sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Últimas palavras

Não sou mais teu. Não és mais. Não há mais a última lembrança e os panos de nosso sono dançam mortos no varal. Sobre eles o mesmo vento morno que nos venceu. Não há mais teus argumentos no centro de minha boca, calando-me confuso por tanto e tanto querer. Engolia em grandes nacos tua autoridade. Não és mais a razão de tudo, o furor dos dias, a décima potência de meus cálculos. Não posso mais com essa cruz de desespero, com a mortalha branca que pousou em cima das melhores lembranças. Há o mau cheiro do tempo infestando o olhar que vigiou por tantos séculos o que não éramos. Não ou mais meu. Não serves mais. A amplidão da novidade me redimiu. E vi o quanto eu estava seco, pele curtida, andando vago sob o sol dos trópicos. Vou-me correndo. Não paro mais. E quando ao menos pensares que te maltratei, perdoe-me ou mate-me de vez entre teus verbos. Não quero mais fazer coisa alguma por ti. J.M.N.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

enquanto as coisas acontecem

A dor só se arrasta. E lembro todas as coisas mortas que me fazem. Digo mortas porque soam como mortas. Estão lá, mas não têm vida. Jazem muito tempo depois de irem. Implicam luto, ausência, desesperança e a certeza de que ainda estou or aqui. Às vezes cheiram mal. São coisas do dia-a-dia. A sopa fria que me fazem engolir, lençóis e livros despedaçados por mãos descuidadas. O poema que nunca chegou às mãos de ninguém. Ademais, as vinganças por tudo quanto não reclamei. São esses eventos de metal e vidro. Que ferem e se estilhaçam como algo muito comum e tão frágil. Sinto o desespero daqueles que me estão ao redor, esperando meu próprio desespero, que eu os marque em uma lista de nomes que odeio. Mas não. O ódio não é para mim. Não este, corriqueiro e deselegante transmutado em caridade ou martírio, em pedidos de estar e bondade constante. Isso não soa bem. Sequer parece uma solução ao fim e o cabo. No ônibus, pela manhã, indo para o trabalho, a velocidade de fora e a mesma do esquecimento, e, ao mesmo tempo, a mesma velocidade da culpa – que me chega e os alcança a todos no mesmo piscar de olhos. E quando miro novamente tudo é tão rápido e tão permanente. Ao mesmo passo que absorvo os acontecimentos, passo-os a um ponto negro da memória, desejando tê-los como amargos desaparecidos. Mas o que acaba de ser imagem, ainda que borrada, tem cheiro, adere aos costumes e vira história, passa ao livro dos dias. Ando mergulhado na compreensão de que também sou feito dessas mesmas coisas doídas e feias as quais procuro repelir. E se consigo é como estivesse saindo de cena, indo aos bastidores da cômica tragédia cotidiana. Meus pares, ancestrais e rebentos são fotografias numa parede branca. Chamá-los de pais, irmãos, filhos, amigos, inimigos, seja lá como, é parte da grande e única verdade que me resolve. São todos parte de mim como sou parte deles. Pertencemo-nos na mesma medida em que amor e ódio se completam, transmutam e viram lágrimas, saudade ou uma obra-prima. Fico com os primeiros já que não sou de me sujar com paisagens impressionistas ou o pó do mármore de estátuas. Sujo-me com a vida e com a mistura obscura do que sinto e do que sentem por mim. Do que sou, do que os outros pensam que sou, daquilo que no fundo, nunca serei. Daquilo que não quero ser jamais. Prefiro o cheiro diário do fim a uma eternidade de bem aventuranças. Sou mais para o inimigo respeitável, cujo amor desmedido do oponente será tanto capaz de uma trégua como de um tiro fatal à queima-roupa. J.M.N.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O homem que amava os cachorros (ou Trotsky e o fim antecipado das utopias)


 
Dois dentre os cinco grandes livros de minha vida têm como tema o assassinato. No primeiro, o golpe fatal recai sobre a moral burguesa emplastada na pretensa fidalguia de uma família mineira em decadência cujos valores não resistem à sanha dos afetos encarnados pelos personagens criados por Lúcio Cardoso. Estou falando do romance Crônica da Casa Assassinada, cuja leitura me rendeu quase dois anos bastantes incômodos entre insônias, descobertas, ilações, reconhecimentos e confrontos terapêuticos dos mais aguerridos. Como Manuel Bandeira comentou: os personagens do livro ficam em nós depois de terminada a leitura. O assassinato da hipocrisia deslinda-se como o sanear de culpas e abre espaço para a verdade como a única possibilidade de redenção.

O segundo livro é do existencialista Albert Camus, O Estrangeiro, cujo personagem principal fustigado pelo sol mata um árabe numa praia de Argel e ao ser condenado vê-se julgado também pelo fato de não ter chorado pela morte de sua mãe. Camus, cujo tema central era o absurdo, traduz através do mítico Mersault, a grande indiferença que assola o ser humano no momento em que perde as ligações mais fundamentais com qualquer sistema de significados capaz de estabilizar nossa existência e nos fazer temer as consequências aos nossos atos deletérios. Com a seguinte sentença, Mersault demole a necessidade de ser perdoado: “como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo”. E assim, assustadoramente, o assassinato se desenha como uma via para a liberdade incondicional do espírito humano.

O terceiro livro é O Homem que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura. Às primeiras páginas meu estômago deu sinais de que não seria uma leitura fácil. Acredito padecer de uma condição especial, a qual me vincula de maneira quase orgânica a determinados livros. Condição próxima, talvez, ao devaneio descrito por Freud como a materialização dos sonhos diurnos do poeta, do pintor, do artista. Em meu caso, um estado de sobressalto. Com a leitura do romance de Padura liguei-me à história com a mesma força titânica que enreda descobertas, mas também achaques, calafrios e, no fim das contas, transita no vale onde esquecimentos vicejam, defesas fenecem e a criatividade ferve. O mesmo lugar de culto, acredito, onde entrementes nasce e se aprimora a capacidade crítica para sentir, interpretar e viver a vida.

Cada vez mais sem defesas e com os mecanismos de percepção acometidos, avancei as páginas e encontrei a morte como um elemento paralelo às ações de criação e destruição aludidas no romance, amalgama de todas as intenções e desfechos da realidade narrada, como se mais do que a marca indelével de nossa estranha aventura sobre a Terra, a morte fosse jurada permanente de nossa consciência tornando qualquer decisão dependente de seu voto para seguir ou ser arquivada e apenas retornar como um desejo reprimido a batucar no fundo da alma, o arrependimento. Foi assim, muito antes de compreender a trama do romance, já me fora inoculado o incômodo das personagens, declarado por suas próprias vozes ou pela voz de um narrador onipresente, por vezes histórico e real, por vezes fictício, mas não menos poderoso.

Cheguei à lista completa das personagens com a vista trêmula, com a ansiedade mobilizada. Acredito que os leitores de Padura, mesmo aqueles que desconhecem Ramón Mercader ou Liev Davidovich Trotsky, nunca mais os esquecerão. Estes dois homens, frutos de um tempo em que a imensidão da referência pessoal acorria à perdição coletiva e dava sentido personificado ao heroísmo e aos triunfos, foram protagonistas de diversas tragédias, vividas em palcos e momentos distintos até que seu encontro fatal adicionou um ato nebuloso à própria tragédia do século XX, à gigantesca e encarniçada batalha entre comunismo e capitalismo, entre o ocidente e o oriente e todas suas consequências, estruturantes ou daninhas, ao tempo em que vivemos.

Justamente por isso, a história contada no livro é minha e sua, dos nossos pais, de nossos filhos e daqueles que, mesmo mortos deixaram o pó de seus ossos nas páginas da história que agora escrevemos ou procuramos reescrever, repetindo muitas vezes as farsas passadas como indício de que não costumamos ler e compreender nosso passado, por vezes, até, fazendo questão de simplesmente apaga-lo dos registros do tempo. Fiquei com a impressão de que o romance de Padura é desses documentos secretos que elucidam tantas coisas e nos proíbem intrinsecamente de buscar respostas a tantas outras.

O Homem que amava os cachorros nos lembra, sobretudo, que matar e morrer em nome de um sonho, em nome de uma utopia, não é para muitos e, por conta da raridade de pessoas com pele e estofo suficientes para tomar as rédeas da história com suas próprias mãos, os acontecimentos que mudam o mundo ocorrem frequentemente em momentos cujas decisões finais competem a poucos, quando não apenas a um indivíduo. Por tal, vale lembrar nosso dever permanente de avaliar e aprofundar o conhecimento sobre pretensos representantes públicos e revermos a forma essencial de nossa participação na construção de nosso contrato coletivo. É nossa tarefa permanente como seres históricos acompanhar o nascer e o sobrelevar de nossos desejos e aspirações, pessoais e coletivas, seja nos espaços de direito, seja no entorno das leis, pois nem sempre contaremos com a assepsia desiderativa da boa intenção ou da assertividade construtiva ou, tampouco possuiremos tempo para reagir às agressões e improbidades que se nos grassarão.

A história tem mostrado que o caos e a confusão comumente são os terrenos das mudanças mais íntimas e prodigiosas da humanidade. Não por isso precisamos esperar a instalação de ambos para agir em nome da mudança e mais uma vez, ao ler o romance de Padura, ocorre-me acertado afirmar que o futuro está agora mesmo em nossa mesa de decisões. E, pensando na proximidade do devir, na fragilidade de nossa governança política, no acesso cada vez mais amplo a informações de toda sorte e na crise da democracia participativa como modelo vigente de condução da maioria das repúblicas do mundo, certamente não é correto que o destino de tantos esteja sempre nas mãos de tão poucos. Em especial quando esse destino se escreve inexoravelmente atado ao ato vil de um assassinato, de atos terroristas, de práticas fundamentalistas de todo calibre ou pior, atado à omissão da parcela maior dos fazedores de história que como massa ou exército deram e ainda darão suas vidas em nome de poucos e suas ideias, devaneios ou loucura.

Ao matar o ex-dirigente bolchevique Liev Trotsky na província de Coyoacán, no México, naquele mês de agosto de 1940, Ramón Mercader inoculou-se com o veneno da semivida, da imagem de herói proscrito, cujas realizações têm sempre a dupla face da conquista e da derrota, com um pé no exemplo da obediência às ordens e aos princípios da ação eficiente, e outro pé na vilania implícita nessa própria obediência, cega para os demais princípios régios da vida. Ao se tornar assassino em nome de uma ideologia, Mercader virou indigente na vida real – aquela que soçobra quando o sonho se esgarça ou acaba abruptamente, mas que continua ofertada para o sobrevivente engolir-se no macerar das culpas e pesadelos. Por seu feito, recebeu brios e medalhas como um grande combatente russo. Esta galhardia, entretanto, revelou-se um golpe perverso do destino, pois Ramón era espanhol da Catalunha e para seu país foi impedido de retornar até mesmo depois da morte.

Por seus atos e decisões Ramón Mercader pode ter sido um daqueles raros seres cujas mãos escreveram a história do mundo, mas também foi um fantasma vivo, como ele mesmo reconheceu em uma das duríssimas passagens do livro. Da mesma maneira, Trotsky se tornou um fantasma. Alvo de uma feroz campanha articulada por Stalin, a qual o levou ao exílio e depois à morte, sua figura deveria ser apagada da história russa e mundial. Nada de seu passado glorioso como comissário para os negócios estrangeiros, organizador e comandante do poderoso exército vermelho, fundador e membro do politburo do Partido Comunista da União Soviética deveria sobreviver ao expurgo. Há que salientar, Trotsky teve sua parcela de responsabilidade nas atrocidades paridas pelo ideal comunista deflagrado maciçamente pela revolução de 1917. E, também por isso, seu destino foi definido de maneira atroz e calculada, pois para extirpar um grande líder e conhecedor dos segredos mais íntimos da Lubianka, como o considerava Stalin e boa parte de seu séquito, uma medida radical era necessária.

Desta forma, a aniquilação de Trotsky e sua família – ele perdeu todos os filhos para o sistema de Stalin – e a formação do assassino Mercader são ações que na mesma proporção mudaram a história e explicitaram a radicalização programada da militância ideológica como meio de supressão das eventuais controvérsias e críticas, e até mesmo a história por trás da ascensão de um modelo alternativo à agressividade capitalista. Representadas pelos eventos que juntaram os destinos de Trotsky e Mercader, as contradições da gestão política de Stalin e as derivações teóricas e práticas do socialismo utópico explodiram como sinais pungentes de exaustão dos ideais assentados na uniformidade e na inflexibilidade como discurso e fazer.

O assassínio de Trotsky, se tomado como cena primordial da radicalização da militância política do século XX, permite a interpretação de que o maior sonho coletivo da história recente da humanidade se perdeu nas garras do culto pela personalidade e junto com outros exemplos de governança estatal totalitária, provocou uma ferida incurável em seus propósitos e valores, culminando na asseveração da resistência coletiva a modelos cuja determinante organizacional da vida comunitária seja a igualdade determinada e cuja lide de alinhamento do que não cabe nas plenárias de discussão dos assuntos coletivos, é a eliminação calculada dos antagonistas.

Num tempo em que a busca por algo em que acreditar e modelos e pessoas que sirvam de guias para nossos sonhos e aspirações convive com a possibilidade da autopromoção instantânea das redes sociais e da mídia sensacionalista, há que reler com vigor e crítica o momento histórico enquadrado no romance O homem que amava os cachorros. É inspirador revisitar um tempo em que grandes homens vieram e morreram em nome de seus ideais, mas também o tempo em que a obediência cega ofuscou o avanço de um meio de produção coletivo construído por aderência, dando lugar a uma conivência temperada pelo medo e pela opressão. Os resquícios dessa experiência transmutaram-se em sementes de muitas práticas modernas, como a criminalização dos movimentos sociais, a omissão criminosa do estado em relação ao racismo e à segregação social, além da individualização radical dos desejos e a instalação da promessa de que através de espaços virtuais todos podem ser e fazer o que quiserem.

Já estamos vivenciando a materialização de muitos dos maus devaneios produzidos no ciberespaço – como blackblocks, redes de neonazistas, redes de pedofilia e quitais – modelos da radicalização frutificada na ausência de referências pessoais e coletivas, de tessituras culturais mais refinadas e mediadas por instituições fortes e referendadas, cujas ações atendam ou substituam frustrações e motivem ao ponto de provocar mudanças estruturais no comportamento das pessoas e dos grupos, de maneira que estes possam viver o real sem perder de vista os caminhos do bom devaneio, da arte, da criação elevada.

Trotsky morto e seu assassino liberto, um homem comum que amava cachorros – quadro que simboliza de maneira potente a derrocada da utopia em nome do pragmatismo totalitário (de estado e social), e a substituição de todos os sonhos pela realidade ultra vívida, experienciada como fantasia permanente e por isso mesmo, cena onde tudo o que se pode conceber de desviante, medonho e aterrador é possível. O assassinato neste caso se impõe como início e fim da busca pela transformação social, pela substituição dos sistemas de pensamento e convivência em nome do avanço civilizacional. Seja lá como for a vida persiste. E ela ainda é a maior das utopias. J.M.N.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cartas a ninguém (14.06.2014 – 01h37min)

Querida,

Aprovei as contas junto aos órgãos competentes. Livrei-me disso, afinal. A vida segue com as coisas diárias em seus devidos lugares e com meu coração arruinado nessa espera por uma perdição que seja. Tenho raiva dessa inculta entrega ao espetáculo e estou, definitivamente, de saco cheio do pão e circo de toda a vida.
Escrevo para contar como, afinal, as coisas soam brandas em minhas linhas e como as horas de desespero diminuíram substancialmente a despeito da sensação de extermínio a cada palavra exarada. É isso, exarada, como uma lei escrita para não ser cumprida. Meus versos foram institucionalizados? Ou fui eu quem se perdeu da veemência e da loucura?

Qual nada. Recuso-me pensar ou agir como um normal. Ou “anormalhado” para usar a melhor potência do impropério. Recuso-me como sempre me recusarei a estar diante dos astros prestando homenagens sentidas ao luar que me cobre, ao vento que me dá balanço ou ao negro da noite que consome meus olhos cansados. Sou este. Ponto. Quem quiser que me aceite.
Dou e quero retorno. Quem diz o contrário é piegas ou mal intencionado. Ou ambos que é a desgraça maior. Dou e quero retorno, pois sou humano. Sou cheio de coisas menores e pouco engrandecedoras. Não quero ser mais ou menos que isso. Adoro as contradições. Mas sabe querida, perdi de vez a paciência com aqueles que supõe estar nas mãos de Deus a felicidade, a temperança, a qualidade última do que é humano.

E olha que tenho aceitado mais tranquilamente minha porção de crente. Mas minha fé é no outro como gente e sorte, amor e frêmito, maldade e bondade lanceadas em fitilhos vermelhos no coração de cada qual. Tudo se dá ao mesmo tempo afinal. Separar joio de trigo é uma tarefa das mais absurdas. E me perdoem os céticos, os engenheiros, os matemáticos e toda a sorte de bem sucedidos (?) que traçaram seus planos de vida e deram certo.
Minhas roupas puem, minhas retinas têm feridas, meu sangue não é o mesmo e meu coração bate quando quer. Não sou dono de mim, não pretendo chegar sempre no mesmo horário e me enfada sobremaneira acordar todos os dias do mesmo lado da cama e com a mesma sensação de que parei no tempo ou de que o tempo desistiu de mim e apenas corre inexorável para o dia em que não existirei mais.

Antes disso, direi ao que vim. E vim da mesma monta que Zé Régio, para marcar meus pés na areia inexplorada. Sou essa coisa incongruente, limitada e divina na proporção mesma de minha humanidade. Sou divino porque toco em mãos, pensei em assaltar um banco, desejei mal a quem me pariu e ao mesmo tempo os amo mais que posso, entrego o que não tenho e suo o suor do cansaço que não queria ter, pois tenho mesmo é preguiça de atestar meus fracassos.
O que quero dizer, querida, é que preciso de férias. Afastar-me das coisas iníquas do mundo e chamar mais palavrões de vez em quando. Preciso, sobretudo, reafirmar meu amor pelas pessoas, mostrando-as que nem sempre serei o que querem, mas estarei aqui pro que der... quando vier. Desde que não seja antes de minha partida.

Sinceramente,

J.Mattos

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Exercícios bilíngues III

Sentidos
 

Frio de aço como lâmina
A língua destroça a palavra
Escorre sobre a lágrima
Devora silêncios
Esgarça o perdão
Em socorro o toque
Sopé da existência
Mão a mão conquista-se a pele
Abre-se a veia para a voz
O olhar finalmente pousa
Nada entre a luz e a vontade
Consumamos as pendências
Um no outro
Passamos de nomes
A um só verbo
 

(Senses)
 

Steel cold as a blade
The tongue grinds all words
And flows upon a tear
Devouring silence
Frays apart forgiveness
The touch reliefs
Foothills of the existence
Hand by hand winning skin
The look finally lands
Nothing between

The light and the will
We consummated the backlogs

In each other
Are no more names
But a same true verb

J.M.N.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Exercícios bilíngues II

Roubaram-me a essência
De andarilho
Malas e trajes de bem viver
Essas asas de pensa própria
Querem que eu acabe no sol
Tornado cinza pelo plasma
Dez mil centígrados
Elevam demais a minha sorte
Corro riscos céu a fora
E quando pouso em telhados
Por água ou cascalhos
As asas batem sem rumo dito
Estou perdido em liberdades


Volé mon essence
Le vagabond
Sacs et costumes de bien vivre
Ces ailes propre pensée
Je veux finir dans le soleil
Poudre faite par plasma
Dix mille degrés centigrades
Elever ma chance aussi
Prendre des risques hors du ciel
Et lors de l'atterrissage sur les toits
Par l'eau ou les boutures
Ailes battent sans palier dit
Je suis perdu sur les libertés


J.M.N.

Declaração


Se me oponho à tristeza é porque me vens contando que o outro lado de mim, sou eu mesmo... E não do avesso, apenas de outra cor, com contornos diversos, palhaço e louco. Bem vindo e mal quisto em proporções iguais. Se ouso colocar meus dedos na pena é porque meu coração te bate. Em ritmo constante e ao mesmo tempo errático, confundindo semânticas e cordas vocais, pois ora te escrevo (ou escrevo qualquer coisa) e ora te grito (como grito o que sinto mais do que em qualquer tempo). Se me estrago e recorto, anulo, beijo, cuspo, esfrego para sair de mim mesmo essa pele que habito é porque vieste antes. E me fizeste, costuraste, somaste, encostaste teu lábio no meu, bateste na pedra e me habitaste tu mesma por anos. Se acordo de sonhos espessos e barbaridades egóicas é que tenho propriedade agora. As escrituras do meu ser saíram das sombras e acordaram pra vida. Se ouço Vinícius, se canto com Chico, se escrevo cartas desesperadas ao morto Gabriel Marques é que a atadura das melhores feridas foram feitas com o teu tecido de escolhas, às expensas de entrega e euforia e por isso mesmo eu não posso fazer menos do que ser... do que ser. E se eu sussurro novamente que estou morrendo é que sei que vens em socorro, e saberás plantar mais um baobá, ultrapassar mais uma das portas fechadas e abancar-se com a deusa que és na poltrona recém-comprada, em meu quarto de estudos, sobre os papéis de minha mesa. Sempre olhando com o cuidado que só tu aprendeste, pois a eternidade te deu paciência e profundidade. Resta-me entregar os pontos e aprender. Colocar meus limites nas tuas mãos e esperar que avancemos ou caiamos no fundo do poço, onde até mesmo o desespero pode parir coisas lindas, coisas incríveis. Se escrevo essa declaração é porque sinto e nem mesmo sei te dar um nome. J.M.N.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Exercícios Bilíngues I

(luz)

Provo dessa luz que estrelas
Protagonista da cor em tudo
Tua alegria branca me contesta
E acato tua noite, embevecido
Sou teu espaço onde não és
És a manhã de onde eu parto
Artefato de raios entre mil atos
Corpo de um sol, indefinido

 

(luce)
Provo questa luce che le stelle
Protagonista di colore a tutti
La sua gioia bianca mi sfida
E acato tua notte, rapito
Sono il tuo spazio dove ci sono
Tu sei la mattina dove lascio
Artefatto raggio tra mille atti
Corpo de un Sole, indefinito

J.M.N

Adios Gabo!


Cuida que não era pra doer tanto! Assim eu ouvi. Uma quase desculpa pela mão pesada que esquentou meu rosto. Sempre engolia o choro. Rebeldia fisiológica aprendida uns meses antes, durante uma surra de cinto e outras coisas do ambiente. Era época de provas no colégio. Irmã Dulce em coma por causa da idade. Isso doendo também. E ela. Ela tinha um novo namorado. Ademais, os amigos achando que eu era um delator. Sofri calado. Urdido por essa coisa seca e pesada do compromisso com o fracasso em nossa estirpe. Ergue-se a cabeça por uns instantes, mas não, nada de seguir adiante; nada de superar as dores, ou superar-se. Nisso, correndo contra o tempo que estipulara para uma curta e intensa vida de desespero e ilusão, tombei com aquele seu amor nos tempos do cólera. O título cabia em tudo o que sentia e pensava a respeito da dinâmica da casa, das relações, das eviscerações noturnas que começaram não sei quando, mas que determinavam com um peso assombroso o rumo das minhas primeiras linhas sobre o papel. E engoli palavra a palavra numa única noite. E mais uma vez nos dois ou três dias seguintes. De maneira que pela primeira vez um choro quente e desamparado caiu-me dos olhos por causa de algo que li. E para sempre me fisgou a alma o Gabo e sua escrita, o homem e seu universo de arquitetura em solidão e amor. Ou seja, arquitetura feita de uma mesma coisa magnífica e explodida que nos amplia, acossa, dilacera e faz querer mais. Como um pico. Como uma boca marcada por tantas outras. Como um abismo que não deixa escolha, senão lançar-se. Estou em Macondo, desde o primeiro tiro que falhou em minha têmpora, desde que elegi escrever para poupar os pulsos. Desde que o conheci estou em guerra com a impossibilidade de escrever igual, ou ser tão imenso que a partir de mim, verbetes sejam criados em dicionários e o cinema, a música e mesmo a fala corriqueira da América Latina, trocaram os borrolós furados da mesmice e se fizeram em ouro para saudá-lo. E depois de tanto me dar, ele morreu. Numa pálida quinta-feira de abril. Não consegui chorar-lhe as lágrimas devidas. Estava apto para esquecer e seguir, era o que pensava. Mas hoje ao acordar, senti o peso daqueles dias voltando. Cobrando de mim o empenho para mais um retorno sufocante ao que não sou. Dias de trabalho incessante. Naquilo que, além de não me definir, não me arrebata. E lembrei a incrível descrição da queda do Dr. Juvenal Urbino de Calle, marido de Fermina Daza, totalidades existenciais – como dizia Manuel Bandeira – do romance o amor nos tempos do cólera. Ali, na narração de uma queda estúpida que traçaria os mais incríveis contornos da história, descobri o sentimento que me arrebatou quando soube da morte de Gabriel. Em segundos, vi toda a dimensão do que ele e sua literatura me significam. E sinto que ainda estou lá, caindo. Num tempo em que não sobram lágrimas para os ídolos, eu choro por ele escrevendo estas linhas. Vou ficando por aqui. Suspenso na dor de sua agora inexistência. Quem sabe ele cumpra o destino do velho José Arcádio Buendía e se torne parte de uma árvore. Em mim, está. Solene, vultoso e sozinho, como uma tarde de tempestades de estrupício em Macondo. J.M.N.

Baixe aqui, o amor nos tempos do cólera

segunda-feira, 24 de março de 2014

O louco e suas distâncias

Para atravessar a tempestade precisava de um amor.
O amor veio.
Para saltar no ar sem nada que desse medo precisava de mãos e abraços conhecidos.
Eles saltaram junto comigo.
Para a tanta inspiração que enlouquece e divide precisava da leitura quieta, da tragédia profunda das páginas de algum livro.
Tenho mil livros enterrados em mim.
Para o leão que me espreitava na liberdade da ausência precisava de um rifle, precisão e mira.
O franco-atirador veio em meu socorro.
Para a conquista de um muito sentido precisava dos sinônimos, da morfologia dos novos impasses e das águas correntes do rio.
Ganhei o mar, outro horizonte, um continente e a bailarina.
Mas para cela no dorso da loucura precisava de couro e cordas e presilhas, mais um momento para aprender a parar.
Sem nenhum, soltei o animal no campo, mas acho que não andará até que eu resolva domá-lo.

J.M.N.

sábado, 1 de março de 2014

Dez Encontros (V)

Por essa fresta
te vejo, fresca
com tua anca tímida
e o teu riso
frouxo qual tuas verdades
Pela tua greta
ouço um grito
que vem de dentro de mim
rebate no teu centro
e engancha nossas bocas
num beijo trovão
no meio do furdunço
entre o aceno e o avião
Ali, contigo,
entre os expatriados
eu fui o único a achar meu chão.

wdc

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Micro-romance XIV (ou “Nós vamos matar um cara”)


A porta abre e ela se apresenta. Sua presença é logo motivo de euforia. Corpos se debatem. Tem umas proporções destacas passos resolvidos e boca de carne farta. Manda um bom dia demasiado feminino para o conjunto. Todos a escutam atentamente. Mas há dessincronia entre intenção e gestos. Parece querer muito mais do que ser capaz de realizar. O plano exposto é seguido por uma risada geral e abafada. Ela se invoca. E saca suas armas. Todos armados e apontando canos nervosos uns para os outros. A situação fica muito tensa. Alguém vem por trás dela e dá-lhe um beijo. Ela sucumbe. Fazia tempo não era beijada daquele jeito. Depois da cena, todos quietos se reúnem novamente e ela volta a dizer que é plano de uma morte só. Os detalhes ficam bem mais claros. Profits e outros dividendos chegam atrativos. Os homens e outras mulheres já incluídas na turma aceitam de maneira diferente sua proposta. Então haverá apenas uma morte. E ela dará o tiro fatal. Sua especialidade de anos e anos. Apontar, controlar a respiração e disparar – o estampido, o milésimo de segundo antes do fim. Ela conseguia se lembrar da última morte com certa alegria. Naquela oportunidade, havia apenas dado a ordem e as coordenadas para o tiro. Seguiu falando. Tudo acertado, dia e hora marcados nos relógios. Todos esperam. Depois da morte daquele idiota, fortuna e fama os aguardavam. Mas tudo continua silencioso e calmo e, em cima da hora, nada explode, ninguém houve o tiro-aviso ser disparado. Os olhos dela cheios de lágrimas escorrem. Arma na mão, ela se deixa levar pela lembrança. Pensa no beijo. Quase o revive. E então, solta pelo rádio: Abortar! Abortar! Já era tarde demais. Alguém morreria naquele dia. Cada um seguiu sua rota de fuga. Dias depois se reencontraram para acertar as contas. Afinal, houve investimentos e o breve posicionamento de intenções, às vezes é suficiente para gerar dívidas de vida inteira. Ou simplesmente dívidas de vida. Mais tarde, em terreno ermo, quando olhava diretamente o breu dos canos de seus assassinos, lembrava-se com mais vivacidade do beijo. Quase se urina. O beijo que há muito ela esperava. Depois o negro. Aquele era serviço para quem não pensava demais, concluiu. Morreu em nome do que vivera uma única vez, depois de tanto tempo. J.M.N.