terça-feira, 24 de novembro de 2009

Nos passos de Alice

“Que sensação estranha, disse Alice.
Eu devo estar encolhendo como um telescópio!”
Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas

Você que emerge de quando em quando. Que liga e diz que não se lembra do assunto. Que vem aqui e me cumprimenta com tantas desculpas e sofismas que um bom dia faz parecer adeus para sempre. Você que surge nas memórias mais austrais e tem metade daquilo que é meu, minha identidade. Você que toca e sara a luz de tanta gente. Não teve a fineza de nos desinventar. E dentro do corte jazem tantas certezas e um punhado bem maior de perguntas. Você que deixa minha vida quase nula, sem saber que ainda resta o entristecer. E quando lhe vejo, relembro solto de quando pedíamos as mesmas coisas, encharcados de festim. Você que surge lá de dentro, dos confins e me assusta e me devora em segredo de sacristia. Você que me cercou de cuidados e me deixou plantado à porta do nosso fim. A este seu ser, dedico estas palavras. Você que está dentro de mim feito um sistema, feito a foice que executa a pena máxima. Eu digo já vou, daqui a pouco. Digo que não tarda esse encontro capital. Acordo, calço os chinelos, arrasto-me até a sua presença cordial e sorrio. Fico esperando que você decida o final. Mas ai, você segura minha mão como a de um frágil e me devota tristes rostos, um perdão. E me convida. Eu aceito. Entre agora. Há pouco mais o que dizer. Tudo é instante e é imagem, um reflexo. E vejo o mundo se perdendo enquanto eu corro para dentro de suas paragens, para a colheita deste fim que é todos. Ao que desperto, minha única raiva é saber que você é tão legítima como meu outro, esse qualquer. Impunemente, me deixa do avesso, como quando estou tão deserto e sem final. Como quando me reinventa e percebo, que meu gênio é mesmo para toda essa palavra em cinza e controvérsias. J.M.N

4 comentários:

Melissa Narano disse...

Lindo demais.
Cada palavra tão bem colocada. Tudo pensado para encantar, não é mesmo?
Te lendo tenho vontade de nunca mais escrever nada.
Este texto é um dos mais boitos do blog. Com certeza.

Melissa

Paula Menezes disse...

Bela sua escrita... qualquer pontuação é extremamente desnecessaria..."Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida..." Neruda

Anônimo disse...

De certo é um dos textos mais lindos mesmo.Tem algo de transcedente que não dá para exlicar...É como uma exposição da alma.


Abraço.


Hellem

Anônimo disse...

Lindíssimo o texto. Venho cada vez mais admirada.

Lu