quinta-feira, 3 de abril de 2008

Quando já não há o que dizer

Queria escrever um modesto romance que não me valesse prêmios ou reconhecimento. Que fosse o avesso do meu íntimo, um caminho meu que todos pudessem usar às suas próprias conveniências. Como a cartografia de um continente inexplorado. Queria estar em apuros para que o socorro estancasse a busca e minha vida valesse mais do que no minuto anterior. Olharia para ela como num clarão e com esse deslumbramento dos que eminentemente encontrarão a morte, poderia, quem sabe, engendrar uma nova existência. Queria que meus anos corressem ao contrário, para que o meu nascimento fosse a derradeira experiência de minha vida. Como se fosse possível ter mais vida no minuto final – ou, naquela perspectiva - no minuto primeiro. Queria ter tido mais tempo para encontrar as pessoas, para perdê-las de novo, para tornar a encontrá-las e fazer desse vício de reconhecimentos, minha sincera vivência da saudade, dos bons quereres. Queria estar nalgum lugar desconhecido, impenetrável, onde a primavera fosse marcadamente violeta e as coisas de amanhecer estivessem sempre a um centímetro dos teus olhos. Lá naquela região em que me perco. Onde me anulo e escravizado temo perder a força de quem me escraviza. Queria sentir o peso dos anos como se fosse meu esforço de lida, minhas ações voltadas todas para a construção de meu teto. E no meio disso tudo, queria, de novo, regressar ao dia em que te pedi para dar à luz um filho meu. Fazer brotar de ti a carne de minha carne, o sangue de meu sangue, num caminho que talvez me reconciliasse com Deus. Faria tudo diferente, de modo vario daquele que nos destruiu e por Deus, estaria na instância intermediária entre ser humano e ser divino. Hoje tenho os anos debruçados nos meus olhos, esperando, quem sabe o momento certo de escapar, de correr atrás daquilo que nunca foi, daquilo que nunca tive. Aguardo intransigente a chegada do escuro universal, da noite fim de tudo. Mas sem tristeza ou desarmonia. Acomodado nos ramos suspensos das grandes castanheiras de minha terra. Queria ter feito esta carta enquanto podia. Para não perder a oportunidade de entregá-la a ti e, chorando, à beira do abismo daquele imenso desejo te pedir para jamais sair dali.J.M.N

Um comentário:

valéria disse...

José Neto descreve, com muita sensibilidade, o sentimento de saudade de si mesmo que todos nós experimentamos em algum momento.O autor consegue expor, de maneira sutil, as sensações contraditórias vividas pelos que reavaliam a vida e buscam resposta dentro de si mesmos para explicar o sentido de suas decisões. Belíssimo texto!!!