sábado, 12 de setembro de 2009

O corpo é um animal sedento

"Se entornaste a nossa sorte pelo chão
se na bagunça do teu coração
meu sangue errou de veia e se perdeu"

Chico Buarque - Eu te amo

Andava com as víceras no monastério. Reclusas e abatidas com a distância do veneno. O que não mata pode ensinar uma lição, ou pode criar um hábito tão caro que consuma todos os recursos, a homeostase do engenho humano; e se volte a si mesmo num ciclo avassalador de desejo e execuções. Ao encontrar-lhe a carne, o apetite era de décadas atrás. E viravam noites umedecidos. Estendendo-se felizes à criança agonizante que era a entrega. Tudo queriam... tudo tinham... tudo perderam. Estas linhas se conformam nas sobras do divertimento, no ocaso dos atentados que não foram reclamados pelos grupos rebeldes de sempre. Compactuam, estes escritos, com a anatomia descoberta cirurgicamente pelos contratempos. Em riste o grão que os devolveu à terra, perdura. Em delírio o esgar do pedido atendido. Da concessão de existirem-se, a despeito da idade ou da distância. Em torno de tudo, a compulsão desalojada de um mecanismo humano de carne e ossos e portões e velhacarias. O corpo pede a presença instantânea da morte. O olho, ao contrário, requer o longe da miragem que instigou a fome, que instituiu os passos, que se transformaram em galopes, que erradicaram a covardia, que cumpriram o pertencimento e culminaram nas certezas de eternidade.J.M.N

Um comentário:

Roberta Vale disse...

Impressionante... tua escrita é uma voz que eu queria ter sobre muitas coisas que sinto e vivo.

Beta