sábado, 3 de outubro de 2009

O Escafandro e a Borboleta

Escafandro

Dia desses assisti novamente ao filme de Julian Schnabel, O Escafandro e a Borboleta (França/EUA, 2007). Pela segunda vez terminei o filme com uma impressão de que o drama de Jean-Dominique Bauby, personagem principal do filme, é uma história sobre a lucidez, a qual, nos ensina José Saramago algures, pertence à categoria dos dons que qualificam a liberdade. No caso do protagonista desta incrível história, a liberdade dos pensamentos, num corpo detido por um colapso neural.

Bauby era editor chefe da revista francesa Elle e sofreu um derrame cerebral aos 43 anos de idade, culminando este quadro na síndrome de locked-in, um estado muito raro em que todas as faculdades intelectuais são preservadas, enquanto o corpo deixa de responder inteiramente aos estímulos externos e fica paralisado por completo. Nesta condição, o paciente apenas pode respirar e comer através meios artificiais tornando o nome da síndrome – trancado dentro – uma sentença aterradora.

A única propriedade corpórea que Bauby controlava era o piscar de seu olho esquerdo, cujo movimento interpretado por enfermeiras dedicadas indicava as letras do alfabeto que deveriam construir as sílabas, as palavras e as frases que compuseram um impressionante relato sobre sua vida, suas divagações sobre a felicidade e o amor, suas memórias e suas relações com as pessoas e com as coisas do mundo.

Destaque-se aqui a incrível interpretação de Mathieu Amalric, cuja capacidade de expressão facial torna a história ainda mais contundente. O ator frances realmente consegue transmitir através de uma dificílima condição de imobilidade, as sensações da prisão do corpo e os sopros de vida que os pensamentos da personagem lutam para registrar.

Não pude deixar de notar a semelhança do estado de Bauby com certas vivências febris que nos assaltam ao longo da vida, em cujo desenrolar agiganta-se a sensação de imobilidade, o desespero de uma morte cinética e a radical presença de pensamentos libertários e de uma saudade a toda prova. Condição única que nos lança num emaranhado de questionamentos sobre o que fizemos, sobre nossas existências e sobre nossos limites humanos mais temidos.

O filme de Schnabel é lindíssimo, com fotografia impecável de Janusz Kaminski, que também assina a fotografia de A Lista de Schindler e roteiro que respeita o formato e a cronologia do livro de Bauby, O Escafandro e a Borboleta perfaz uma história contada com sensibilidade e entrega, onde nenhum dos elementos cênicos destoa da delicadeza da condição do protagonista efetivando uma excelente junção entre fato e criação artística

Bauby escreve: "Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.”

Curiosamente, bernardo-eremita é uma espécie de crustáceo que não possui casca e para se proteger dos inimigos naturais, rouba as cascas vazias de outros crustáceos usando-as como defesa. Minha sensação ao ver o filme e conhecer a história de seu protagonista é de chegamos ao fim da película querendo roubar a extremamente forte lucidez de Jean-Dominique, sua couraça, sua resistência e fazê-las de escudo contra as intempéries da vida, contra a constatação de que mesmo sem acometimentos físicos, às vezes, somos prisioneiros de nós mesmos. J.M.N

Trailer...

Um comentário:

Dri disse...

Acabei de assistir ao filme e me emocionei muitíssimo com a história de Jean-Dominique Bauby. O filme é lindo, maravilhoso! Ao final, lembrei de outra história sobre "encarceramento": a de Ramón Sampedro, interpretado magistralmente por Javier Bardem no filme "Mar Adentro", de Alejandro Amenábar.
Jean-Dominique parece ter sido convencido a continuar vivendo, ainda que encarcerado, e descobriu prazer na liberdade de sua imaginação, já Ramón lutou para convencer as pessoas do seu direito de morrer e nessa luta encontrou sentido para aguentar o encarceramento.
Tanto Jean-Do como Ramón encontraram na escrita uma saída para o encarceramento, assim como muitos de nós.