sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Crônica de um dia interminável

"O que ela fica gritando
eu não entendo,
sei que é pura esperança
"

Adélia Prado - Módulo de Verão

Não se engane, a nossa morte está ligada aos impossíveis que criamos. Está demasiado atada às propriedades celestes de nossas bocas declaradamente doentes em se chamar e escolher. De tarde, durante o meu passeio, te encontrei sentada naquela mesa que nunca freqüentamos e antes de ter saudades, tive ciúmes, porque te perdias no manuseio daquele aparelhinho que eu tanto odiava. Depois disso, tive tristeza. De te ver tão derramada. Tão longe desta existência. Tão impossível aos meus braços e abandonada das questões que surgiam sempre antes de nosso sono em comum – estás confortável, tem buracos no edredon? Fingindo estar com a mesma beleza que me obrigou a tantos desesperos. Mantendo a pífia mania de estampar-se, de maquiar tuas tragédias com uma base cor da pele e óculos escuros. Olhei, voltei a passar em frente à tua imagem tão quieta e lembrei do que me disseste, não surto mais! E tive tanta vontade de te surrar, de gritar essas mentiras em decibéis de concertos de rock. Cobrando de ti as promessas feitas naquela noite tão deslumbrante. Ansiando que viesses pedir desculpas por ter me abandonado numa loucura impiedosa de imprecisos e contas não pagas. Culpando-te por meu retorno, por minha improbidade. E liguei para os amigos, e perturbei novamente as pessoas que estão distantes a perguntar porque tem de ser assim, porque tenho de sentir (o peito múltiplo) em potências nunca tentadas. E como incorporar esta fragilidade de demência própria, às tuas faltas e esquisitices? Sinto, às vezes, que te poupei do pior. Te desocupei da violência que geravas nos confins do meu ser, mas que por sorte ou acaso nunca veio à tona. Busco nesses momentos me perdoar por tudo o que disse e fiz, mas esta rotina de me auscultar é demais, é aviltante e, ademais, sem sentido. E retornei a casa para lavar meu corpo da tua impressão e refazer a calma de minha pele ao som daquilo que sempre te ofertava quando deitávamos, sossego. Uma solidão pronta para ser usada e retornada ao baú de incertezas desses dias que me vivem, pois eu já não controlo nada. E pouco tempo depois, quando julgava que o dia teria um fim mais tranqüilo, eis que surges na avenida, retornando ao caminho que juravas não tomar, cujas passagens juravas não recordar. Mas lá estavas. Encontrada na minha visão. Bem à frente da minha miragem de sorte e pertencimento. Escapando de minhas palavras e de meu grito, que acertou dizer teu nome, mas perdeu a chance de te pedir para ficar e mais uma vez, apenas mais uma, permitir uma pouca felicidade ao meu corpo e ao meu dia. J.M.N.

2 comentários:

Anônimo disse...

Isso é tudo bem inquietante!

Roberta Vale disse...

Que bom voltar das férias e encontrar coisas assim para melhorar nossas tardes.

Beijos.

Beta