quarta-feira, 9 de abril de 2008

Emília

Há quatro anos atuei como psicólogo do então programa Sentinela. O objetivo era prestar apoio psicossocial a crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual. A riqueza trágica das histórias para as quais eu dei escuta durante um ano deixou sulcos profundos no profissional que fui depois. Por isso, ao sair do programa me vi na obrigação de deixar algo de mim para os técnicos; uma produção técnica, um relato, um qualquer coisa. Saiu o texto que se segue e que, depois de muito tempo, recebe um título, Emília.

 

TENHO CERTEZA, ele ainda me ama. Tudo que aconteceu aquele dia parece ter sido provocado por mim. Mamãe tinha viajado e eu era a mulher da casa, vai ver que foi por isso. Gostei quando ele se aproximou da minha cama. Ele nunca fazia aquilo. Ele ia me contar estórias, tinha certeza. Ia me fazer acreditar. Ia inventar reviravoltas em fábulas conhecidas. Ia forjar absurdos nas passagens que esquecia, só pra estória ficar mais longa. Ia ser aquele pai que sempre desejei. Acho que gritei ou reclamei quando aqueles calos tocaram as minhas pernas. Quando aqueles dedos que acostumei a ver fazendo nós com tamanha destreza, começaram a entrar em mim, me explorar, me revirar por dentro. Doeu, doeu muito. E doeu mais ainda quando ele me abraçou. Um abraço longo, que nos fez um só...

Ao final de tudo ele goteja branco e eu, vermelho. Doeu o carinho que papai me deu. Aquela noite, naqueles minutos eternos, ele me deu um amor diferente, dilacerante, quase querendo dizer que me amava e, por isso, me punia.

2 comentários:

Janete disse...

Sou suspeita pra falar... Sou fã d+ dos seus textos, esse ficou muito bom retrata muito bem a violencia sexual q vivenciam as crianças e adolescentes.
Parabéns!
Bjs

GI VALLE disse...

Nossa!
Estou sem palavras...
O texto é triste ao mesmo tempo, muito bem escrito. Parabéns.