outro dentro dos beijos. Aproveito para chorar. Pois é impossível resistir ao arrebatamento do que dizes e perfazes em mim com esses pedidos e tão poucas loucuras. De minha parte, tenho essa enorme agonia ao ouvir teu nome palpitando em mim. Um frenesi desalmado que me entope os ouvidos e não repara nunca se está sendo depravado ou íntimo, mortal ou singelo. Não acho que deva pedir desculpas. Nossa energia de atração é essa. Uma estrela gigante em permanente nascer. Nada há de mais enérgico do que uma estrela nascendo. E no que declaro isso em voz amena estou implicado. Enlaçado na possibilidade de mais ser. Agora sim reclamas teu lugar devido. E como não há mais tempo para distâncias, desalojo meus órgãos e te ponho pra dentro. Tal como te sinto, me sentirás intensamente em nossas próximas pulsações e sentidos. Mesmo que nosso tempo não passe de um segundo. J.M.N.