sábado, 7 de novembro de 2009

O preparo do sono

"É verdade, no momento em que decidi comer o cacto,
esperava não sei o que, algo que me tornaria maior,
mais forte, que me daria um poder próximo a Deus.
Só que eu não deveria ter comido a parte central,
não deveria ter untado a totalidade do meu corpo
com sua substância.
"

Piera Aulagnier - (Philippe, um paciente),
O aprendiz de historiador e o mestre feiticeiro, 1984.

Todos dormem. Tenho medo de jamais voltar a fechar os olhos. Mais uma vez ingresso no ritmo secreto da cidade e suspendo o perdão dos sentidos por terem deixado tamanhas coisas boiando em mim. Sinto-me acumulado de outras vidas, de outras respirações. Enquanto forço o dobre dos sinos para despertar os que mais queria que estivessem acordados, nesta minha insônia já regular, percebo o quanto sou desproporcional em meus sentimentos. É algo que me ultrapassa, me configura antes mesmo de saber que eu existia. Às vezes tomo drágeas e poções para que venha o sono. Algumas vezes tenho sucesso. Em outras me deito, mesmo desperto, bem no meio do colchão intentando recompor minha calma. O que me espera, uns calafrios. Mesmo aniquilado em pó e chuva e inconstância, posso sentir o ressonar do sono dela. Lá no fundo de minhas idas e vindas, um hálito quente e algo temperado com costume, em cujo ritmo deixo acontecer minhas verdades de rebelião e desejo. Por sua boca passam meus anos de claustro. Em sua respiração, resvala um conhecimento antiqüíssimo. E quando o relógio me desperta, mais uma vez, vejo que foi ela quem me preparou para o sono, e esteve comigo enquanto eu decidia se existia ou usava o cadafalso. J.M.N

Pensei nisso para escutar enquanto se lê. Talvez eu tenha exagerado. Nem tudo é melancolia...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Estórias para a razão do dia I

Suspendam-se os poemas, a fantasia está morta. Aforismo redundante e sem sentido. O que está para nós, começa depois da largada. A estrada é de chão batido e faz muita poeira passar por seu corpo curvilíneo. Pelo retrovisor a marcação da distância. Não consigo distinguir se é longe ou perto. E uma vez mais, desejei estar sozinho e sem rumo. Encontrei o ritmo de tua alma descalça, descansando desimportante em uma parada do caminho. Chega e traça os rumos comigo. Mas vem logo que logo adiante está o abismo que nos derrotou na primeira passagem. J.M.N

A vida depois do instante

“[…] a fraternidade nasce somente
a partir de baixo, do identificar-se, fazer-se um […].
E seria completamente ilusório e historicamente
ineficaz acreditar que se possa estabelecer
uma fraternidade
prescindindo dessa medida,
sempre de novo confrontada com o aspecto concreto
do semblante de quem sofre.”

Piero Coda, 2007.

Depois do que disseste sobre as freqüências, sobre os mesmos sentimentos em corpos diferentes espalhados por ai, no espaço inventado dos bytes e processamentos, ficou difícil manter aquelas velhas idéias. Algumas vezes o que parece é de fato, tens razão. Nascemos da mesma matéria, da mesma investidura animal na sobrevivência, na procriação e manutenção da espécie. Nascemos na mesma fornalha dos enlevos e dopaminas, em cujas margens ficaram os amores, os sortilégios do tempo, a vontade de vivermos enamorados, desatentos aos pesares do corpo, às vias náufragas para onde partiram as naus benzidas pelo bispo. Nosso gral é caneco de escolhas (copo de ira, de vinhos e absurdos), ajuntamento de mortes sucessivas. Em nossa taça cabe aquilo que escapou aos santos, ainda bem. Não fizemos muitos destes caminhos juntos, mas hoje, ao sentar contigo e escrever mais um dia – e a penas mais um como me disseste – senti-me, de fato, existindo. Não por tuas palavras, não por ver que te recuperas, mas por sentir que os apelos de nossas melancolias mais antigas, sujeitam-se ainda à beleza, aos fatores anti-sépticos das entregas imediatas, dos amores de extravio e das brutalidades. Por que a coisa em si de estar vivo é mutuamente suja e conspícua, bela e terrível e recusar esse emaranhado de afetos, parcimônia e feridas, é como negar-se a si mesmo, é como engajar-se num riso vago, nos abraços sem causa. E isso não cabe na notável atividade de nossos corações desavisados e bravios. J.M.N

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chega

Sobre a música Explode Coração, Gonzaguinha

"A espera é feita mais de fantasia do que de realidade"
L.A. Garcia-Roza - O silêncio da chuva

Chega de mudar o tom dos sins e ocultar atrás da porta tudo aquilo que foi feito para te dizer frente a frente, sem armas ou punhos cerrados. Chega de adotar o que nasceu no pântano de nossas bocas aborrecidas e traídas, enclausuradas na dor eterna de querer demais, temer demais e jamais ceder. Chega de estudar os comportamentos como em experimentos dificílimos e constrangedores, tal como forma e temor de olhos em aberto, secando no espaço-tempo desta verdade inominável que nos perfaz. Ao que lembro dos tais escritos, de tempos imemoriais. Lembranças iniciam casos. Inauguram amores. Mantêm ativos os romances atávicos. Chega de adorar as distâncias e se atirar pungentemente aos finais adiados incontáveis vezes, como nossas carnes jamais quiseram, como se nossas bocas nunca mais estivessem prontas para dizer sim. Chega de se dar e pedir clemência pelo desassossego que se tornou farpa e mais tarde o veneno inoculado em nossas torturas mútuas, chegando a concluir noites adoráveis em comparações aos desterros de outrora. Chega deste dano, desta cova que de tão rasa ameaça desdobrar-se num canteiro para os gerânios e de tão estreita, chega não comporta nossas almas demasiado entregues às coisas que só nós sabemos um do outro. Noutra parte destas linhas está teu nome, noutra escolha de palavras está meu sentido que, ignoto, sabe a silêncios e ataques de pânico. A manhã deveria nascer como num parto. Chega de contar os adereços de tua roupa esquecida na gaveta e trair meu equilíbrio ao cruzar contigo na vigília eterna que é meu sono. Chega de recorrer ao pensamento mais cansado para me afundar na normalidade infestada de simplismos que são as horas de trabalho e a rudeza com que trato meus pares. Chega desse encontro secreto que embota as vontades como os cárceres mais sujos, como as tardes mais cinzentas, como a insana profecia dos que nunca tiveram amor. Chega de sentir minha pele a se rasgar definhada sob a luz do sol nascente, nas manhãs da tua ausência. J.M.N

Para ler escutando, muitas vezes...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Constatação

És notável. Radicalmente ao revés de tudo o que sempre pensei saber. És capaz de abandonos extremos. Saltos ornamentais e diletantismos. És a prova viva das contradições humanas e me pediste mil vezes para não ir, não sair da tua vida. E te agarravas até quase me ferir e me ferias até quase acabarem teus adjetivos de comparação. Não sabes mesmo o que foi que me matou? Ao contrário de teus pedidos, empurraste-me para fora. Primeiro de mim, depois dos mapas, das plantas baixas de nossa mansão. És o próprio fim e o começo de tudo quanto neguei e reconheço que acrílicos e óleos não serão suficientes para representar teu estado de alma. Como argumentar com veias abertas e vontades de entrega que nem sequer estavam prontas para existir? J.M.N

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mais um escrito

Sabe, o que mais me incomoda é que eu sei. Sei que de intenso e tonto foi-se resvalar num sulco. Sei que os versos eram teus. Cada qual instalado em seu próprio canto de sala. Tudo parou. Tínhamos saído para comprar alguma coisa e visitar pessoas que amávamos em conjunto, mas o tempo se irritou, tornou-se nulo. E quanto mais o tempo se desdobra em esquinas mesmas, retesadas de saudade – assumo que não sei mais lembrar de nós, ou adormecer em outros fatos que não os de tua impaciência. Pergunto se tens coragem para tornar possível um castelo. As roupas estão bem guardadas do esquecimento. Dormem comigo e ainda mentem para os meus sentidos o teu cheiro. Fiz o desenho que pediste. Nossas iniciais entrelaçando-se, mais uma tatuagem. Fiquei de escolher o lugar certo, talvez em tuas pernas, talvez abaixo de tuas ancas. Fiquei de cuidar de tuas dores musculares, mas quando pude, tinhas tantas perguntas e tristezas que desisti. Minha bagagem viaja sem as compras de sobrevivência instituídas por ti e, sinceramente, não vejo razão para voltar e me encontrar sozinho. Parece agora, que me esqueço nas cidades por onde passo, nas novas ruas que conheço e portos e pórticos e aeroportos tornaram-se os mausoléus de meus pequenos pedaços. No fino de minha escuta, o ruído intenso de tuas últimas palavras de amanhecer – me deixa aqui apenas mais um pouco. É como recobrar-me. É como um pedido, ainda. J.M.N

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sobre falésias e estrelas cadentes

"we'll shine like stars in the summer night/
we'll shine like stars in the winter light/
one heart, one hope, one love"

U2 - with or without (verso extra on tour, 1987)

Adiantou-se no dia da despedida. Todas as letras do teu adeus conformaram apenas a minoria de tudo o que deveríamos ter dito. Minhas mentiras, mais um terço ou dois e a falta de planos para o natal e o fim de ano, definitivamente, ficam com o restante do percentual.

- amor, a nódoa não sai, é para jogar fora?

- minha vida ou tuas miçangas, mimo?

Não houve resposta.

Ela, certamente, tinha ficado irritada pelas miçangas. E o mimo, arrematou a desgraça. Um apelido não combinado.

Do alto da torre o caminho para o centro parece menor e em qual altura deixávamos nossos orgulhos e dávamos as mãos, não sei. Parece que o tempo habitou demais nossas portas. Não desejo o mal dela. Um pouco de arrependimento para as suas porções de vodka, nada mais. Quem sabe uma culpa ou duas pela manhã, quando os pés não encontram iguais.

Era terminantemente proibido fugir. Aglutinar proteínas alheias. O cérebro tem mistérios que minha mão indecente desencanta. E Jorge Palma me quietando o espírito com versos purinhos que me instruem e coexistem: meu olhar tem razões que o coração não freqüenta. A derradeira expressão de nossos senões.

Lá de fora, o frio meio que dispersa as presenças e a solidão reina solta longe dos baques dos saltos. Os risos vermelhos e de ironia terçã, invadem a monotonia do encontro e tudo degenera em açoites e presentinhos sem sentido. E teve o episódio em que ela me comparou. Disse com todas as letras que eu era igual a ele. Não fosse feito de vermífugos e semiótica, tinha partido para a ignorância. Fechei-me, pura e simplesmente.

Hoje quando abro a janela e vejo o azul oceânico movimentar-se feito um animal indômito sinto que o cumprimento do destino haverá de ser mais adiante. Parado feito as falésias da costa sul. Pobres esculturas do tempo. E diante de mim a sombra de presença dela. Um ser inteiro com peso, identidade e conta bancária a abordar-me os caminhos sem dó nem piedade. Cumpre dizer que espero ainda.

À guisa de pedidos, discorro sobre literatura e versos de Bilac e Pessoa. Nunca fui santo e quase não sonho mais (acordado! diga-se). As estrelas cadentes não servem de nada, quando o pedido não escapa do centro do pulsar coronariano, em meio a detritos, saudade e muitas porções de nostalgia. Elementos recém guardados. Tinha vontade de a convidar para contar meus cabelos brancos e desenhar em suas costas, os mapas de reinos perdidos. Como nós dois, diante de tanto sentir. J.M.N

domingo, 25 de outubro de 2009

Notas de rodapé #3

Até que saias da caverna, tudo pode parar ou morrer. Vem, as sombras são apenas ilusões. O que importa é que tens coisas a dizer, assim como a escutar. O frio que sentes ao ler estas linhas é apenas a certeza de que não estás impune. A luz do dia te espera, na felicidade pequena das desculpas de amor. J.M.N

Para os poemas secretos

O antigo poeta de nada serve agora. Nem os versos de lista forma e sonoridade aliciante me podem desgovernar. A troça do tempo é a que mais me causa nojo. Pois quando parece acontecida, revigora e pesa no íntimo da pena, a forma esculpida para se falar de ti, para criar-te. Quando morrer, quero um funeral de pescador. Cabelos ao vento, as garras amarradas em cima do peito dormente, esperando a novidade da aurora para sempre. E na pensa de cadáver, buscarei o cheiro das tuas palavras emprestadas. Essas que agora, em carta, me remetes para dizer coisa qualquer. E certamente pensarei no tempo que tivemos, nos planos que dividimos, na proteção edificante de pouqíssimas noites de cuidado e festa. E lá, nas marés que me esperarão para o passeio infinito, talvez possa compreender a razão de tuas evadidas entregas, de tuas culpas colossais. Rezo para que até o minuto celeste, eu tenha feito suficientes viagens aos segredos de minha concepção, para que meu sono definitivo, esteja repleto dos sabores dos teus sorrisos e não de uma constelação de estrelas extintas, cujos brilhos sustentam-se no espaço, mesmo depois do fim de suas vidas. J.M.N

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A verdade dos entrenós (ou "na hora da arrebentação")

Para o Marcelo Mirisola e o Dalton Trevisan.
Para os meus amigos Wagner Caldeira e
Marcelo Damaso.

Ah sim! esqueci que a conta é tua. Morte e vida adiantadas, lembra? Não esquece de perder a cabeça, de lutar contra o que és. Não esquece, sobretudo, de descolar aqueles tênis ortopédicos que sempre quiseste. O caminho é longo até as certezas. O mar desbota, isso é um fato. E meu olho não cabe nas tuas promessas. As tuas luvas? Não as devolverei. Existe o macio das tuas mãos dentro delas. Do íntimo dos beijos é que nasce o visgo irremediável da espera. A oligarquia dos sentidos amplos, mordaça das coisas mais extensas de nós. Quando tinha doze anos, meu pai me deu as chaves de casa. Nunca mais tive sossego, pois quando as chaves são entregues, as portas passam a ser responsabilidade nossa. Não era o tempo. Ainda penso em pão rasgado e mudas de feijão apodrecendo nas tampinhas de maioneggs que a minha vó ofertou com muito desprendimento. Um carinho de doação para as mortes anunciadas. É sempre assim. Ai tomei as pílulas de uma vez e minha visão virou um livro manuseado pelas crianças no liceu - páginas ao vento e uma história automática que só encerra com a palavra: fim. De minha parte, houve sexo e maratonas de cansaço e a pergunta emblemática do último domingo: vais mesmo querer casar comigo? Era, de fato, um estúpido. E Ana Maria Braga rolando de manhã cedo. A TV derretendo os cérebros por ai. Quando ela perceber que é simplesmente ridículo falar com um papagaio de esponja, vai dar merda. Bohoslavsky era um cara preocupado com a vocação dos outros e dizia, abre aspas, assim como na culpa persecutória, o sentimento que predomina é o ressentimento, na culpa depressiva o sentimento que predomina é a trizteza, fecha aspas. Esta mesma tristeza de descobrir enfado num monte de anos dedicados, de arrumar a casa para não chegar ninguém. Eu tenho vocação para mundos secretos e cangaceiro e culpas displicentes porque não fundantes, ou, fundantes, porque implicadas - na história dos outros, na imagem do espelho, sei lá em qual litografia de Alois Senefelder. Tô dizendo que o carinho na entrega das tampinhas de maioneggs é um tumúltuo para nossas impressões infantis. Dai fiquei assim: meio cego para as obviedades da vida, acreditando que poupança é metáfora para abandono parental e mais, morrer de amor dói mais é em mim mesmo. Um último lembrete, uma frase roubada: O insuportável só existe uma vez, baby. J.M.N

Degenerar-se

Para Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu,
Fagundes Varela e Álvares de Azevedo. E mais
todos os românticos irremediáveis feito eu.

Quem vai cuidar de ti e te dar insumos para tua irremediável destreza em entregas apaixonadas? O instante final? A morte das coisas brancas e sem gosto do teu quarto? Tuas visitas ao salão de beleza? Quem entrará nos reinos perdidos e fará injunções tenebrosas contra o establishment, criando revoluções e derrubando sistemas brutais? Rotas impróprias nestes mares impossíveis. E agora, aquele tempo que você queria não parece mais tão abusivo, não é assim? Sinto muito, liberdade não é um preço razoável. Além disso, a minha já estava empenhada em meus suicídios, meus esteróides e opióides injetáveis, minhas quintas-feiras gordas de desjejuns e trapaças, calcadas nas imprudências encontradas nos meus livros preferidos. Que se dane tua religião, tuas crenças, tua arrumação da escrivaninha. Só serviram para ímpetos de autonomia infundados. Não me interessa que contes tudo ao teu pai, que endivides ainda mais a tua mãe com teus resumos de ópera. Nunca trocaste ideais por realidade nem postaste aqueles cupons de desconto para as prestações da TV. Nunca estiveste aqui. Tinhas umas idiotices vergonhosamente parecidas com as minhas o que te botava numa situação ainda mais complicada, pois na hora em que precisasse amputar um braço, logicamente seria sempre um dos teus e quando estes acabassem e teus abraços fossem movimentos horrendos de esforço inútil e justificativas de abandono, talvez eu te oferecesse o calor dos meus afagos e te diria ao pé do ouvido que eras inteiramente minha, radicalmente dependente de mim. Tuas lágrimas e meus sorrisos, uma fortuna. Um gracejo de teatro e romance barato, mas serviam sim. Serviam para preencher meus sentidos, descascar minhas náuseas de estar tão só e fazer sombras cada vez menores sem a tua espera por mim. Fui secando. Degenerando em momentos de riqueza lírica e sentimentos áureos. E a cada amanhecer parecia menos comigo mesmo e cada vez mais com o que sempre sonhaste ter. E este preço, eu jamais pagaria. J.M.N

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Talvez teus braços me segurem

Sobre a música Valentine, Richard Hawley

Segure minhas idéias com teus braços e cante as canções que sempre me fizeram dormir. Descobri um vídeo em que celebrava teu sono. Não são necessários dias especiais para reconhecer o dialeto que traduzia nossa exclusiva entrega. O que sobra de mim e meus versos, entrego a ti. Apenas para manter a marcha das tuas realizações, assiste ao espetáculo dos fogos do dia santo e pede no silêncio dos braços que te servem agora: onde quer que me encontre, possa sempre lembrar daquele dia. O maior dos pertencimentos. Não se repete. No trânsito espero te encontrar fazendo manobras de estacionamento, parando em frente ao restaurante que freqüentas e sempre que canto tristezas no mar de céus anoitecidos, peço que me protejas das horas de solidão, quando o morno da saudade acerca minhas cicatrizes de batalha e o melhor dos vinhos envelhecidos não destrona minha vigília ou aplaca a rudeza de meus músculos que ainda te esperam. Tenho mais alguns cabelos brancos, cultivo as enfermidades que inventaste e receio que meu único medo desta noite seja de que não precises nunca mais de mim. J.M.N

Para ler escutando e depois ler aqui...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Derramamento

Em todo rosto uma espera, em toda espera a madrugada. E nela a linha tênue e morna das coisas recém descobertas. Dentro do olho, filigranas e dentro delas as relíquias, de sorte e fome, miséria e cria – sabe-se lá o que uma lágrima pode fazer pelo corpo da gente. Sei ao menos de minhas idas aos teus portões entreabertos, espaço-tempo desiludido com os afetos. Antes do espelho, reluz uma imagem que não é a minha e minha Esfinge ignora o que sei. Em toda a porta, a fechadura. E dentro dela o mar de vultos a fazer a corte, dos amores imprecisos e inerentes aos segredos do castelo. Antes do tempo, a vida exulta. Afrouxa o verbo. Executa promessas desmedidas – nunca entendi como palavras cumprem mais destinos do que amores. J.M.N

O resto das lembranças de ontem

"Parai todos os urros e afagos.
Deteis os invasores e seus carrascos,
que antes de cessar a luz do sol de setembro,
voltará da casa-morte, aquela que a tudo
redime. E seja feita a sua vontade."

Os mares de Catênia - Primeira História

Tudo começou com um abraço e a cortesia pouco comum, mais que um pagamento pelos serviços prestados. Havia o cinza da tarde em comunhão com as horas de um trabalho problemático. Sua entrada foi um sopro de novidade, estréia das elucidativas perguntas sobre o querer. Ademais, vontade. Ela, esplêndida. Averiguava-se a cada segundo. Suas roupas. Sua maquiagem. Ele cedeu. Era Outubro, muito perto do fim das coisas mais constantes, as quais lhe asseguravam uma vida quase feliz. Dali em diante, haveria de definir com outras orações o afago edificante daqueles encontros cada vez mais sentidos e esperados. Uma euforia que se achegou como se toda a fauna extinta houvesse tapeado as moções humanas e retornado aos campos esquecidos, num sopro de vida avassalador. Daquele ponto em diante, ambos haveriam de redefinir as certezas eunucas e infringir toda a sorte de pacifismos para estarem-se descobrindo surdamente nos entreatos espetaculares da alegria inaugurada no primeiro encontro. Foi como um ataque de nervos, algo que impossibilita os escapes. Enquanto o mundo se descortinava nos segredos das madrugadas vividas agora pelo próximo olhar, era como se a história já estivesse escrita e preparasse sua audiência final. Pleito demandado ao início. Uma certeza de que ambos estariam mais seguros em pólos opostos. Garantidos pela blindagem da distância forçada, quando se despediram naquele dia de maio. Enquanto um coagulava de raiva e desamparo, o outro se desdobrava em culpas impensáveis, desejando em cantigas infantis, que os céus o fizessem sobreviver a mais aquela imprudência de seus ímpetos. J.M.N

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Depois do crime

O último riso ficou represado. Indistinto no passadiço iluminado de todos os seus outros atos finais. O tiro que lhe extinguiu não veio do inimigo. Veio do cano de quem lutou ao lado, vida-a-vida na entrega da batalha. Até no fim conseguiu dar sentido e graça à sua estatura. Parecia maior e mais decente que os demais. Não resvalou. Pediu para que ela se lembrasse das orquídeas e foi assim que arrumou sua partida. Silêncio e flores. Não sem razão todos choraram demoradamente e o assassino sentiu que ele próprio morrera em vida, uma dor de vencido, apesar do sucesso. Morte e orquídeas – outra forma de dizer.
Não! Ela jamais o esqueceria. J.M.N

Se soubesses de onde vim...

Inspirado na música Crank, Catherine Wheel

…talvez não empenhasse tanto louvor ou considerações em me esquecer. Se acaso tivesses acesso à minha ficha corrida, poderias criar defesas às coisas em que sou especialista. Meus ardis, minhas armadilhas seriam muito pouco eficientes. Se soubesses o estrago que me vai por dentro, se ao menos conhecesses as letras das canções de amor que escrevo, em cujas linhas perpétuas, te encontravas desde antes de surgires naquele outubro distante, poderias pedir para sair a tempo. Antes que houvesse amor, antes que os olhos estivessem desesperadamente apontados para as órbitas dos universos que crio. Se soubesses de quais substâncias são compostos os meus sonhos e que sabor tem minha pele depois que cometo atos tão insanos e contrabandos de sentidos seguem as notas das melodias que uso para encantar, talvez tivesses maior chance de proteção. Me chama de falhado. Me chama de esquisito, malandro, estúpido, mas faça questão de ter tuas relíquias. Volta para buscar o que ficou, caso contrário não haverá completude. Acredite, sei do que estou falando. Em minhas superstições sobre o amor e as coisas que deixaste em meus lábios, volto sempre às palavras do último dia: vou sair por ai, viajar, ser feliz. E penso o quanto isso é próximo do que deixei escrito nos papéis de minha infância. E fico extasiado por saber que estas coisas estão nos meus passos e que é a busca que as faz constantes ou antes disso, presentes. Te vejo ainda nas cartas que nunca enviei, nas minhas páginas marginais e nas gotas do remédio para a tosse cada vez mais constante. Se soubesses de onde eu vim, saberias de pronto que a cidade destrói a imagem que temos de nós, arrasa a vontade de sermos maiores e mais ligados aos outros, confina o dentro e remove a identidade atrevida enjaulando os desejos na cartografia das ruas, nas suas periferias. Terias a certeza de que partiste do mesmo lugar e talvez estivesses atrás de responder à mesma pergunta que me ocorre há tempos: queres mesmo ficar? J.M.N

Para ler escutando e depois ler aqui

No som das horas

Faz tempo que não vens por aqui. Dias há, que não se noticiam tuas conquistas, passos, achaques. Não tomas café da manhã nas redondezas. Outros tantos minutos se constituem entre minhas necessidades diárias e a pensa em coisas tuas, nossas. Alumbramentos esparsos que insisto em tomar por memórias. Lembrei que dizias sempre as verdades do avesso e cuidavas para que minhas vergonhas nascessem dos estranhamentos que argumentavas serem exclusividade minha. Ora afeita a contemplações, ora louca por descobertas quase constitutivas. Há meses não retomo meus projetos. Não me cabem nos sonhos os pomares imaginados, o coelho no quintal muito verde a o fim de tarde quieto, em casa feita apenas para três. Bendito o fruto do teu ventre - poesia. Sabias imensamente sobre meus atos mais daninhos, sobre minhas coisas mais próximas às tuas reticências e como não houvesse escape, sabias sobre as minhas desistências através de tuas próprias desventuras. Faz tempo que não vens por aqui. E neste entremeio tenho força apenas para duvidar do que fui ao teu lado, para por em cheque minha imagem no espelho e penso, meio desnorteado, que a semelhança foi nosso maior infortúnio. J.M.N

sábado, 10 de outubro de 2009

Notas de rodapé #2

Testa. Tenta fazer o que te mandam fazer tuas artérias, teu verbo do avesso. Coisa insana esta de dar coordenadas. Nunca as tiveste. Nunca as tive. Sim tudo está como antes. Precisa de algo mais para que reclames teus direitos de pertencer? J.M.N

Foi tudo num mês distante, quando ainda éramos encontro

Sobre a música foi no mês que vem, Vitor Ramil

Não estavas propriamente só. Desabitada, talvez. Quem sabe não querendo mais entrar e encontrar a mesma arrumação da sala, teus bichos que comiam roupas e ocupavam armários e te arranhavam a pele durante as visitas esparsas. Eu, por minha vez, alterado. Como quando se enuncia uma nova teoria enigmática. Houve trajetos cortados, horas marcadas e encontros na distância de nossas casas. Um compêndio de devoção enunciado em horas multiplicáveis, desenvoltas. Os abraços mais apertados que já tive. Enquanto isso acontecia em minha história, outras euforias iam apagando. Deixando ao longe, a marca da inundação imprópria, cataclismo de deserto, coisa inexplicável. Pedi que te aproximasse. Pedi mil vezes que me emprestasse a certeza dos teus passos. E isso veio. E se foi. Tão instantaneamente que me dediquei aos traços. A uma cartografia imaginária de tua passagem por estas instâncias casuais da saudade menos acessada. E te ocupaste de me emprestar teu deserto, que mesmo sem os nômades de costume, avançava sendo explorado por povos e senhores indômitos. Contudo estes não te encontraram tão facilmente como eu, tão oposta a si que era impossível te reconhecer, pois era esse o mesmo estado que me perfazia. E tudo foi tão difícil e secreto, tão autoral e desconhecido que ainda hoje sento ao caminho de minhas escutas, de minhas certezas e te encontro distinta dos demais, senhora e serva deste destino, praticando os hieróglifos que te desmentem, que enterram tuas palavras como em uma tumba muito antiga, para apenas deixar vestígios (do que és de fato). E neste desfazer-se constante, minha única dor me diz que ainda faremos falta um ao outro, criaremos diálogos longos e improváveis, pois ambos se destinam às capturas e tal como ficaste em mim, sei que ainda não me deixaste partir. J.M.N

Para ler escutando e depois ler aqui...

Deslumbramento

Fiquei impedido de existir. Suspenso nas confusões do silêncio. Fiquei feito um incêndio. Consumido. Fiquei pasmo por tua beleza. Morto no teu convite de permanência. Quase falo de botânica e azulejos, os assuntos mais absurdos para mim. Quase crio impossibilidades, ou um novo mundo em que só nós habitássemos. Quase quebro a monotonia do espetáculo e te arranco da boca, um beijo e mais outro.

Deveria te dar outro nome e te levar comigo, para além daquele ambiente indevido. Daquelas pessoas aquém. Devia mesmo ter te tomado num susto, ao pé da porta entreaberta e ter te trancado no meu peito absurdo, fazendo-te respirar ofegante para sustentar meu próprio desatino.

Quero te chamar de engenho e morar no teu corpo profuso, feito o doce que sai in natura, feito nódoa que não sai nunca. Vem comigo neste ímpeto inconseqüente, num descuido que recriará a harmonia dos dias e dará razão, quem sabe, a esses dizeres.

Esqueça do que me chamaste, do que me disseste à saída. Sei que ainda existe história entre as tuas e as minhas tardes. Me deixe te ofertar romarias, aonde irei sem andores ou preces, entregue como só tu me elicias a dizer poesias ou quem sabe, o que mais quiseres. J.M.N