segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Um passo além do amanhecer

Inspirado na música, Until the morning comes, Tindersticks.

Não, eu não a matei. E não há nenhuma glória nisso. Como não haveria no assassínio. Apenas uma constatação. Tive tantas chances que chega a ser ridículo pensar em covardia. Seria apenas fácil demais. Ao contrário de acabar com sua vida, pedi que me amasse, que cuidasse de mim. Pedi para que ela me acordasse daquele sonho constante, para que eu pudesse acreditar finalmente no que me acontecia ao redor. Foi o que eu pedi. Foi o que ela fez. Fique em silêncio, deixe-me segurá-la, até a manhã chegar. Minha doação foi necessária. Apenas até a manhã chegar. De tantas maneiras ela me despertou e me chamou atenção para o furor de escravo que eu cultivava. Algo acorde com as vontades de um preso em cárcere eterno. Uma vontade de redenção, mas sem trabalho. Ela me livrou da antiga obrigação de me desculpar por tudo. De insistir nos pedidos de atenção. Ela me serviu de bandeja aos meus demônios. Aos inimigos inomináveis que se disfarçavam em minhas figuras públicas. Ela me devolveu o bloco de papel onde eu escrevi pela primeira vez sobre o amor. Não a matei porque ela tinha de sobreviver a mim, a nós. Ela tinha de contar uma outra versão da história. Eu fui uma sua criatura. Me fiz em seus braços, muito mais do que nos braços de qualquer outra. A única crueldade da qual não abri mão foi de deixá-la saber que em tudo há um preço. (Se eu a matasse, ninguém saberia, ademais). Que por detrás de toda fuga existe alguém que fica sem respostas, para sempre. Ela me salvou de minhas sabotagens, de meu ímpeto sem prudência. Não importa que não acredite, que me deteste com todos os seus músculos e nervos. Não importa que ela grite que sua profissão é esquecer. Ela me salvou de ser muitos personagens sem um criador, o pesadelo dos incógnitos, daqueles que passam a vida à margem da luz. Sem ela eu não comeria o fruto. Eu não partiria com Aquiles. Sem ela eu jamais seria meu novamente. J.M.N

Para ler escutando...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Refazendo

Hoje ele cuida mais de si. Jamais sai de casa sem olhar pela janela e sentir a correria de fora. Confirma que já não é a mesma de seu dentro. Chama-lhe atenção o que os outros dizem e fazem nas esquinas por todo canto da cidade. Os homens nos canteiros de obras. As obras mesmas a redesenhar a cidade. Cachorros ladrando para a chuva insistente. Novos olhos nos lugares que costuma freqüentar. A leitura continua aflita e insistente e a pena trabalha em dobro, sem buscar realizar-se. Deita-se por ai, em colos emprestados. Ninhos momentâneos para aquelas coisas que acontecem apenas uma vez ou duas. Assim seja. Ainda sente pena de não ter dito certos segredos. De não ter usado a circunstância para aprender a lidar com suas impossibilidades. Mas já sabe se perdoar. Em todo ato um cuidado. Em toda escuta uma gaivota e a casca da lua em alba contingência a descortinar os caminhos da noite. Miriápodes se aproximam. Faz poesia nos confins da terra fazendo-a respirar. Come os suplementos de alma desconhecidos e finge. Finge ser o que já foi. Coloca-se no lugar daquele que se foi e que sorria mais, entregava mais e se banhava livremente no amor de outrem. Hoje se entristece por um dia e engendra outro para compor uma sinfonia de imprecisos equilíbrios. Sempre mutável. Não precisa de tantas certezas, nem pretende saber de tudo. Desta criança o tempo cuida com mãos de pano e travesseiros. Usa o verbo como uma vulva ou uma oração. Comunica-se engravidando a si mesmo com a voz. Arranha a ostra das pessoas. Têm inclinação para esfínges derrotadas, as suas vontades mais terríveis. E só pelo tato esse homem descobre se as tais fantasias são desejáveis. J.M.N

Noah and the Whale – The First Day of Spring

It's the first day of spring
And my life is starting over again
The trees grow, the river flows
And its water will wash away my sins
For I do believe that everyone has one chance
To fuck up their lives
But like a cut down tree, I will rise again
And I'll be bigger and stronger than ever before

Versos são areia. Moldam-se perfeitamente à palma da mão de quem os apanha, mas o tempo suficiente para escorrerem para outra palma, ou para o vento, ou para o fogo. Ainda não sabia disso quando dei esse álbum pra um amigo. À meia luz de seu escritório vi muito claro esse desejo, esse direito de recomeçar o qual todos devemos nos permitir. O mais engraçado é que no disco anterior, essa banda iluminada já cantava, numa cadência ao mesmo tempo despreocupada e feroz, And if there’s any love in me / don’t let it grow / and if there’s any love in me / don’t let it show. Mais uma vez tudo fazia sentido.

Passo, tardiamente, a fazer um rol dos álbuns que mais animaram esse ouvido cansado. Tinha que começar pelo Noah and the whale – que o Neto já havia feito o comentário aqui, inclusive me chamando a atenção para a preguiça que me assaltava.

British Indie folk, esse é rótulo que a Wikipédia coloca neles. É inquestionável que eles são britânicos. Entretanto esse rótulo não nos deixa ver a relação de intimidade com a natureza que, diga-se de passagem, sempre é usada como metáfora de uma tristeza sutil. As letras são povoadas por imagens de rios, passeios, caminhos e estações. Todas essas paisagens parecem nos impregnar pelos olhos, como uma praia vazia sob o sol de julho. Há sofrimento, há solidão, saudade e desencanto, mas tudo sem desespero.

Nesse álbum, talvez até mais que no anterior Peaceful, the World Lays Me Down, os instrumentos e os arranjos são absolutamente servis aos sentimentos. Como os sentimentos são vividos todos sem urgências, o disco é quase todo calmo, com exceção de Love of an Orchestra, opereta na qual um coro dá a exata dimensão das intenções dos versos I'm carrying all the love of an orchestra/gimme the love of an orchestra.

Tudo termina em lições de desprendimento e esperança. De feridas entradas em processo de cicatrização. Ou como diz minha mãe: agora que tirou o carnegão, melhora rapidinho. A redenção vem suave no verdadeiro achado que é a voz de Charlie Fink. Acompanhado apenas de um violão e uma guitarra steel ele canta numa alegria de alívio e liberdade, típica de um sobrevivente:

Yeah I love with my heart and I hold it in my hands,
but you know, my heart’s not yours.

Que assim seja, pra todos nós.

Excertos Terapêuticos XVIII

"Quando entramos no quarto e começamos a tirar a roupa, ela me perguntou se tinha alguma coisa especial que eu gostaria que ela fizesse. Eu disse: tem, sim, quero que você me faça esquecer uma mulher."

Marçal Aquino - Sete epitáfios para uma dama branca (O amor e outros objetos ponteagudos)

Retomada

Sinto que retornas. Aos poucos te assenhoras de minhas tarefas diárias. Existe uma cumplicidade inconsciente com tua vontade. Sinto às vezes que não me pertenço, tamanho envolvimento com tua satisfação. É substancial o que vejo se estendendo a ti. Não obstante meus avisos de pare. Indiferente a tudo o que já sei. J.M.N

a Saber

A primazia do encontro é que me enfada. Não há outro rumo possível. Destreza nenhuma recupera o norte diante dos afetos, dos arroubos e insultos de paixão. E atirados de peito aberto, andamos. Serão as nossas, direções fadadas ao encontro perpétuo? J.M.N

I.

Escrevi esse texto em 1992 e o fui modificando ao longo dos anos.
Esperava poder incluí-lo num livro, dia qualquer. O livro está pronto.
Esperando a coragem para publicá-lo. O texto não entrou.
Senti vontade de dá-lo ao mundo. Diz muito de tanta coisa vivida
e se repete como uma estilística de existência, tantos anos depois.

Precisava como nunca do teu vulto, do teu beijo, tudo teu. Mas na hora certa não estavas. Nem como fala, nem como eco. Enfadado e um tanto negro chorei. Precisava como sempre de um cigarro, mas eu não fumo. Não importa, sinto náuseas e nem sequer estou vivo! Rascunho um dizer imoral e assim, dispenso minhas vestes e assinalo minha dor. Teu sorriso não me sai da boca. Rumino abobalhado teu riso de mundo, mudo feito um frade refletindo, cabeça baixa diante do altar. Num segundo impreciso me agride tua forma incomum, tua aparição, feito um clarão de bromélias amarelo-sol. E eu solando feito um piano triste numa noite em que não te tenho mais. Como se canta em francês a dor bilíngüe minha e tua? E, senão for bruma, o que mais condensa no espaço? Há uma gota de alarde nisso tudo. E quanto ao que condensa? Condeno ao esquecimento todo o cristal de choro que caiu de mim trajando uma fé tardia. Fé de menino encantado com o pecado. Ai de mim que te precisava o quanto antes, com urgência divina. Compulsivo te quis infame, fria, sigilosa – arcaica mentira da existência. Te quis e quero feito dança que não sei, mas tem por ai, cuja pureza é feita no arfar da espera. Espera que ainda tenho o que te contar. Espera que nessa hora cabe em mim Tordesilhas, pois sou muitos, divido à revelia, e nem sei a quem pertenço. Sei que sinto. Como ousas um silêncio de rima? Como aglutinas minhas células às tuas? Como envergonhas a lua com tua presença? É capricho. Deixa disso e vem desnuda, com carne e pele de dia, aturdia de silêncio e nervura. Venha a mim mesmo dura, festa incerta, arlequim. Venha em valsas vienenses atrás da última aurora. Seja cálida, indigesta, seja estúpida e faça raiva como trevas – absurda. Por mais que vás e fratures minha coluna, imobilizando meus movimentos, ansiarei mil dias por tua reticente alegria. Mais ainda, num pequeno ato de amor costurarei o que vestes, pois sei que quando voltares, te surpreenderei rasgada e com a boca fingida. E com ungüentos e choros, com quantos encantamentos, te recomporei da vertigem e resgatarei tua forma de gente. Se não, na feliz explosão do encontro, te chamarei simplesmente de meu amor. (Cantídio)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os Ecos da Lapa

"Seus pios enramados
de muito se sonhar
Vêm ferir sobre mim"

Manoel de Barros - Noções sobre João-Ferreiro
Para a Clara, a Lala e o Tom, cujas vozes sararam as feridas do dia.

Meu ânimo às vezes mói a carne, faz sujeira. Ultrapassa os limites. Engana as receitas médicas, trapaceia em ressonâncias. Acho que morrerei de engano, ninguém saberá dizer. Mas hoje não! Não nessa noite memorável em que cheguei em casa com o mais fundo dos desejos, com a mais rouca das saudades. Velando as lombadas dos meus livros preferidos e esperando me transportar, como numa mágica, para entre os arcos da Lapa. Foi de lá que me veio um sopro transformador. Uma revelação. Na voz de quem eu jamais esperaria. Declarando saudades que eu demorei alguns segundos para compreender que sim, eram minhas também. Um desfalque de razão, neste preciso momento. Mais um, aliás. E depois foram elas e descortinar minhas vontades de ser de alguém. Sem saber, eternizaram cinco minutos de um dia cheio de trabalho e dúvidas, rudeza e apaixonamento. Uma me contou a impressão de que a cena esdrúxula era cabível. E mais, lembrara de mim. Depois foi a vez da dona da voz. Parte integrante desta minha ontologia de raiz tapajônica. Diz que quer escrever nossos símbolos na pele. Faremos isso. Meu ânimo, às vezes, me destrói. Mas hoje não. Hoje eu tenho o riso e o pleno sentido de que pertenço. Hoje eu ouvi as suas vozes e suas vozes couberam em mim de ponta a ponta. Completando o mais sem jeito dos meus fins, o mais arriscado dos meus intentos. Emprestando seus tatos para minha caça aos ventos velozes da existência. J.M.N

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sobre quedas e silêncios

Disse que lera nos livros serem as mulheres diabos disfarçados [...]; elas desgraçavam, arruinavam, sufocavam, escravizavam com feitiços, eram más e interesseiras, por elas se faziam as guerras [...]. Traíam e levavam a alma do homem ao inferno. Mas nada havia de tão doce quanto essa tirania.

(Ana Miranda – Boca do Inferno)

Uma mulher tem me tirado o sono. Não se trata de uma vizinha barulhenta. Antes fosse. Esta que não me deixa em paz é silenciosa e está a quilômetros. Ri quando deve falar o que importa, cala quando as palavras começam a vir aos borbotões. Me afaga às vezes, me abandona muito mais. Me faz cair a pior das quedas, aquela que não encontra o chão. Nessa sua marcha ébria, ela dá um passo pra frente e dois pra trás e avança senão sobre mim. Abre picadas no selvagem que ainda sou. Dia desses, vasculhando a minha urbanidade, ela achou aquele campinho de areia onde fui feliz depois de driblar o Colega, o Quebrado, o Abuti e fazer um gol memorável. A minha biografia vai sendo descascada e fixada em quadros de scrap e litanias solitárias. Assim ela vai me descobrindo, sem despir-se, sem despojar-se. Também sem descanso vou me cegando em uma devoção sem trégua. Há dias que não faço a barba ou corto as unhas, há tempos que não sou mais meu. WDC

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comemoração

Ela chega. A um minuto do fim diz as coisas mais horrendas: vou sair para ver o sol, tua vergonha me cansa. Inusitadamente um beijo apaixonado. Depois o vaso estilhaçado sobre a cabeça dele. Desculpe, não sei me controlar muito bem. Tudo bem eu entendo, foi o que ele disse. Ela se foi. Voltou meia hora depois gritando coisas incompreensíveis. Outro beijo apaixonado. Um soco que o deixou atordoado. Em vinte minutos vou sair da tua vida para sempre, esquartejá-la. Vou te deixar mais raso que o pátio chão. Já estou lá baby, ele disse limpando o sangue. Seu imprestável. Ai foi a vez dele. Pulou em sua direção e quando estava pronto para destroçar-lhe o rosto, disse com a voz mais terna que podia: hoje fazemos quatro meses, não devíamos estar comerando? J.M.N

As coisas

O edredon, a camisola, tuas roupas esquecidas. Notas de terna escrita para coisas que me farias. O dom, a sorte, os desígnios e a esperança. Todas as palavras de malefício e crença. Outro beijo, tua nuca, a tatuagem que pediste para eu desenhar. Um cheiro de ventre, de semente germinada, de loucura atrevida. Lavoura de epitáfios. Um calor como nunca, um tempo enorme entre ser e estar. As taças não estreadas, estradas não percorridas como deitadas num sol de veludo, tarde triste em que te vi andando para longe. A seda dos beijos, o céu de tua estrutura, um vento de velocidade branda – chamo de brisa. Quantas coisas adernadas, estapafúrdias e por sobre todas as lembranças pólen e orvalho, uma tez de divindade. Escrevo e não sei por que o faço. Saem de mim essas coisas, tamanhos vários. Isoladas ou pertencentes. Aniquiladas ou potentes. Minha pudica e violeta ancestralidade a derramar-se ante teu fogo e estupidez. Uma hora dessas precisarei te chamar em socorro. Espero que precises também. J.M.N

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Reminiscências

Anteontem recebi tua carta. Muito obrigado. Havia tempos que me perguntava se não haverias de me responder. Mas depois cheguei a conclusão de que o tempo foi ideal, pois, afinal, também demorei a escrever e como somos muito parecidos em relação às repostas e compromissos sabia, no fundo, que demorarias para responder tanto quanto eu demorei a dar notícias. Nada mais justo.

Notei um tom de memória em tuas linhas, como se não fosse prático ou seguro falar no tempo presente, como se ainda fossemos ontem, novas palavras para antigamente. Obviamente, deves ter percebido, que te escrever é uma artimanha para fugir do fato de que podes, simplesmente, ter superado tudo. Esquecido. Ou, como tão polidamente registraste, o que é da memória é da memória. Queria, neste ponto, que o tempo ou o local não fossem os mesmos.

Sabe, as coisas se encaixam como que por força de uma realidade para sempre desabilitada a me descrever. Um homem não deveria escutar as tais coisas que sempre me dizias, é muito perigoso. Passei longe das prudências e tenho saudades da tua mãe, por mais incrível que pareça. Sou da noite, um impostor, como me disseste. Mas jamais deixei de freqüentar os sentimentos mais profusos a teu respeito.

Obrigado pela resposta. Apesar de curta e dura e certeira. Obrigado por assinares estas linhas. Posso sugerir ainda aquela nossa música para a tua fúria recorrente e que dirijas para aquela praia em que nos encontramos na primeira manhã depois do retorno. Obrigado, sinceramente, por estares me dizendo com pequenos atos que ainda tendes estar por perto.

De noite a cidade se transforma em meu interior. E as tuas ruas, as tuas janelas, o portão do teu prédio são meus quintais. Perto de minhas lembranças mais meninas e seguras de que ainda serei um homem bom. Visito estes teus espaços, provando o acre das horas sem sono, porém lembrando das moitas e esconderijos onde eu ia existir quando criança, esperando esse torpor que eu sabia, tua lembrança desde sempre me causaria. J.M.N

Os passos do homem morto

Tazes-me aqui sem cuidado ou semelhanças. Trazes-me aos puxões, bramidos de ordem, gritos de horror. Não me domarás jamais, se é isso o que queres. Jamais terás minha euforia. Não desse jeito de perder o rumo ensejando tua realidade difusa, amiúde. Os cavalos de tua carruagem partiram. Perdeste o rumo. Teu abrigo, bem sei, é inverdade. E busco em teus olhos a razão deste crime de sempre. Trazes-me apreensivo, mas não em perder a vida e sim por te saber tão sozinha. E nesta solidão ocupas outros braços e sortes e te vingas de teus pais, com todos aquelas necessidades exdrúxulas. Não deverias pedir nada. Viemos dos mesmos lugares. Os solitários são propensos a assassínios, quanto mais os de próprio punho. És assim, pouco acabada, desinformada das coisas reais e aflitas dos lugares a dois. Amor dá trabalho e o que não queres é construir. Chega desse impasse, executes o que tiveres de executar. Minha voz não tem soluços, mas é límpida e firme, pois livre. O que quero te deixar, antes do tiro é meu olhar mais apaixonado, minha esperança mais ancestral. E tudo o quanto sair de mim por conta disso, deixo-te, também, como herança, como o testemunho de que meu pertencimento não foi um vício ou uma impostura. J.M.N

domingo, 29 de novembro de 2009

Encontros Possíveis

Furtivos, em tardes de fuga ou descanso. Planejados, em salas de teatro e tentando perceber, depois do teu cheiro, o odor das tintas usadas na pintura secular do teto. Velados, costurados por olhares, bilhetes em papéis de cadernos e discretas mensagens sms. Furiosos, pois perdidos na confusão daquelas saudações e abraços que só serviram pra nos imiscuir a dúvida sobre como nomear essa constelação de sentimentos cheios de esperas. Sempre insuficientes, pois perto de ti não tenho certezas, e longe me exaspero. Desculpe te dizer isso assim, na lata, mas dos mundos que imagino nenhum é possível sem a esperança de te reencontrar.

À sua engenharia

Rompe-se em mim o caminho fadado. Altera-se a cartografia de minha descoberta e eu nunca chego onde preciso. Ando em círculos em minhas aparências, perdido no jogo inadequado dos espelhos, onde não me encontro jamais, onde sequer sou objeto. Eu não sou um nome e você não é ninguém. Minha vontade é que lhe inseriu no programa feito para eu existir. Você é minha nudez delatada, remontada em minhas vergonhas mais infantis. Em tudo o que me foi vetado, enquanto aqueles que me deveriam cuidar interessavam-se mais em não permitir ver repetido em mim o furor da aventura, a náusea da descoberta das paixões. A chama intensa dessa vertigem meio memorial, meio improvisada é que me atiça agora – forno de fundição. De um lado minha consciência extravasa em palavras perigosas a minha falta sua, minha recente desgraça. Do outro lado, acordado feito um leão feroz, meu desejo corre atrás das semelhanças com uma morte pretendida, num segundo onde ressurreição e glória se encontram em meio a sua carne lisa. Estou neste momento arrebentando meus pontos, minha cirurgia reabre e me expõe as vísceras mais uma vez. Gosto de ser assim, vitorioso das coisas que me dilaceram, pois que é nessa freqüência e apenas nessa, que acontecem minhas vidas sucessivas, mais das quais ofereço a esta lembrança – abrigo ou desterro. Eu sou o que você me faz ser. J.M.N

sábado, 28 de novembro de 2009

Cicatrizes

Eram três a contar do lado direito de tua barriga. Nem apareciam muito, mas encucaste com elas. Querias apagar as tais marcas para sempre. Talvez esquecer um sofrimento, talvez deter o tempo que se esconde em tua pele. Não entendia essa tua pequena obsessão. Como não entendia tantas coisas a teu respeito. E naqueles dias de chuva e solidão deixei de compreender a mim mesmo. Deixei de me perdoar, de me redimir por não saber, por não admitir que era tanto e tão profundo que me assustava. Era comum, à hora de irmos para cama, reclamares. Era óbvio que eu sempre tinha uma desculpa. E seguíamos o sono até Antares e além, devorando os céus de março, suas águas a lavar nossas almas reencontradas. Morreste um pouco naquele dia. Morri outras tantas vezes diante das impossibilidades. Hoje contei sobre o óleo de massagens e as inconstâncias. Ri imenso de nossas piadas. Se me pudesses olhar por dentro verias meu coração entrecortado, com quelóides e pontos e poemas condizentes com esta minha condição cardisplicente. Um bater que tem o ritmo que me emprestaste, uma troca sanguínea que é apenas enfeite e em volta de tudo o meu corpo, minha biologia a tratar-me como se ainda fosse possível lutar em outra batalha.J.M.N

Teu cheiro

Vens de longe a recender. É um cheiro indecente que me constrange, aguça. Nem doce, nem amargo. Solúvel apenas para quem nunca esteve na tua pele. Teu pacto é com minhas entranhas e por isso me transcende, contamina. É como alguém que foge e não domina o interior ante a liberdade. Ganha densidade à medida que se expande, enriquece. Mostra-se no rubor da face. Momento em que identificas tua conquista. Água que sacia a toda sede. Apelo de diatomáceas à superfície. Íntimo que se entrega sem pudor. No teu cheiro cancerígeno é que auditas meu empenho, contas minhas recaídas. E deixas pistas algo claras do que desejas. Teu cheiro tem a própria vida. Resguarda a minha coisa de sentir vertigens. Conta histórias de entrega, auspício e pertencimento. J.M.N

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Nos passos de Alice

“Que sensação estranha, disse Alice.
Eu devo estar encolhendo como um telescópio!”
Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas

Você que emerge de quando em quando. Que liga e diz que não se lembra do assunto. Que vem aqui e me cumprimenta com tantas desculpas e sofismas que um bom dia faz parecer adeus para sempre. Você que surge nas memórias mais austrais e tem metade daquilo que é meu, minha identidade. Você que toca e sara a luz de tanta gente. Não teve a fineza de nos desinventar. E dentro do corte jazem tantas certezas e um punhado bem maior de perguntas. Você que deixa minha vida quase nula, sem saber que ainda resta o entristecer. E quando lhe vejo, relembro solto de quando pedíamos as mesmas coisas, encharcados de festim. Você que surge lá de dentro, dos confins e me assusta e me devora em segredo de sacristia. Você que me cercou de cuidados e me deixou plantado à porta do nosso fim. A este seu ser, dedico estas palavras. Você que está dentro de mim feito um sistema, feito a foice que executa a pena máxima. Eu digo já vou, daqui a pouco. Digo que não tarda esse encontro capital. Acordo, calço os chinelos, arrasto-me até a sua presença cordial e sorrio. Fico esperando que você decida o final. Mas ai, você segura minha mão como a de um frágil e me devota tristes rostos, um perdão. E me convida. Eu aceito. Entre agora. Há pouco mais o que dizer. Tudo é instante e é imagem, um reflexo. E vejo o mundo se perdendo enquanto eu corro para dentro de suas paragens, para a colheita deste fim que é todos. Ao que desperto, minha única raiva é saber que você é tão legítima como meu outro, esse qualquer. Impunemente, me deixa do avesso, como quando estou tão deserto e sem final. Como quando me reinventa e percebo, que meu gênio é mesmo para toda essa palavra em cinza e controvérsias. J.M.N

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Inquietação

Sobre a música Inquietação, de José Mário Branco
(Na cadência da interpretação de J.P. Simões)

O que sei eu? É o que pergunto. E pergunto não a ti, não aos outros. Pergunto a mim, muitas vezes, repetidas vezes. Não há escolha sem arrependimento. Não há vida sem morte e, de certo, não há razão sem loucura. O que nos coube, sacrificou todas as prudências, todas as inércias e nos pôs em vias de colisão, largados como em banguelas a testar a velocidade sônica de nossa entrega, de nossas disponibilidades, com as carnes trêmulas a querer-se em potência insustentável. Com tantas guerras travadas é óbvio o desconforto da paz. São argumentos de silêncio, pó e iluminuras. Na cadência da fala, escondo o que mais tenho vontade de dizer. Meus mistérios multiplicados vão-se intrusos em outras falas, como leopardos sedentos. Espelho-me pequenino nas garatujas de uma criança. Na entranha destas sentenças corre ainda nossa textura, nossa infeliz tendência ao imaginário sobreposto, às coisas extravagantes do desejo. Corre em mim – e agora só posso falar por mim – a estrada fulgurante das conquistas e o contragosto das banais cenas de domingo. Óleo e vício e entrelinhas – estes são os elementos que me procriam, a saber. Meu credo agora é palavra para leigo, sarça de incompletude, é o que me falta embebido de romance, lírica e uma boa dose de inquietação. J.M.N

Para ler escutando…

Excertos Terapêuticos XVII

“Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me freqüento.

[…]

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo - pânico mudo -
entre o sonho e o sonhador.”

Thiago de Melo - Narciso Cego