segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Afônico

As palavras finalmente me substituíram. Acordei afônico. A voz cansada de dizer sozinha. Atraída para o nada de descanso atrás da pele do dia. Sentida apenas de não ter declarado amor, feito uma benção, sussurrado uma paixão violenta.

Minha voz amanheceu em outra instância. Sorrateira creditando mais segredos ao meu dentro. Aquilo que não sai de mim me endivida. E descobri que preciso dizer sempre, pois parece que a única ponte da alma ao dia é essa minha voz que amanheceu calada, introspectiva.

Não sai com esforço. Mesmo com as veias do rosto em pulsação extrema, todos os vasos do corpo querendo expulsá-la da garganta, atirá-la pela boca. Ela não sai. Tirou um tempo para me sacrificar as verdades, para me internar no conflito entre o que digo e o que sinto.

Minha voz sabotou a existência. E já nas primeiras horas do dia avisava que não teria piedade do meu peito, casulo das sílabas mais doídas e dos falsetes mais desafinados do que sinto. Minha voz se calou rebelde. Calou e espera que a reverberação do que não me sai por ela espante minha memória, alardeie minha consciência.

Sou um beco. Esperarei ansioso até a hora de poder usar com a boca à toda, a palavra silêncio.

J.M.N.

4 comentários:

moahra disse...

‎...pode um homem ser tantos e muitos, engendrar-se em desconhecidos nomes, em rostos que se fazem ocultos, distantes?...assim é o homem-palavra, o homem-poesia que, expressando-se, revela-nos o outro lado do espelho...josé neto sou eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas...conjugação perfeita do verbo existir!!!

...moahra...

Anônimo disse...

"Sou um beco. Esperarei ansioso até a hora de poder usar com a boca à toda, a palavra silêncio."

Isso é simplesmente genial.

Lilian

J.Mattos disse...

Moahra,

Um de meus poetas preferidos, Ho Chi Minh, escreveu:

"Eu leio e o pássaro das florestas vem gemer diante de minha porta.
Escrevo minhas idéias sobre o livro
E as flores das montanhas miram-se no tinteiro."

É um poema de resistência, de luta pela liberdade, marcada por uma solidão guerrilheira profundamente humana.
É para mim também a tradução do sentir-se livre ao escrever. Do transpor-se. Ao ler teu comentário, senti vontade de partilhar isso.

Que bom que vens à minha porta, que bom que tuas tintas riscam os papéis também.

J.Mattos

Ana Clara disse...

"... uma pausa de mil compassos..."