segunda-feira, 12 de maio de 2008

Desafeto

Finda toda a arte, todo espetáculo. O palco agora é só um espaço sem forma, sem graça, sem riso. Do outro lado de onde me encontro talvez haja vida ou um pouco de esperança, não sei. Sem sorte, sem norte, sem prudência ou anestesias. Morri duas vezes esse ano. Uma quando morreu Clarice. Outra quando eu próprio morri. Neste ato represento um homem havido. De inconstantes, derivado. Um ser indistinto sem teus beijos. Amargo e duro sem tua piedade. Isso não é uma carta, um epíteto, uma epígrafe. É um desabafo. Uma história muito minha, contada pela terceira pessoa que se me habita. Um ente vago. Com idéias geniais a teu respeito. Inclusive fiador de tuas insuficiências, de minhas vaidades. Estas linhas são a nascente de um rio que insistiu em vir ao mundo retilíneo e não deságua no mar. Vai direto a ti. Às tuas formas mais desejadas. Ao teu ventre abissal. Tenho tanto o que falar pelas tuas costas. Teus vacilos. Tuas mentiras. Tua história sem mim. Mais do mesmo no final de tudo. Sempre eu. Muito mais que tudo. Sempre amor demais. Cicatrizes demais. E a vida correndo solta, feito um vício. Quando chegaste na minha pele de relance, criaste uma marca indelével com tua presença. Um sinal de nascença. Ali, naquele dia inacabado, com uma noite sem fim, ficaste para sempre. Nunca antes dei por mim. Nunca havia sido tão profundo, confuso, desesperado. Abriste túneis quilométricos. Varaste veias, nervos óticos, aplasias. Criaste lugares, esconderijos onde não te acho. E vens sempre com brutal tenacidade. Apresentando as armas. O ataque vem de dentro de mim, me torce, horrendo. Sem defesas. Quase instinto. Nunca antes eu tinha sentido medo. Medo conjunto de não ter e de possuir. Um medo arquiinimigo. Adstringente. E nunca, igualmente turbulento eu quis tanto. Fui tanto. Amei tanto que nem cabia. Tens tudo meu. Minha alcunha. Meus apelidos. Minha identidade. Minha loucura. Tens mais coisas de mim do que ti. Pergunto, estúpido, o que farás com tudo isso? E não é da resposta que tenho medo, mas sim do teu silêncio aborrecido. De tua estupenda destreza para o que é sórdido. Ou, quem sabe, desabafar seja isso. Botar para fora e para sempre, uma imensidão de coisas bonitas, covardes, perversas, necessárias e aflitas, esperando que assim, aquilo que se foi não fique no além para todo o sempre. J.M.N

3 comentários:

SARA disse...

Neto! que bonito!
Até chorei...
peço permissão para "copiar" no meu perfil.
É sempre assim:como não tenho talento para escrever, tomo emprestado dos outros. Isso até me dá a sensação de que é possivel um compartilhar..
Abraços!

José Mattos disse...

Sua permissão é permanente Sarinha... Beijo

SARA disse...

Agradeço imensamente...seus textos tem sido muito melancólicos, talvez por isso me identifique.
beijo