quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O cárcere

“Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.”

Do poema, A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade
Fernando Echevarría

Ela foi presa. Não pelo ofício que exercia. Amaranta Rise foi presa pela delinquência da persistência, que tem por sinônimo mais pungente a perseverança. Arredia aos fatos da vida fez seus planos e os pôs em prática, inexoravelmente. Não contava, entretanto, com as fomes do coração em cujas tramas e segredos de vivenda, caíram seus olhos, seu fulgor e, ademais, as urgências de descobertas fazedoras de liberdade, forjadoras de claves imperdíveis às sonatas exultantes.

Amaranta presa anunciou sua fuga. As pessoas do cárcere esqueceram a promessa, pois daquilo ninguém fugia. Ainda por cima com interditos sentidos na voz de pedir socorro. Com quem contaria do lado de fora? Era dela própria a condição de suficiência, de retidão em pensar cada passo. Não contava nunca com a novidade, com o imprevisto. A mulher assassina da cela ao lado disse apenas que a prisão, Amaranta, já trazia consigo desde antes de passar pelas portas da cadeia.

Convém dizer que ela fugiu. Que escreveu um manifesto, onde jurava nunca mais voltar à prisão. Onde promulgava estar vivendo um gostar pleno. Suas amigas de detenção, algumas presas para sempre, outras esperando injeções ou forcas, lembram sua ternura, de sua entrega aos traços que deixara por todas as paredes de sua cela, onde escrevera tudo o que seria de si, dali em diante.

Marta Villar, cujo crime de ter fugido de um passado dormente, onde não podia dizer quem era e paga, além do cárcere, uma vida inteira de silêncio, escreveu: Amaranta terá de superar apenas mais um obstáculo depois de pular o muro e correr à rua.

Todas sabiam do que se tratava. Mas, lembrar aquilo, era como afastar as possibilidades de amor e violetas frescas que seriam vividas por Amaranta, como em uma fábula compartida que libertaria todos aqueles destinos de uma só vez. Ninguém tinha o direito de dizer que a prisão maior da fugitiva era seu próprio susto pela conquista, sua própria ideia de liberdade. J.M.N.

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