sábado, 3 de outubro de 2009

Elegia

À noite, quando a fome da memória não sacia, quando o negro da distância se impõe, procuro quietar no manso do cobertor desabitado e ouvir os sons da casa. São quase tumultos os barulhos que surgem, são quase escândalos. Chega sujam a energia dos eletrodomésticos e redimensionam minha vida de solitário, estacionam a dor de meu tempo ao contrário – um cenário propício aos desesperos. Chega letras suicidam nos livros amontoados. É uma corte ao prazer esquecido, a uma nudez límpida que me relembra cachemiras elegantes, lírios, a união de todas as cores. E nesse oculto sonho quase encontrado, naufrago a vista e o tato, o escutar dos tons do mundo. Sigo leve e desenvolto aos segredos do mágico, ao calor do colo que permitiu minha existência. E penso nos meus ancestrais, em como rezariam novenas a este desassossego que me consome. J.M.N

3 comentários:

Anônimo disse...

Algumas vezes nem rezas aliviam a dor de uma saudade e de um amor não compreendido...são esperas eternas,a saudade é o único rémedio pra alma...o que alimenta as boas lembranças.



Hellem

J.Mattos disse...

"Algumas vezes, basta voltar. Resumir as linhas das cartas e contar os fatos pessoalmente, como uma conversa há muito esperada."

O Oráculo do Grão - Texto II

J.Mattos

Roberta Vale disse...

Sei lá, algumas vezes não nos fazemos compreender...

José,

Tua elegia é linda. Simplesmente me fez lembrar de o quanto é bom ter coisas intensas do que lembrar.

Beijos,

Beta