segunda-feira, 21 de abril de 2008

Sofia e o Jovem André

Sofia enamorou-se de um passarinho. Batizou-lhe Leonardo e depois, e definitivamente, André. Ao que tudo indica o pequeno saira do ninho antes de ter as asas suficientemente maduras pro vôo. Tanto que alçava-se pelo ar apenas em grandes pulos, não sustentando-se porém, o que facilitou a sua captura. Mas André não reclamou do doce e breve claustro no qual entrara desde então. Ganhou um pequeno ninho feito com cuidados de tecelã e alguns panos de chão. Encastelou-se reclamando, mas logo se aquietou sob o calor e a vigilância irrestrita de Sofia. Dormiu com a cabecinha quase toda virada para as costas e o bico apoiado nas asas. Sofia velou seu sono até não suportar o próprio.

Pela manhã, diante da insistente recusa em comer e beber – o que também fazia Sofia jejuar, mesmo que involuntariamente –, pedimos que o ninho e seu ilustre morador fossem deixados na garagem num lugar próximo onde fora capturado. Sofia pôs o ninho com cuidado onde indicamos, mas o caminho ficou cheio de lágrimas e lamentos. No fundo sabíamos que nossa filha estava fazendo um movimento tão doloroso e tão necessário para quem ama: deixar voar aquele a quem dedicamos o nosso zelo e os nossos sentimentos mais preciosos. Logo logo dois passarinhos maiores, um cantando e outro gritando, acercaram-se do pequeno André, levando-o, aos pulos, para longe de nossas vistas.

Uns dias depois, cheguei no final da manhã pro almoço e o pequeno pássaro encontrava-se empoleirado na grade do portão da garagem. Fazia uns sons estranhos, como quem chama alguém que está dentro da casa. Ao perceber minha presença saltou pra um ponto mais alto voando em seguida até desaparecer por cima do telhado.

– Sofia, sabe quem estava aí na frente querendo te ver? Perguntei efusivo quando vi minha filha que vinha do quarto. E ela, com uma serenidade e uma segurança incomum a uma menina de 6 anos, respondeu:

– O André.

 

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André na segurança das mãozinhas de Sofia

2 comentários:

Alexandre Gouveia disse...

Wagner, meu prezado! estive ausente do ambiente virtual por alguns dias,somente hoje restabeleci contato e pude apreciar seu blog, parabéns, está muito bom!
um abraço meu camarada!

Edna disse...

Estava por aqui a procura desses dois personagens. Não que as outras produções não tenham em mim provocado emoções semelhantes, mas apenas por Sofia e André, traduzidos num texto de beleza simples e ternura, terem o poder de expressar a mistura de alguns contrários, esses que nos lembram nossa natureza humana e nos levar a um doloroso mais compensador crescimento: encontro/despedida; conforto/saudade; solidão/reencontro....
Para quem amo: as mais belas maõzinhas e seu co-autor.