"É verdade, no momento em que decidi comer o cacto,
esperava não sei o que, algo que me tornaria maior,
mais forte, que me daria um poder próximo a Deus.
Só que eu não deveria ter comido a parte central,
não deveria ter untado a totalidade do meu corpo
com sua substância."
Piera Aulagnier - (Philippe, um paciente),
O aprendiz de historiador e o mestre feiticeiro, 1984.
Todos dormem. Tenho medo de jamais voltar a fechar os olhos. Mais uma vez ingresso no ritmo secreto da cidade e suspendo o perdão dos sentidos por terem deixado tamanhas coisas boiando em mim. Sinto-me acumulado de outras vidas, de outras respirações. Enquanto forço o dobre dos sinos para despertar os que mais queria que estivessem acordados, nesta minha insônia já regular, percebo o quanto sou desproporcional em meus sentimentos. É algo que me ultrapassa, me configura antes mesmo de saber que eu existia. Às vezes tomo drágeas e poções para que venha o sono. Algumas vezes tenho sucesso. Em outras me deito, mesmo desperto, bem no meio do colchão intentando recompor minha calma. O que me espera, uns calafrios. Mesmo aniquilado em pó e chuva e inconstância, posso sentir o ressonar do sono dela. Lá no fundo de minhas idas e vindas, um hálito quente e algo temperado com costume, em cujo ritmo deixo acontecer minhas verdades de rebelião e desejo. Por sua boca passam meus anos de claustro. Em sua respiração, resvala um conhecimento antiqüíssimo. E quando o relógio me desperta, mais uma vez, vejo que foi ela quem me preparou para o sono, e esteve comigo enquanto eu decidia se existia ou usava o cadafalso. J.M.N
Pensei nisso para escutar enquanto se lê. Talvez eu tenha exagerado. Nem tudo é melancolia...