Para ler escutando...
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Esse tempo que é depois
Hoje é
depois de nós. Quem sabe o que vai ser? Uma benesse, uma desgraça. Polainas e memórias
espalhadas pelos porta-retratos. Tudo fora de ordem, porque hoje é depois do
que fomos. E a bagunça oriunda desse simples fato é como uma guerra recém-acabada
no meu coração. Nem presente nem passado. Apenas derrota e sangue em todo
lugar. Estamos dentro da garrafa? Ou sou apenas eu me endereçando errado mais
uma vez? Tiro por mim o que eu queria que sentisses e nessa, vais conseguindo
ser mais tu. Do que eu. O certo é que o dia raia, a morte se achega, as coisas
são como são e eu quero tudo de volta. No rastilho do que acendemos. A náusea,
a fedentina de nossas brigas. O gozo. O Cuspe. O choro. Por tudo e todos com
quem acabamos eu quero a honra de poder dizer mais uma vez o teu poema em voz
alta. E acabar cansado e tonto em meio às rimas. Quero a tralha toda que
juntamos. Especialmente nós dois. Hoje é mais um dia do que não cometemos.
Estamos ilesos? Vai ver que passa. A hora passa. A ferida passa. A passa (uva)
é comida e adoça um pouco minha boca com saudades. Mas isso não. É tudo teu. E
foste minha. Foi tudo nosso. Confusões. E digo isso passando a escritura do que
não tenho. Meu destesouro. Minha arrogância em achar que somaria muito mais
pontos se te tornasse o centro do meu universo. Rodavas sobre um eixo que eu
não compreendia. E não podia compreender, pois minha astronomia desajeitada te
entendia unicamente como estrela. Um corpo celeste, cheio de luz, entrementes
desabitado. Mas acontece que uma imensidão de espécies morava em ti. Fui dos
últimos, o primeiro. Antes de entrar em colapso. Hoje é depois de nós, eu
aviso. Que mesmo deselegante, mesmo tosquiado, depois que me soltarem pelas
infrações acumuladas, eu volto. Para te tocar primeiro os seios em manga, as
mais rosadas coxas, a densidade macia de teu vértice castanho e ralo. Volto
bandido e indigente procurando a cura pro que restou. Depois de nós é o catso! Tudo
ainda me acomete. A perfeição da dança naquela chuva de dois dias. Tua rosa
tatuada. Andar sob o céu de quatro cidades com teus braços me guiando. Anda
tudo muito tramado, diminuto. Quieto feito um quarto sem pessoas ou som. Anda
tudo ardendo como as questões que não respondemos e no meio de tudo, meus anos
se passando e as linhas acumulando na mesma página. Porque não sou desses de
querer de menos e pedir permissão. Vou-me aproximando com essas confissões e
cartas. Fincadas na palidez de um dia sem nós dois. Iníquo, anestesiado. Sem nervos
fervilhantes ou retesados. Inferno mesmo é não sentir mais dor alguma. J.M.N.
Para ler escutando...
Para ler escutando...
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Lugar
Isso tudo me dói imenso.
Primeiro a falta que fazes. Segundo a noite que não acabou mais. Ando escuro.
Vestido em pijamas e indiferença. Outro dia vi um velho juntando cacos na rua.
Podiam ser eu – digo, os cacos. Nunca mais Paulo Cesar Pinheiro soou igual. O
costume é a pedra no caminho. Esses dias têm cara de não vividos. A casa ainda
banca a valente. Ninguém vendeu. Ninguém quis morar. Desabitados nós dois.
Paredes e órgãos abarrotados de ausência. No jornal só notícias violentas. Não
costumávamos assistir aos canais grotescos. Como não fazíamos festa para quem
não tinha ímpeto, um quê de loucura que fosse. Não tínhamos a obrigação de
dizer, simplesmente. Na família vai tudo bem. Meu pai emagreceu. Vi teu pai dia
desses. Fino e austero como sempre. Comprando pães. E me perguntei: como não
toquei na mão desse homem? Como o evitei? Prelúdio do que fomos no fim? Debaixo
dos livros mudados tantas vezes de lugar, a mesma poeira que combatias
vivamente. O indicador de que estou ficando pior é a quantidade. Os romances,
os livros de poesia, as biografias extensas de tantos personagens ilustres e
destrutivos. Um dia escrevo a tua. Passearei na desmesura de sentir mais uma
vez. A onda titânica do que nos acontecia em presença um do outro. O testemunho
de fé sobre em coisas corpóreas. A ira. A saliva. A ferida. A torção na
espinha. Tatuado no meu corpo o solitário que sou. Nas minhas páginas fingidas,
a manhã em que não voltaste. O relógio despertando, maldita cinco da matina.
Não sei mais fazer versos. Não sei mais entender álgebra e astronomia. Tudo me
enfada. Tudo me desgasta. Não fossem meus exames de sangue, radiografias,
punções lombares, não me sabia vivo. Não me sabia. Nem o porquê dessas
palavras. Assim, dessabido. Corro o risco de viver mais para mim. E mesmo
lembrando, não tenho saudades. Penso em nós aprendendo. Ídolos agora só os
enterrados e o velho catador de cacos lá rua. Lúcio Cardoso certamente me
influencia. E, esquecidas, quaisquer possibilidades de comparação também eu
assassino casas. Não preciso de alpendres ou canteiros. Meus olhos estão em
outro lugar. Onde não estás. E por isso mesmo, por esta única razão, posso
falar em ti como um detalhe, usar tua pessoa inominável para escrever algumas
linhas. Como fosse um lugar onde se formam os destinos de alguns ditos. E só.
Esvaziar-me de um dia duro e mecânico. Percebo, enfim, que sou inteiramente
meu. Que sou eu mesmo o meu lugar. J.M.N.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Demasiado
Tenho essa tendência ao desperdício e ando com uma urna de
saudades debaixo do braço. Incineradas as cenas e casos de passados recentes e
remotos. Vou-me instruindo em minha própria história, uma certa autonomia. Saí
de uma depressão quando comecei a bancar minha autocrítica. Não que tenha sido
um paraíso. Reconheci que sou indevido e simples. Indivíduo. Não sei reinar ou
governar quem quer que seja. Não me seriam dados castelos ou riquezas, pois não
sou feito da coisa torta que faz os que muito têm. Mas desperdiço. A demasia é
o traço das conquistas, a semente dos muitos baixos que vivi. E minha falta é
esta. Deixar sobras e sorrisos. Deixar mapas, apelos e a guarnição da refeição devolvida
todos os dias. Tenho mais do que mereço e não por humildade. Mas pela
irrefletida conquista desde sempre. O que quero tenho. Afinal, um homem do meu
tempo, senhorzinho solitário de infância reprimida. Tudo me davam, tudo quanto
mais, queria. Vou deixando marcas. As marcas ficam bem em meus resíduos. Arranhões
aos imprudentes, nacos de minha carne aos mais ousados. E corro em volta da
casa adormecida. Da virtude que nuca quis, daquela que usaram para me enganar. Por
segurança ou pertinácia. Quero estar perto dos meus, mas com muros entre nós
que a proximidade nos causa efeitos demasiado deletérios. Trocamos notas por
sobre o muro, que nem no romance do poema. Mas é só. Meus antepassados são meus
órfãos, abandono às avessas. Deixei de buscar de onde vim e certamente não
quero saber para onde vou. Esse é mais um dos meus excessos. E assim, no
presente, estou sempre no meio de justificativas e benefícios. Algo feito de
marcas e pronto para novidades. Sempre. J.M.N.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Definição
Aparece-me
no sono. Um vulto, uma presença. Enquanto a obrigatoriedade da vida transita e
apenas a respiração é certa, ou quase. Flutua no argento da lua, nas camadas do
tempo. Com algumas doses de insônia e desrazão. Essa fibra que faz meu pai
decorar muitas páginas e se corresponder com a gente declarando seu amor. É uma
coisa, latente. Um fungo, quem sabe, uma erupção de pele. Essa marca tão funda
me fica nos olhos, transbordados de alguma forma quando eu a digo. Estou no
carro dirigindo preocupações quando ela chega e me faz ri. É fêmea, frutífera, uma
lança quando em vez. Alcança o pátio da antiga casa e farfalha indiscernível,
um garimpo de vozes dentro da saudade. Aparece-me na estrada. No meio do rio. Quando
sigo sem destino, fugindo dela e de minhas responsabilidades. Quando sou mais
eu e menos mundo. Mais próximo do eco das galáxias e das desimportâncias dos
sapos, das corujas e sua literatura de ave. Liga-me ao que é mais real. O corte
pelo acidente, a árvore que foi decepada, a história com mais versões que
vencedores. Mete-me em curto com a energia que me trespassa e anima. A poesia
me funde com tudo de uma vez. Povoa, projeta, vitupera e escarra. Põe palavras
em minha boca que é sua função. Fá-las escorrer para o branco da página, que é
seu vício insuperável e me corrige das insuficiências, dos desesperos por que
passo em ser apenas um homem diante de um mundo de homens trocando-se por patacas
ou minerais. Mas, sobretudo, não me deixa no desalento do quarto, surrado com
dor de cabeça pelo que não se pode voltar. A poesia me viola. Fecunda. Abre as
juntas e os alicerces e refaz o imponderável. É do seu impossível que me
alimento. Torna-se qualquer coisa. Qualquer idade. É esse vento que sinto agora
perto do mar. É o beijo desesperado da partida. São meus avós sozinhos no natal
de 92. São as pernas em falsetes de quem se esforça às muletas. É o lítio, a
venlafaxina, os benzodiazepínicos dos quais saltei. Promove litígios. Fez-me
perder a mulher certa. Deu-me outra possível. Posso fatiá-la, tê-la em
redondilhas ou canções. É a língua que me opera e induz. Lida, corpo, demência.
É tudo de exceção no que não tenho. Tudo quanto posso quando a dor é demais.
J.M.N.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Repetido
Finalmente a noite chega e quero dizer tudo de novo. Fazer
tudo de novo. Encontrá-la ao pé da escada de seu edifício, leva-la às compras,
encontrar coisas em comum nas nossas falas. Mas ela não está. Não há sinal de
que esteve. A não ser tudo o que me vem em golfadas de um lugar qualquer da
memória. E é como um velho disco arranhado que na melhor faixa, estanca as
vozes gravadas e repete infinitamente sílabas sem sentido. Pensar nisso me
causa ao mesmo tempo satisfação e incompletude. Escrevo sobre essas coisas. Com
a mesma tristeza das descobertas perto do fim. As pequenas mentiras, a negação
de carinho, seu estojo de maquiagem perdendo itens dia após dia. Era mais do
que a beleza indo embora. Era a ausência acontecendo e se encarregando de me
ensinar a ser só de uma vez por todas. Um espaço vago, sendo preenchido pelo
que não havia mais e meu sistema nervoso cumprindo a saga de criar memórias e
distorções sobre o que fomos. Solidão tornando-se solidão. Até que eu mesmo me
despedisse da saudade e não restasse mais nada. A não ser as palavras que vêm e
formam frases e as frases que juntas contam histórias e o sentido das histórias
que vem, mas se despede antes se cumprir. J.M.N.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Em voz baixa
Enquanto acordo e as coisas ao redor
ainda repousam e a pluma do quase dia flutua, nascem as melhores memórias. Vão
preenchendo os pequenos vazios. Alvorada acontece e o degelo da ansiedade
ocorre. Liquefaz-se a presunção de existir sempre demais, sempre ao extremo. O
que resta do gelo absorvido pela lentidão do despertar é esse fóssil
tristíssimo de forma indefinida, em cujas estrias e sulcos esta certificada a
saudade por tudo o que fomos. Uma espécie de dulcíssima bebida apodera-se dos
lábios. Volto a sentir os gostos, a tatear a pena, a ouvir quem suspira ainda
manso ao meu lado. As coisas tomam forma. E finalmente vejo o dia. É como um
grande espelho limpíssimo que me encima. Sou, do grego arcaico, ídolo. Reflexo
sem circunferência. Sou o que sou de manhã bem cedo. Parto para o dia cheio dos
sons internos. As melodias dos clássicos, as odes de Homero, ancestrais
reinando ensandecidos seus infernos e, claro, a paixão natural pelo que não é
definido, nem puro, nem pouco sofrido. A cadência das notas vai se formando. Ao
fundo o som do que vivo é algo entre indie e Rachmaninov, pouco sentido, muita
paixão. Fica de tudo esse rastro de bonomia e vinho tinto. As pernas morenas que
me procuram para proteção. Fica na carne a véspera do que não foi dito e
trêmula, a posição de nascer acontece entre linhas. De manhã, bem cedo, quando
todos dormem e ninguém se importou com meus erros no trânsito ou meus e-mails e
telefonemas, converso calmamente com minha história, que dança vestida de
vermelho, num alpendre perto do sonho, com as mãos na cintura, envolvente.
Sabendo a antiguidade, palavras e pouca vergonha do que viveu. J.M.N.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Em voz alta
Tirante o amargo na língua, em minhas lembranças, a hora na
qual morremos sabe ao azul dos dias sem nuvens, às costas ibéricas se
aproximando quando fugimos do destino. A liberdade, o gozo, a futilidade
necessária de pequenas compras no mercado e o cetim do leito emprestado ao
descanso. No lugar em que me encontro festejo, entre as curvas novas de amor
tranquilo, a sensação de estar mais livre de mim. Mais que noutros tempos,
ampliado. Há na heresia de certas palavras, na descompostura de certos avanços,
a força espantosa das descobertas. E as novidades em casa antiga cheiram a
varandas recém-decoradas com móveis de vime estalando sob nós. Há vida em tudo
que toco. Na teia de aranha no canto do quarto, na ínfima destreza das
mariposas atiçando o vento e as causalidades pelo mundo. Há nascimentos por
toda parte. Musgos nas paredes da cabana, rios no vidro das janelas e eu atravessando
mais uma vez a sebe, embebido pelas qualidades dos meus amigos, melhores que eu
em tudo, inclusive em me amar e manter. Dá essa vontade de seguir riscando, de
aventar redondilhas e discernir prosa e poesia pelas manhãs cuidando de
delegar-me carinhos e até cuidar do corpo, usar cremes e sentir boas venturas.
Acordo assombrado pelo que tenho dentro. Pelo que voltou e pelo que surgiu.
Após a chuva de tantos anos e a couraça em torno da pena. Enquanto desenho meu
mundo na página sem traços, lembro já ter sido um menino. Agora, enquanto o que
escrevo me significa mais uma vez, tenho no tato desses ditos o entendimento nascido
na infância – tudo o que quero, posso, desde que eu diga em voz alta. J.M.N.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Quarta de cinzas
A gente sambando
passa
Sob a janela de casa
Dá na boca o sal dos anos
Lembranças de festa e milagre
Eu vi no cordão lá de fora
O corpo sangrado da história
Cantada, invertida ou nenhuma
Uma negra lindíssima e nua
Nos ombros de homens mascarados
Nada fazendo a muda-la
Nas redes prendendo-a, destino
Deixando suas marcas na pele
Trazendo de volta os suplícios
A gente que passa sambando
Sob a janela de casa
Me dá a ilusão da esperança
A alegria do povo de África
Sou parte dos homens nadando
Na corrente da história contada
Quero, entretanto, o silêncio
A benção da manhã liquefeita
Quero a nua e negra memória
Do que fomos e esquecemos
A gente que passou sambando
Trazendo minha história nas veias
Peço as bênçãos aos tais mascarados
Perdoem-me, não os sigo há tempos
Eles que do longe da estrada
Deixaram à porta de casa
O samba de tantas saudades
Sob a janela de casa
Dá na boca o sal dos anos
Lembranças de festa e milagre
Eu vi no cordão lá de fora
O corpo sangrado da história
Cantada, invertida ou nenhuma
Uma negra lindíssima e nua
Nos ombros de homens mascarados
Nada fazendo a muda-la
Nas redes prendendo-a, destino
Deixando suas marcas na pele
Trazendo de volta os suplícios
A gente que passa sambando
Sob a janela de casa
Me dá a ilusão da esperança
A alegria do povo de África
Sou parte dos homens nadando
Na corrente da história contada
Quero, entretanto, o silêncio
A história secreta
da farra
Quero as cinzas de
quartaA benção da manhã liquefeita
Quero a nua e negra memória
Do que fomos e esquecemos
A gente que passou sambando
Trazendo minha história nas veias
Peço as bênçãos aos tais mascarados
Perdoem-me, não os sigo há tempos
Eles que do longe da estrada
Deixaram à porta de casa
O samba de tantas saudades
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Mulher parada mirando o mar (da série “nomes de pinturas”)
Quando viu o braço
de mar enchendo fechou os olhos e imaginou que aquela era uma enchente de coisas
boas que chegaria até ela. Mais uma vez.
O vento ajudava com a impressão de estar recebendo algo, vindo de um lugar qualquer e que, ainda por cima, mexia com os mínimos lugares de sua pele branca.
Assim, aquela manhã de setembro se lambia de um mar enchendo, escondendo a areia e as dores dela. Deixando a calma de estar em si, e apenas.
De onde ela estava o olhar alcançava três países. Horizontes que habitavam os sonhos de quem a mirava, muito mais que os dela.
Sentiu o domo da noite inflando sobre si. E na mesma posição recebeu a dádiva da tranquilidade noturna, do som das ondas dormentes.
Seu brilho era menor, mas sua presença estava agora acompanhada de pessoas se amando. Todos ao pé de seu corpo, espreitando a vida emocionante dos beijos.
Aliás, muito de seus dias eram assim. Ventosos, de mares se abrindo e fechando e noites nascendo e morrendo sob a eternidade de sua presença e as bocas aliciantes dos amados.
A estatua da mulher desconhecida, em mármore talhada e perfeita, no topo de uma serra d’água, no continente onde tudo começou é essa mansidão de história e significados que pertence ao tempo todos os dias. J.M.N.
O vento ajudava com a impressão de estar recebendo algo, vindo de um lugar qualquer e que, ainda por cima, mexia com os mínimos lugares de sua pele branca.
Assim, aquela manhã de setembro se lambia de um mar enchendo, escondendo a areia e as dores dela. Deixando a calma de estar em si, e apenas.
De onde ela estava o olhar alcançava três países. Horizontes que habitavam os sonhos de quem a mirava, muito mais que os dela.
Sentiu o domo da noite inflando sobre si. E na mesma posição recebeu a dádiva da tranquilidade noturna, do som das ondas dormentes.
Seu brilho era menor, mas sua presença estava agora acompanhada de pessoas se amando. Todos ao pé de seu corpo, espreitando a vida emocionante dos beijos.
Aliás, muito de seus dias eram assim. Ventosos, de mares se abrindo e fechando e noites nascendo e morrendo sob a eternidade de sua presença e as bocas aliciantes dos amados.
A estatua da mulher desconhecida, em mármore talhada e perfeita, no topo de uma serra d’água, no continente onde tudo começou é essa mansidão de história e significados que pertence ao tempo todos os dias. J.M.N.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Cheiros do tempo I
Nas passagens de ano Virgínia costumava
dançar, desligada de si e dos presentes. Girava pela sala cheia, anterior à
verdade das coisas. Era quase uma entidade. Sua dança cheirava. Jasmins da
noite, rosas e garrafadas. Seus passos dados como pequenos esquemas de conexão
com a Terra. Fincavam no chão suas certezas e dores. Ia-se deixando também. Firme,
rija em seu transe, ela acertava as contas com o destino. E sonhava. Ela benzia
de longe os netos e em especial o primeiro deles, que tinha o nome de seu
marido. Ela o benzia com silêncio e dança e essências sutis. Cheiros que se
fixaram no centro dele, em suas linhas, nas suas dores, certamente. A lembrança
dela, em seus dias de solidão, cheira às festas de fim de ano dentro dele.
Então quando ele sente sua falta, volta pelo cheiro do tempo à benção que ela lhe
dava em silêncio, em meio à multidão de parentes, vizinhos e agregados. Quem
cantava ao fundo era Clara Nunes. É feito
uma reza, um ritual [...] parece, a
maravilha de aquarela que surgiu. A procissão da memória se arrasta e a proteção
acontece só de lembrar. Embebida numa santidade humana e sensorial que cheira
como um relicário de sentidos. A presença de Virgínia dançando lhe dá calma. E
um cheiro de finais felizes, em pratos de fim de ano, em rezas pela dor do mundo e
de todas as pessoas amadas, esperando viver tudo de novo, no ano seguinte. J.M.N.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Para conhecer: Víctor Jara
Víctor Jara era um escritor, professor, poeta e compositor chileno que morreu sob o regime de Pinochet. É dele a letra da belíssima canção Te recuerdo Amanda, libelo da geração de cantantes como Violeta Parra e Mercedes Sosa que a gravou lindamente. Sua produção poética que buscava resistir ao terrível regime ditatorial do Chile alcançou muitas terras distantes. Até o U2, em sua bela One Tree Hill, fala de Jara e sua canção de fogo. Vale à pena conhecer o bardo deste poeta incrível... Com vocês El último poema...
El último poema, de Victor Jara
(Victor Jara, Estadio Chile, Septiembre 1973)
Somos cinco mil
en esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿ Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país ?
Solo aqui
diez mil manos siembran
y hacen andar las fabricas.
¡ Cuánta humanidad
con hambre, frio, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura !
Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.
Un muerto, un golpeado como jamas creí
se podria golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores
uno saltó al vacio,
otro golpeandose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.
¡ Qué espanto causa el rostro del fascismo !
Llevan a cabo sus planes con precisión artera
Sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroismo
¿ Es este el mundo que creaste, dios mio ?
¿Para esto tus siete dias de asombro y trabajo ?
en estas cuatro murallas solo existe un numero
que no progresa,
que lentamente querrá más muerte.
Pero de pronto me golpea la conciencia
y veo esta marea sin latido,
pero con el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
llena de dulzura.
¿ Y Mexico, Cuba y el mundo ?
¡ Que griten esta ignominia !
Somos diez mil manos menos
que no producen.
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del companero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas
Asi golpeará nuestro puño nuevamente
¡Canto que mal me sales
Cuando tengo que cantar espanto!
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tanto y tantos
momentos del infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi,
lo que he sentido y que siento
hara brotar el momento...
en esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿ Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país ?
Solo aqui
diez mil manos siembran
y hacen andar las fabricas.
¡ Cuánta humanidad
con hambre, frio, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura !
Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.
Un muerto, un golpeado como jamas creí
se podria golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores
uno saltó al vacio,
otro golpeandose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.
¡ Qué espanto causa el rostro del fascismo !
Llevan a cabo sus planes con precisión artera
Sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroismo
¿ Es este el mundo que creaste, dios mio ?
¿Para esto tus siete dias de asombro y trabajo ?
en estas cuatro murallas solo existe un numero
que no progresa,
que lentamente querrá más muerte.
Pero de pronto me golpea la conciencia
y veo esta marea sin latido,
pero con el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
llena de dulzura.
¿ Y Mexico, Cuba y el mundo ?
¡ Que griten esta ignominia !
Somos diez mil manos menos
que no producen.
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del companero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas
Asi golpeará nuestro puño nuevamente
¡Canto que mal me sales
Cuando tengo que cantar espanto!
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tanto y tantos
momentos del infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi,
lo que he sentido y que siento
hara brotar el momento...
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Salvação
Na culpa, todas as fomes
Granjeiam frutos e fatalidades
E informam meu corpo
Da iminência da morte
Antecipo o final, em tempo
Escrevo um novo poema
Em suas formas e versos
A poesia me anima, revive
Afasta o sono de para sempre
Mas se abraça com as culpas
E se me salvo é por conta
Do que dói nestas linhas
J.Mattos
Granjeiam frutos e fatalidades
E informam meu corpo
Da iminência da morte
Antecipo o final, em tempo
Escrevo um novo poema
Em suas formas e versos
A poesia me anima, revive
Afasta o sono de para sempre
Mas se abraça com as culpas
E se me salvo é por conta
Do que dói nestas linhas
J.Mattos
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Cartas a ninguém (s/d - tempo qualquer)
Querida,
Escrevo para falar da cidade, quem sabe. Faltam-me as ruas em que andei contigo. Mais que os caminhos, a caminhada. A lua em sua raridade nos amando por sobre. Iluminava. Sinto falta de proteções assim – compartilhamentos – das parcerias noturnas quando éramos infinitos. Escrevo para falar de nós dois, mas sem nos querer ou aniquilar.
Escrevo para falar da cidade, quem sabe. Faltam-me as ruas em que andei contigo. Mais que os caminhos, a caminhada. A lua em sua raridade nos amando por sobre. Iluminava. Sinto falta de proteções assim – compartilhamentos – das parcerias noturnas quando éramos infinitos. Escrevo para falar de nós dois, mas sem nos querer ou aniquilar.
Apenas lembrando enquanto escrevo. Desenhando os passos dados,
tornado distante o desejo e presente a saudade. Transcrevo importâncias mínimas
como tua palma tentando fazer nascer um adeus. Depois de tudo. Depois dos
gritos e da vergonha. Tento contar as tuas risadas no tempo em que
quebra-cabeças e gerânios eram igualmente montados e cultivados como fossem
naturais entre tantas coisas artificiais que nos rondavam.
Fazíamos mapas, lembra?
Coletâneas de música em fitas cassete como mais antigamente que nós, fazíamos as orações ao pé da cama imaginando encontrar pessoas boas para nos dar um abraço, acalentar e fazer dormir bem. Por isso eu escrevo também. Para dizer que eu mesmo abandonei a ideia antes do fim. Não por maldade, preguiça ou coisas assim, mas pela vida evocativa das coisas que escrevo.
Essa pulsação que me compele ao fim do mundo. Ao fim de todas as coisas que busquei. Esse defeito íntimo que me enferruja aos poucos e deixa sem saída. Enquanto escrevo essas linhas sobre nosso passado, passo adiante minha história e ao mesmo tempo em que termino as coisas que acabaram definitivamente, componho amanhãs.
E desejo que tudo ocorra de novo. Sempre buscando.
Algumas vezes acontece de não haver perdão, mas estou pronto para viver com isso. O que não suporto, o que realmente tem tirado meu sono e feito as fotografias serem mais afiadas que de costume é isso: não poder sequer te dar um bom dia! Não posso e acho que jamais poderei passar por ti e oferecer um café, pois talvez seja deselegante ou muito ousado. Ou, talvez, porque as coisas que nos fizeram abandonar as mãos um do outro sejam definitivas. Como um tempo passado e o perdão que sou incapaz de pedir.
Sinceramente,
J.Mattos
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Poemas para Lembrar
Figueira da Foz
O mar lambe as lembranças
É a foz da minha saudadeTenho a imensidão da tua costa
Acenando o que me falta
Coimbra IV
A pedra da vigília se liquefaz
O tempo passa, mas tu nãoEstadia que me transforma
Por muitos anos, senão sempre
Estarás em minhas pálpebras
Jerônimos
Pessoa – estátua e verbo – jaz
Em sua santidade monumental
Vejo o paço, a pia, rezo no altar
O teu sagrado elucida meu silêncio
Já nem sou um homem que chora
Em minha benção, tua palavra
Santa Clara
De cima do monte
Vigias a cidade
Tuas lágrimas negras
Formulam o Mondego
Por ele descem barcos
Memórias e fados
Santificados
Sintra
Pelas mãos de Margarida fui guiado
Pelas colinas rodopiantes da cidadeNo alto, um castelo nos esperava
Vi meu futuro em verde e vermelho
E soube de pronto que para lá voltava
Sem delongas ou medos, entre abraços
À pátria que amei desde aquel’dia
(J.Mattos)
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
A densidade do abraço
Dentro de
mim congelado o ato irrequieto de estada, pertencimento. Quando farsa, a mola
da repulsa se ativa e a coisa agarrada se distancia, dentro da gente acalma tudo
quanto maldade. O abraço antigamente tinha sintomas que perduravam.
O tom quente
e vermelho do enlace, o arco suave do bater de dedos na espinha de quem estava
e a semente plantada pela recolha sensível dentro dos braços. Abraço era
unir-se a si mesmo pelo outro, ato purinho de criação da gente. A comunhão
perfeita de aceitar-se para se dar integralmente.
Oriundo de
um tempo em que o quadrado das águas era sem mapa e na lousa se escrevia a
lição de casa, a casa era a antessala do sossego e este último a única
inspiração, a entidade nascida no molde dos corpos, transitava nua sob a linha
umedecida do afago, da espera, da entrega e das coisas tenras.
De ossos
perfurados, estrutura difusa, arquitetado agora em redes virtuais, o abraço
definha e se beija noutro espaço. Naquele em que eu e você não somos nós nem
somos nossos, despertencidos. Somos de todos e esperamos mais nada. Dentro do
abraço de hoje eu curto o que me enjoa, o que se publica, a mostra satírica da
liberdade sem dose ou terrenos. O que se expõe, mas não se tem. Liberdade erma.
O abraço foi
perdendo os dentes e a loucura boa de dar em qualquer lugar, de ser verde e
fundido, agarrado e demorado, quase infinito. Muitas vezes em vazios imensos,
muitas vezes sem uma palavra que explique. Porque qualquer lugar agora inexiste
e abraço é só uma palavra que ata os membros superiores de pessoas cada vez
mais desconhecidas. J.M.N.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Outras coisas sobre o lugar
Coimbra
II
Entre palavras me inscreve
No sangue, teu nome
Vizinhos de tempo e muda
Patrícios, irmãos pelo mundo
Porto que ainda me chama
Em casa de minha lembrança
Ileso, permanece aceso
Fábula e ente dentro do nome
Canto entre as capas pretas
Tudo em mim é antigamente
Como o passado das tuas paredes
Como o cheiro do meu presente
das mansas, das duras. Andanças.
Daquelas em cuja esperança
dobrou-se o acorde dos sins.
Sou, dentre os mesmos, estranho.
Dentre os mortos o enfim.
Nomeado em alcunha extremada
e como versos, rimando as espécies,
repito um nome entrementes findo
e presente,
pois se os corpos extinguiram-se
quase santos,
o nome perdura semente. J.M.N.
A pena torna-se agulha
Fura a veia, e, vicianteEntre palavras me inscreve
No sangue, teu nome
Cabo
da Roca
A ponta do mundo, a Roca
Donde partiram meus antigosVizinhos de tempo e muda
Patrícios, irmãos pelo mundo
Porto que ainda me chama
Joaquim
Matos
Ganhei-te, herói no totem
Máximo ancestral desconhecidoEm casa de minha lembrança
Ileso, permanece aceso
Fábula e ente dentro do nome
Coimbra
III
Tua noite em prantos, percorro
Ao som das guitarras tristesCanto entre as capas pretas
Tudo em mim é antigamente
Como o passado das tuas paredes
Como o cheiro do meu presente
Josés
(publicado
originalmente em 2009)
Sou dentre eles o quarto.
Herdeiro inaudito das tramas, das mansas, das duras. Andanças.
Daquelas em cuja esperança
dobrou-se o acorde dos sins.
Sou, dentre os mesmos, estranho.
Dentre os mortos o enfim.
Nomeado em alcunha extremada
e como versos, rimando as espécies,
repito um nome entrementes findo
e presente,
pois se os corpos extinguiram-se
quase santos,
o nome perdura semente. J.M.N.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Dez Encontros (VII)
Meu Senhor,
Uma recusa em te concluir nasce e
cresce em mim, como as daninhas vidas que rastejam nos nossos confins. Cheguei
até aqui com as provisões nas últimas. Cheguei maltrapilho, maltratado pela tua
letra. Outro. Agora te miro sem reagir enquanto enfeixas meus medos, meus
escuros de dentro, a dizeres de mim no umbigo das tuas mineirizes.
Arranchado
nas noites de chuvas madrugosas, te adivinhava chegando carregado dos verdes
dos buritizais. Eu que te procurava, sempre. Caçava esse jeito doce de saber
que cada palavra é um ouriço, e que são as castanhas de dentro é que fazem as
sustanças da gente. Bilé eu me encontrava, frouxo da razão, com juízo desatado,
a mente desencostada da lógica – desse jeito eu cria que concederias tudo assim:
de beijadas mãos. Me querias pactário; convertido e fanático àquela igrejinha
que levantastes com a exatidão da tua mão de jagunço atirador: a mão que nunca
forou o coração de um outro jagunço.
É
dificultoso achar as veredas nesse teu sertão. Até os carcarás lá de cima precisam
apertar bem os olhinhos de rapina pra medirem a grandeza desses campos. Cheguei
aí na tua terra dia desses. Vi Otacílias que se recusam à espera, mas de uma
boniteza de roubar todo o ar da gente, e capazes de, só com um olhar lançado,
plantar um Saara dentro da nossa boca. Confesso, meu senhor, que, por vontade
própria minha, tornei-me teu refém. O meu cárcere são as paisagens dessa guerra
alinhavada com bem-quereres e saudades entre jagunços, travessias, resistências
contra as seduções do diabo e a procura do Deus que está em tudo, mesmo onde
não há.
O
meu sangue coalhou nesse desvendar-se nos teus vieses. Foi esse modo de querer
fortemente algo que teima em não se dar que se instalou, em mim, como um sesto.
Agora sei, dolorosamente, que percorrer tuas páginas é viagem sem volta, sem
retrovisores, apenas o vento a alisar os cabelos e engambelar as bússolas. O
sertão são as ruas, os prédios, os rios e os campos com castanheiras
esturricadas a sustentar tempestades. A guerra é o amar e desamar, fiar e
desfiar, abeirar e se jogar quando o medo por fim esbarra nas fustigações do
desejo. Eu me lancei na tua maré, a água veio e fez um carinho no meu espinhaço.
Encrespou todo o meu dentro. wdc
Além do que não disse
Então será assim – de quando em quando. Conhecidos que se
esbarraram nas mesmas ansiedades e amores, sem dizê-los, que fique claro.
Amigos com dias marcados. Nossos aniversários, as compras do mês na quitanda
próxima de casa. Enquanto fazes as tuas contas no trabalho, eu ando pela
nostalgia infinda daquelas conversas. Atrasado, sempre atrasado. Esperando que
o rumo do fim do dia me leve ao teu sorriso. Nada mais. Esse é um dos tantos desejos
inexplicáveis que floresceram. Não é, a bem dizer, uma espera. Não é a lascívia
falando. Mas a confiança de que o destino foi generoso o bastante para juntar nossas
expectativas em silêncio. Beleza em suspensão, como as métricas sinfônicas de
antigamente. Enquanto eu canto, ficas em silêncio. Enquanto encontro os
afazeres diários, tenho sempre na memória o dia em que tiraste minhas dúvidas e
provaste por “a” mais “b” que não somos seres intermináveis. Mesmo perdido,
amargo, cheio de medos e insatisfações, o riso nos pegava certeiro. Encorpado
das muitas coisas que amamos juntos. Eu com minha família, tu com a tua.
Criando filhos para o mundo dos outros. Tentando não ser demais com os meninos.
E ainda assim, ocupando-nos dos erros mais estúpidos, bem afinados com o que
somos – dois mentecaptos taciturnos e esquecidos. Carregados de amores e
desolação. Feitos um para o outro nos tantos bancos de praça que não
frequentamos. Afinal, temos a certeza de que o abraço, a fraternidade e a
quietude de não consumarmos mais do que o olhar é o que deve ser feito. Tuas
formas, o canto da tua boca, aquilo que vi e aquilo que fingi ver serão sempre
mais do que podíamos e mesmo assim, muito menos do que a matéria que me faz
traduzir nos meus diários noturnos o que nunca disse. De vez em quando, ao
sabor das horas, esqueço-me. Nesses momentos dá um prazer danado dizer em voz
baixa o teu nome. O nome feminino do teu batismo, de um poema que conheci
menino. Nome das coisas que não se diz e mesmo assim, as coisas que valem mais
que qualquer valor, que qualquer presunção de entrega. J.M.N.
Para ler escutando...
Para ler escutando...
Misread - Kings of Convenience
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Quatro coisas sobre o lugar
Coimbra
À noite teu canto ainda evoca
Dentro em mim permanecida
Rio de curvas quase nulas
Minha casa em Vera Cruz
Escorre dos lábios permanente
A imagem do amor que não veio
Ainda não vim, não deixei Pessoa
Nem dos Jerônimos me despedi
(J.Mattos)
Ilha de coisas a me
perder
Mirantes, Mondego,
milhasÀ noite teu canto ainda evoca
Dentro em mim permanecida
Mondego
Nas tuas costas
pisei
De pés além e corpo
úmidoRio de curvas quase nulas
Minha casa em Vera Cruz
Chamusca
Viva as amoras em
flor
O gosto sumo em sua presençaEscorre dos lábios permanente
A imagem do amor que não veio
Lisboa
Vasta e curva sob
meu sonho
Que se arrasta e
reedita as coresAinda não vim, não deixei Pessoa
Nem dos Jerônimos me despedi
(J.Mattos)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Cegos na plateia
Deram-me o papel principal
Como nos cem atos
Dessa tragédia me deram
As falas, as roupas, os costumes
Tudo me deram para representar
Estou no centro da cena
Um homem entediado e solene
Esperando que morte ou mistério
Me levem para dentro das pedras
Serei um ator mineral
Sem fala, roupas ou credos
Existindo apenas porque o tempo
Concentrou suas contas em mim
Não haverá debulha de medos
Já não conto com a claque gritando
Sou esse imóvel deserto
No centro do palco dançando
Quem verá minhas pernas dormentes?
Quem será a plateia que espera?
Do que já soube um dia,
Dos horários e matinês concorridas
Nada sobrou, nada se diz
E mesmo sozinho, interpretando
A mesma peça, anos a fio
Não deixo a cena nem a fala
Pois, há os cegos me aplaudindo
Que compraram todas as entradas
O homem que interpreto
Não precisa mais ser visto
(J.Mattos)
Como nos cem atos
Dessa tragédia me deram
As falas, as roupas, os costumes
Tudo me deram para representar
Estou no centro da cena
Um homem entediado e solene
Esperando que morte ou mistério
Me levem para dentro das pedras
Serei um ator mineral
Sem fala, roupas ou credos
Existindo apenas porque o tempo
Concentrou suas contas em mim
Não haverá debulha de medos
Já não conto com a claque gritando
Sou esse imóvel deserto
No centro do palco dançando
Quem verá minhas pernas dormentes?
Quem será a plateia que espera?
Do que já soube um dia,
Dos horários e matinês concorridas
Nada sobrou, nada se diz
E mesmo sozinho, interpretando
A mesma peça, anos a fio
Não deixo a cena nem a fala
Pois, há os cegos me aplaudindo
Que compraram todas as entradas
O homem que interpreto
Não precisa mais ser visto
(J.Mattos)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Lume
O silêncio enciumado
grita
Minhas horas esquivas
Esteja como pulso ou onda
Em todos os cantos de mim
(J.Mattos)
Diante do branco
anúncio
Tua presença encima
escuridões
Atraí os prismas
Refaz a última rima
triste
Transforma cor em
detalhe
Labareda de uma
explosão
A própria descoberta
do dia
Dá-me o lume que deslinda
Minha natureza pequenaMinhas horas esquivas
Esteja como pulso ou onda
Em todos os cantos de mim
(J.Mattos)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
LIVRO: Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia

Acabo de ler o livro do
jornalista Leonencio Nossa, “Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia”,
editado por Companhia das Letras em 2012. Devo dizer: um livro necessário, bem
escrito e com detalhes interessantes sobre os ciclos econômicos do estado,
sobretudo, a partir da intervenção militar que culminaria com o extermínio dos
guerrilheiros do Araguaia, entre 1972 e 1975. Entretanto, em minha opinião, ainda
não é “O” livro sobre o terrível personagem que reinou no sul e sudeste do Pará
desde a época da ditadura até recentemente.
Mesmo com imensas qualidades como
descrições detalhadas das incríveis, e por vezes surreais, relações entre
personagens históricos de todo Brasil e muitas das pessoas que fizeram a
história recente do Pará, em especial na região de Curionópolis, El Dourado dos
Carajás, Marabá e Parauapebas, senti falta de demonstração e esclarecimento
mais firmes sobre os feitos de Sebastião Moura, o terrível Major Curió,
enquanto comandante das tropas que dizimaram guerrilheiros, torturaram
moradores, obrigaram pessoas a trabalhar como delatores e guias do exército,
além de ter comandado com a mesma intransigência espartana da caserna, o garimpo
de Serra Pelada, a criação de Curionópolis (uma das muitas excrescências do
Brasil contemporâneo) e os levantes que culminaram na criação do Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra.
O trabalho de Leonencio, que
visitou diversas vezes o Pará, seguiu pelos rincões do Brasil muitas pistas
sobre a vida de Curió e ainda usa e cita referências de peso da historiografia paraense
como o livro Motins Políticos ou História dos Principais Acontecimentos
Políticos na Província do Pará,
de Domingos Raiol, sem dúvida tem o mérito de escrutinar eventos de pouco
conhecimento dos paraenses, como a vida dos “formigas” em Serra Pelada, seu
sistema social e econômico, o trabalho escravo promovido por famílias tidas
como baluartes de nossa sociedade e que enriqueceram às custas da pobreza de
muitos imigrantes e colonos na exploração da castanha. No livro, essas figuras tornam-se,
muitas vezes, personagens secundários, mas servem de alerta para o fato de não
conhecermos nossa história e colocam em perspectiva a história de
enriquecimento da elite paraense, cujas origens históricas nada têm de nobre ou
lícito.
Mata! deve ser lido
e estudado e deve servir de base para outros trabalhos, quem sabe da próxima
vez, realizados por paraenses, pois isso também salta aos olhos... Assim como o
livro de Taís Moraes e Eumano Silva – Operação Araguaia, trata-se de obra de um
estrangeiro. Precisamos dedicar mais tempo à nossa própria história, senão, as
visões sobre o que é o Pará e a Amazônia serão sempre crônicas de quem passa e
não documentos e historiografia local. Faz-se necessário, por tal, relembrar
que as pessoas que podem contar e certificar os acontecimentos da Guerrilha do
Araguaia e das diversas insurgências que se seguiram na região do Bico do Papagaio
e outros lugares do Norte podem não estar entre nós dentro em breve e,
portanto, é urgente adensar os registros e pesquisas sobre o tema.
Por fim, mesmo sendo um bom trabalho,
o livro de Nossa registra que há muitos arquivos pessoais de Curió ainda não
conhecidos e que, como parte do mito, o próprio Curió se reserva o direito de
manter informações vitais que esclareceriam inclusive os casos averiguados pela
Comissão Nacional da Verdade, tratando-se, pois, de material essencial ao
trabalho de recuperação histórica e reparação às famílias dos desaparecidos não
havendo mais tempo ou desculpas para serem acessados e analisados com a
profundidade que merecem. J.M.N.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Enfeite
Antes que venha o sonho mais uma vez confundir minha vigília.
Antes que a carta de amor que escrevo nasça ridícula, antes mesmo de o sabor do
beijo se formar como a poeira do esquecimento sobre meus livros, eu te chamo
para viver num retrato. No centro de uma parede branca em minha casa. Rodeada
de um nada concreto, um mero apoio ao telhado, muralha de sentimentos,
continente em limite. Tua foto, imagem única na sala de estar. Convido-te a
servir de enfeite, de ponto de referência para os imprecisos que eu vier a usar,
duto por onde passarão minhas linhas escapando da realidade e fora mesmo de
lugar. Antes que tu, como tema, torne a vencer minhas conquistas e se espalhar
nas chagas de tanta vida, quero que chegues ao espaço que nunca ocupei em teus
dias, mirante suspenso em meio às coisas comuns de uma casa simples, cuja maior
aspiração era servir de espaço, lugar que nos contivesse – fosse aqui ou noutro
lugar. Olho teus olhos capturados no clique e vejo quase tudo o que me falta –
tua presença, teu sorriso se espalhando em teu rosto, aquela blusa que
compramos numa viagem e, claro, teu silêncio de fotografia. Como se tudo do que
fosses capaz enquanto andávamos fosse a estática dura, as cores baças de uma
foto já sem história, artefato de medir o tempo irreal do que senti e fui.
Pendurada num único parafuso, como ancorada na parede branca sem nada mais que
suportar. J.M.N.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Dez Encontros (VI)
Pros amigos
que fiz em Recife, em especial
pra Fernanda, minha amiga invisível e distante
Saúdo aqueles que tornaram essa cidade navegável.
Domesticado o mar pediu licença à terra e se acomodou à paisagem. Éramos vinte
e tantos solitários, trajados com o peso da falta que as raízes fazem. Pisamos
aquelas pedras seculares a buscar um no outro um improvável cais. Encontramos
vazios, horizontes e ruas com amarelinhas quase apagadas. Muitos redescobriram
o galope do coração a bombear sangue para as veias mais antigas. Eu revi o
verde obsceno do mar e quis morar naquela árvore rosácea e alta. Ou me tornar
alguma janela de Olinda. Aquele outubro tinha dons de eternidade. Nosso
itinerário era pro rumo do que nos enrodilha e salva. Mal sabíamos que essas
coisas minerais e essenciais não se dão à flor dos percursos. E novembro se
avizinhou. Forçamos um sorriso e olhamos pros próprios sapatos a odiar
secretamente o tempo. Enganchados. A hora dos acenos não precisava ser tão
dolorida. Mas foi. Muito. A cidade fazedora de laços intrincados mostrou-se
tecelã de incômodos vazios. Virou ímã, virou bússola. Norte dos afetos e
passos. Foi pra isso que essa cidade nos engoliu. E pronto. wdc
Recife, 2014.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Te perdoo
Te perdoo pelos ares que sopras,
expiando possibilidades
Toda nossa condenação
Te perdoo pelo aço, pela lâmina atirada
desde as tuas tardias palavras
Certeiras, fincadas, no alvo do meu
perdão
Te perdoo, coração, pelas tantas
cicatrizes
E as mais costuras de redenção
Te perdoo como nunca mais quis
Como as setas de Cupido, como o sangue
embebido na despedida de agora
Te perdoo como quem mora
Em todo teu amor,
esquecido
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