terça-feira, 23 de agosto de 2011

Palavras sobre pedras (ou “Insulto à normalidade”)

Acordo com cavalos no meio da noite. O estrondo de uma tropa imaginária que me avassala. Esse exagero de despertar que me consome imensamente. Depois de tantos anos ainda dói que não ligues. Estou pronto, sabia? Vejo bem à noite e sempre desvio de lebres e cães perdidos na estrada. Como ensinaste. Onde moro as janelas dão direto na rua, abro-as quando quero o concreto e a fuligem para desfazer meu transe. A saúde reclama, mas e daí? As idas à farmácia me acalmam e fornecem encontros esporádicos com Suzete. Às vezes me basta a sensação de surpresa antes de vê-la, mesmo quando não está. Chove na cidade, sobre cada uma das coisas ao redor existe a água abundante daqui. Uma lavagem. Ouço além, uma sugestão de que talvez eu deva sentir sozinho este outro fim que costuro a pontos duplos, cerzindo a inconstância e a poesia numa mesma colcha de cama. Hoje, afinal, dormirei quente sob a espécie de surto dosado que me concedem os desejos de agora. O oceano me canta distante e pleno. Sem revolta ou escuridão, apenas um leito líquido que me espera alhures. Eu indo a seu encontro, com as ferramentas de construir possibilidades em ambas as mãos. Olha, desculpe-me por não acreditar mais ter sido aquela a única saída. J.M.N.

Para ler escutando…

Um comentário:

Anônimo disse...

Primeira vez visitando o Palavras de Ontem e posso dizer que está no top dos favoritos. Parabéns pelos belos textos e músicas escolhidas com alma.
Voltarei sempre e indicarei aos meus amigos, com certeza.

Abraço,

Carla Sanz