terça-feira, 2 de junho de 2009

Dois perdidos

Um par de coisas aconteceu entre o bater da porta e a descoberta da ausência, naquele dia. Poderia dizer que houve uma certa precipitação por parte de ambos e comentar que, afinal, o fim era o único caminho. Mas isso seria fácil demais, direto demais e para os autos, demasiado insignificante diante da história toda.

A despeito dos rumos tomados, não parece justo assegurar depois de tanto tempo, que ambos escolheram aquele caminho e enveredaram suas desavenças para as portas do inferno de uma vida a dois sem vida. Não. As coisas aconteceram como tinham de acontecer. E devo dizer que foi assim desde o início.

Dia de chuva…o rio tinha subido aos céus…

Chego atrasado se isso continuar. Nem me fale. Essas chuvas já estão fora de época. E de proporções bíblicas, não acha?. É mesmo. Quer um?. O que é?. Biscoitos de laranja. São caseiros?. Devem ser. Sinto muito, não posso aceitar coisas de estranhos. Você está brincando não é?. Claro que não, você é um estranho. Nestor, prazer. Lisa Maria, igualmente. Gostei. E os biscoitos?. Você disse que não aceitava. E você se apresentou. E?. Isso fez de você um conhecido!. Acabou. O biscoito?. Não, o tempo. Tempo de quê?. Da validade da oferta dos biscoitos. Mas estão cheirando tanto. E estão gostosos. Só um?. Não. Então para quê ofereceu. Para te conhecer. Eu me apresentei. Mas só depois de mim, e dos biscoitos. Mas você se apresentou. E antes te ofereci biscoitos. Débil mental. Sua sem biscoitos. Passa logo chuva. Não vai passar. Além de doido você é meteorologista?. Sou. Não pode ser, nunca conheci nenhum meteorologista. Onde você vive? Em Marte?. Grosso. O biscoito está uma delícia. Você vai me dar?. Só se você ficar surpresa com o que eu vou te dizer!. Como assim?. Que parte você não entendeu?. De quê?. Do que eu te pedi… de se surpreender. Não vejo razão para isso. Não quer os biscoitos?. Não. Ok, então me dá seu telefone. Nem pensar. Vai. Nunca. Palavra vasta essa. Escuta, você é mesmo um meteorologista?. Não. Há, agora é que não dou mesmo meu telefone. Você é um mentiroso. …que tem os únicos biscoitos de laranja desta parada de ônibus. Não acredito que essa chuva não passa. Não acredito que você acreditou que eu era meteorologista. Eu tenho fé nas pessoas, tá bom?. E eu tenho biscoitos de laranja. Chuva estúpida. Você vai para o centro?. Que te interessa?. Vai ou não?. Vou, e dai?. Não deixa de passar pela praça ao lado da prefeitura, é linda. Não passo por lá. Mentira!. Perdão?. Você tem de passar por lá para chegar ao seu trabalho. Como é que é?. Que parte você não entendeu agora?. Seu idiota! Que história e essa de… como você sabe onde eu trabalho. Calma Lisa. Lis… como você sabe meu nome. Você me disse ainda há pouco. Hã! E sobre o trabalho?. Eu trabalho no andar de baixo, edifício Avenida, 371 – sala 1005. Hã… o que é que tem lá?. Meu escritório. De quê?. Agora é sua vez… na praça do centro, perto da prefeitura, tem uma estátua de um infante, na base dela tem uma pedra solta que ninguém conhece, lá vai ter algo para você. Como é que é?. Ai meu deus! Você é difícil, heim?. Tô passada! Me dá um biscoito. Acabou. Vai à merda. Vai ao cinema comigo?. Nem pensar. Que pena, achei que valia à pena pegar essa chuva por você. Quem é você afinal?. Sou o Nestor, já disse. Não, digo, o que você quer?. Cinema com você. Nessa chuva?. Não, pensei em sexta-feira às 20. Já disse que não. Na verdade, você disse nem pensar. Você é irritante. Sou sim, mas também acho que você é a melhor coisa do meu dia. O que?. Você é distraída mesmo… semana passada, no seu consultório?. Que tem?. O cliente que saiu e te deu um abraço. Claro, mas, mas. Tirei a barba, como você disse para eu fazer. Eu não acredito. Sem problemas, eu aceito seu esquecimento. Não é isso…. Cinema?. Mas eu nem te conheço.J.M.N

4 comentários:

Débora disse...

Olá meninos!

Gostei demais desse cantinho, estou a seguí-los!!!
Beijos,
Deb´s.

José Mattos disse...

Oi Débora,

Seja bem vinda.
Mantenha sempre contato e divulgue-nos.

Um abraço,

Roberta Vale disse...

Nossa!
Gostei de tudo aqui.
Das palavras, das referências musicais, das indicações de livros.
Pena que não conheci o espaço a mais tempo, pois agora vou ter que coorer atrás para acompanhar, pois vejo que muitos escritos seguem uma linha, tem ligação (ou não?).
Vou visitar sempre.
José Mattos, tua pena eletrônica é muitíssimo afiada. Continue assim.

Saudações,

Roberta Vale

José Mattos disse...

Muito Obrigado Roberta!

Seja bem vinda ao Palavras...

Um abraço,

J.Mattos