terça-feira, 17 de julho de 2012

Porque já houve um amanhã

Hoje penso no amanhã como uma janela sempre aberta. Nada de morrer novo e com muitas histórias mal contadas sobre mim. Amores por ai pensando no que fazer com minha loucura. O que fiz, fiz nesta existência, sob a ocupação noturna das estrelas. Em nome de romances que nem sequer escrevi, porém, contei a tantos. Vivi mais humano que muitos, subitamente entregue à manhã das manhãs. Acordei como água nascente. A lamber a terra de todos os caminhos. Algumas vezes fiz desgraças. O peso dessas lições ainda está. Por vezes eu fiz pessoas amadas sofrerem, mas não sem antes sofrer imenso. Há mais uma nota a ser escrita. Mais uma data a comemorar. O dia exato em que nasceram a latitude e a longitude do que fui e sinto nesta altura da vida. Este dia que vai morrendo. E porque o tempo já vai seguro em novo barco, posso dizer. Posso açoitar lembranças com as nossas lembranças. Posso fisgar os peixinhos cardumes de quando eu fazia a felicidade deste dia. Data de abrir-se. Entre abraços e cópulas com as palavras vou me saciando a existir, sem medo, nas lembranças deste dia. E se repito isso por mais um ano é por não haver razão em desfazer as relíquias. Ainda não há sentido fazer-lhes de testamento. Haverá o dia certo para esse pago. Enquanto isso, repito brados e a vocação de extinguir-me entre os braços amados, oferecer a distância segura e o morno da carne num beijo comprometido. Apenas para celebrar quem renasce em mim, independente dos calendários, de convites ou das palavras. J.M.N.

Para ler escutando…

terça-feira, 10 de julho de 2012

Império

Eles me disseram vem. Vem a nós com as próprias pernas, teus estranhamentos. Vem encarregado dessa coisa utilíssima que é a tua graça. Resina a unir nossas pontas soltas. Carrega outros quantos quiseres.

Eles estavam às portas do meu futuro, por onde entrei e finalmente encontrei a cama feita, meu suspensório da infância, minhas fotos dentro do circo, com muitos palhaços e seus malabares. Nenhuma das minhas roupas seria descartada ou se tornaria pano de chão.

Encontrei no calor de sua recepção a distante paz dos afastados, dos que se pedem por toda a vida, mas não chegam nunca a si mesmos. Eles. Feitos de cedro, cheirando a milênios e fazendo as mesmas imensas coisas de cuidar que faziam no vale das almas, antes do tempo. Amplidão sem tato que é o olhar daquela gente. Um universo inteiro em seu sorriso.

A gente de um presente mais que humano, a vencer o medo de se apegar fácil. Emprestam suas redes. Cedem seus quartos e penhoram a tranquilidade do sono para que eu esteja. Essas pessoas monumentos que não fazem abrigo, pois são abrigo. Sob quem eu felizmente esqueço a minha dor.

Aquela gente de um templo antigo, cuja reza, além da cura, traz a harmonia desejada desde o ventre. Gente que empresta seu Cristo não por caridade, mas por respeito. Gente sem a qual, certamente não haveria sentido em proclamar esperanças, afundar-se num abraço ou seguir adiante. J.M.N.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Palavras de Outrem

Esse cara de quem abaixo ponho uma poesia, foi a primeira pessoa que distribuiu um conto meu. Foi, na verdade, a primeira pessoa que abriu as portas da sua casa para eu ler minha pobre literatura e me ajudou a conseguir a façanha de pessoas gostarem de uma ou duas linhas.
Confesso uma alegria extra em poder chamá-lo de amigo. De Gustavo Autran Rodrigues... no Palavras de Ontem.

contrabajissimo

ando
ando e sei que sina
é esquina e susto

ando
e dobro apostas
como se tudo fosse caminho
como se nada medisse vida
como se os sinais nunca falhassem
como se o tango seguisse além dos quatro quarteirões

pra ver
que te ver me impele à vida
me impele à morte
algo de tragédia

rápida
ríspida
risível

quase leve
quase desejada

e que se volta
contra mim
num doente
contrabajissimo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Personagens Indistintas IV

Sim, elas me doem como a última expressão da liberdade que será perdida daqui a uns dias. Elas corroboram a minha condição sem mais nem menos, sendo apenas aquilo que eu não sou. Suas perguntas, minhas ofensas. Minha senha para a traição. A mentira de querer voltar para reparar tudo, pela última vez. Tudo isso me dói como se fosse uma mulher encravada no canto mais inflamado de minhas unhas. Queria me livrar delas, mas parece que estão nos meus átrios e ventrículos. Queria expeli-las tosse afora, mas estão oclusas em meus bronquíolos, em minhas vênulas. Mais secretas e artistas do que eu poderei ser um dia. Estas linhas delas. Minha rudez e preconceito se esvaindo pelo amor gutural que me preenche quando elas chegam. Aquela impressão de instantâneo que tem o filme recém-apresentado à luz. Tudo o que é delas me retrata, tudo o que eu sou já foi nelas também. E mesmo assim, secretamente fico incrível ao topar com uma novidade que explode num novo beijo. De dentro de um nome descoberto, de um adeus dado com mais entusiasmo. Essas mistura indivisível que nos torna elementos combinados da mesma substância. Procurá-las, vê-las, magoá-las e depois sofrer mais que antes é simplesmente ser homem. Função demais para alguns. J.M.N.

Lealdade

Eu não existo
Compulso
Réquiem do desejo

Eu não me entrego
Evoluo
À solidão acedo

Sou mínima aqui
Sozinha e láctea
Áurea

Mas não pura
Puta de mim
Primeira e última

Eu não canso
Possuo
Inimiga íntima

Morro
Na mesma boca
Que me promulga

J.M.N.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Isso é de quando eu morri

Eu inventava mundos. Era divino
Mamãe me passava pimenta para não roer os dedos
Eu chupava o ardor dos dedos que não roía
Eu matava a minha mãe, já muito pequeno
Não de ira, matava de horror. Ela não me sabia
Nem Ela nem ninguém me sabe. Isso é de vida
Minha dívida para com a sorte
Ninguém saber de você é não existir – diziam
Mas como eu vivo?
Isso não faz calo na minha pensa
Não diz mais que a certeza de que é cada um por si
Isso não é de quando eu virei amendoim de tanto que doía
Isso eu não aprendi no catecismo
Minha divindade padecera
Eu já não criava mundos, eu trabalhava
Eu era fiel. Trazia alimento a um amor de prateleira
Isso não era de estanho. Não durou o que eu durei
Isso é de quando eu morri

J.M.N.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Personagens Indistintas III

Mulheres de fogo e avencas. Mulheres lindíssimas de ornadas almas e tenebrosas mentiras. Mulheres que vivem para o sonho de outrem, que concorrem com elas mesmas pela posse de nada. Eu as quero. Eu as comeria impiedosamente fossem bater à minha porta. Sem demanda preestabelecida eu daria minha pele para segurar-lhes o orgulho no cimo de seus mistérios e a orfandade da beleza que os outros oferecem e tiram ao bel prazer. Eu calibraria todos os espelhos do mundo para evitar que sofressem com o tempo. Àquelas que estivessem de bem com os gracejos da derme, do desalinhar dos traços divinos, eu agradeceria a oportunidade de vê-las segurando suas maquiagens. Preparando-se para sair. Ir à missa, mais recatadas ou à noite, mais perigosas que nunca. Sim, eu esperaria as eternidades sonhadas pela volta do primeiro olhar e seria aquele caderno da canção para receber os traços, os dramas e suportar todas as faltas e também todos os excessos.

Aos amores involuntários

Eles me acontecem. Quando vejo sou esses amores sem piedade nem controle. Fui instruída a não voltar não abdicar de minha dignidade, mas amar com voracidade é um fator de risco que poucos tomam para si. Amar acordada e reles, quase uma sem nome. Se fosse Zé Régio e tivesse parte naquele seu cântico negro, diria que minha vida é um átomo animado. De tão potente que eu amo, decifro tão pouco dos outros, mas tenho a totalidade do que eu sou na palma da mão. Ao me acontecerem os amores sou completa. Sou toda. Permanente e mais dura que as rochas lambidas pelo mar. Cheiram tão bem esses amores urgentes e platônicos que eu não controlo. Que quando me escapam sou melhor do que eu costumo ser e a vida ganha matizes mais vivos e sagazes, estou pronta para as novas latitudes. Mandada para fora de mim. Ser do outro completamente é ser poderosa em tudo quanto não sou na solidão pretendida e difícil. Não sei para onde vou. Não sei se te direi quem sou. Não sei, sequer, abrir mão do anonimato que te invade e ocupa. Mas sei que não vou por ai. Ser involuntária no amor, não quer dizer estar perdida. Sei exatamente onde anda minha alma e minha harmonia. Dá-me um beijo e saberás o que eu digo. J.M.N.

Música de amores involuntários acontecidos…

sábado, 23 de junho de 2012

Personagens Indistintas II

Fedem nas manhãs em que acordo violado de bebida, as narinas cheias de acordeons e suficiência. Uma a uma me pedem abrigo. Eu dou tudo o que posso. O que devia guardar, inclusive. Estão lá, como montanhas ardilosas que me fizeram obstáculos no passar do tempo. Insuportáveis que me têm mais do que a mim mesmo. Sou delas, enfim. Ensinando e aprendendo. Lambendo os dedos pelos prazeres ofertados, pelos roubados, pelos inalcançáveis. O que querem de mim? Meu traseiro? Minha história? Querem ter esperança novamente? Eu pergunto isso com tamanha piedade e sou tachado de arenque, pervertido, um borra-botas que não teve coragem nunca de ficar. Às favas é o que eu digo. Estou com todas elas em meus cemitérios, na beirada de meus abismos. Estou colado a suas fotografias desde que os primeiros beijos surgiram e eu pude soprar-lhes um punhado das coisas doces que aprendi e faziam meu mundo melhor.

Personagens Indistintas I

Alumbram minhas noites as desgraçadas da ponte. Aquelas mulheres dependuradas. De umas vidas imundas à beira do mundo. Meu mundo as colhe e rapta para dentro do tesouro da letra. Viram Margaridas, Tulipas, Mirabilias, Vitórias. Mas a coisa feia de as ter comprado tão barato se insinua perpetuamente. Esfregam em meu rosto as minhas escolhas. As feias com as abandonarei se de seu amor sem rosto eu me venci e acordei para o mundo. Como negar as empregadas suspensas nas porções mais nostálgicas de minha adolescência. Todos escondiam ou preservavam-se para a pessoa certa. Sempre achei que a pessoa certa não viria. Como não veio sempre e como continuará sem vir. Pois certo mesmo é que aquelas mulheres me culminam. Admiro-as todas em seus corpos bem feitos, mal feitos, corpos esquálidos, corpos de sirenas, alados corpos de aves fugitivas.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Tomara

Sim, por causa da música do Vinícius
Porque a vida só acontece uma vez
E porque se não fosse isso, eu não estaria aqui.

Tomara que incerteza venha cada vez mais potente e que as palavras me vençam todo dia. Que sempre possa procura-las no correio pela manhã, nas páginas do jornal, nos lábios de quem eu amo.

Tomara que a ineficácia da clausura não se estenda e eu vença essas paredes frias com a mesma violência com a qual te possuo. Pois ver ceder um corpo ante a bravura de um amor indômito é o que me faz continuar. Quero o pó das paredes vencidas.

Tomara que a pouca idade na qual te encontras, dê a chance de enxergar que não deixei de lado tua companhia, apenas quis me encontrar para ter meios de te dizer quem sou. E saibas de uma vez por todas que o Pai é um Deus terreno e que o Homem, este sim, divindade.

Tomara que as ideias e as pessoas que me cercam sobrevivam para contar que eu não fui o único. Que não estava só quando chegaram os mais de mil ávidos e errantes. Quando chegaram aqueles que não tinham outra coisa que dar ao mundo, senão suas palavras de amor e as cores de seus quadros.

Tomara meu amor, que a distância de agora não seja eterna e que ainda possa te cantar aqueles versos que tanto gostavas antes de chegar o fim desse tempo em que pisamos a mesma terra, banhamos no mesmo rio e ouvimos o pôr-do-sol cantar, apenas porque acreditamos nisso.

J.M.N.

Trilha sonora obrigatória…

Cartas a ninguém (11.06.2012 – 03:32 a.m.)

Caro amigo,

Tudo dará certo. Não há com o que se preocupar. Ainda temos esses incríveis anos de juventude pela frente. Somos os legítimos herdeiros de Cronos, não os que lhe calaram a boca, nossos irmãos onipresentes, mas os que se salvaram da divindade a peso de letras, rosas e um bocado de dor.

Não peça nada a ninguém. Esses pedidos são indelicados, de todo. Ademais, ninguém está pronto para dar além do que pode como queres. Ou como queremos nós. Preciosos filhos de um poder ser par que arranha a vida com sua língua férrea e malina de poesia. Ora vinga, ora executa. Diante do medo, a maioria simplesmente fecha os olhos e come as unhas.

O que queremos é demais, tens de entender. Não pelo preço em si, pelo valor. É demais porque temos de pedir. Nunca esqueça que o que se ganha de presente pode ser tudo o que o outro tem para nos ofertar. E se a tudo temos, podemos estar com os monóculos da impiedade. Olhos vidrados na inconclusão do outro. Uma má ideia, afinal.

Dá de si, meu caro. Não pede. Dá até que a manhã seja o mesmo tempo do teu sono. A frente da nau imperial da solicitude te entrega, mostra tuas habilidades. Não pede perdão antes do tempo. Perdão indevido é a morte anunciada de qualquer amor. Perdoa-te a ti, primeiramente. Pelo quê? Ah meu caro, sempre temos o que perdoar em nós mesmos.

Não antes do fim do ano nos veremos. Sei que reconhecerás a semelhança do que te digo nestas linhas com o que te contei do meu último sonho de amor. Faço assim agora. Entrego. Minha entrega. Meu amor cuidadoso e o lascivo. Entrego a pele e o escoadouro da alma, meu olhar pasmado sempre pelo que sinto de novidade, na novidade da presença dela. Entrego os pontos. Vou a festas terríveis e até o que não sinto, entrego também, pois sei que ali fecunda.

O resto é o resto. Literatura. Livros estocados. Uma casa que não cheira a nada senão à presença dela e a onipresença dos amigos. Mais que isso não suporto. Mais que dar, ter de pedir, é um ofício do qual desisti sem remorsos.

Sinceramente,

J.Mattos

domingo, 10 de junho de 2012

Bö Dohida

 

Amo em ti essa festa que fazes ao acordar, como se o sono fosse uma jornada para a fora da vida, e vivesses a celebrar o teu retorno incontáveis vezes ao dia. Eu faço morada em frente à nudez do teu sorriso, pois diante dele não há tempo, só memória. Essa tua risada me devolve o dia em que meu irmão me levou pra conhecer o centro; me transporta à quietude de um lago em Minas; me embala nos colos de mil avós.

Amo essas imanências lácteas que se desprendem das tuas dobras quando te pões em movimentos descoordenados à busca do teu alimento. Amo te ver interrompendo o banquete pra usares a linguagem primeva dos homens. Balbuciando vais dando notícias do teu mundo e sentido pra vida dos que esperam pacientes os teus dentes nasceram, teus cabelos crescerem, os teus ossos se fortalecerem e a tua cabeça se fechar.

Amo ter certeza que eu não tenho dons de Abraão. Que não ouço vozes divinas e que não cederia aos caprichos de qualquer deus que me exigisse ficar longe de ti. O meu lugar é aqui, na órbita da tua respiração. Guardião dos teus panos e dos teus segredos. Balançador de redes. Palhaço e malabarista de um só expectador. O meu lugar aqui, e te amar me faz ter raízes onde pousares os teus pezinhos. WDC

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Saudades intrusas

Chegaram sem aviso, nem à porta bateram. Teriam entrado pela janela? Ah essa minha janela sempre aberta.
Vieram insuspeitas, trazendo de borla todas as vozes caladas das bagagens que deixei por ai. Minhas cidades invisíveis e desertas é o que me diziam as vozes silenciosas enfurnadas nas sacolas e mochilas.
Cheiravam à alfazema de uma avó muitíssimo amada. Ora os odores eram a pura madrugada ou fruta mordida ao meio, deixada no campo depois do revés da sorte.
De repente moravam todas dentro de mim, mais uma vez. As fotos regressaram lagrimosas e empoeiradas. E do fundo das gavetas soltaram mais intimidade do que eu estava pronto para sentir. Noite sozinha.
Primeiro foram as mais antigas. Tão ancestrais que os nomes não haviam sido escolhidos, porque as palavras não tinham sido inventadas. Temi a tristeza das coisas e das pessoas sem nomes e utilidades. Só eu sabia o que eram para mim. E esse egoísmo de gente me deu uma dor por nunca sumir inteiro. Fica voltando.
Nessa visita inesperada, todo mundo que zunia fininho e tinha de lidar, vis-à-vis com a verdade de meu choro, de meu luto ainda por muitas delas – deixaram a sedução. E tive medo pelo animal indefeso no qual me converti para receber as saudades intrusas de uma vida inteira e de mais as outras vidas inteiras de quem as dividiu comigo.
Tomaram meu vinho, comeram minha comida e até sentaram à mesa para olhar bem no fundo dos meus olhos e requerer explicações.
Por que não vêm mais frequentemente? Por que foram deixadas? Por que havia tanto silêncio?
Eu não sabia responder. Cozinhei-lhes o tempo até o cansaço da manhã chegar. E enquanto rasgava as frestas, o sol matinal, foram embora. Desatendidas as saudades intrusas. Morrerei entre os indiferentes? E se não suportar tal destino, posso pedir perdão? Foi tudo o que pude pensar depois que se foram juntas encontrar outra janela aberta às perguntas que não calam jamais. J.M.N.

De manhã

para Iva

Sua carne se anuncia. Existo levíssima
Manhã bem cedo. Ela me invalida
Sou água. Todo escorrido. E ela me lambe
Líquido. Açúcares. Vaidade. Ela aparecida
Bem na porta do dia. Madrugada vencida
À flor da pele – alegria. Eu peço mais peso
Quase escapo de mim. Ela me beija.
Azul, seu gosto. Do mar ao firmamento.
Tão leve. Seu corpo me golpeia de canto.
Por toda parte sou seu. Tão leve.
Líquido suspenso por sua pele que pergunta.
Sobre nós a única benção possível.
Selados. Conjuntos. Desavisados.
Tão leves como alguém que acaba de nascer.
Para o bem e para o mal. O amor não escolhe.
Como acontece é próprio de seus segredos.

J.M.N.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Onde estão os portos IV

 

no 18 de maio, para os trabalhadores de saúde mental

 

Eu tenho uma pedra atravessada no peito. A pequena rocha me irmana com os índios que fizeram Potossí sangrar prata durante mais de um século. Quem me conhece pouco acredita piamente que a minha figura resume-se a este corpo esquálido e essas roupas noturnosas. Dizem que não tenho mais avessos. Que a pedra me chupou os interiores. Que a pedra me tomou a forma do rosto e que virou meu sobrenome e lugar. Acham que quem está no meio do caminho é a pedra e não eu. Que ela acabou com o amor e extraiu algo vital que morava no meu olhar. Para o bem de si mesmos não adivinham em minhas entranhas as suas próprias devoções. Desembaralham-se dos pecados ofertando-me seus préstimos, sua moral e acima de tudo seu perdão. Mas a minha residência final será sempre o esquecimento, pois sou sumo restado dos ódios, soma de planos fracassados, poeira de traições amorosas. Querem saber o que quero hoje? Dinheiro, e um pouco de silêncio onde eu possa matar a saudade da minha própria voz. WDC

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O que menos se entende sobre aquilo

Ah esta premissa de sofrer por amor. E tanto. Tão severamente que há no rigor dessa dor tanto mais de disciplina e inconsequência que de realidade ou desejo. Amor em si não dói. E, se nos opera, anestesia. E se nos esquarteja é apenas depois da morte. Da sua morte. Ou de uma deixa calada na cena. Após acabar o enredo e todos ficarem pasmos com o fim da trama. Quem chegou primeiro protagonizou as melhores falas, os versos, o frescor com que a história se desenrolou por sobre as peles. A fala demarcada de mais nada, senão alegria. Aquela folhagem espessa de antes da primavera varrer o que restou da outra estação, não cabe. Assim é que amar não compreende a podridão de vastos campos de folhas mortas. Amarelo sépia. O passado do amor apenas vem se convocado, pois quando acontece é naquele estado de intensidade e pressa. E tão depois de passar, seus rastros sussurram descontos aos maus pagos deixados. Há lugar para sombra. O sol da desgraça ou o breu da solidão noturna desaparecem por uns instantes. Sequenciado nos secretos tomos de nossa história. O amor contrariado, ferido, oculto ou desgraçado, emerge. E se nos pega na segunda feira mais desastrada de nosso trabalho, quem sabe na última hora do prazo de entrega da mercadoria. O amor desacelera o passar do tempo e se encaixa. Enquadra tudo. E se deixa humildemente num dos cantos da casa. A casa corpo que o serviu. A casa teto que o salvou da chuva. A casa abrigo que dele depende para continuar a proteção, contra todo o mal do mundo. Contra todas as vezes que usamos o seu nome para chamar um ódio qualquer. J.M.N.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aquelas Rochas

Esse chão é assim mesmo?

Como?

Cheio de vazios e paisagens que só de olhar dá a impressão que tem um nada imenso dentro do nosso peito. São esses alumbramentos quase esquecidos que puseram essa dor dentro de mim? Ou foste tu, depois que resolvemos que o nosso amor abria mais feridas que as curava?

Já tentei químicas que preenchessem o espaço onde antes estavam as tuas visitas e as tuas pernas que, como prêmios ao meu bom comportamento, estavam via de regra lisinhas e untadas em óleos misteriosos. Esses dias tenho lido livros, na verdade, tenho comido as palavras. Mastigando algo que me deixe ocupado.

Eu poderia jurar que essas inexistências não te habitavam assim como estão em mim há tanto sem autorização ou aluguel. Tu, um navegador tão experiente que pra nenhum destino precisa de cartas geográficas, que já se molhou em lágrimas feitas com o sal de desertos e mares, que já soube o que é ser amado desesperadamente por uma mulher. Tu que sempre trouxeste as mãos repletas de significados.

Antes de ti, eu era existido em demasia, pelo menos essa era uma fé dura em mim. As tuas juras e esconjuros mostraram que uma vida é pouco pra se dar todo o amor que uma mulher demanda. Portanto, os meus relatos de viagem nunca te fizeram deixar de querer navegar só nós dois, pois toda água se renova e o humor dos ventos nunca é o mesmo quando se está com quem se ama.

A tua predileção pela espera sempre me enervou, sabe. Achavas que aquelas rochas antiguíssimas se esculpiriam a si mesmas num longo entalhe do tempo. Achavas que as dívidas que eu te impunha seriam mitigadas apenas com a tua presença. Achavas que a santidade das tuas palavras seriam capazes germinar dentro de mim o auto perdão. O que mais me intriga é ver que mesmo agora, que já lambemos o amargo gosto do fim, e já decidimos que este é o prato que sorveremos com a lentidão de um condenado, mesmo assim sustentas a certeza de que estavas certo quando, naquela manhã, afirmastes que eu deveria conhecer os teus itinerários.

Curioso como os erros, mesmo os deliberados, ensejam mais vida que os acertos. Vê agora, passado um ano desde o primeiro dia em que passei todo pensando ti, já somos tão outros que até dá uma saudade do que nós éramos antes. Por ora, não saberei de mim, talvez não queira saber. Quero apenas ser o que todo homem se torna quando está longe de ti, um desterrado. WDC

Hystera sine masca

para um de meus personagens preferidos

Eu te quero. Mas antes eu tenho de inventar uma porção de caminhos elementares ou estupidamente complicados para te provar. Eu te devoto uma porção enorme da minha inconsciência, pois a parte acordada do que penso já não dava conta. E para isso passei um deserto, dois infernos e a gruta frequentada por aquele antigo filósofo de que me falaras para explicar o medo de ser, lembra? Eu te cultivo como a última orquídea anã de um jardim inteiro de flores raras que se despedaçarão quando eu passar correndo pela saudade e for me instalar na estufa em que elas nascem. Entretanto, sou demais eu mesma para notar que fazendo isso, mato mais possíveis nascimentos e alegrias, por mínimas e delicadas que sejam, abrindo de fato as gavetas intermináveis do que não suporto mais guardar, e grito a plenos pulmões que sinto a tua falta. Sim, eu te odeio o amor eterno de alguém que espera o mesmo reconhecimento que dás a todos ao meu redor e não à indiferença clínica que te convence ser melhor estar livre do que ao meu lado. Mais que isso, eu protagonizo todo tipo de cena medíocre, de trama faminta, de novela mal feita, apenas para repetir que te magoarei por todas e tão medonhas vias do desespero ao acinte, da infância com suas totalidades até a velhice extrema da morte, apenas para que me sorvas de qualquer jeito, para que consideres parte deste teu mundo imaginário e plúmbeo, do qual só tenho notícias, por teus incontáveis amores romanceados. J.M.N.

domingo, 29 de abril de 2012

Seria o tempo?

Imaginar-me morto dentro dos sonhos de alguém, deixado no mirante de um farol qualquer no fim do mundo. Ir dando vez a um fantasma que me alucinava havia 17 anos, fantasma meu, que me deixou claro, fugiu de vez daquilo que ainda eu tinha dele em minhas incertezas. Agora sou mais honesto, enfim. E posso desejar voltar por meus próprios passos, mesmo que isso cause furor nos demais. O temer nascente de uma palavra dura e inventada, pelas mãos de outra pessoa – quem nunca soube o significado do perdão, da não interferência, de outra forma de ser sem sentir-se deus absoluto de todos ao redor – não servirá de ferrão mortal. Não fará arder num fogo reles o que levei tanto tempo para crer e sentir. Hoje, finalmente, ouvi com minhas próprias possibilidades sensitivas, com minha pele toda horrenda de abandono que estou só e só deverei atinar para o que fazer diante do tempo, diante do filho, diante de quem mais for. Se não tenho palavras mais que usar para fazer sentido, que sejam estas que ora me vem, a dar-me calor, sustento e participarem de vez da última casa que construirei, em cujas paredes atarei minhas redes, em cujos corredores viverei os restantes dias de minha vida, em cujos pilares soldarei meu ser ao ser da Terra. Seguindo certo para o despertar da solidão adquirida e feito um homem livre, para usar da razão apenas quando for possível. J.M.N.

Trilha sonora…

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cartas a ninguém (27.04.2012–16:15 p.m.)

Meu Caro,

Choramos juntos e juntos exortamos as práticas secretas, as músicas que ninguém mais ouvia, livros poeirentos e filmes em preto e branco, mudos e com aquelas belas peças de Gottfried Liebniz enxertadas nas restaurações modernas.

Andávamos por ai cumprimentando apenas os mais velhos, as senhoras suspeitas e todos aqueles meninos de nos queixávamos enquanto o recreio passava no colégio. Umas roupas esquisitas e anacrônicas, com cores muito mortas e sapatos a la Buddy Holly.

Trancados nas insuspeitas tragédias inventadas, nos regaços de nossas criações tão vis e burguesinhas demais para aceitarmos, mesmo não querendo aderir àquilo da esquerda, isenta, radical ou ultra radical. Exercíamos a política do que era melhor para nós.

Duas cidadelas empedernidas e encorajadas por sabe-se lá que ânimo celeste ou longínquo, como que genes atávicos atacando de supetão toda a casta de uma só vez. Ali estávamos, doentes, moribundos em plena juventude e aziagos aos olhos de tantos. Não tínhamos pares.

Ai um dia nos encontramos e passamos a observar cada indecência na fala, cada desarrumado perfeitamente engendrado em nossas roupas, nas nossas falas. Passamos a recorrer cada vez mais a palavras próprias e a duvidar de que conseguiríamos sobreviver um ao outro.

E sem nunca usar a palavra amizade nos despedimos ao mesmo tempo. Um virou a esquina, o outro as páginas de anotações com seus projetos em conjunto e pronto. Instantaneamente se tornaram desconhecidos. Atacando-se e/ou exaltando um ao outro em secreta admiração ou medo de reencontros.

Hoje eu o encontro na mesma cidade. Sei seu nome. O rumo da sua vida. Sei, inclusive, o nome de sua nova namorada. Entretanto não números seus em meus cadernos. Não há uma foto nossa na gaveta e somos assim, distantes e atados por tudo o que jamais dissemos. Essa espécie de irmandade abrasada entre os dentes, entre a troca de farpas e, definitivamente, estocada num lugar intranquilo, pois sempre que pesamos no nome um do outro é isso...

…Uma carta, um pedido de perdão, uma música que toca dias e dias no aparelho de som da sala. Sempre antes de sair e de dormir, momentos estes em que celebramos nossa mutualidade e semelhança a uma distância segura, fechados às palavras e dados a laços que era nenhuma desfará, mesmo que isso custe sete passagens por este Planeta.

Com imensa sinceridade,

J.Mattos

Memórias paternas 7

Idade ignorada...

- Pai, não tenho notícias muito boas
- Conta logo cara, não adianta sofrer escondido
- Tenho notas muito ruins
- Em quais disciplinas?
- Inglês e filosofia
- Mas logo em inglês? Não fazes um curso extra?
- Foi desleixo pai, prometo que vou me esforçar...
- Não é a questão do esforço filho, é prometer e não cumprir
- Nunca prometi notas boas em filosofia e nunca,
                           nunca deixei de te contar meus fracassos
- Então fazemos assim, como posso te ajudar?
- Me dá mais uma chance?

(A resposta, por mais óbvia e temperada de amor paterno,
me fez sentir uma funda distensão em minha alma
Quis naquele momento ter mais espaço para aquela pessoa
continuar sentindo que podia existir no seu próprio tempo)

- Claro filho! É uma chance pra mim também.
- Como assim?
- Um dia eu te explico... Conta comigo.

J.M.N.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

In memoriam vitae

“Que não se cale a voz que de mim veio,
Mas que minha não é, sendo nobre e sentida.
Voz do meu coração que me escorre da pena.”

Oração – Augusto Frederico Schimidt (1946, pp.93-94)

Eu os encontro e vigorosamente trato de me desconectar deles. Faço perderem o sentido, todas as coisas que me ligam a eles. Este é um exercício simples. Concentração e sorte. A noite corre. Meus músculos tensos exaltando-se em esquecê-los dentro de mim. Infortúnio que são as horas compartidas. Alguém se levanta e vai. Outro minuto que perco, penso. E logo estou tão concentrado em me perder deles que me acho. Sou o que sou. Não tenho mais vergonha. Minha literatura emerge, tal como emergem minha sede pelo novo, pela inquietação do mundo, pelos povos coloridos dos deuses de outrora. Lá fora os negros, os brancos, os povos todos me mandam convites. Mas eu fico insinuando ainda, talvez eu parta se não me partir primeiro. Sou esse pequeno humano que se descuidou muito tempo de si. Gentilmente lembro as coisas de fora. E eles presentes. Levanto-me afinal. Com seus olhos pendentes em mim, com suas expectativas de que eu os alcance durante a semana e lance ao menos um beijo do balcão imaginário de onde eles me esperam sufocados e invioláveis, porque são mais ideias e material fantasmagórico do que nunca. Não penso em outra coisa a não ser não sê-los. Não repeti-los. E isso, incrivelmente ao contrário do que parece e me rende, me faz mais deles. Faz-me mais próximo. É insuportável a semelhança dos relativos. Embora eu amaldiçoe todos os males que enfrentamos ou criamos ou refizemos por inutilidade e doença, por vergonha ou crueldade simplesmente, num instante de ilusão me ponho em suas peles. E nesse micro sonho diurno, como num lampejo, eu faço uma poesia, declaro meu amor à mulher que me cuida e doa o seio, sou melhor que Picasso em sua fase mais azul. E assim, na simplicidade de não querê-los, eu os renovo. Faço do contrário a maior semelhança. Eu, mesmo bêbado ou febril, não choro pelo que eles não foram ou não alcançaram de minhas dores ou moléstias. Quero apenas dormir um bom sono, dando-lhes alento. Alento de saber que fazem parte de mim e mesmo que não queira, sacodem meus muros e comem da mesma comida imaginária da qual me sirvo abundante – querem superar o tempo, acontecer felizes na memória de alguém. Isso, sim, eu posso fazer por eles. J.M.N.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A razão da falta

Porque quando eu me faltava vinhas em socorro e me chamavas pelo nome para eu saber que ainda era alguém. Era todo teu neste instante, criado nas ondas de som da tua voz. Como um pensamento, que, inovador ou medonho, descrevia algo jamais visto. E nascia o eu coisa, teu produto, apenas existindo no teu chamar. Sinto falta dessa nulidade. Estar acontecido secretamente enquanto apenas tu me chamavas de amor em punho para salvar-me.

Falta-me tudo quanto mais aprendi sobre domínios e planos perfeitos. Mesmo que jamais tentados. Abordavas as coisas com tamanha precisão que eu sinto o gosto do nosso futuro em comum. Das igrejas que me farias entrar, das natas adocicadas nas panelas de domingo. Um bolo, um doce de recriar a infância era o que teríamos.

Falta-me, ademais, um pouco de sorte. Daquele tipo que me fazia sempre chegar antes do teu choro, porque escondida dentro de tantos prantos e mantos e razões desconhecidas, resolvias dizer teus as menos abertos, consoantes faltavam e eu previa que alguma tortura cruel estava te partindo à alma. Intervinhas quebrando o silencio com um beijo ou com as velas para um jantar a dois, esforçada para que não chegasse a hora de eu dizer adeus.

Por estas razões e pela noite que avança em minha vigília e me volta a confundir os dias como fazia antes de eu me desatar, quero dizer que sinto essa falta. Falta de uma pessoa entre tantas. Falta de um abraço entre muitos. Falta, enfim, do ser reconhecido que eu era quando dizias que estavas esperando eu chegar para acabar com a tua tristeza. J.M.N.

Trilha sonora…

terça-feira, 17 de abril de 2012

O novo homem

Nasceste quando a aurora dos tempos já era história da história. Teu planeta já conta os anos em casas de potência décima segunda. Se o tempo, como algum cientista disse, é retornável, posso muito bem ser teu afilhado e não tu, o meu. Nasceste afilhado para minha completude humana mais imensa e se não tiver certeza de que sou eu ou tu o predecessor, quiçá minha própria humanidade ainda tenha mais uns anos a descobrir-se, tornar-se. Adornaste-me o sonho enquanto não vinhas, mas esperava. O encontro e o amor de teus pais me deram honras, as quais sempre nunca tive ou renegava inexplorado, pois não me sabia coisa alguma, nenhum alguém. Nem sei explicar como vencerei os anos para te ver duvidar de si. Sim, pequeno, tentarão te convencer que isso é perigoso. Eu, de minha parte, espero poder me fazer ouvir. Em decibéis suficientes para que me escutes e decidas questionar quem és, o que és e quando és. Apenas pergunta quem sabe e quem sabe é porque já desistiu de contrapor-se, de ser contra inutilmente. Te recebo em braços e traços e coisas ímpares que viveremos. Te dou a benção sem ser mais que um homem, mas me atrevo. Que assim teus espíritos sejam quais forem saberão que há coisas de gente que reclamarão e coisas de deuses que te farão escutar as estrelas. Se assim cresceres e puderes me dizer adeus e um canto ou palavras, saberei que cumpri a missão. Fui um homem que outro confiou para ser guia. A cria que agora recebe com tua vinda é amor indubitável, sabor humano na mais antiga concepção da palavra. J.M.N.