sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Poemas para Lembrar


Figueira da Foz

O mar lambe as lembranças
É a foz da minha saudade
Tenho a imensidão da tua costa
Acenando o que me falta

Coimbra IV

A pedra da vigília se liquefaz
O tempo passa, mas tu não
Estadia que me transforma
Por muitos anos, senão sempre
Estarás em minhas pálpebras

Jerônimos
 
Pessoa – estátua e verbo – jaz
Em sua santidade monumental
Vejo o paço, a pia, rezo no altar
O teu sagrado elucida meu silêncio
Já nem sou um homem que chora
Em minha benção, tua palavra

Santa Clara

De cima do monte
Vigias a cidade
Tuas lágrimas negras
Formulam o Mondego
Por ele descem barcos
Memórias e fados
Santificados

Sintra

Pelas mãos de Margarida fui guiado
Pelas colinas rodopiantes da cidade
No alto, um castelo nos esperava
Vi meu futuro em verde e vermelho
E soube de pronto que para lá voltava
Sem delongas ou medos, entre abraços
À pátria que amei desde aquel’dia

(J.Mattos)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A densidade do abraço

Dentro de mim congelado o ato irrequieto de estada, pertencimento. Quando farsa, a mola da repulsa se ativa e a coisa agarrada se distancia, dentro da gente acalma tudo quanto maldade. O abraço antigamente tinha sintomas que perduravam.

O tom quente e vermelho do enlace, o arco suave do bater de dedos na espinha de quem estava e a semente plantada pela recolha sensível dentro dos braços. Abraço era unir-se a si mesmo pelo outro, ato purinho de criação da gente. A comunhão perfeita de aceitar-se para se dar integralmente.
Oriundo de um tempo em que o quadrado das águas era sem mapa e na lousa se escrevia a lição de casa, a casa era a antessala do sossego e este último a única inspiração, a entidade nascida no molde dos corpos, transitava nua sob a linha umedecida do afago, da espera, da entrega e das coisas tenras.

De ossos perfurados, estrutura difusa, arquitetado agora em redes virtuais, o abraço definha e se beija noutro espaço. Naquele em que eu e você não somos nós nem somos nossos, despertencidos. Somos de todos e esperamos mais nada. Dentro do abraço de hoje eu curto o que me enjoa, o que se publica, a mostra satírica da liberdade sem dose ou terrenos. O que se expõe, mas não se tem. Liberdade erma.
O abraço foi perdendo os dentes e a loucura boa de dar em qualquer lugar, de ser verde e fundido, agarrado e demorado, quase infinito. Muitas vezes em vazios imensos, muitas vezes sem uma palavra que explique. Porque qualquer lugar agora inexiste e abraço é só uma palavra que ata os membros superiores de pessoas cada vez mais desconhecidas. J.M.N.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Outras coisas sobre o lugar

Coimbra II

A pena torna-se agulha
Fura a veia, e, viciante
Entre palavras me inscreve
No sangue, teu nome

Cabo da Roca

A ponta do mundo, a Roca
Donde partiram meus antigos
Vizinhos de tempo e muda
Patrícios, irmãos pelo mundo
Porto que ainda me chama

Joaquim Matos

Ganhei-te, herói no totem
Máximo ancestral desconhecido
Em casa de minha lembrança
Ileso, permanece aceso
Fábula e ente dentro do nome

Coimbra III

Tua noite em prantos, percorro
Ao som das guitarras tristes
Canto entre as capas pretas
Tudo em mim é antigamente
Como o passado das tuas paredes
Como o cheiro do meu presente

Josés
(publicado originalmente em 2009)

Sou dentre eles o quarto.
Herdeiro inaudito das tramas,
das mansas, das duras. Andanças.
Daquelas em cuja esperança
dobrou-se o acorde dos sins.
Sou, dentre os mesmos, estranho.
Dentre os mortos o enfim.
Nomeado em alcunha extremada
e como versos, rimando as espécies,
repito um nome entrementes findo
e presente,
pois se os corpos extinguiram-se
quase santos,
o nome perdura semente. J.M.N.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Dez Encontros (VII)



Meu Senhor,
         Uma recusa em te concluir nasce e cresce em mim, como as daninhas vidas que rastejam nos nossos confins. Cheguei até aqui com as provisões nas últimas. Cheguei maltrapilho, maltratado pela tua letra. Outro. Agora te miro sem reagir enquanto enfeixas meus medos, meus escuros de dentro, a dizeres de mim no umbigo das tuas mineirizes.
Arranchado nas noites de chuvas madrugosas, te adivinhava chegando carregado dos verdes dos buritizais. Eu que te procurava, sempre. Caçava esse jeito doce de saber que cada palavra é um ouriço, e que são as castanhas de dentro é que fazem as sustanças da gente. Bilé eu me encontrava, frouxo da razão, com juízo desatado, a mente desencostada da lógica – desse jeito eu cria que concederias tudo assim: de beijadas mãos. Me querias pactário; convertido e fanático àquela igrejinha que levantastes com a exatidão da tua mão de jagunço atirador: a mão que nunca forou o coração de um outro jagunço.  
É dificultoso achar as veredas nesse teu sertão. Até os carcarás lá de cima precisam apertar bem os olhinhos de rapina pra medirem a grandeza desses campos. Cheguei aí na tua terra dia desses. Vi Otacílias que se recusam à espera, mas de uma boniteza de roubar todo o ar da gente, e capazes de, só com um olhar lançado, plantar um Saara dentro da nossa boca. Confesso, meu senhor, que, por vontade própria minha, tornei-me teu refém. O meu cárcere são as paisagens dessa guerra alinhavada com bem-quereres e saudades entre jagunços, travessias, resistências contra as seduções do diabo e a procura do Deus que está em tudo, mesmo onde não há.
O meu sangue coalhou nesse desvendar-se nos teus vieses. Foi esse modo de querer fortemente algo que teima em não se dar que se instalou, em mim, como um sesto. Agora sei, dolorosamente, que percorrer tuas páginas é viagem sem volta, sem retrovisores, apenas o vento a alisar os cabelos e engambelar as bússolas. O sertão são as ruas, os prédios, os rios e os campos com castanheiras esturricadas a sustentar tempestades. A guerra é o amar e desamar, fiar e desfiar, abeirar e se jogar quando o medo por fim esbarra nas fustigações do desejo. Eu me lancei na tua maré, a água veio e fez um carinho no meu espinhaço. Encrespou todo o meu dentro. wdc


Além do que não disse

Então será assim – de quando em quando. Conhecidos que se esbarraram nas mesmas ansiedades e amores, sem dizê-los, que fique claro. Amigos com dias marcados. Nossos aniversários, as compras do mês na quitanda próxima de casa. Enquanto fazes as tuas contas no trabalho, eu ando pela nostalgia infinda daquelas conversas. Atrasado, sempre atrasado. Esperando que o rumo do fim do dia me leve ao teu sorriso. Nada mais. Esse é um dos tantos desejos inexplicáveis que floresceram. Não é, a bem dizer, uma espera. Não é a lascívia falando. Mas a confiança de que o destino foi generoso o bastante para juntar nossas expectativas em silêncio. Beleza em suspensão, como as métricas sinfônicas de antigamente. Enquanto eu canto, ficas em silêncio. Enquanto encontro os afazeres diários, tenho sempre na memória o dia em que tiraste minhas dúvidas e provaste por “a” mais “b” que não somos seres intermináveis. Mesmo perdido, amargo, cheio de medos e insatisfações, o riso nos pegava certeiro. Encorpado das muitas coisas que amamos juntos. Eu com minha família, tu com a tua. Criando filhos para o mundo dos outros. Tentando não ser demais com os meninos. E ainda assim, ocupando-nos dos erros mais estúpidos, bem afinados com o que somos – dois mentecaptos taciturnos e esquecidos. Carregados de amores e desolação. Feitos um para o outro nos tantos bancos de praça que não frequentamos. Afinal, temos a certeza de que o abraço, a fraternidade e a quietude de não consumarmos mais do que o olhar é o que deve ser feito. Tuas formas, o canto da tua boca, aquilo que vi e aquilo que fingi ver serão sempre mais do que podíamos e mesmo assim, muito menos do que a matéria que me faz traduzir nos meus diários noturnos o que nunca disse. De vez em quando, ao sabor das horas, esqueço-me. Nesses momentos dá um prazer danado dizer em voz baixa o teu nome. O nome feminino do teu batismo, de um poema que conheci menino. Nome das coisas que não se diz e mesmo assim, as coisas que valem mais que qualquer valor, que qualquer presunção de entrega. J.M.N.

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Misread - Kings of Convenience

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Quatro coisas sobre o lugar

Coimbra

Ilha de coisas a me perder
Mirantes, Mondego, milhas
À noite teu canto ainda evoca
Dentro em mim permanecida

Mondego

Nas tuas costas pisei
De pés além e corpo úmido
Rio de curvas quase nulas
Minha casa em Vera Cruz

Chamusca

Viva as amoras em flor
O gosto sumo em sua presença
Escorre dos lábios permanente
A imagem do amor que não veio

Lisboa

Vasta e curva sob meu sonho
Que se arrasta e reedita as cores
Ainda não vim, não deixei Pessoa
Nem dos Jerônimos me despedi

(J.Mattos)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Cegos na plateia

Deram-me o papel principal
Como nos cem atos
Dessa tragédia me deram
As falas, as roupas, os costumes
Tudo me deram para representar
Estou no centro da cena
Um homem entediado e solene
Esperando que morte ou mistério
Me levem para dentro das pedras
Serei um ator mineral
Sem fala, roupas ou credos
Existindo apenas porque o tempo
Concentrou suas contas em mim
Não haverá debulha de medos
Já não conto com a claque gritando
Sou esse imóvel deserto
No centro do palco dançando
Quem verá minhas pernas dormentes?
Quem será a plateia que espera?
Do que já soube um dia,
Dos horários e matinês concorridas
Nada sobrou, nada se diz
E mesmo sozinho, interpretando
A mesma peça, anos a fio
Não deixo a cena nem a fala
Pois, há os cegos me aplaudindo
Que compraram todas as entradas
O homem que interpreto
Não precisa mais ser visto

(J.Mattos)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Lume

O silêncio enciumado grita
Diante do branco anúncio
Tua presença encima escuridões
Atraí os prismas
Refaz a última rima triste
Transforma cor em detalhe
Labareda de uma explosão
A própria descoberta do dia
Dá-me o lume que deslinda
Minha natureza pequena
Minhas horas esquivas
Esteja como pulso ou onda
Em todos os cantos de mim

(J.Mattos)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

LIVRO: Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia



Acabo de ler o livro do jornalista Leonencio Nossa, “Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia”, editado por Companhia das Letras em 2012. Devo dizer: um livro necessário, bem escrito e com detalhes interessantes sobre os ciclos econômicos do estado, sobretudo, a partir da intervenção militar que culminaria com o extermínio dos guerrilheiros do Araguaia, entre 1972 e 1975. Entretanto, em minha opinião, ainda não é “O” livro sobre o terrível personagem que reinou no sul e sudeste do Pará desde a época da ditadura até recentemente. 
 
Mesmo com imensas qualidades como descrições detalhadas das incríveis, e por vezes surreais, relações entre personagens históricos de todo Brasil e muitas das pessoas que fizeram a história recente do Pará, em especial na região de Curionópolis, El Dourado dos Carajás, Marabá e Parauapebas, senti falta de demonstração e esclarecimento mais firmes sobre os feitos de Sebastião Moura, o terrível Major Curió, enquanto comandante das tropas que dizimaram guerrilheiros, torturaram moradores, obrigaram pessoas a trabalhar como delatores e guias do exército, além de ter comandado com a mesma intransigência espartana da caserna, o garimpo de Serra Pelada, a criação de Curionópolis (uma das muitas excrescências do Brasil contemporâneo) e os levantes que culminaram na criação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.
 
O trabalho de Leonencio, que visitou diversas vezes o Pará, seguiu pelos rincões do Brasil muitas pistas sobre a vida de Curió e ainda usa e cita referências de peso da historiografia paraense como o livro Motins Políticos ou História dos Principais Acontecimentos Políticos na Província do Pará, de Domingos Raiol, sem dúvida tem o mérito de escrutinar eventos de pouco conhecimento dos paraenses, como a vida dos “formigas” em Serra Pelada, seu sistema social e econômico, o trabalho escravo promovido por famílias tidas como baluartes de nossa sociedade e que enriqueceram às custas da pobreza de muitos imigrantes e colonos na exploração da castanha. No livro, essas figuras tornam-se, muitas vezes, personagens secundários, mas servem de alerta para o fato de não conhecermos nossa história e colocam em perspectiva a história de enriquecimento da elite paraense, cujas origens históricas nada têm de nobre ou lícito.
 
Mata! deve ser lido e estudado e deve servir de base para outros trabalhos, quem sabe da próxima vez, realizados por paraenses, pois isso também salta aos olhos... Assim como o livro de Taís Moraes e Eumano Silva – Operação Araguaia, trata-se de obra de um estrangeiro. Precisamos dedicar mais tempo à nossa própria história, senão, as visões sobre o que é o Pará e a Amazônia serão sempre crônicas de quem passa e não documentos e historiografia local. Faz-se necessário, por tal, relembrar que as pessoas que podem contar e certificar os acontecimentos da Guerrilha do Araguaia e das diversas insurgências que se seguiram na região do Bico do Papagaio e outros lugares do Norte podem não estar entre nós dentro em breve e, portanto, é urgente adensar os registros e pesquisas sobre o tema.
 
Por fim, mesmo sendo um bom trabalho, o livro de Nossa registra que há muitos arquivos pessoais de Curió ainda não conhecidos e que, como parte do mito, o próprio Curió se reserva o direito de manter informações vitais que esclareceriam inclusive os casos averiguados pela Comissão Nacional da Verdade, tratando-se, pois, de material essencial ao trabalho de recuperação histórica e reparação às famílias dos desaparecidos não havendo mais tempo ou desculpas para serem acessados e analisados com a profundidade que merecem. J.M.N.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Enfeite

Antes que venha o sonho mais uma vez confundir minha vigília. Antes que a carta de amor que escrevo nasça ridícula, antes mesmo de o sabor do beijo se formar como a poeira do esquecimento sobre meus livros, eu te chamo para viver num retrato. No centro de uma parede branca em minha casa. Rodeada de um nada concreto, um mero apoio ao telhado, muralha de sentimentos, continente em limite. Tua foto, imagem única na sala de estar. Convido-te a servir de enfeite, de ponto de referência para os imprecisos que eu vier a usar, duto por onde passarão minhas linhas escapando da realidade e fora mesmo de lugar. Antes que tu, como tema, torne a vencer minhas conquistas e se espalhar nas chagas de tanta vida, quero que chegues ao espaço que nunca ocupei em teus dias, mirante suspenso em meio às coisas comuns de uma casa simples, cuja maior aspiração era servir de espaço, lugar que nos contivesse – fosse aqui ou noutro lugar. Olho teus olhos capturados no clique e vejo quase tudo o que me falta – tua presença, teu sorriso se espalhando em teu rosto, aquela blusa que compramos numa viagem e, claro, teu silêncio de fotografia. Como se tudo do que fosses capaz enquanto andávamos fosse a estática dura, as cores baças de uma foto já sem história, artefato de medir o tempo irreal do que senti e fui. Pendurada num único parafuso, como ancorada na parede branca sem nada mais que suportar. J.M.N.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Dez Encontros (VI)

Pros amigos que fiz em Recife, em especial 
pra Fernanda, minha amiga invisível e distante



Saúdo aqueles que tornaram essa cidade navegável. Domesticado o mar pediu licença à terra e se acomodou à paisagem. Éramos vinte e tantos solitários, trajados com o peso da falta que as raízes fazem. Pisamos aquelas pedras seculares a buscar um no outro um improvável cais. Encontramos vazios, horizontes e ruas com amarelinhas quase apagadas. Muitos redescobriram o galope do coração a bombear sangue para as veias mais antigas. Eu revi o verde obsceno do mar e quis morar naquela árvore rosácea e alta. Ou me tornar alguma janela de Olinda. Aquele outubro tinha dons de eternidade. Nosso itinerário era pro rumo do que nos enrodilha e salva. Mal sabíamos que essas coisas minerais e essenciais não se dão à flor dos percursos. E novembro se avizinhou. Forçamos um sorriso e olhamos pros próprios sapatos a odiar secretamente o tempo. Enganchados. A hora dos acenos não precisava ser tão dolorida. Mas foi. Muito. A cidade fazedora de laços intrincados mostrou-se tecelã de incômodos vazios. Virou ímã, virou bússola. Norte dos afetos e passos. Foi pra isso que essa cidade nos engoliu. E pronto. wdc

Recife, 2014.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Te perdoo

Te perdoo pelos ares que sopras,
expiando possibilidades
 
Toda nossa condenação
 
Te perdoo pelo aço, pela lâmina atirada
desde as tuas tardias palavras
 
Certeiras, fincadas, no alvo do meu perdão
 
Te perdoo, coração, pelas tantas cicatrizes
E as mais costuras de redenção
 
Te perdoo como nunca mais quis
 
Como as setas de Cupido, como o sangue
embebido na despedida de agora
 
Te perdoo como quem mora
 
Em todo teu amor,
esquecido

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A very strange and enchanted boy

Venha e force-me a ver o que não via, a vida em mim, nas coisas ao redor, nas pessoas que amei. Chegue e tome para si a mistura das coisas, meus sapatos, meus passos, a terça parte de minha melancolia. Havia tempos não escrevia. Assim, tão desavisado. O mundo me percorre novamente. Sem suas químicas e truques. Apenas o mais puro sentimento de morte e vida, pouca alegria, um sorriso esforçado, entrementes. Estou aqui neste ponto. Onde todas as minhas forças se refazem. Às portas do fim daqueles dias de insanidade desmedida. Ando pelas beiras. Agora contido pelo enfermo que sempre residiu em mim. Eu mesmo. Pura carne e selvageria. Um menino de natureza doce, mas que tomou café com o diabo. E viveu pra contar. Sem especiarias, admoestações, coisas que culminem em uma morte propriamente dita. Apenas esse recesso de vez em quando. Essa ausência do dia-a-dia virulento desta cidade. De todas as cidades, pelo mundo todo. Esses dias em que escrever é a única estrada para sangrar sem morrer e sem uma vermelhidão que seja real e palpável. Esse dia como hoje em que sinto falta de tanta gente. Uns mortos porque viviam. Outros porque matei. E outros ainda porque esqueceram o viver em si. Não há pena nem saudade. Mas, como disse, falta. Esse gabarito, como assim dizer, das coisas que me edificam e mantêm. Tão encantado. Tenho apenas vontade de deitar no colo do meu amor. E chorar. Por tudo e por nada. Cheio de coisas que por não me caberem, transbordam encharcando a pele do rosto. Salgando as extremidades do meu sorriso. J.M.N.
 
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ao coração entre aspas

Suspensão, arremedo. As coisas andam sem andar. Sinto o que bate dentro do peito. Ontem, ontem, ontem. Meu sangue sobreveio dentro da lágrima. Caindo, incompetente de te esquentar. Minha circulação redunda nula, sem nutrientes e as noites desenterram antigos medos. Sou eu quem quer; sou eu quem parte; sou eu quem fica sem ninguém. E na agonia de entre o sonho e os lençóis a lembrança endereçada de antigamente: vejo a torre, o silêncio dos outros, as mãos que salientam nossa intimidade. Pergunto as perguntas frequentes: por que me perdi? Por que me perdeste? As respostas não são tão amplas, sorrateiras. Brincadeiras de um destino de terracota. Sal e tempo. Pois quando já está chegando a manhãzinha, relembro – o estado de espera se confirma, estou ocupado em conhecer meus limites, andando encurvado sobre mim mesmo. Amor, amor quando eu tive? E mais perguntas evisceram. Ontem, ontem, ontem. O bater de dentro emite saudades. J.M.N.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

De duas ou mais vidas

"Por que as coisas se arrastam sobre
as cantigas... Tenho novamente as liberdades de
morrer e te conquistar."
 
Cantídio - Do livro dos artefatos do nada 

A toda hora me venço. Sou um punhado de coisas ínfimas feitas de um homem, carne e entranhas amedrontadas, mas certas de que seria uma estupidez fugir do desejo. Enseada tormentosa em plena solidão. Ao que vejo, meus prêmios, minha comida, meus alimentos, tanto adoçam quanto amargam. Corro ao redor como se fosse uma olimpíada o que sinto. Arcos, flechas, fogueira e vitórias. Em quantos anos poderei contar meus senões? Por hora a quilometragem vira. Assusta um punhado especial de pessoas. Mas vou saindo daquela prisão de pó e minimalismos. Arco com as coisas por onde estou e escrevo. Impiedosamente arriscando sempre o dobro. As contas estão altas. Violetas e pastiches me atraem igualmente. Quando sereias e melros virão ao encontro? Sei que a queda e a escultura que me fizeram doeram igualmente. Vou sobre a ponte, rindo da risada afetada que o destino me dá. Sobre mim um luar imensamente amoroso e déspota, concomitante. Sob meus pés a madeira que me sustenta e as águas turvas do rio. Se cair – ou quando cair – espero os peixes cardumes fazendo vertigem, me levando em nacos apetitosos. Nadarei de costas sob o luar. Vou me encontrar com a menina que me perguntou quem eu era e, com isso apenas, recebeu de volta o amor de duas ou mais vidas. J.M.N.
 
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Desterrado

Avisaram-me do fim
Logo, logo o mar termina em praia
Cheguei
Dobrando Bojadores
Alisando o fogo de sua língua
Feliz e estranho como o sonho de ontem
Ah, essas fronteiras ultrapassadas
Acaba que matei o homem errado
Nem achei seus tesouros
Enquanto piso na madeira da jangada
Meu caminho já foi traçado
Voltei dos confins
Sem nunca ter voltado
Sou toda essa distância desde o teu beijo

J.M.N.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Últimas palavras

Não sou mais teu. Não és mais. Não há mais a última lembrança e os panos de nosso sono dançam mortos no varal. Sobre eles o mesmo vento morno que nos venceu. Não há mais teus argumentos no centro de minha boca, calando-me confuso por tanto e tanto querer. Engolia em grandes nacos tua autoridade. Não és mais a razão de tudo, o furor dos dias, a décima potência de meus cálculos. Não posso mais com essa cruz de desespero, com a mortalha branca que pousou em cima das melhores lembranças. Há o mau cheiro do tempo infestando o olhar que vigiou por tantos séculos o que não éramos. Não ou mais meu. Não serves mais. A amplidão da novidade me redimiu. E vi o quanto eu estava seco, pele curtida, andando vago sob o sol dos trópicos. Vou-me correndo. Não paro mais. E quando ao menos pensares que te maltratei, perdoe-me ou mate-me de vez entre teus verbos. Não quero mais fazer coisa alguma por ti. J.M.N.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

enquanto as coisas acontecem

A dor só se arrasta. E lembro todas as coisas mortas que me fazem. Digo mortas porque soam como mortas. Estão lá, mas não têm vida. Jazem muito tempo depois de irem. Implicam luto, ausência, desesperança e a certeza de que ainda estou or aqui. Às vezes cheiram mal. São coisas do dia-a-dia. A sopa fria que me fazem engolir, lençóis e livros despedaçados por mãos descuidadas. O poema que nunca chegou às mãos de ninguém. Ademais, as vinganças por tudo quanto não reclamei. São esses eventos de metal e vidro. Que ferem e se estilhaçam como algo muito comum e tão frágil. Sinto o desespero daqueles que me estão ao redor, esperando meu próprio desespero, que eu os marque em uma lista de nomes que odeio. Mas não. O ódio não é para mim. Não este, corriqueiro e deselegante transmutado em caridade ou martírio, em pedidos de estar e bondade constante. Isso não soa bem. Sequer parece uma solução ao fim e o cabo. No ônibus, pela manhã, indo para o trabalho, a velocidade de fora e a mesma do esquecimento, e, ao mesmo tempo, a mesma velocidade da culpa – que me chega e os alcança a todos no mesmo piscar de olhos. E quando miro novamente tudo é tão rápido e tão permanente. Ao mesmo passo que absorvo os acontecimentos, passo-os a um ponto negro da memória, desejando tê-los como amargos desaparecidos. Mas o que acaba de ser imagem, ainda que borrada, tem cheiro, adere aos costumes e vira história, passa ao livro dos dias. Ando mergulhado na compreensão de que também sou feito dessas mesmas coisas doídas e feias as quais procuro repelir. E se consigo é como estivesse saindo de cena, indo aos bastidores da cômica tragédia cotidiana. Meus pares, ancestrais e rebentos são fotografias numa parede branca. Chamá-los de pais, irmãos, filhos, amigos, inimigos, seja lá como, é parte da grande e única verdade que me resolve. São todos parte de mim como sou parte deles. Pertencemo-nos na mesma medida em que amor e ódio se completam, transmutam e viram lágrimas, saudade ou uma obra-prima. Fico com os primeiros já que não sou de me sujar com paisagens impressionistas ou o pó do mármore de estátuas. Sujo-me com a vida e com a mistura obscura do que sinto e do que sentem por mim. Do que sou, do que os outros pensam que sou, daquilo que no fundo, nunca serei. Daquilo que não quero ser jamais. Prefiro o cheiro diário do fim a uma eternidade de bem aventuranças. Sou mais para o inimigo respeitável, cujo amor desmedido do oponente será tanto capaz de uma trégua como de um tiro fatal à queima-roupa. J.M.N.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O homem que amava os cachorros (ou Trotsky e o fim antecipado das utopias)


 
Dois dentre os cinco grandes livros de minha vida têm como tema o assassinato. No primeiro, o golpe fatal recai sobre a moral burguesa emplastada na pretensa fidalguia de uma família mineira em decadência cujos valores não resistem à sanha dos afetos encarnados pelos personagens criados por Lúcio Cardoso. Estou falando do romance Crônica da Casa Assassinada, cuja leitura me rendeu quase dois anos bastantes incômodos entre insônias, descobertas, ilações, reconhecimentos e confrontos terapêuticos dos mais aguerridos. Como Manuel Bandeira comentou: os personagens do livro ficam em nós depois de terminada a leitura. O assassinato da hipocrisia deslinda-se como o sanear de culpas e abre espaço para a verdade como a única possibilidade de redenção.

O segundo livro é do existencialista Albert Camus, O Estrangeiro, cujo personagem principal fustigado pelo sol mata um árabe numa praia de Argel e ao ser condenado vê-se julgado também pelo fato de não ter chorado pela morte de sua mãe. Camus, cujo tema central era o absurdo, traduz através do mítico Mersault, a grande indiferença que assola o ser humano no momento em que perde as ligações mais fundamentais com qualquer sistema de significados capaz de estabilizar nossa existência e nos fazer temer as consequências aos nossos atos deletérios. Com a seguinte sentença, Mersault demole a necessidade de ser perdoado: “como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo”. E assim, assustadoramente, o assassinato se desenha como uma via para a liberdade incondicional do espírito humano.

O terceiro livro é O Homem que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura. Às primeiras páginas meu estômago deu sinais de que não seria uma leitura fácil. Acredito padecer de uma condição especial, a qual me vincula de maneira quase orgânica a determinados livros. Condição próxima, talvez, ao devaneio descrito por Freud como a materialização dos sonhos diurnos do poeta, do pintor, do artista. Em meu caso, um estado de sobressalto. Com a leitura do romance de Padura liguei-me à história com a mesma força titânica que enreda descobertas, mas também achaques, calafrios e, no fim das contas, transita no vale onde esquecimentos vicejam, defesas fenecem e a criatividade ferve. O mesmo lugar de culto, acredito, onde entrementes nasce e se aprimora a capacidade crítica para sentir, interpretar e viver a vida.

Cada vez mais sem defesas e com os mecanismos de percepção acometidos, avancei as páginas e encontrei a morte como um elemento paralelo às ações de criação e destruição aludidas no romance, amalgama de todas as intenções e desfechos da realidade narrada, como se mais do que a marca indelével de nossa estranha aventura sobre a Terra, a morte fosse jurada permanente de nossa consciência tornando qualquer decisão dependente de seu voto para seguir ou ser arquivada e apenas retornar como um desejo reprimido a batucar no fundo da alma, o arrependimento. Foi assim, muito antes de compreender a trama do romance, já me fora inoculado o incômodo das personagens, declarado por suas próprias vozes ou pela voz de um narrador onipresente, por vezes histórico e real, por vezes fictício, mas não menos poderoso.

Cheguei à lista completa das personagens com a vista trêmula, com a ansiedade mobilizada. Acredito que os leitores de Padura, mesmo aqueles que desconhecem Ramón Mercader ou Liev Davidovich Trotsky, nunca mais os esquecerão. Estes dois homens, frutos de um tempo em que a imensidão da referência pessoal acorria à perdição coletiva e dava sentido personificado ao heroísmo e aos triunfos, foram protagonistas de diversas tragédias, vividas em palcos e momentos distintos até que seu encontro fatal adicionou um ato nebuloso à própria tragédia do século XX, à gigantesca e encarniçada batalha entre comunismo e capitalismo, entre o ocidente e o oriente e todas suas consequências, estruturantes ou daninhas, ao tempo em que vivemos.

Justamente por isso, a história contada no livro é minha e sua, dos nossos pais, de nossos filhos e daqueles que, mesmo mortos deixaram o pó de seus ossos nas páginas da história que agora escrevemos ou procuramos reescrever, repetindo muitas vezes as farsas passadas como indício de que não costumamos ler e compreender nosso passado, por vezes, até, fazendo questão de simplesmente apaga-lo dos registros do tempo. Fiquei com a impressão de que o romance de Padura é desses documentos secretos que elucidam tantas coisas e nos proíbem intrinsecamente de buscar respostas a tantas outras.

O Homem que amava os cachorros nos lembra, sobretudo, que matar e morrer em nome de um sonho, em nome de uma utopia, não é para muitos e, por conta da raridade de pessoas com pele e estofo suficientes para tomar as rédeas da história com suas próprias mãos, os acontecimentos que mudam o mundo ocorrem frequentemente em momentos cujas decisões finais competem a poucos, quando não apenas a um indivíduo. Por tal, vale lembrar nosso dever permanente de avaliar e aprofundar o conhecimento sobre pretensos representantes públicos e revermos a forma essencial de nossa participação na construção de nosso contrato coletivo. É nossa tarefa permanente como seres históricos acompanhar o nascer e o sobrelevar de nossos desejos e aspirações, pessoais e coletivas, seja nos espaços de direito, seja no entorno das leis, pois nem sempre contaremos com a assepsia desiderativa da boa intenção ou da assertividade construtiva ou, tampouco possuiremos tempo para reagir às agressões e improbidades que se nos grassarão.

A história tem mostrado que o caos e a confusão comumente são os terrenos das mudanças mais íntimas e prodigiosas da humanidade. Não por isso precisamos esperar a instalação de ambos para agir em nome da mudança e mais uma vez, ao ler o romance de Padura, ocorre-me acertado afirmar que o futuro está agora mesmo em nossa mesa de decisões. E, pensando na proximidade do devir, na fragilidade de nossa governança política, no acesso cada vez mais amplo a informações de toda sorte e na crise da democracia participativa como modelo vigente de condução da maioria das repúblicas do mundo, certamente não é correto que o destino de tantos esteja sempre nas mãos de tão poucos. Em especial quando esse destino se escreve inexoravelmente atado ao ato vil de um assassinato, de atos terroristas, de práticas fundamentalistas de todo calibre ou pior, atado à omissão da parcela maior dos fazedores de história que como massa ou exército deram e ainda darão suas vidas em nome de poucos e suas ideias, devaneios ou loucura.

Ao matar o ex-dirigente bolchevique Liev Trotsky na província de Coyoacán, no México, naquele mês de agosto de 1940, Ramón Mercader inoculou-se com o veneno da semivida, da imagem de herói proscrito, cujas realizações têm sempre a dupla face da conquista e da derrota, com um pé no exemplo da obediência às ordens e aos princípios da ação eficiente, e outro pé na vilania implícita nessa própria obediência, cega para os demais princípios régios da vida. Ao se tornar assassino em nome de uma ideologia, Mercader virou indigente na vida real – aquela que soçobra quando o sonho se esgarça ou acaba abruptamente, mas que continua ofertada para o sobrevivente engolir-se no macerar das culpas e pesadelos. Por seu feito, recebeu brios e medalhas como um grande combatente russo. Esta galhardia, entretanto, revelou-se um golpe perverso do destino, pois Ramón era espanhol da Catalunha e para seu país foi impedido de retornar até mesmo depois da morte.

Por seus atos e decisões Ramón Mercader pode ter sido um daqueles raros seres cujas mãos escreveram a história do mundo, mas também foi um fantasma vivo, como ele mesmo reconheceu em uma das duríssimas passagens do livro. Da mesma maneira, Trotsky se tornou um fantasma. Alvo de uma feroz campanha articulada por Stalin, a qual o levou ao exílio e depois à morte, sua figura deveria ser apagada da história russa e mundial. Nada de seu passado glorioso como comissário para os negócios estrangeiros, organizador e comandante do poderoso exército vermelho, fundador e membro do politburo do Partido Comunista da União Soviética deveria sobreviver ao expurgo. Há que salientar, Trotsky teve sua parcela de responsabilidade nas atrocidades paridas pelo ideal comunista deflagrado maciçamente pela revolução de 1917. E, também por isso, seu destino foi definido de maneira atroz e calculada, pois para extirpar um grande líder e conhecedor dos segredos mais íntimos da Lubianka, como o considerava Stalin e boa parte de seu séquito, uma medida radical era necessária.

Desta forma, a aniquilação de Trotsky e sua família – ele perdeu todos os filhos para o sistema de Stalin – e a formação do assassino Mercader são ações que na mesma proporção mudaram a história e explicitaram a radicalização programada da militância ideológica como meio de supressão das eventuais controvérsias e críticas, e até mesmo a história por trás da ascensão de um modelo alternativo à agressividade capitalista. Representadas pelos eventos que juntaram os destinos de Trotsky e Mercader, as contradições da gestão política de Stalin e as derivações teóricas e práticas do socialismo utópico explodiram como sinais pungentes de exaustão dos ideais assentados na uniformidade e na inflexibilidade como discurso e fazer.

O assassínio de Trotsky, se tomado como cena primordial da radicalização da militância política do século XX, permite a interpretação de que o maior sonho coletivo da história recente da humanidade se perdeu nas garras do culto pela personalidade e junto com outros exemplos de governança estatal totalitária, provocou uma ferida incurável em seus propósitos e valores, culminando na asseveração da resistência coletiva a modelos cuja determinante organizacional da vida comunitária seja a igualdade determinada e cuja lide de alinhamento do que não cabe nas plenárias de discussão dos assuntos coletivos, é a eliminação calculada dos antagonistas.

Num tempo em que a busca por algo em que acreditar e modelos e pessoas que sirvam de guias para nossos sonhos e aspirações convive com a possibilidade da autopromoção instantânea das redes sociais e da mídia sensacionalista, há que reler com vigor e crítica o momento histórico enquadrado no romance O homem que amava os cachorros. É inspirador revisitar um tempo em que grandes homens vieram e morreram em nome de seus ideais, mas também o tempo em que a obediência cega ofuscou o avanço de um meio de produção coletivo construído por aderência, dando lugar a uma conivência temperada pelo medo e pela opressão. Os resquícios dessa experiência transmutaram-se em sementes de muitas práticas modernas, como a criminalização dos movimentos sociais, a omissão criminosa do estado em relação ao racismo e à segregação social, além da individualização radical dos desejos e a instalação da promessa de que através de espaços virtuais todos podem ser e fazer o que quiserem.

Já estamos vivenciando a materialização de muitos dos maus devaneios produzidos no ciberespaço – como blackblocks, redes de neonazistas, redes de pedofilia e quitais – modelos da radicalização frutificada na ausência de referências pessoais e coletivas, de tessituras culturais mais refinadas e mediadas por instituições fortes e referendadas, cujas ações atendam ou substituam frustrações e motivem ao ponto de provocar mudanças estruturais no comportamento das pessoas e dos grupos, de maneira que estes possam viver o real sem perder de vista os caminhos do bom devaneio, da arte, da criação elevada.

Trotsky morto e seu assassino liberto, um homem comum que amava cachorros – quadro que simboliza de maneira potente a derrocada da utopia em nome do pragmatismo totalitário (de estado e social), e a substituição de todos os sonhos pela realidade ultra vívida, experienciada como fantasia permanente e por isso mesmo, cena onde tudo o que se pode conceber de desviante, medonho e aterrador é possível. O assassinato neste caso se impõe como início e fim da busca pela transformação social, pela substituição dos sistemas de pensamento e convivência em nome do avanço civilizacional. Seja lá como for a vida persiste. E ela ainda é a maior das utopias. J.M.N.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cartas a ninguém (14.06.2014 – 01h37min)

Querida,

Aprovei as contas junto aos órgãos competentes. Livrei-me disso, afinal. A vida segue com as coisas diárias em seus devidos lugares e com meu coração arruinado nessa espera por uma perdição que seja. Tenho raiva dessa inculta entrega ao espetáculo e estou, definitivamente, de saco cheio do pão e circo de toda a vida.
Escrevo para contar como, afinal, as coisas soam brandas em minhas linhas e como as horas de desespero diminuíram substancialmente a despeito da sensação de extermínio a cada palavra exarada. É isso, exarada, como uma lei escrita para não ser cumprida. Meus versos foram institucionalizados? Ou fui eu quem se perdeu da veemência e da loucura?

Qual nada. Recuso-me pensar ou agir como um normal. Ou “anormalhado” para usar a melhor potência do impropério. Recuso-me como sempre me recusarei a estar diante dos astros prestando homenagens sentidas ao luar que me cobre, ao vento que me dá balanço ou ao negro da noite que consome meus olhos cansados. Sou este. Ponto. Quem quiser que me aceite.
Dou e quero retorno. Quem diz o contrário é piegas ou mal intencionado. Ou ambos que é a desgraça maior. Dou e quero retorno, pois sou humano. Sou cheio de coisas menores e pouco engrandecedoras. Não quero ser mais ou menos que isso. Adoro as contradições. Mas sabe querida, perdi de vez a paciência com aqueles que supõe estar nas mãos de Deus a felicidade, a temperança, a qualidade última do que é humano.

E olha que tenho aceitado mais tranquilamente minha porção de crente. Mas minha fé é no outro como gente e sorte, amor e frêmito, maldade e bondade lanceadas em fitilhos vermelhos no coração de cada qual. Tudo se dá ao mesmo tempo afinal. Separar joio de trigo é uma tarefa das mais absurdas. E me perdoem os céticos, os engenheiros, os matemáticos e toda a sorte de bem sucedidos (?) que traçaram seus planos de vida e deram certo.
Minhas roupas puem, minhas retinas têm feridas, meu sangue não é o mesmo e meu coração bate quando quer. Não sou dono de mim, não pretendo chegar sempre no mesmo horário e me enfada sobremaneira acordar todos os dias do mesmo lado da cama e com a mesma sensação de que parei no tempo ou de que o tempo desistiu de mim e apenas corre inexorável para o dia em que não existirei mais.

Antes disso, direi ao que vim. E vim da mesma monta que Zé Régio, para marcar meus pés na areia inexplorada. Sou essa coisa incongruente, limitada e divina na proporção mesma de minha humanidade. Sou divino porque toco em mãos, pensei em assaltar um banco, desejei mal a quem me pariu e ao mesmo tempo os amo mais que posso, entrego o que não tenho e suo o suor do cansaço que não queria ter, pois tenho mesmo é preguiça de atestar meus fracassos.
O que quero dizer, querida, é que preciso de férias. Afastar-me das coisas iníquas do mundo e chamar mais palavrões de vez em quando. Preciso, sobretudo, reafirmar meu amor pelas pessoas, mostrando-as que nem sempre serei o que querem, mas estarei aqui pro que der... quando vier. Desde que não seja antes de minha partida.

Sinceramente,

J.Mattos

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Exercícios bilíngues III

Sentidos
 

Frio de aço como lâmina
A língua destroça a palavra
Escorre sobre a lágrima
Devora silêncios
Esgarça o perdão
Em socorro o toque
Sopé da existência
Mão a mão conquista-se a pele
Abre-se a veia para a voz
O olhar finalmente pousa
Nada entre a luz e a vontade
Consumamos as pendências
Um no outro
Passamos de nomes
A um só verbo
 

(Senses)
 

Steel cold as a blade
The tongue grinds all words
And flows upon a tear
Devouring silence
Frays apart forgiveness
The touch reliefs
Foothills of the existence
Hand by hand winning skin
The look finally lands
Nothing between

The light and the will
We consummated the backlogs

In each other
Are no more names
But a same true verb

J.M.N.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Exercícios bilíngues II

Roubaram-me a essência
De andarilho
Malas e trajes de bem viver
Essas asas de pensa própria
Querem que eu acabe no sol
Tornado cinza pelo plasma
Dez mil centígrados
Elevam demais a minha sorte
Corro riscos céu a fora
E quando pouso em telhados
Por água ou cascalhos
As asas batem sem rumo dito
Estou perdido em liberdades


Volé mon essence
Le vagabond
Sacs et costumes de bien vivre
Ces ailes propre pensée
Je veux finir dans le soleil
Poudre faite par plasma
Dix mille degrés centigrades
Elever ma chance aussi
Prendre des risques hors du ciel
Et lors de l'atterrissage sur les toits
Par l'eau ou les boutures
Ailes battent sans palier dit
Je suis perdu sur les libertés


J.M.N.