segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Se soubesses de onde vim...

Inspirado na música Crank, Catherine Wheel

…talvez não empenhasse tanto louvor ou considerações em me esquecer. Se acaso tivesses acesso à minha ficha corrida, poderias criar defesas às coisas em que sou especialista. Meus ardis, minhas armadilhas seriam muito pouco eficientes. Se soubesses o estrago que me vai por dentro, se ao menos conhecesses as letras das canções de amor que escrevo, em cujas linhas perpétuas, te encontravas desde antes de surgires naquele outubro distante, poderias pedir para sair a tempo. Antes que houvesse amor, antes que os olhos estivessem desesperadamente apontados para as órbitas dos universos que crio. Se soubesses de quais substâncias são compostos os meus sonhos e que sabor tem minha pele depois que cometo atos tão insanos e contrabandos de sentidos seguem as notas das melodias que uso para encantar, talvez tivesses maior chance de proteção. Me chama de falhado. Me chama de esquisito, malandro, estúpido, mas faça questão de ter tuas relíquias. Volta para buscar o que ficou, caso contrário não haverá completude. Acredite, sei do que estou falando. Em minhas superstições sobre o amor e as coisas que deixaste em meus lábios, volto sempre às palavras do último dia: vou sair por ai, viajar, ser feliz. E penso o quanto isso é próximo do que deixei escrito nos papéis de minha infância. E fico extasiado por saber que estas coisas estão nos meus passos e que é a busca que as faz constantes ou antes disso, presentes. Te vejo ainda nas cartas que nunca enviei, nas minhas páginas marginais e nas gotas do remédio para a tosse cada vez mais constante. Se soubesses de onde eu vim, saberias de pronto que a cidade destrói a imagem que temos de nós, arrasa a vontade de sermos maiores e mais ligados aos outros, confina o dentro e remove a identidade atrevida enjaulando os desejos na cartografia das ruas, nas suas periferias. Terias a certeza de que partiste do mesmo lugar e talvez estivesses atrás de responder à mesma pergunta que me ocorre há tempos: queres mesmo ficar? J.M.N

Para ler escutando e depois ler aqui

4 comentários:

Roberta Vale disse...

Instigante... Será que darão uma resposta?

Beta

Anônimo disse...

Se não houver frutos, valeu a intenção da semente. (Henfil)

ana sofia disse...

de arrasar e extasiar..
como sempre.

beijo

Anônimo disse...

Suas palavras são atormentadoras.Assombrosamente enigmáricas,misteriosas.Provocante!De causar êxtase.



Bjs,

Hellem