sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Na memória dos postais
Histórias para depois do sono IX
Memórias paternas 1
- Pai me dá uma mesada?
- Para gastar com o quê?
- Com uns brinquedos na porta do colégio.
- Você não tem vontade de comprar outras coisas?
- Hum... não, não, só os brinquedos mesmo.
- Algo me diz que tem outra razão de ser esta mesada.
- Tá bom, eu quero guardar para comprar uma passagem para onde tu moras.
Do outro lado do Atlântico um telefone ficou mudo, pessoas viram alguém que chorava copiosamente numa cabine telefônica. Era dezembro e fazia um frio indescritível. J.M.N.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Perguntas de Ontem IX
Pergunta de ontem: o que queres dizer com teu silêncio?
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O resto da vida e mais seis meses
Muitos atos de desespero
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O pacto de Orfeu
Redescoberta
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O caminho do que serei
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Ser como Sofia III
- Adivinha o que é isso.
Arregala aqueles olhos enormes e produz um som ínfimo fazendo um biquinho. Preciso colocar o ouvido bem próximo à sua boca pra ouvir.
- É o som de uma concha por dentro? Arrisco.
- Não, é uma mosquinha chamando pelo nome do pai. Agora essa.
Ela deita no chão em posição fetal. Reparo como a minha menina cresceu.
- É uma pessoa que acabou de perder um grande amor?
- Não, é um caramujo que viu o senhor com um punhado de sal e resolveu imitar uma pedra.
Ainda preciso aprender muitas coisas sobre a vida.
WDC
Jarro com lírios
Sei que a tua madrugada insone é dedicada aos teus anjos, por isso a tua presença arrasta um cheiro de asas doloridas. No entanto, aqui nessa epiderme desacostumada a afagos sutis, sinto a tua gratidão pelo bom dia, pela graça, pelo elogio. Agradeces silente num abraço breve e num sorriso de lado. Não és dada a gestos em excesso, mas tua presença ameniza o ambiente, como um jarro negro encerrando lírios recém colhidos. Teus passos têm endereço, sempre. Jamais vou te ver vagando, uma pena. Queria te encontrar sem destino por aí. Perguntar a tua pele sobre a alegria dos negros nas madrugadas da fazenda de meu bisavô. Perguntar sobre os meus santos protetores, sobre os meus atabaques, sobre quem fechou meu corpo para determinados prazeres, como a dança. Qualquer dia almoçamos novamente, e da janela vamos ver o mundo em chamas, viventes transitando por calçadas solitárias, reparadores tristes, namorados ardentes. Então brincaremos que somos amantes, marido e mulher, sócios num grande negócio, completos desconhecidos que sentaram na única mesa vaga de um restaurante lotado. A cada pessoa contaremos uma história diferente. Viveremos intensamente essas biografias inventadas, quem sabe assim apressamos o tempo, e nos tornamos parte da existência um do outro. WDC
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Iluminação
Quatro Haikais muito amadores e outras miniaturas
O não dela
como morte atrasada
inaugura a madrugada
..
O que nos cabe
maior do mundo: abraço
residência de minuto
...
As tuas pernas
distraídas traçam
meu rumo incerto
....
A hora de voltar
aconteceu secreta
queres saber?
__________________________
I
O medo quase morto
se despede
desprendem-se dele
sins e nãos
II
Não escrever
descreve um estado
do qual não se faz parte
nos faz metade
III
Queria apenas saber
o canto que a faz voltar
resiste o vento
a trazê-la de volta
IV
Como me sinto?
não importa mais
do que como sentem
os passarinhos presos
V
Escuto árvores te chamando
vozes verdes e de frutas
teu doce alimenta ainda
tudo o que sinto no caminho
VI
Como gelo a noite
me persegue, eu grito
e não vens jamais
é como uma morte
quase como estar
ao teu lado
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Perguntas de Ontem VIII (ou O depois já chegou?)
Lembranças e ritos. Dúvidas e martírios. Como tem de ser.
Depois eu fujo. Depois eu vejo. Depois te encontro, quem sabe sinto. Depois te abraço e me aqueço. Depois do terço cometo outro pecado. Depois do almoço, refaço minhas fomes. Depois te encaro, como um solfejo. Depois ponho ruídos no branco da tua epiderme. Depois invento motivos pra teu olhar voltar-se das planícies enluaradas. Depois ponho as pratas pra devorares as minhas noites. Depois os esquifes já não serão problema. Depois te dedico o meu epitáfio. Depois tuas frestas serão meu espaço. Depois tuas belezas serão afrescos. Depois minha lágrima será perdoada. Depois a razão será conhecida. Depois a razão já não servirá para nada...
Pergunta de ontem: o que farás quando o depois chegar?
“Eu escrevo e me livro de mim e posso então descansar”
Mesmo dizendo não, ouvi teus sins mais remotos. Essa é a única vantagem de nascer multiplicável. Em que mortais combates te enredaste, para chegar àquele fim de nosso diálogo? Eu por cá deixei as lanças e os aríetes e corri nu em pelo à frente da batalha, do reencontro. E mesmo que em nostálgica acústica da longeva linha telefônica, os sons líricos da distância construíram plumas e transmutaram meu silêncio em um pedido desesperado de confirmação. Em uma nota altissonante de ventura. Porquanto quis que me dissesses a verdade e foi justo ela que faltou. Aprendi a usar impossíveis – meu maior tesouro de agora. Únicos que somos nos labirintos porque passamos, dois entes vagos a desenhar o escape inglório daqueles beijos, recusamos ver. O medo ainda torna. Aqueles elos anatômicos e invejáveis pelos quais nasceram nosso reconhecido pertencimento e a verdade que ora deixamos de lado fazem moções. Protegem os pequenos costumes que procriamos. Você disse que empenhava sua palavra. E que garantia ter estado em silêncio durante todo o tempo. E digo reconhecido nesse pranto de ainda, que teus sons, então, se desprenderam sem que soubesses, pois estão todos pousados nos alpendres por onde descanso. J.M.N.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Então eu soube que estava só
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
A tudo que continua existindo
O outro lado do sim
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"
Florbela Espanca – Ser poeta, 1923
Sei que ainda nada disse. Não houve uma entrada triunfal em teus domínios. Ninguém em teu condomínio acordou com um louco gritando suas saudades em noite de segunda-feira, cheio das dores do trabalho árduo. Envolto pelos gostos e torções que tua presença invisível em minha anatomia ainda procria. Sei que não há telefonemas ou lambaris declamados em notas tristonhas, suadas, conforme fosse a unção do nosso encontro. Sinto que esse bem é mais longo e conspícuo do que odes ou tercetos áureos. Sei que a nobre função que exerço é muito menos importante do que o gosto de um beijo teu. Ainda moro naqueles instantes. Naqueles mesmos que reproduziste em teus escritos. Ainda escondo a inconformidade com o desencontro e o desespero de me sentir sozinho ao teu lado. Noites e noites perguntando em que era poderíamos, enfim, ter paz. Pedi para que me cuidasses. Nunca fui bom em fazê-lo. Tive de aprender aos murros. Internado na mais profunda escuridão de meus calabouços. Fui desde sempre interditado pela promessa de que sempre haveriam de me socorrer. Jamais foi assim. E ela que partiu nos meus vinte anos me levou a última noite de proteção. Quando fechou os olhos, metade do mundo se foi. Te contei isso como um segredo que jamais partilhei com ninguém. Um saber que condenava quem mais amei à minha ira, aos meus destratos. Acho que esperava entendimento, acolhida. Nada disso importa agora. Ando a despertar sem a razão ao meu alcance. Ando a morrer pelas mesmas mãos que me fizeram renascer. E isso sem jamais ter ousado esquecer o que vivi. Mordi os pomos da idade e do sono. São silvestres como a nossa imperfeição, como nossos desejos. São arautos do que ainda está por vir. E virá com a certeza de que nada mais nos servirá, senão fazer bem um ao outro. J.M.N.
A memória do corpo – Excertos
Porque em meu olhar há razões que o coração não freqüenta, meu pedido agora é de descanso. Reconheço. Há nos meus cantos acordos muito antigos com poentes. E frases e sombras de figuras diversas. Ainda mais a presença. A tua. Legislando sem sapiência a condução do destino de meu respirar ofegante. E te encontro. No rebordo daquilo que nem sequer os loucos chamam de sono. Sim eu quero. Aquilo que dizes ainda estar disponível em teus atos. A força imensa do que somos ainda. Eu aqui entornado em vontades. Tu ai, resistindo à entrega. Hão de ser possíveis aqueles instantes todos novamente? J.M.N.
[...]
O que ainda tenho, no concreto desses encontros lancinantes e tão breves, que possa fazer as vezes de barro na construção de uma morada delirante no meio dessa cidade líquida? De pedras mesmo, quase nada. De sonhos e fracassos, um número próximo ao infinito. Não faz parte de meu arsenal sequer a memória dos elementos que compuseram o nascedouro dessa paixão. Talvez um vestido amarelo e a aterradora constatação que ela era a única mulher que ficaria linda dentro dele. Ou uma esquina que se contornou com o único intuito de se perder comigo. Uma madrugada velando uma insônia anunciada ao pé de uma cama coberta de ais. Não houve um beijo ou uma declaração de amor com uma promessa de volto logo e pra sempre. Não prosseguiu nem encerrou. Não pus dentro dela nem um filho nem uma bala. Mas eu tenho esse teclado, que vou espremer até que daqui saia um final, ou um significado. Ao fim e ao cabo, tudo dá no mesmo. As sucessivas fugas dos meus abraços e despedidas forjaram esse vazio íntimo do qual extraio essas linhas, não sem uma renovada dor juvenil. E com qual magia ela resumiu todo meu memorial de paixões impossíveis! Desde a moça de riso longo que me fez concluir o curso da primeira comunhão até a febre adolescente por aquela cujos olhos mudavam de cor ao longo do dia. Fora isso, o que ainda resta são os trocos da história: um livro por devolver, duas músicas pra mostrar, um poema do Quintana, uma rosa minúscula de papel dourado que levo pra todo canto e umas palavras engaioladas como passarinhos selvagens.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Perguntas de Ontem VII
Não, eu não poderia tê-la deixado amarrar os meus cadarços. Isso não. Já não basta essa risada pendendo a cabeça pro lado direito que me deixa sem direção? Já não bastam esses dedos magros que procuram vacilantes as minhas costelas num abraço que me faz querer esvaziar por dentro pra esperar a doce ocupação daquele corpo frágil? Já não basta esse jeito de arquear o lábio inferior quando ela vai falar algo engraçado e que me deixa absolutamente sem respostas? Não, eu não poderia tê-la deixado amarrar os meus cadarços. Não pelo ato em si, mas pelo laço. Enlaçado que estou, seria necessário uma vida e mais um pouco para desatá-lo.
Pergunta de Ontem: De que detalhes é tecido um grande amor?
sábado, 6 de fevereiro de 2010
De Velas e Ventos - Lançamento
Saudade é um vento que sopra pra dentro
Frases invisíveis e ventos tangíveis. Cadernos e cadernos preenchidos com a substância do que se foi. Algumas vezes para nunca mais. Algumas vezes para daqui a pouco. Saudade é instrumento de se desfigurar. De acabar com as idéias de ser e estar. Mas também cobre o frio dos portos distantes, acolhe em meio às partidas. Percorre as águas, do mar do que fizemos e mais aquelas do que ficou por alcançar. E pássaros esperam e pessoas se completam enquanto a saudade se revolta e se inscreve atrás dos sorrisos, grafa impiedosa a face do estar. Seus ventos alísios, prontos como páginas ou canções de naufragar inflam meu peito, provocam enfartos, conspiram secretos os caminhos do olhar. E quando menos me frequento, quando menos dou conta do que sou, mesmo com meus papéis em dias e o espelho ecoando meu corpo, apenas saudade me faz retornar. J.M.N.
Para ler ouvindo...

Enquanto tuas perguntas nascem (ou De quando vemos nossas impossibilidades)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Confirmação
Num banco qualquer
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Ao meu semelhante, uma noite.
Pro Zeca
A precisão do convite residia na simplicidade desconcertante de sua natureza: Vocês querem saber o que é o amor? Talvez as minhas amigas não estivessem prontas pra ver que esse sentimento tão desesperadamente buscado pudesse estar tão perto, à distância de um telefonema que atravessa a madrugada. Eu sabia que estavas acordado e onde estavas. Conheço teus itinerários, tanto quanto conheces os meus. Isso sempre me exasperou, saber que quanto mais eu tentei ser único, mais me parecia contigo. Quanto mais deixava o meu cabelo crescer, mais os meus pensamentos eram os teus. Quanto mais coloridos eram os meus sapatos, mais os meus caminhos eram os teus. Quanto mais usava camisetas, mais o que preenchia o meu peito era o que preenchia o teu. Cheguei no boteco como um náufrago que vê estrelas. Em volta de ti, todo o contexto noturno que transforma qualquer ocasião em uma reprodução de nossa velha e confortável casa: a mulher que te aceitou com todas as tuas consequências, os amigos que recusastes a abandonar, os novos, e mais uma dessas figuras hilárias que parece que tiras de filmes dos irmãos Cohen. Aportei naquela mesa enfeitada de cervejas e histórias, e foi como se eu estivesse chegado naquele nosso quarto pendurado no alto de casa. Seguro e arejado. Leve, como se sustentado pelo ar. Fazias o de costume, contavas, com a cara mais séria, umas histórias absurdas. Esse realismo fantástico, passado de papai pra ti e ti pros outros seis filhos, foi a herança que cada um vive ao seu modo: tu pra aproximar, eu pra escrever, outro pra amar, outro ainda pra ser amado, um pra se encontrar, outro pra se perder. No entanto, nenhum escapou do veneno da ficção imiscuído em nosso sangue pelo vovô Alcides. Era uma noite pra se lembrar dos testamentos de vida. O cinto, que pra gente tinha uma função moral quando estava na cintura e um objetivo pedagógico quando era tirado dela, nunca tivestes que usá-lo pra nos remeter à retidão que sempre pregastes. A tua coleção de biografias com capa dura e letra dourada, da qual escolhi a de Winstom Churchill pra ser o meu primeiro livro, aos nove anos. Nem precisa dizer que não entendi patavinas e que cheguei à conclusão que ser igual a ti iria dar muito trabalho. Os livros. Deixaste-os pra gente depois da tua grande viagem. Lembro que tive um ataque de fúria quando soube que deixarias a nossa casa pra sempre. Te persegui pela casa inteira. Te odiei aquele dia, mimado que eu era por ti e pelos demais. Essas recordações vinham acompanhadas de uma felicidade tão indisfarçável quanto o orgulho que sentes de mim, mesmo que não precises falar isso. Sei-o quando ligas pras tuas filhas pra dizer-lhes de minha presença naquela noite, sei-o quando falas do meu blog pros teus amigos, sei-o quando perguntas de minhas últimas descobertas. Com jazz, foi assim que terminou essa noite gloriosa cujo relato levou às lágrimas o nosso mais novo irmão. Faltou alguma coisa? Faltou a Michele cantar I’ve Got You Under My Skin, de Cole Porter. Seria perfeito mesmo, abaixo de peles tão diferentes, duas criaturas portadoras de semelhanças tão inapeláveis que chegamos a acreditar que não há linearidade no tempo, e que o amor também é feito de retornos.WDC