terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Além do que não disse

Então será assim – de quando em quando. Conhecidos que se esbarraram nas mesmas ansiedades e amores, sem dizê-los, que fique claro. Amigos com dias marcados. Nossos aniversários, as compras do mês na quitanda próxima de casa. Enquanto fazes as tuas contas no trabalho, eu ando pela nostalgia infinda daquelas conversas. Atrasado, sempre atrasado. Esperando que o rumo do fim do dia me leve ao teu sorriso. Nada mais. Esse é um dos tantos desejos inexplicáveis que floresceram. Não é, a bem dizer, uma espera. Não é a lascívia falando. Mas a confiança de que o destino foi generoso o bastante para juntar nossas expectativas em silêncio. Beleza em suspensão, como as métricas sinfônicas de antigamente. Enquanto eu canto, ficas em silêncio. Enquanto encontro os afazeres diários, tenho sempre na memória o dia em que tiraste minhas dúvidas e provaste por “a” mais “b” que não somos seres intermináveis. Mesmo perdido, amargo, cheio de medos e insatisfações, o riso nos pegava certeiro. Encorpado das muitas coisas que amamos juntos. Eu com minha família, tu com a tua. Criando filhos para o mundo dos outros. Tentando não ser demais com os meninos. E ainda assim, ocupando-nos dos erros mais estúpidos, bem afinados com o que somos – dois mentecaptos taciturnos e esquecidos. Carregados de amores e desolação. Feitos um para o outro nos tantos bancos de praça que não frequentamos. Afinal, temos a certeza de que o abraço, a fraternidade e a quietude de não consumarmos mais do que o olhar é o que deve ser feito. Tuas formas, o canto da tua boca, aquilo que vi e aquilo que fingi ver serão sempre mais do que podíamos e mesmo assim, muito menos do que a matéria que me faz traduzir nos meus diários noturnos o que nunca disse. De vez em quando, ao sabor das horas, esqueço-me. Nesses momentos dá um prazer danado dizer em voz baixa o teu nome. O nome feminino do teu batismo, de um poema que conheci menino. Nome das coisas que não se diz e mesmo assim, as coisas que valem mais que qualquer valor, que qualquer presunção de entrega. J.M.N.

Para ler escutando...

Misread - Kings of Convenience

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