quarta-feira, 24 de julho de 2013

O tempo e a saudade nos olhos do disco

“Alguém vai sambar comigo
E o nome eu não digo
Guardo tudo no coração”

Hora da Razão – Batatinha.

Ela me pede um disco de presente. Digo que sim. Dá adeus por cima do ombro, me olha de longe e talvez tenha pensado em como estamos diferentes. Eu devolvo o pensamento – estamos. Ela volta nessas ondas de estremecimento que são mais de improviso que manejo calculado do meu velho personagem.

Ela volta como o tufão vertiginoso que sua presença sempre foi para mim, para minhas identidades passadas, para meus sorrisos de fachada.

Estou ficando velho.

Ela mexeu definitivamente comigo. Deixou sua marca.

Num único encontro depois de muitos anos, arrancou-me um suor, um disco e as lembranças, desengavetou-as sem pedir permissão.

Olho-me longamente no espelho ao chegar em casa. Sim, mudamos nós dois. Eu e minha imagem. Ela e eu. Mudou meu personagem pintado, direto do passado estratosférico a que ela pertence e todas as canções que escutei em seu nome, em nome de outros nomes, noutras serenatas, em tantas operetas e peças de teatro que nunca escrevi.

Mas ainda pergunto como me fez correr atrás de seu pedido? E porque corro tanto?

É um disco. Um disco apenas, o presente pedido. Fico nesses questionamentos. Arrebatado. É um presente que eu quero lhe dar mais que tudo. É um passado que visito muito estrangeiro, mas impecavelmente curioso.

A curiosidade não me matou, não forçou arrependimentos. Ela me cheira a vida.

Custou-me, isso sim, uma pintura como esquecimento, vários dias de uma sublimação que não emplacava. Custou meu anjo da guarda, desgastado e sufocado no guarda-roupa. Umas doses de vinho. Custou-me escutar cada música daquele tempo duas ou três vezes até decidir se fariam parte do pedido.

O disco que ela quer é digital.

Cabe mais tempo de música. Cabe mais memória e posso até escrever sua ficha técnica. Produção: o tempo em que te escondeste em mim... Cabe isso de ridículo e imensidades talvez.

O certo é que porei muito passado nele, mas também um tonel generoso do que sou agora, não exatamente de presente. Se doer, se voltar a pulsar, se couber num gole de vodka ou num malte sem qualquer envelhecimento, não importa. Rodarei na superfície sem sulcos do disco digital que gravarei.

Correndo contra o tempo.

Correndo de encontro ao menino eu era quando ela disse gostar do que eu fazia.

E se fosse hoje?

Se fosse hoje, com tudo o que sei, continuaria fazendo besteira.

Continuaria sendo aquele de quem ela disse gostar das mãos, dos olhos e para quem ofereceu um bicho de pelúcia, contrariando tudo o que sabia sobre o amor até aquele momento.

J.Mattos

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