quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Contentamento


     Gravura de Manoel de Barros

Este átomo que se expande e mata o tempo e o espaço é a simples idéia de não ter tido. Uma energia ultimada em potência incrível a impulsionar meus lábios para onde já havia esquecido e minhas mãos para onde as horas querem ir descansar. Eu espero com os cabelos arrumados para que os toque e vejas neste ato íntimo e exasperado um segundo de reencontro. Tua crença pênsil em nossas madrugadas ainda existe? Até hoje desacelero os passos para te encontrar em momentos exatos e vim de longe a correr e correr para te achar ao pé da escada, descendo de qualquer ponto celeste, irretocável como os algodões em flor. E digo estas coisas por saber-me restrito, sem muitos substantivos, sem adereços sequer e a escorregar entre as ruas decantadas da minha saudade, vendo as telhas azuis dos prédios baixos, dá-me por dentro uma alegria pequena e algo dolorida, cuja razão de existir foi nosso encontro. Esta cidade parece tão distante de mim agora, e mesmo assim, tenho vontade de correr ainda mais e chegar cansado e atordoado pela distância, para finalmente repousar meu corpo e deitar meu canto em tuas mãos incrivelmente macias. J.M.N

4 comentários:

Roberta Vale disse...

Lindíssimo... Uma espécie de declaração anônima, sei lá!
Dolorida e sentida. Um entrega muito intensa, sem dúvida.

Maravilhoso!

Beta

Anônimo disse...

Lindo mesmo!
Amei.

Beijos

Flávia

ana sofia disse...

Não existe comentário que consiga exprimir o que as palavras fazem sentir.
muito lindo mesmo..
um momento enternecedor


ana sofia

Anônimo disse...

Lindo como o poema de Camões "O amor é fogo que arde sem se ver"...




Hellen.