quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fragmentos

As partes deste sonho misturadas
São como âncoras de um barco à deriva
Falíveis, dançando nas águas
Sem tocar o fundo
Tudo se encontra nestas partes
Meu corpo que antes respondia
A janela branca do fim da rua
Partes do coarador do quintal
E tua presença
E tudo, ao mesmo tempo
Se perde nos fragmentos
A verdadeira ousadia, o olhar
O frêmito do dia da partida
A vontade de não voltar jamais
A presença sem forma
De outros tantos sonhos
Agora que eu vi com os mesmos olhos
As cores de seu esquife
Perdoe-me a franqueza, mas
Não ando querendo fulgências, ar
Tragam-me a carne viva e pulsante
Espero um beijo de morder-se
E regozijar
Um poema de carne osso
E temporais
Como as partes misturadas desse sonho
Já tão distintas do que eu queria
Anteontem
Já tão prenhes

Dos quereres de manhã

(J.Mattos)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Po(e)magem

Sigo meu curso depois de atracar
Meu ubá descansa de sua lida
Levar e trazer, levar e trazer
Dorme bem meu lugar de caminhos
Nos escaninhos do rio
Esta é minha carruagem
Assim, dormindo atracada
Um animal descansando
Feito pelas mãos de quem
Não se cansa jamais
Subir e descer essas águas

(J.Mattos)

Eis um homem (de quem ouvi falar)

Os clérigos contaram suas histórias. Estranhamento e fuga. Deus era mais próximo do que lhe diziam, era o que achava. Estava nos seus erros, estava em seu pessimismo e em sua sincera falta de alegria nas coisas mais simples do dia-a-dia. Aliás sua convicção levou-lhe a todos os cantos do mundo, procurando a Deus. Procurando-se. Seus limites. Suas imensidões. Seu homem como espelho procurava, a humanidade que se enfrenta em abraços cada vez mais escassos. Foi-se pelas águas dos mares e pelas dunas secas de muitos desertos. Não era bem um homem de crenças. Cria na humanidade, todavia. Certa vez teve uma visão e a seguiu durante muitos e muitos anos: alguém abandonado na chuva era mais bonito do que véspera de Natal, mais bonito do que um barco minúsculo enfrentando o Pacífico. Uma pessoa que se molha na natureza insuperável desse mundo é matéria de vida, uma escultura preciosa de se ver. Tudo é silêncio ao redor. Tudo está ao seu dispor. Não há a mediocridade da classe média, a mesquinhez dos abastados, não há classes. Há a pessoa em si. Sozinha em si. Lavada pela única água que abençoa. Cheirava à divindade que perdemos em nossas bocas humanas nas falas do tempo. Criando limites, enxertando pesares quando tudo deveria ser um dia após o outro. Cintilava a pessoa na chuva que ele viu e amou instantaneamente. Não porque fora abandonada aquela pessoa que ele viu sozinha na chuva, mas por que era perfeita. Seguia pela fina estrada da existência mesmo sem ter ninguém por si. Encharcado de tanta vida que lhe foi impossível sentir-se diminuído pela imagem. E assim virou o líquido que encimava a pessoa deixada à própria sorte. Molhou-se de tanto sentir que era necessário estar disponível para todos em todos os lugares. Dia desses, foi o que me disseram, ele foi visto enchendo rios em províncias do sul. Choveu-se sobre mil pessoas que não bebiam águas do céu havia anos. Encontrou-se. J.M.N.

Porque nem tudo é como você pediu

Se ao menos você soubesse de onde eu venho, por quais desertos passei. Se houvesse a mais remota chance de você estar em meus sonhos e acompanhar meus medos mais hediondos sem a certeza dos que acham que a alegria é a única decisão possível. Que ao cabo de contas, é uma decisão, enfim. Se fosse viável a você chorar nos primeiros acordes de “sonata ao luar” e ficar realmente chateada ao fim de “eles não usam black tie”, imaginando o que deu errado com o romantismo. Talvez eu pudesse enviar um sorriso, uma rosa, uma página arrancada do livro que mais gosto – em cujo título tem a palavra “assassinada” – fazer um chá e sentar sob o sol torturante de Rabat numa de nossas viagens imaginárias. Mas você insiste em dizer a todos que há mais fraqueza que introspecção no meu mundo e que já não suporta mais falar comigo ou me chamar de amigo, pois não quer ninguém de cabeça baixa ao seu lado em fotografias, nas festas de fim de ano. Minha genealogia lhe incomoda. O fato de eu ser sempre mais amável do que rude. Minha resposta macia diante de tanta aspereza. Eu não morri. Apesar de já ter quisto imensamente. E se fiquei por aqui foi por conta de outras tantas delicadezas que encontrei no fundo da minha mais desprovida solidão. Saiba: não desejei tantos sensores de realidade fixados em minha pele, nos meus olhos, nos meus dedos que teimam em segurar a pena e escrever independentemente do que eu sinto de mais sofrido e escuro. Se você ao menos pudesse sentir esse vento nos cabelos, e conseguisse na suavidade do tempo que passa enquanto o vento sopra, anular a carga de raiva que nutre por não me entender, saiba... A liberdade que você declara teria a mínima chance de acontecer e ficar. As coisas não seriam assim tão desagradáveis e seu amor eu entenderia como a única coisa possível desde que nos conhecemos, não essa sobra de uma conta que não fecha jamais. Tenho menos esperança na alegria porque dentro dela sou destinado a estar mais longe de mim e se isso me faz estranho, bem, devo dizer que a mim, isso serviu como vida, serviu como aquilo que faz com que os momentos alegres sejam ainda mais especiais. J.M.N. 


Trilha sonora...


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ditos para o confessionário #1

Eis que algo novo começa. Alguns o chamam de ano. Eu de tempo. Assim genericamente. “Começa um novo tempo”. E eu estou nele, mesmo que vindo de outrora, de um século, de uma dúzia de mortes e pendências. Meu cristal duradouro agora encandece. Um recomeço. Reinventar-me. Tudo em mim é revirar, despossuir. Meter-me onde não sou chamado, onde as pessoas se consomem, onde as línguas não têm importância, pois todo dito se compreende. O cerne dessa coisa coletiva e ancestral que descobri há muito e participa intensamente de minha experiência de eternidade. Essa coisa que chamo corpo. Tempo inaugurado frente ao tempo contínuo que me antecipa e certamente me superará. E depois voltará à inexistência quando tudo vier a ser a mesma coisa. Estou destinado a esta alma. A mesma que desandei em Granada, a mesma que venceu as Púnicas e a mesmíssima que varreu do meu dicionário a palavra amor, só de prosa. Sou essa mulher escondida entre os dedos do autor. Na frase mais jocosa e entregue que se pode escrever. Sou destinada a feder e implorar por beijos e cetins e sim, sou daquelas que comem mal para manter as curvas e manter segredos entre os jejuns. Sou igualmente o homem perdido em espinhos, cujo abandono nunca foi bem interpretado e a sandice de ser perfeito o levou aos céus; deu-lhe uma humanidade sórdida e carente para redimir. Sou aquela criança no banco de trás quando ocorreu o acidente. Sem cadeirinhas ergonômicas, sem cintos de segurança ou a asa de uma mãe protetora a me segurar. Varei o vidro da frente. Estatelado no meio fio só restou chorar por mim. Eu que morri de abandono, de susto, de fome. Eu que fui conduzido à cova enrolado numa rede com os olhos abertos em uma procissão silenciosa no sertão do Brasil – única criatura com pureza suficiente para olhar nos olhos de Deus. Eu meliante. Déspota. Escritor e poeta com endívia nas palavras e feltros no lugar de dormir. Sou essa entidade impúbere e crente. Ridícula, falando sobre amores e fomes. J.M.N.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Eu serei pra você o que não importa saber

Ao me esquecer sairá dos teus registros nossas aventuras em África, água boa das fontes de Santo Antônio, um lugar qualquer onde paramos para espertar a tarde e tirar o pó da estrada de dentro das esperanças. Usamos. Ousados. Como fossem os medievais coquetéis para fingir entidades e tocar Deus com os neurônios tesos e a boca ressecada. Um luxo que aprendemos em Malta. Quando saíres de mim ficará o mar de Figueira em meus olhos empapando a dor do lugar que ocupavas e agora só fica sendo uma de minhas metades. Oco com nome e sobrenome. As iniciais cravadas em bronze. E o que me resta é olhar as letras perdendo o brilho como as de uma sepultura doada ao tempo. Onde morremos é o lugar em fica o último beijo. Morri na tua boca silenciosa mil anos atrás. Ao menos deixei tuas sandálias a vista antes de sair pelo mundo. Ao me evocar quem sabe no ódio profundo que me dizes sentir, serei a lança ou a espada aguda que rompe músculos e cartilagens. Nunca mais o perdão sequer. Nunca mais algo mais entre nós. Perdemos as cartas, as roupas, os guinéus feitos à mão. Quando quiseres me amaldiçoar sei que ninguém se salvará da tua fúria. E dos cânones de tua ira sairão as palavras vida e eternidade para unidas significarem o que não fomos, o que não fui, aquilo que sinceramente esperavas nunca ter pretendido alcançar. Serei tudo o que não importa mais saberes. Serei a minha química desordenada. Serei o último a sair da livraria. Serei aquele que sempre se esquece dos dias de finados. Uma pedra. Um pássaro de canto triste. Serei o mais culpado dos culpados quando te esqueceres de mim. E quando eu voltar àquela praia gelada num mês de dezembro qualquer, abraçado ou sozinho estarei sempre lamentando uma única coisa – ter consumido sozinho o que era para ser de nós dois. J.M.N.

Para ler escutando...

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

40entas

Tantas emendas, mas o corpo ainda aguenta a estrada. Aqui nesta vida não se usa transporte rápido. Tudo se passa na longa via de chão batido e às vezes buracos. Esta via, entretanto, é que talvez já não seja a mesma do início. Tantos desvios e túneis, ramais. Como novas veias paridas no escape, na aventura. Meus heróis estão fora do alcance de meus retrovisores. Esfumaram-se pelas rotas abandonadas. A graça é que nenhum deles viveu tanto quanto eu vivo agora. E como disse o personagem do filme de aventuras: o problema não é a idade, mas sim a quilometragem. Duas voltas em Marte. Duas vidas na mesma vida e ainda a infinita bondade dos livros para dar precipícios nos quais entro e saio vez em quando. Meu tacógrafo aponta erros. Não posso ter existido só isso. Fico feliz quem nem Neruda a dizer por aí – confesso que vivi! E se a mágica da existência é compreender que ela só serve se temos gente ao redor. Bem, estou no meio do espetáculo. A claque trás de mim vibra com quedas e corridas. Eu me vejo nos olhos deles cheio de lágrimas e às vezes raiva. Não sou o estrangeiro Mersault de Camus que queria mais gritos de ódio em sua morte, tampouco Ivan Karamasov que sem Deus achava que tudo podia, ou não achava nada. Sinto-me o Zé de Adélia Prado: amado como homem, com meu coração de carne, com minha matéria, fauna e flora, e mais ainda meu poder de perecer... Sinto-me desligado dos meus ódios primitivos. Da minha preguiça de amar que me serviu apenas para embalar tristezas. E sinto-me na grande peça de teatro do Nei Lisboa a correr meus olhos entre o presente e o futuro que agora almejo com força tanta. Meus vinhos, meus livros, meu filho e os filhos que ainda quero que venham. Ver a Lua que me ocupa a metade pela manhã alvorecer como só ela sabe. Depois de deitar entre mortos, de esquecer como soava a minha voz quero esclarecer o mundo que não nasci pronto nem perecerei com saldo ou heranças. Caibo neste tempo que me arredonda e apenas isso. J.M.N.

domingo, 16 de outubro de 2016

Histórias para o silêncio da tarde II

Depois da praia a preguiça. Sentados no alpendre verde vendo os dias passarem pra trás. A casa era só varanda e gente de toda cor entrando e saindo, falando e dançando. Colocando as memórias mais felizes no cheiro do mar daquela cidade e dentro dele a imprecisa verdade de que só seria feliz se voltasse a tempos como aquele. Viveria de passados fosse como fosse. A felicidade aprendera desde cedo, afinal só acontece em nacos, não em banquetes.

Tornou-se a saudade em pessoa. A vida pregressa como sonhos de um amanhã que nunca viria. A casa verde de madeira. Lá dentro o refrigerador Williams de querosene e eletricidade conservava as comidas e os risos matinais de sua mãe. Vantagem dos tempos antes dele. A noite cheirava a sapos, os coaxos enfeitados de tristeza. Cantavam se embalando em redes. Corpos corados, suados e sem sede. Nada mais senão poemas.

À noite sem estrelas ou sonhos ruins fazia com que o descanso fosse completo. Não havia sobressaltos, medo de bandidos. As formigas arejavam a terra devagarinho por sobre as fezes de outros tantos animais quietos que davam vida ao jardim noturno movendo-se secretamente. No rebordo dessa quietude fazia-se nele a solidão que ninguém entenderia. Que todos diriam ser um problema. Nem seus amores, nem seu irmão o defenderiam. Tampouco os pais ou os amigos. Era uma solidão preenchida, alheia à presença. Não por rebeldia, mas por amor.

Imaginava que todos estivessem tão bem consigo mesmos, como ele estava ao sentir a falta pequena das pessoas ao redor. Isolava-se no amor que os outros não sentiam. E deglutia a intensidade das feições e dos afetos que lhe detinham no centro do peito quando pensava em toda a maravilha que as pessoas lhe traziam.


Há tempos a madeira do piso, as árvores em volta, a cor desbotada das paredes da casa cheiram outras histórias. Pessoas que nem percebem o viço da memória daquele lugar. Onde um boi-bumbá dançou e chamou todos à folia, onde nasceram crianças e histórias, onde velas foram acesas em novenas, onde bem-te-vis destroçados foram enterrados aos prantos e onde a certeza que o move se fez mais esplendorosa – a solidão é um imenso baú cheio de coisas de contar a si mesmo.

J.Mattos

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Histórias para o silêncio da tarde I

O que faço se te avisto? Calo. Percorro o passado em busca de atalhos, de esconderijos. Deliro. Uma febre imediata, amargos na boca. De todas as sobras estas são as piores. Sinestésicas, escondidas e cheias de ardil. Não suo, não ando, não vivo por três ou mais séculos em segundos. Candelabros, nossa cama desarrumada, a filha que não tivemos, o carro que não compramos a prestação. Ali parados cheios de pó e ausência. Por sobre, lençóis brancos. Meus fantasmas. Aludidos e impossíveis na estação destruída dos sonhos. É quase fim de tarde e o pôr do sol cor de cobre risca desenhos nos teus contornos e demarca bem teus passos. Ainda assim, a beleza nascida desse abraço do Sol em ti não me encanta, senão desatina. Calculo a distância. Desando passos. Enquanto percorres minhas veias, vênulas e brônquios. Imediata. Quero te expelir. Numa tosse desatinada e horrível. Mas estancas. Depois escapas. E no átimo do sufoco meus movimentos peristálticos devaneiam. Engulo e cuspo. Contraio os músculos. Contrários estão presentes e ativos. Não sei qual defesa devo erigir, não sei quanto tempo mais minha imunidade me dará para assistir tua passada leve e evidentemente sedutora derrubar os muros, as portas das pensões, os estudantes que saem da aula, desavisados. Mais uma vez me impedes de tudo quanto posso fazer. Ao te ver. Uma náusea instantânea e persistente. É assim que perduras. Não a doença que achava, consumiria toda a bateria do meu coração e as forças das minhas intimidades, mas a ânsia. Acontecida sempre e unicamente na comoção aflitiva do encontro. Que como tudo o que passamos enquanto lambíamos as escaras um do outro, sai da língua e do metabolismo tão imediatamente se consuma. A chama, o azul incandescente como etileno a mil célsius, isto não acontece mais. E logo depois que a paisagem se acalma e minhas funções me pertencem novamente, pergunto aos botões: acontecemos de verdade? Parece improvável, mas sempre que ocorres em meu perímetro, vem em mim este mal-estar acumulado de várias vidas. Única pista do acontecido. Um quase estertor que se não fossem meus passos seguintes, juraria ser um capricho, uma história contada por anjos sem lira. J.M.N.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Cristal e livros

Guardo e taça seca do vinho a dois de anos atrás. Perdeu o brilho, mas não o espírito, o cristal turvo guarda ainda uma macha indelével. O tempo misturou-se aos restos fermentados no fundo da taça e fizeram aquela nódoa de sabores suspensos e chagas abertas, rosa púrpura esquecida entre os livros de minha estante. Espero que perguntem por que a guardo lá. É mais um tratado sobre o amor, responderei. Tudo me diz sobre o que um dia senti, esta taça com nódoa no fundo. E se a ponho contra a luz as frestas levemente avermelhadas dos seus lábios que um dia pousaram sobre os mesmos sonhos e fomes e extravagâncias ainda estão. Pequenas feridas no vidro. Uma linguagem única de entrega e desespero. Peça de tempo e distância. Marco seminal da ilha que me tornei. Cercado de mim mesmo. Escondido a olhos vistos. Tapinhas nas costas, festas e danças. Eu tento me misturar. Alguns planos são para daqui a pouco e tantas dúvidas são e serão constantes. Leio os livros com a mesma vontade fragorosa. As frases me rasgam, as orelhas escondem minhas lágrimas e a impossibilidade de dizer aos autores que os odeio ou amo dentro do mesmo desejo de comer a virtude ou a imundície de suas declarações, de suas histórias, de seus personagens. Sou tantos. Pequena boca mastigando o mundo inteiro de uma vez, como sempre. Minhas saudades chegaram a sal e encheram desertos. A canção que toca ao fundo é um pouco do escuro dos mares que atravessei. Busco poemas novos e vidas antigas. Assim o Doutor vai confirmando: nasceste no século errado! Não dou ouvidos. Levanto e sento de frente a vocês, que me escutam dentro das sirenes de perigo a gritar no fosforescer de minhas ideias recentes. Uma delas posso dizer que envolve não voltar desta vez. Não voltar a mim. Perder-me. Para sempre. Perder-me para o mesmo sujeito que um dia dormiu em paz no colo de alguém. E olho a taça e seu cristal fosco e poeirento descansada na prateleira do quarto de estudos. A luz da lua não a atravessa. Nada a atravessará jamais. Tampouco o esquecimento. Ainda bem. Tomo-a nas mãos e o cheiro profundo do passado acontece. É mais difícil ler suas linhas, seu enredo, mas ainda sei do que é feita a nódoa que repousa em seu côncavo. Afinal é uma história que se repete. Há quatro décadas. Bebo um gole imaginário do lado oposto de onde houve o lábio que sorveu o vinho e a rápida compreensão me toma: in vino veritas... Mas há também esta página sobre o que senti. Na verdade da letra, no verbo iniciador dos meus sonhos eu quero dizer com tudo isso; ao que vim ainda não me sopraram os sentidos, a voz do tempo ou a vontade de desistir. Então eu sigo. Com o sabor de toda uma vida rodando em espirais silentes no vazio de uma taça enodoada e pelos sulcos dos seus lábios, riscando falas codificadas de eternidade ao redor de minhas lembranças insones. J.M.N.

Para ler escutando (Chavela Vargas e Pink Martini - Piensa en mi)


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Olhando a página

Lembro a vez que contrai aquele mal e estive certo que não veria mais a luz do dia. Estava fincado numa página. Sem nada para falar. E teu nome surgiu como a única palavra possível. Um romance inteiro em seis ou sete letras. Cada qual me dando conta de um de teus personagens. Um nome composto. Referência a uma grande tragédia escrita há mil anos. E eu lá. Com o tal nome no meio da folha em branco. Muito limpa. Saída direto da embalagem. Eu estava enfermo. Com febres altas de constância palustre. Iam e vinham como ondas de raiva e desejo. E tudo em mim doía e se revoltava. As partes do meu corpo doíam: meu pescoço com o peso de nós, o meu braço com a falta brutal que fazias, minhas pernas que sempre voltavam ao teu apartamento independente de eu as mandar para de te seguir. E doía a minha rotina, as vitrines nas quais eu via roupas que lembravam tua leveza e elegância. Doía até o gesto do doador de esmolas num sinal de trânsito que apazigua a própria caridade dando quase nada a quem nada tem. Éramos isso? Quase nada entre quem nada tinha? E teu nome ainda luzindo na página em branco. Usei a caneta de nanquim. A que mancha menos e é para sempre. E a luz do abajur tocando a escrita e meus pensamentos. Um romance em um nome. Chamei alto para que voltasses. Ou foi apenas teu nome se repetindo? Uma, duas, três vezes. Os ecos não vieram. Nada retornou quando chamei e nesse momento percebi o contraste brutal da pequena obra nascida da tentativa de poema. Uma página muito branca refletindo a luz do abajur, protegida pelo meu corpo debruçado em solidão escolhida e teu nome escrito em nanquim muito preto exigindo uma rima que não havia, rima impossível. Luz e escuridão. E brinquei de afastar o papel rapidamente de meus olhos, até que eu só visse um borrão. Depois de mais alguns minutos levantei, fui até a parede oposta à mesa e olhei de novo a página com teu nome. Cerrei os olhos e um ponto negro surgiu na infinidade branca do papel. Era aquilo que temia e desejava ao mesmo tempo. Um ponto final. Um pequeno ponto que sugou a luz ao redor. E esse ponto, feliz e infelizmente, era o teu nome visto de muito longe. J.M.N.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Depois que os mortos falam


Eu me lembro de você todos os dias. Sua presença agora é mais um significado que carne e ossos e todo o resto. Você já não pode me bater ou fisgar. Você não é um ser. Bem entendido. Antes disso, você e suas palavras são a obra de arte que ninguém entende, feita com restos humanos, uma tinta bem vermelha tingindo vazios, linho muito branco e pinceladas violentas. Eu respiro e você ainda está. Mas cada vez menos. Orgulhosa em poder mostrar os pequenos pedaços que esqueci aqui e acolá. Trazendo as convicções de antanho nos caderninhos que costumava colecionar. Frases dos outros, razão de outrem, desrazão. Você ainda se propaga demais por tudo o que eu aprendo. Para o bem e para o mal ainda funciona como um farol muito alto, circulando seu feixe de luz de raio mínimo na noite escura. O lume se extinguirá. Mas eu ainda esbarro, encontro, transito na presença cada vez menos densa que vem do meu passado, que lanceta pústulas e me ajuda a por para fora as imundícies que se formam sob a pele. A pele que se fere e rasga pelos caminhos, por minhas escolhas e dói tanto mesmo com tanto amor. A pele que mesmo surrada me protege. Eu olho você com o mesmo castanho dos olhos, entretanto, cada vez menos com a piedade que eu tinha quando, em vida, buscava poupar você das esquisitices e vulgaridades do mundo. Entrementes, você ainda me provoca essa feroz exaltação que debulha toda a minha alegria e me faz querer cometer assassínio, destruir seus vestígios e outras muitas coisas indizíveis e profanas. Simplesmente porque foi você quem mapeou antes de todos, os caminhos da minha eterna culpa, as vinhas de minha ira ancestral, meu esborro, minhas maiores e mais lamacentas vilanias. E, apesar disso, nunca compreendeu que todas elas, por mais baixas e pusilânimes que sejam são sempre e sempre serão destinadas a mim. Começo e termino dirigindo bandeiras e lanças a mim mesmo. Mas não quero ser imolado, não procuro ascese ou beatificação. Não. Procuro o meu nada. O homem último dentro de mim. Quem é? Porque está por aqui? O que pretende? Não tenho respostas, não as quero e por isso mesmo continuarei a buscar e buscar, pois nada é definitivo e tampouco sua crença na exclusividade de minhas fraquezas e nesta condição detestável de não conseguir viver uma vida sem engolir o que não teve e nunca poderá ter. E mesmo por baixo dos seus tiros, de sua eterna disposição a me punir por não ter sido nunca inteiramente seu, eu olho nos seus olhos e vejo a imagem borrada, a pessoa transitória que sempre foi. Um dos forros de tantos lutos por que passei. E devolvo. Não a raiva, o desamor e a vergonha que você tanto queria me ver gritar, não. Eu devolvo minha humanidade. Em toda sua feiura, toda sua desgraça e toda sua exuberância. Quem sabe assim possa ver que depois de cada ataque, depois de cada escarro de suas insuficiências, eu fico muito melhor. Eu fico em paz. J.M.N.

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Micro-romance XV (ou “não se retornam os heróis”)


O tiro veio não se sabe de onde, mas lhe acabou a vida no mesmo instante em que o estampido embaralhou a gente que lhe arremedava os gritos de ordem no centro da praça. Fim. A cara da revolução estava morta. As pessoas ao redor corriam sem paradeiro, entretanto, estranhamente, em silêncio depois de uns breves minutos. Tudo cheirava a pólvora e desespero. E, quem sabe, a certezas. A revolução de tenra idade acabou às vinte e duas horas de um dia chuvoso, com a morte por assassinato de Cardinas Alverde, o romântico que inspirado por canções, panfletos e pelo manual do guerrilheiro urbano de Marighela, sacudiu o pequeníssimo município do Grão, anos atrás. Eu era apenas uma criança. Certamente não o vi cair, não estava nos protestos que ele comandou e não conheço a cidade inflamada e vicejante que era transitada por artistas, intelectuais e pessoas de aqui e acolá que adoravam vir ao Grão ver o rio e as mangueiras, assim como saber as novidades da vanguarda revolucionária multiplicadas no coração da floresta. Cresci com essa história contada às vezes com glórias, às vezes com ódio, mas sempre com boas doses de lirismo e até saudade. O que ficou de Alverde? Um misto de sentimento de liberdade e coragem – entrementes a sensação de que a coragem sem um plano cheira mais à inconsequência, um viço de anos bons e vida farta além da certeza estranha de que nada dura e a relatividade é mesmo um conceito muito mais próximo de nós do que sequer supomos. Hoje as coisas andam por si mesmas. Não há mais estado de exceção, apesar de achar que as exceções que o estado abriu, tornaram-no mesmo o monstro do iluminismo e mais o palhaço dos programas infantis de uma infância já quase esquecida. A liberdade é proclamada em camisas estampadas com frases feitas e ícones do agora mercantilismo revolucionário. Nenhuma rima sobre Cardinas e seus seguidores, nenhuma música de protesto sobre seu suposto legado. Ninguém fala mais de sua morte. Ao pó voltou. Aliás, ninguém fala nada as mortes diárias de inocentes na guerra não declarada de uma cidade no fim do mundo, no limite de seu tempo. E todas as vezes que eu passo pela Praça da República, lugar da revolução e da morte do herói me vem potente o sopro da sabedoria dos tempos... O herói foi aquele que não teve tempo de correr. O que mais teria feito aquele revolucionário se tivesse corrido? E morto, de que nos serve a figura do herói? J.M.N.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Notas sobre um certo tipo de amor I

O amor me beijou e teve desde muito cedo. Não ficou em tantas ocasiões. Não me deixou em tantas outras. Como um suor, uma carcaça, acomodou-se sobre a pele e ora regula e tempera, ora me pesa e impede os passos. Olho-o como fosse o ponto fino no fundo de binóculo ao contrário. Que de tão perto, mais parece um ponto cardinal na distância do horizonte. O amor sabe a gerânios. E sabe igualmente a espinhos sobre minha pele. Perfaz minhas saudades, atina minhas faltas. Encobre minhas distâncias e ao mesmo tempo as denuncia. O amor tem a chave para minha tristeza e a ama com a febre de um primeiro. Deixa marcas, mete facas e transmuta felicidade em espera, beleza em traste. O amor que me acolhe é completo. Como os deuses pagãos de antigamente. Cuja bondade tanto ampliava quanto mordia. E aos mortais, feridos, esperando ir, só restava amar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sem o mundo inteiro

Hoje agradeço ao tempo, agradeço às quedas, às pontes sobre as quais andei e que ataram os lugares de onde vinha e para onde eu ia, mesmo sem destino certo. Hoje eu agradeço ao menor reconhecimento de minha existência, como a deslumbrante história do amanhecer em meus braços. A pele arrastada na aurora, expandindo, movendo-se e me dando um dia a mais.

Hoje é a simplicidade de começar e acabar as coisas o que me comove. Me engulha e enriquece. A simples fechadura trancada e a porta envernizada com minhas próprias mãos são os troféus. Finalmente minha parede azul para acalmar o sono e a forma de pão caseiro para que eu cozinhe trigo em casa e possa, como o poeta antes de mim, ofertar meu pão ao vizinho.
Hoje o que é dourado apenas brilha, o que é de Marte é menos espantoso e as novidades cabem dentro dos cinquenta centavos, no troco do ônibus. A menina que me pede a quantia para me dar um sorriso e corre num abraço que vale mais que mil palavras. Uma heroína imperdível na esquina dura da cidade. Essas coisas de vida sem sentido e que estão por todo o canto. Talvez, justamente, por serem simples, andam tão esquecidas.

Hoje, portanto, eu acho que sei quem sou. Dormito depois de amar. Acordo sem abrir os olhos e chego aos lugares entre os últimos e os primeiros. Apenas mais um. Apenas chegado. Cada marca de ferida é uma corda. Cada parte de mim um instrumento. Toco meus rasgos e componho a melodia do meu tempo. Sem mais querer adotá-lo como único. Sem mais querer engolir o mundo inteiro. J.M.N.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

à criança que me foi

"A criança compreende intuitivamente que,
embora essas histórias sejam irreais,
elas não são falsas ..."
Bruno Bettelheim – Os usos do encantamento
 

Sinto muito não estar ai para um monte de coisas. Sinto muito mesmo. Disseram-me que não se começa um agradecimento com desculpas. Mas sou assim, começo por onde é o contrário e isso me apraz. Igualzinho como te aprazia mil dias atrás dizer que amavas o que era impossível de amar – como a vontade dos outros de crescer e mudar. E isso que passo a alinhar, realmente é a gratidão que sinto e pura certeza de que me entendes. Eu que te se sou depois de nossas infâncias agradeço imensamente tua vinda antecipada para andar meus passos, para chorar de tristeza quando acabava o natal ou quando nós partimos para viver vidas distantes um ao lado do outro. Agradeço que não me abandones agora, pois mais do que sempre preciso saber, com certeza fulminante, que não estou sozinho no mundo que não estou sozinho em mim mesmo. A ti que me foste dedico meus beijos mais emotivos, minha lágrima mais demorada e as respostas de tudo quanto não me deram. Peço-te: fica! Fica para sempre. Fica nesse ir e vir de anos e aparências com os quais me renovas e feres às vezes, pois nem sempre estás pronta para ser afável ou quietinha e denuncias minha imaturidade cruciante com bater de pernas e vícios sem fim. Chora comigo essa manhã que ainda descende das manhãs pertencidas, no quintal da Alcindo, nos braços de Dadá. Devora como ao pão rasgado da merenda esse meu medo de morrer só e não saber se inventei direito a minha máquina de defender o peito contra o mundo. Sou eu pedindo. Como rezando ao santo anjo do senhor. Que aprendi para enfeitar o sorriso dela e permitir que eu fosse menos estranho, menos por fora do que se acreditava naquela casa. Estás sempre comigo. Calçando as plumas da felicidade ou o vidro estilhaçado da tristeza. Foste por ai, ao dobro de lugares que te permitiram e soubeste sempre voltar e contar como foi, mesmo quando ninguém queria ouvir. Essa tua liberdade me enleva e fulmina ao mesmo tempo. E agora que a Terra parece ter parado um instante, depois das estações invernais da desistência, eu te preciso mais uma vez e talvez mais do que nunca. Importa saberes que não desisti, mas quase esqueço o rumo por causa do peso desmedido sobre meus ombros. A bagagem crua que arrasto desde sempre. Mais uma vez: perdoa-me por não estar ai em tantas ocasiões. A verdade é que crescer é mais inútil do que eu já sabia, mas não posso voltar. Então, por causa dessa tua compaixão infinita, abre a janela da tua casa e me espera. Salto pra dentro do teu esconderijo e serei o que quiseres. Mesmo que seja o bandido dos teus jogos, o prisioneiro de tuas sentenças, mesmo que queiras um irmão com quem crescer e dialogar. Parece que agora é que finalmente estou pronto. Que as palavras soaram para além de seus enigmas. E eu espero sinceramente. Espero não ser tarde demais. J.M.N.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Cartas a ninguém (22.09.15 – 03:51 a.m.)

Querida,

Hoje acordei às duas. No meio da noite. No meio do nada que sabes vir com a solidão noturna. Acordei com a sensação de que tinha ido embora. Não morrido, simplesmente ido. E estava numa cama vazia, num hotel barato talvez. Longe, muito longe do que hoje é a minha vida. E lá, nesse tempo-espaço alhures te encontrei. Queria conversar. Saber se estavas bem antes mesmo de te contar que eu não estou. Queria começar as nossas falas, ao menos uma vez. A luz da lua saboreava meu peito. Via meus batimentos sob o lençol, peito desmedido. Não podia me mexer. Essa sensação de distância e quase segurança esfumou-se de pronto com os tiques do relógio soando cíclicos ao meu redor. O tempo medido me apavora. O medo aumentou quando pensei em tudo o que teria de fazer pela manhã, no trabalho. Já não sei como são os dias sem metas, planos e organogramas. Trabalho numa fábrica no fim do meu próprio mundo. Ontem ouvi uma amiga muito querida dizer que eu era um talento perdido fora da academia e isso doeu muito mais do que o pré-infarto de janeiro. Freud, Poulantzas, Pound, Marx e todos os grandes me dão uma saudade imensa. Veja só! Saudade dos mortos... Não é bem isso. Saudade de substâncias que não acabem numa máquina extrusora qualquer (aliás, extrusão é o processo de saída forçada, expulsão que um produto sofre na linha de produção). Ridículos esses termos átonos e suas definições de engenharia, métricas e modelos cuja estética encarcera a mente, os dias, o resultado de qualquer trabalho. E ai me deu vontade de chorar. Digo chorar mesmo, como quem foi abandonado no mar. Isso tudo no meio da noite, quando tudo é pior e mais medonho. Quando toda a esperança seca entre o desejo de dormir e o possível esquecimento que virá com amarelo do sol. E não dormi mais. Pelo menos consegui me mexer. Tomei água e esperei o despertador fazer seu trabalho repetitivo. Às cinco e vinte da manhã levantei e o peso de não me ter parece que ganhou coragem. Subiu-me até as faces e quando me olhei para os cuidados matinais tive um pouco de vergonha. Quem sou não sei mais. Talvez o Chaplin de tempos modernos apertando parafusos alheios, talvez o boi na fila do abate. Um urro, uma lágrima tardia numa manhã em que a vontade de correr o mundo domina até mesmo a simples decisão de vestir minhas calças. E tinha esse sentimento de que não estava mais aqui, como te disse no início, entrementes preso ao fato de estar. E coloquei as roupas, triste e envergonhado por constatar que estava indo no mesmo rumo. Fazendo a mesma estúpida coisa de todas as últimas novecentas e tantas manhãs. Pensando em voltar a dormir por puro enfado ou atirar nos transeuntes que perguntam se ando feliz. Ponho a chave no tambor da fechadura. O clique é como uma arma engatilhando e quando saio de casa uma luz me cega. Nenhum corredor à frente. Não enxergo os elevadores de todo dia em frente à minha porta. O chão some e eu caio num vazio sem fim. De novo o susto. Minha apneia noturna me chama à vida. Estranho isso de reviver justamente quando o ar me falta. Meu susto é que tudo ao redor era tal e qual acabava de ocorrer. Foi tudo um sonho. Os próximos minutos me renderam o mesmo pânico de antes de pensar em você e na rotina estéril que logo me alcançaria. Levantei-me o mais rápido possível e comecei a escrever essas linhas. Queria que soubesses que o final ainda não ocorreu ou eu ainda não tenho suficientes palavras para terminar. Então... Mais uma carta. Foi isso o que aconteceu esta madrugada. E no fim, queria mesmo que estivesses lá para dizer calma! Foi só um sonho ruim, talvez assim a rotina fosse menos fictícia e meus sonhos, quem sabe, pudessem enfim me levar embora.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Despertar-me

Para Rita

Hoje acordei com a nudez perfumada dela. Zanzava pelo quarto com seus pés de pluma. Chamou-me atenção aquele cheiro, aquela presença silenciosa e intensa dentro e em torno de mim. Eu que tive a primeira noite de sono completa desde muito tempo, acordei com a invasão daquele ser. Os móveis, os lençóis, a nova cor de nossas paredes – tudo vivo e cintilante. Resposta ao cinza que sempre tenho comigo. Ela ia e vinha por todos os lados. Fluida e acolhedora como feita pelos deuses de sua ilha. Era mais que o corpo e o cheiro. Era como se toda uma cidade estivesse sendo parida na minha manhã. Por dentro. Por todos os cantos – espaço e tempo desprevenidos, recebendo-a inteiramente. De tão viva e movimentada, com suas características infinitamente femininas e potentes. Revirou-me. Minhas veias, meus sistemas, minhas memórias e requisitos. Tudo posto nela. A seu serviço. Sem sono, desperto, com muitas coisas que fazer no dia de trabalho e mesmo assim, cinco minutos eternos sentindo-a num calor de manhã recém-nascida, cujo centro pulsante estava em meu peito, mas não me pertencia. Bombeava meu sangue e me aquecia deixando vestígios intensos e famintos. A presença dela. Toda sua anatomia e espírito dançando silentes em tarefas do despertar. Pentear o cabelo, espalhar o creme dos pés à cabeça, pintar-se, estar perfeita e me deixar esta ferida muito vermelha e funda que é amá-la. Sempre ela. A conclusão desta breve eternidade celebrada: não me tenho mais. Não preciso ter. Ela me acordou e elevou-me ao domo do mundo como se seus movimentos e tiques fossem uma sinfonia de antigamente que só é reproduzida por meu desejo. Só por estar ela me imensa. E eu sou dela sem nenhuma razão. Apenas sou. J.M.N.

domingo, 19 de julho de 2015

O homem que se achava Napoleão – Laure Murat


“Se os doentes às vezes falaram, não se registrou suficientemente o que eles disseram”. Em 1845, o psiquiatra francês Moreau de Tours, discípulo de Esquirol, fazia a confissão de um silêncio imposto aos doentes mentais dos hospícios franceses. Imposição que, ao longo da história da loucura, se renova e espalha às mais distantes paisagens a se interpor insistentemente entre o médico e o paciente. Laure Murat, se apropriando do ferramental de Foucault, adentrou e se deixou invadir pelos arquivos de quatro hospitais franceses: Bicêtre, Salpêtriére, Sainte-Anne e Charenton. Locais onde loucos e inimigos do estado eram trancafiados e silenciados. Locais onde os murmúrios e os gemidos dos doentes esperaram por uma decodificação.

Lá, em meio à frieza e ao laconismo do registro médico, Murat revela que o talento de escritora parece concorrer em pé de igualdade com a competência de historiadora. Nas páginas frágeis e abundantes descobre pérolas que só a loucura seria capaz de nos presentear. “Ela viu o sol cair aos seus pés”, registra o alienista. “Pergunto-lhe se está doente, ele me responde: ‘De amor’”. Mas o livro fala de como as vozes que vem de fora dos muros dos hospícios influenciam os fantasmas que vagam lá dentro. A autora faz um recorte do período compreendido entre 1789 e 1871, ou melhor, entre a revolução francesa e a comuna de Paris. A pergunta que guia a pesquisa é: como se delira a história?
Sim, é possível contar a história da humanidade pelos delírios dos loucos, assim como é possível flagrar a loucura mudando os rumos da história. Esse livro encontra não só a história na loucura, mas também a loucura na história.

A caricatura do homem que se achava napoleão como a mais potente imagem do louco com manias de grandeza – ou de monomania orgulhosa, como definiam os alienistas – começou a ser forjada em 1840 quando chegaram a França as cinzas do imperador que, não tendo a realeza no sangue, tomou o trono para si, tornando-se a encarnação do poder absoluto e acessível a qualquer sonhador mais ambicioso. Mas o que diferencia Napoleão desses seres que pensam ser ele? Apenas a originalidade? Talvez. É certo que o próprio Napoleão tinha visões de uma estrela que guiava suas conquistas e sua ambição poderia ser considerada desmedida pela maior parte os franceses. Enfim, o psiquiatra é também um sujeito atravessado pelo seu tempo.

E por causa e consequência desse atravessamento, a psiquiatria, desde os seus princípios até hoje, serviu como instrumento de controle do poder vigente. A doença amiúde faz do médico um agente da ordem pública. Drapetomania foi o nome dado pelo Dr. Samuel A. Cartwright à doença cujo único sintoma era o desejo incontrolável de ganhar a liberdade, muito comum entre os escravos negros do Sul dos Estados Unidos. O que dizer das mães de desaparecidos pela ditadura argentina que foram chamadas de “Loucas” da praça de Maio? Lembro que a Associação Americana de Psiquiatria incluiu, em 1952, a homossexualidade no rol dos transtornos mentais do seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) retirando-a apenas em 1973 após inúmeras pesquisas que provaram o óbvio, que a classificação refletia apenas normas estabelecidas socialmente. Temos ainda o caso da maconha, incluída na lista de drogas mais perigosas do mundo, sem nunca ter matado ninguém. Os exemplos surgem todos os dias e vindo de todos os lugares.

O fato é que história e loucura se afetam em entrelaçamentos que quase nunca se mostram favoráveis aos loucos. E não é preciso ir muito longe para confirmar a tese de O Homem que Achava Napoleão. Nos locais de reunião de moradores de rua da cidade onde moro, Parauapebas, frequentemente sou abordado por um senhor que tece uma intrincada biografia pessoal que prova que ele recebeu a serra dos Carajás como herança e que a Vale, através do seu poder financeiro e político, lhe tomou para explorar o minério de ferro escondido em seu subsolo. Ao passo que os loucos remanescentes em Serra Pelada deliram pepitas de ouro de tamanhos colossais.  Os delírios paranoicos dos moradores da zona rural do sudeste do estado do Pará estão quase todos relacionados à luta de terras. Todos eles são submetidos às novas formas de silenciamento da loucura.


Se no século XVIII o tratamento moral de Pinel fez os cadeados saltarem para dentro do louco em forma de disciplina e normatização, na contemporaneidade esse controle rígido e implacável, ainda confundido com tratamento, fez dos remédios seus veículos preferidos, e muitas vezes os únicos. Quatro séculos nos separam de Pinel e Esquirol. Nesse tempo apenas as formas de não ouvir mudaram. As histórias singulares ainda encontram trincheiras na psicanálise e em outras formas de escuta do desejo. Lamentavelmente, estas são forças de resistência a um movimento de pressa e uniformização. O livro de Murat torna-se assim um aviso dados por vozes distantes no tempo e no espaço, porém tão atuais. WDC

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Quando vier

Um dia quando quiseres vem e me toma. Não por apenas uns momentos como tem sido até aqui. Toma-me definitivamente. Leva tudo quanto eu tiver no momento. As roupas, as páginas, as letrinhas perdidas entre meu choro. Quando vieres não faça barulho para não assustar os brincantes. Não, não será uma festa. Será o mundo ele mesmo girando. Será esse rebotalho de guerras e farsas gritando de medo por tudo que todos fazem uns com os outros. Chega como uma pluma para que só o vento da tarde te denuncie e vejamos eu e os demais estúpidos tua chegada leve, teu flutuar tão fino. Quando tomares a decisão de vir passe na borda mundo e cura a tensão do tempo com uma antiga canção sem refrãos. Uma que diga várias verdades e não prometa nada além dos acordes cadentes e íntimos que mudam a ira para o amor e deixam insensatos todos os dedos. Desalinhados. Incorruptíveis. Buscando nada mais que o toque e a sensação de pele nascendo, tornando táctil todo o corpo de uma só vez. Faz esse minuto universal de sentidos. Tirando-me do mundo na mesma proporção em que o mundo se retira e fica em toda a gente. Faz isso por mim. Traz uma guirlanda e os bolinhos de tudo que só minha avó sabia fazer. Pensando bem, vem mais rápido que a luz e a conta dos meus pecados. Já devo a eternidade pra tanta gente que nem compensa descontar as bondades miúdas que eu tenha feito por ai. Vem para que eu possa contar como é existir desde antes de pisar no mundo. Desde que o tema da noite era a escuridão confusa sem leste ou oeste. Eu que juro ter visto a estrela primeira apontar o rumo de tanta gente, que afirmo sem restrições ter criado a felicidade e a ternura. Vem e me leva para contar que de tudo o mais bem vivido, de todas as comidas e cheiros e visões que eu tive nesta e em outras tantas vidas, nenhuma supera em verdade ou emoção a figura de um homem sozinho, fitando as rugas e o sorriso cansado diante do espelho. Sabendo ou não sabendo quem é esse homem fala consigo mesmo e só escuta que está sozinho e internado em si mesmo. Como se o corpo fosse uma cela e o pensamento um mero visitante da razão. Quando vieres quero te contar em primeiro lugar como é ver dentro da gente e descobrir que mesmo não tendo estado em todos os lugares, todos os lugares cabem na gente e que, afinal, o infinito pode ser cada manhã. J.M.N.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Esse tempo que é depois

Hoje é depois de nós. Quem sabe o que vai ser? Uma benesse, uma desgraça. Polainas e memórias espalhadas pelos porta-retratos. Tudo fora de ordem, porque hoje é depois do que fomos. E a bagunça oriunda desse simples fato é como uma guerra recém-acabada no meu coração. Nem presente nem passado. Apenas derrota e sangue em todo lugar. Estamos dentro da garrafa? Ou sou apenas eu me endereçando errado mais uma vez? Tiro por mim o que eu queria que sentisses e nessa, vais conseguindo ser mais tu. Do que eu. O certo é que o dia raia, a morte se achega, as coisas são como são e eu quero tudo de volta. No rastilho do que acendemos. A náusea, a fedentina de nossas brigas. O gozo. O Cuspe. O choro. Por tudo e todos com quem acabamos eu quero a honra de poder dizer mais uma vez o teu poema em voz alta. E acabar cansado e tonto em meio às rimas. Quero a tralha toda que juntamos. Especialmente nós dois. Hoje é mais um dia do que não cometemos. Estamos ilesos? Vai ver que passa. A hora passa. A ferida passa. A passa (uva) é comida e adoça um pouco minha boca com saudades. Mas isso não. É tudo teu. E foste minha. Foi tudo nosso. Confusões. E digo isso passando a escritura do que não tenho. Meu destesouro. Minha arrogância em achar que somaria muito mais pontos se te tornasse o centro do meu universo. Rodavas sobre um eixo que eu não compreendia. E não podia compreender, pois minha astronomia desajeitada te entendia unicamente como estrela. Um corpo celeste, cheio de luz, entrementes desabitado. Mas acontece que uma imensidão de espécies morava em ti. Fui dos últimos, o primeiro. Antes de entrar em colapso. Hoje é depois de nós, eu aviso. Que mesmo deselegante, mesmo tosquiado, depois que me soltarem pelas infrações acumuladas, eu volto. Para te tocar primeiro os seios em manga, as mais rosadas coxas, a densidade macia de teu vértice castanho e ralo. Volto bandido e indigente procurando a cura pro que restou. Depois de nós é o catso! Tudo ainda me acomete. A perfeição da dança naquela chuva de dois dias. Tua rosa tatuada. Andar sob o céu de quatro cidades com teus braços me guiando. Anda tudo muito tramado, diminuto. Quieto feito um quarto sem pessoas ou som. Anda tudo ardendo como as questões que não respondemos e no meio de tudo, meus anos se passando e as linhas acumulando na mesma página. Porque não sou desses de querer de menos e pedir permissão. Vou-me aproximando com essas confissões e cartas. Fincadas na palidez de um dia sem nós dois. Iníquo, anestesiado. Sem nervos fervilhantes ou retesados. Inferno mesmo é não sentir mais dor alguma. J.M.N.

Para ler escutando...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lugar

Isso tudo me dói imenso. Primeiro a falta que fazes. Segundo a noite que não acabou mais. Ando escuro. Vestido em pijamas e indiferença. Outro dia vi um velho juntando cacos na rua. Podiam ser eu – digo, os cacos. Nunca mais Paulo Cesar Pinheiro soou igual. O costume é a pedra no caminho. Esses dias têm cara de não vividos. A casa ainda banca a valente. Ninguém vendeu. Ninguém quis morar. Desabitados nós dois. Paredes e órgãos abarrotados de ausência. No jornal só notícias violentas. Não costumávamos assistir aos canais grotescos. Como não fazíamos festa para quem não tinha ímpeto, um quê de loucura que fosse. Não tínhamos a obrigação de dizer, simplesmente. Na família vai tudo bem. Meu pai emagreceu. Vi teu pai dia desses. Fino e austero como sempre. Comprando pães. E me perguntei: como não toquei na mão desse homem? Como o evitei? Prelúdio do que fomos no fim? Debaixo dos livros mudados tantas vezes de lugar, a mesma poeira que combatias vivamente. O indicador de que estou ficando pior é a quantidade. Os romances, os livros de poesia, as biografias extensas de tantos personagens ilustres e destrutivos. Um dia escrevo a tua. Passearei na desmesura de sentir mais uma vez. A onda titânica do que nos acontecia em presença um do outro. O testemunho de fé sobre em coisas corpóreas. A ira. A saliva. A ferida. A torção na espinha. Tatuado no meu corpo o solitário que sou. Nas minhas páginas fingidas, a manhã em que não voltaste. O relógio despertando, maldita cinco da matina. Não sei mais fazer versos. Não sei mais entender álgebra e astronomia. Tudo me enfada. Tudo me desgasta. Não fossem meus exames de sangue, radiografias, punções lombares, não me sabia vivo. Não me sabia. Nem o porquê dessas palavras. Assim, dessabido. Corro o risco de viver mais para mim. E mesmo lembrando, não tenho saudades. Penso em nós aprendendo. Ídolos agora só os enterrados e o velho catador de cacos lá rua. Lúcio Cardoso certamente me influencia. E, esquecidas, quaisquer possibilidades de comparação também eu assassino casas. Não preciso de alpendres ou canteiros. Meus olhos estão em outro lugar. Onde não estás. E por isso mesmo, por esta única razão, posso falar em ti como um detalhe, usar tua pessoa inominável para escrever algumas linhas. Como fosse um lugar onde se formam os destinos de alguns ditos. E só. Esvaziar-me de um dia duro e mecânico. Percebo, enfim, que sou inteiramente meu. Que sou eu mesmo o meu lugar. J.M.N.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Demasiado

Tenho essa tendência ao desperdício e ando com uma urna de saudades debaixo do braço. Incineradas as cenas e casos de passados recentes e remotos. Vou-me instruindo em minha própria história, uma certa autonomia. Saí de uma depressão quando comecei a bancar minha autocrítica. Não que tenha sido um paraíso. Reconheci que sou indevido e simples. Indivíduo. Não sei reinar ou governar quem quer que seja. Não me seriam dados castelos ou riquezas, pois não sou feito da coisa torta que faz os que muito têm. Mas desperdiço. A demasia é o traço das conquistas, a semente dos muitos baixos que vivi. E minha falta é esta. Deixar sobras e sorrisos. Deixar mapas, apelos e a guarnição da refeição devolvida todos os dias. Tenho mais do que mereço e não por humildade. Mas pela irrefletida conquista desde sempre. O que quero tenho. Afinal, um homem do meu tempo, senhorzinho solitário de infância reprimida. Tudo me davam, tudo quanto mais, queria. Vou deixando marcas. As marcas ficam bem em meus resíduos. Arranhões aos imprudentes, nacos de minha carne aos mais ousados. E corro em volta da casa adormecida. Da virtude que nuca quis, daquela que usaram para me enganar. Por segurança ou pertinácia. Quero estar perto dos meus, mas com muros entre nós que a proximidade nos causa efeitos demasiado deletérios. Trocamos notas por sobre o muro, que nem no romance do poema. Mas é só. Meus antepassados são meus órfãos, abandono às avessas. Deixei de buscar de onde vim e certamente não quero saber para onde vou. Esse é mais um dos meus excessos. E assim, no presente, estou sempre no meio de justificativas e benefícios. Algo feito de marcas e pronto para novidades. Sempre. J.M.N.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Definição

Aparece-me no sono. Um vulto, uma presença. Enquanto a obrigatoriedade da vida transita e apenas a respiração é certa, ou quase. Flutua no argento da lua, nas camadas do tempo. Com algumas doses de insônia e desrazão. Essa fibra que faz meu pai decorar muitas páginas e se corresponder com a gente declarando seu amor. É uma coisa, latente. Um fungo, quem sabe, uma erupção de pele. Essa marca tão funda me fica nos olhos, transbordados de alguma forma quando eu a digo. Estou no carro dirigindo preocupações quando ela chega e me faz ri. É fêmea, frutífera, uma lança quando em vez. Alcança o pátio da antiga casa e farfalha indiscernível, um garimpo de vozes dentro da saudade. Aparece-me na estrada. No meio do rio. Quando sigo sem destino, fugindo dela e de minhas responsabilidades. Quando sou mais eu e menos mundo. Mais próximo do eco das galáxias e das desimportâncias dos sapos, das corujas e sua literatura de ave. Liga-me ao que é mais real. O corte pelo acidente, a árvore que foi decepada, a história com mais versões que vencedores. Mete-me em curto com a energia que me trespassa e anima. A poesia me funde com tudo de uma vez. Povoa, projeta, vitupera e escarra. Põe palavras em minha boca que é sua função. Fá-las escorrer para o branco da página, que é seu vício insuperável e me corrige das insuficiências, dos desesperos por que passo em ser apenas um homem diante de um mundo de homens trocando-se por patacas ou minerais. Mas, sobretudo, não me deixa no desalento do quarto, surrado com dor de cabeça pelo que não se pode voltar. A poesia me viola. Fecunda. Abre as juntas e os alicerces e refaz o imponderável. É do seu impossível que me alimento. Torna-se qualquer coisa. Qualquer idade. É esse vento que sinto agora perto do mar. É o beijo desesperado da partida. São meus avós sozinhos no natal de 92. São as pernas em falsetes de quem se esforça às muletas. É o lítio, a venlafaxina, os benzodiazepínicos dos quais saltei. Promove litígios. Fez-me perder a mulher certa. Deu-me outra possível. Posso fatiá-la, tê-la em redondilhas ou canções. É a língua que me opera e induz. Lida, corpo, demência. É tudo de exceção no que não tenho. Tudo quanto posso quando a dor é demais. J.M.N.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Repetido


Finalmente a noite chega e quero dizer tudo de novo. Fazer tudo de novo. Encontrá-la ao pé da escada de seu edifício, leva-la às compras, encontrar coisas em comum nas nossas falas. Mas ela não está. Não há sinal de que esteve. A não ser tudo o que me vem em golfadas de um lugar qualquer da memória. E é como um velho disco arranhado que na melhor faixa, estanca as vozes gravadas e repete infinitamente sílabas sem sentido. Pensar nisso me causa ao mesmo tempo satisfação e incompletude. Escrevo sobre essas coisas. Com a mesma tristeza das descobertas perto do fim. As pequenas mentiras, a negação de carinho, seu estojo de maquiagem perdendo itens dia após dia. Era mais do que a beleza indo embora. Era a ausência acontecendo e se encarregando de me ensinar a ser só de uma vez por todas. Um espaço vago, sendo preenchido pelo que não havia mais e meu sistema nervoso cumprindo a saga de criar memórias e distorções sobre o que fomos. Solidão tornando-se solidão. Até que eu mesmo me despedisse da saudade e não restasse mais nada. A não ser as palavras que vêm e formam frases e as frases que juntas contam histórias e o sentido das histórias que vem, mas se despede antes se cumprir. J.M.N.