terça-feira, 1 de abril de 2008

SUDÁRIO

magritte7

La Memoire, René Magritte

 

São poucos dias, mas o bastante para encharcar de memória essa terra que há muito se faz árida. Esse meu coração, esse Vesúvio que tenta suportar o crescimento manso das orquídeas no seu entorno.

Morre mais uma hora insone. Claro que mais uma vez, revivi tudo. As claudicações primeiras, as precipitações de depois. O embalar silencioso ao final de uma noite de fuga. O traçar e retraçar de estradas impossíveis. O aparar de asas. O chão coberto de penas. A voracidade dos recomeços. O chão coberto de roupas. A pressa em vesti-las. Os amores urgentes. A boca suja de estrelas. O dia em que, nus no banheiro, acreditei que tudo era meu, e que eu era merecedor. Toda a tensão de uma biografia compartilhada desenhando um rastro e um lastro nas nossas carnes.

Por ora, quero dar-te o abraço último, o último calor. Ser teu sudário. Talvez o que eu queira mesmo seja isso, matar-te. De uma morte que te faça viver externamente e que se dê só dentro de mim, deixando apenas o mistério da tua marca, como um retrato de agonia, paixão e entrega.

Um comentário:

Edna disse...

Para inaugurar: Sabes que há muito te proponho publicações, desde o tempo da faculdade. Isso não se justifica apenas na riqueza do que vem de dentro de ti, mas também no quanto de valioso podes proporcionar no leitor que tem sede do que é sensível, familiar ou simplesmente humano.
Apenas uma sugestão: épi-derme caberia muito bem no blogger.
Beijo lícito.