domingo, 1 de março de 2009

A Próxima Fuga

Esse asfalto angustiado cobrindo a estrada que se nos interpôs está me fazendo esquecer as lições antigas aprendidas com a ajuda do cinto do meu irmão mais velho. A cada dia enfraquece o solfejo do teu nome diante dos bilhetes escritos com a tua letra miúda a me lembrar o horário da nossa próxima fuga. Mais uma vez vais apontar o encardido no meu amor, as fraquezas, as desistências: o rol habitual dos meus tropeços, jogados sem hesitação entre os talheres do café da manhã. Se naquela noite de bebedeira e muita chuva tivesses repetido que querias viver comigo uma vida e mais um pouco, acho que me sentiria mais uma vez feliz, mas a tua presença já começava a se tornar abundante. A tua retidão aumentava os meus pecados; a incondicionalidade do teu amor subtraía uma parcela cara dos meus movimentos. Quando percebi que definitivamente algo houvera desbotado entre nós, desejei dirigir apressado pelas ruas sombrias. Queria o centro velho da cidade, o início das coisas, os antigos campos de batalha e de despedidas marítimas. Queria o vento na cara, decantando esse fastio que herdei quando matastes as minhas fomes mais inconfessáveis. As minhas fomes, esses vazios que me constituem mais que os seus contrários, os teus desígnios deveriam estacar em suas fronteiras. Mas não. Resolvestes vasculhar o meu passado, escanear fotos de minha primeira comunhão; procurar no meu corpo uma cicatriz deixada por um braço quebrado; inquirir minha mãe sobre a natureza do meu parto, se fui desejado, onde fui gerado. E assim, refazendo minha história de trás pra frente, querias que eu fosse teu mesmo antes do momento em que nossas existências se atravessaram. Quando não havia mais o que devassar, nem gavetas, nem escaninhos, nem envelopes ou bolsos, os mistérios se perderam. Deixaram meus papéis de sublimar cheios de vazios, amarelando em cima de uma mesa cansada. Os meus assomos de amante vespertino já não tinham os mesmos efeitos na exatidão dos teus quereres. Os planos de visitar a Irlanda, de comprar mais um cachorro, de morar na praia onde os seus avós viveram até o último dia. Tudo parecia ser desviado de rota com um sorriso sem graça. A gratuidade de certos gestos às vezes acaba por nos fazer acreditar que toda uma história não passou de um punhado de enganos. Eu, tão acostumado com as tuas curvas, agora tinha que me haver com esse voltar-se, cada vez pra mais distante, somando-se em breves acenos. Ficaram essas despedidas mal choradas compondo uns breves arranjos de esquecer. Balançar de lenços brancos. Paz pra ti. Pra mim, deserção de uma guerra onde se perdeu o interesse pelas riquezas presumidas do inimigo.

2 comentários:

sara disse...

Voltaste no blog com muita força e beleza..mais um texto para me deleitar em dias melancólicos.

Dri disse...

Parabéns pelos mais de mil visitantes!