quarta-feira, 16 de julho de 2008

Quando vais

 

Por que quando vais levas a essência da casa? Levas aquilo que faz da casa casa, e não rua ou prédio ou bar. Aquilo que transcende a simples construção de tijolos, cimento e telhas. Lar mesmo. Abrigo. Lugar de partir e de chegar. Levas o beijo insone durante a madrugada. O despertar de duas horas. O banho a três. Levas a pressa pra ir pro trabalho e o já esperado aborrecimento do marido. Levas o grito diante da barata e a risada do marido. Levas o pedido de desculpas pela aridez das palavras e o sossego do marido. Levas o ficar de conchinha no sofá da sala e a felicidade do marido. Tudo transformado em um lugar estrangeiro, estranho. Mas o quintal ainda está lá, e nele as cachorras dormem ao sol. A televisão está desligada. A sala está desligada. A janela entreaberta olha tristonha a casa da vizinha fofoqueira. Espera um movimento qualquer que indique que ainda existimos pra alguém. A porta espera ansiosa uma chave que não é a minha. O quarto rosa espera as mãozinhas que voltarão com adesivos novos da Barbie. Ele a envolverá com sua mão de pelúcia, não importa se ela vem com catarro no nariz. O carro também espera, ele espera mais que todos a hora de ser ligado e partir, coração disparado, em direção à praia onde estão as risadas desbragadas e o sono com quem se ama.

3 comentários:

Lucimar disse...

Amigo adorei seus textos são lindos passei horas e horas viajando neles são maravilhos vc e seu colega estão de parabéns.
Pode investir.
Um forte abraço.

Wagner Dias Caldeira disse...

Sabia que vc ia gostar, Lucimar. Acho que a sua atual fase ajudou, né? rs

Edna disse...

Arrepio de fora e lágrimas de dentro. É o amor que te guardo pra sempre e testemunhará nossos cabelos brancos. Lindo mais um produto de tantos que já elogiei.
Beijo.