sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Linha do rio

Tua linha riscada n’água
Ano a ano, terço a terço
Maré acima, maré abaixo
Aponta os caminhos líquidos
Nos quais te percorro
Vou e volto insistente
Límpido como me permites
Com teu amor doce,
De rio e cores

Úmido trajeto
Contra tudo o que aprendi
Apreendo-me
Em teus dedos sãos
Simples como todo teu interior
Enquanto o mundo explode
Em meus anagramas
Miríades e sonetos
Ofertas-me o pão feito
Pelas mesmas mãos que temo
Entretanto desejo

São mãos criadoras
Cheias de tempo, sal e piedade
Não as suporto sozinho
Dragão fugido que me enfrenta
E revogas meus medos
Estendendo os condões
Tornando o mel de tuas águas
Minhas ruas, minhas rotas
Eixos de um novo domínio
Ao qual, simplesmente,
Pertenço

Teu rio é minha última esperança
Leve-me

J.M.N.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O tempo e a saudade nos olhos do disco

“Alguém vai sambar comigo
E o nome eu não digo
Guardo tudo no coração”

Hora da Razão – Batatinha.

Ela me pede um disco de presente. Digo que sim. Dá adeus por cima do ombro, me olha de longe e talvez tenha pensado em como estamos diferentes. Eu devolvo o pensamento – estamos. Ela volta nessas ondas de estremecimento que são mais de improviso que manejo calculado do meu velho personagem.

Ela volta como o tufão vertiginoso que sua presença sempre foi para mim, para minhas identidades passadas, para meus sorrisos de fachada.

Estou ficando velho.

Ela mexeu definitivamente comigo. Deixou sua marca.

Num único encontro depois de muitos anos, arrancou-me um suor, um disco e as lembranças, desengavetou-as sem pedir permissão.

Olho-me longamente no espelho ao chegar em casa. Sim, mudamos nós dois. Eu e minha imagem. Ela e eu. Mudou meu personagem pintado, direto do passado estratosférico a que ela pertence e todas as canções que escutei em seu nome, em nome de outros nomes, noutras serenatas, em tantas operetas e peças de teatro que nunca escrevi.

Mas ainda pergunto como me fez correr atrás de seu pedido? E porque corro tanto?

É um disco. Um disco apenas, o presente pedido. Fico nesses questionamentos. Arrebatado. É um presente que eu quero lhe dar mais que tudo. É um passado que visito muito estrangeiro, mas impecavelmente curioso.

A curiosidade não me matou, não forçou arrependimentos. Ela me cheira a vida.

Custou-me, isso sim, uma pintura como esquecimento, vários dias de uma sublimação que não emplacava. Custou meu anjo da guarda, desgastado e sufocado no guarda-roupa. Umas doses de vinho. Custou-me escutar cada música daquele tempo duas ou três vezes até decidir se fariam parte do pedido.

O disco que ela quer é digital.

Cabe mais tempo de música. Cabe mais memória e posso até escrever sua ficha técnica. Produção: o tempo em que te escondeste em mim... Cabe isso de ridículo e imensidades talvez.

O certo é que porei muito passado nele, mas também um tonel generoso do que sou agora, não exatamente de presente. Se doer, se voltar a pulsar, se couber num gole de vodka ou num malte sem qualquer envelhecimento, não importa. Rodarei na superfície sem sulcos do disco digital que gravarei.

Correndo contra o tempo.

Correndo de encontro ao menino eu era quando ela disse gostar do que eu fazia.

E se fosse hoje?

Se fosse hoje, com tudo o que sei, continuaria fazendo besteira.

Continuaria sendo aquele de quem ela disse gostar das mãos, dos olhos e para quem ofereceu um bicho de pelúcia, contrariando tudo o que sabia sobre o amor até aquele momento.

J.Mattos

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Finalíssimo

Chega de temer, tremer ou acorrer-se em químicas
Chega do fino pó que em sapatos se agarra quando muito se espera
Chega de estar atônito diante do espetáculo, ancorado e submisso pela goela que não se esforça
Engolir a gente aprende com pedras
Chega de vasar em páginas apenas, apenas em prantos, sem correção ou tentativa
Chega desse sono duradouro e célebre de entidades mortas que eu amava
A prudência rasgou fora as fotografias, emudeceu os prováveis K-7 onde anuências ou medos foram gravados
Chega da multidão que espera
Chega da multitude de espantos e ocasiões impecáveis
Chega de assinar o mesmo nome
Coríntios aos que têm fé e assustam-se facilmente
Meus versos são do Irã, são Palestinos, Austro-Prussianos, como ninguém mais quer saber ou tem medo de admitir que existem
Chega do amor imprestável dos anos mofando e que entre as galáxias esperou justamente a que não tinha vida para florir
Chega dos módicos furtos
Chega da lástima em socorrer que partiu, de ventilar pulmões que secaram
Esta chuva que eletrifica
A pele que saca e renova
A rosa que mesmo aos espinhos convence de descansar
A isso me dou
Chega de andar fazendo economias
Chega do pote de certezas que pagaria minha passagem ao lado de lá.

J.M.N.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sugestão ao teu desencanto I

Posso, nos intervalos do sono, seguir com alguma culpa
Escrevendo complexidades a dizer que a letra me redimirá
E se não acontecer, bem paciência!
Haverá licença suficiente a sustentar a paixão escrita
Haverá certamente o dolo da intenção, da conquista
Mas, entenda, nada haveria seguido sem você
E se assim nos entendemos, e agradeço
É porque estávamos na mesma frequência
No mesmo aparato lento de buscarmo-nos
O que encontramos, naquele ponto, não merece castigo
Não merece o que andas a dizer por ai
E se nada disso merece, deixo-te a oferta
Volta e lê tudo que fomos
Em algum lugar, nalguma palavra suspensa
Encontrarás a resposta que queres
Não acontecendo, continua a frase insuficiente
Até que, como em mim, diga mais sob a face do dito
Seja mais que palavras em linha
Reescreve o que foi dito
Até que se torne memória.

J.M.N.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cartas a ninguém (27.03.2013 – 03:57)

Meu amor,

O vento sopra e a tarde tem aquele cheiro que costumavas dizer, nasce das coisas que se perdem umas das outras. Hoje entendo. A distância exala. Mais atrás do que eu vejo, há o poente violeta que sempre esperei. As coisas vão bem sim, apesar de não ter me dado com o chá de hortelã que sempre indicaste e eu levei mais de cinco anos para experimentar. Não faz mal, até por dentro eu contesto. Apenas isso.

Assisti ao nosso filme, de quando éramos. Tanto tempo depois ele me invade com a mesma violenta maneira de enaltecer e culpar. As imagens dançando sobre o que eu mesmo nem sei mais se posso chamar de saudade, tão constitutivo que é dessas linhas, dos meus trabalhos domésticos, da minha obra de esquecimento, da minha lentidão ao acordar e saudar o mundo rindo das últimas notícias, sejam estas boas ou ruins.

Mas assim vai-se indo. Ponho café demais no leite da manhã e a escuridão da xícara dá conta do meu estado de nervos. As pessoas gargalhando por todo canto e eu achando que todos são uns cretinos por não dividirem a receita desse estado de suspensão constante, onde não lhes atinge a fatal pergunta de todos os dias: e agora?

Sim esse sou eu. Ainda eu e ainda o que sou. Um otimista tímido que, apesar das desavenças com a morte, não a deixo sem um prato de comida todos os dias. Que seja a indulgência das religiões e as bênçãos dos que me querem melhor, as minhas proteções. Otimista, digo, em ter esperança de a esperança morrer com dignidade sobre o poema. De não ser sacaneada quando o resultado esperado for alcançado e um filho de chocadeira qualquer vier dizer que foi apenas a nossa obrigação.

Porque veja, quando rio, não é sempre alegria, quando mato uma personagem não é maldade nem vingança e, oxalá acredites, que nenhum de meus mortos te representa, amor, nada disso. Vou por este meio-fio a me proteger, pé ante pé dando linha ao tempo. Otimista pequeno do fim suado do dia, da esquina que não guarda o cano de uma arma, apontada para minha indiscrição de querer seguir andando.

Por isso, amor, quando a cena final terminou e todos estavam felizes, acalentados, respeitados em seus tormentos, felicidades ou incertezas, eu soltei um suspiro. Nada de se preocupar. Nada de exagerado. Mas cheio de intimidade e atávico nas coisas que me deixaste. Dentre as quais, a maior delas, a mais robusta e inextinguível: saber que pedras no caminho foram feitas para chutar.

Uma hora elas voam para o vazio do infinito e sua distância vai fazer parte do cheiro da tarde. Outra hora, simplesmente, nos quebram os dedos e temos que ficar um tempo de molho, sentindo as dores de nossa coragem ou as troças de nossa imprudência. Foi só depois de saber e viver isso, meu amor, que minhas tardes realmente puderam cheirar a esperança.

Sinceramente,

J.Mattos

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dez Encontros I



Há muito que o acaso puiu as tramas  das desculpas dadas  pra que os dois, depois de tanto tempo,  estivessem frente à frente. Mesa de uma padaria. Território dela, uma cidade cujo nome fora dito, há uns anos, como uma fuga anunciada. Pra ele, em devaneios, o lugar nunca passou de uma reunião de praças e igrejas e da morada de uma mulher cuja alma carrega as marcas de um amor sem freio.

Pela força que usou pra assoprar o café, ele descobriu que ela não tinha pressa. O tom da voz ao falar com o garçom lhe fez pensar que seus dias de agonia mensal já se avizinhavam. O pedido... sim, ela estava preocupada com o peso – sempre o excesso de bunda e coxas.

Esse conhecimento prévio, assentado em gestos e cheiros, chegava-lhe mesmo que a contragosto. Era como um dom que ele possuía, mas que só usava quando na órbita daquela mulher.

Ele vinha com todos aqueles vazios enfeixados nas mãos tomando o lugar de um buquê. Gentileza discreta que aos dois apetecera em demasia.

Conversaram sobre o amor, o deles, seus saldos e dívidas. O que teve fim e o que restou inconcluso. Foram em cima, foram embaixo. Concluíram que uma fração de todo aquela ânsia de entrega sobrevivera. Incômodo. Franzino e irrequieto, como o filho que uma vez sonharam ter. WDC

terça-feira, 11 de junho de 2013

O ausente à espera

Agora é só esperar que ela venha. Trazendo nada menos que as peras de Lion e sua interminável irreverência sobre as merdas que o Wood Allen escreve. Sambinha no mp3 player e as conseqüências de uma puta dor de barriga. Ela finge estar inteira e eu rio da minha quilometragem. Vamos nascendo. Quando chegou só dei por ela depois de quinze dias, tão natural que ela me faz parte e seu lambido é o mesmo que a chuva do meu verde domínio. E percebo feliz que a pele dela me ensopa, que as unhas dela me arranham e que a comida que eu detestei, na verdade, era a boca dela se deliciando sobre a minha, uma mistura doida. Fertilizante. Isso é que somos. Saem plantas de dentro da gente depois dos meses, saem frutas. Tulipas, papoulas e calêndulas. Adoro dizer esses nomes. Todos a representam. E passo a escrever idiota sobre o silêncio que fere, sobre a gaze do meu curativo que escapa. Furo meus calos. Adoro os prazeres matinas de tê-la entre meus dentes. Carnívoros e amáveis, como só dementes podíamos ser. A sintaxe me falha. O verbo zera todas as ações e eu me fluido. Vou sangrando das dores dela, entre parênteses. Escrever assim só a quem sente. Escrever como se sente só a quem a dor prestou serviços. Não fosse ela minha retaguarda estava fodida. Meu dorso, meu tempo minha negra orixá, morreriam. Mas ela presente, sento como um rei. Namoro a pálida constituição dos avessos de maneira infinita. O que sai? Essas letras. Anátemas do pouco que tenho, do muito que a vida já me deu entre seus beijos. E fico simples. Passável. Instrumento para qualquer coisa que não tenha peso ou sentido ou mesmo, sequer, signifique algo nas palavras dos homens. J.M.N.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Porque vale ressaltar

Sobre todas as coisas eu te amo. Mesmo sem o brim que não compraste para minhas calças ou a proximidade da gripe que te afastou dos meus beijos. Te amo da mesma maneira perplexa com a qual descobri teus anos de aventura, de direito pessoal e intransferível sobre tuas decisões estúpidas e sobre o acerto de contas com tua família. Acordei hoje com vontade de dizer isso. Com gosto por relatar as coisas que, mesmo antiquadas ou prematuras, iminentes ou deixadas de lado, me fazem te adorar ao ponto de esquecer minha culpa neste amor de comprimento euclidiano. Mesmo sem o gato que me faria espirrar e o canário que atrapalharia teu sono eu te amo. Amor de sal e benção, mesmo que eu não creia. Dos doces com castanha de tua mãe e da presença dela engolindo nosso sossego no domingo. Por sobre todas as guerras, todos os noticiários de crianças perdidas que te fazem ir à igreja pedir por cada qual, eu tenho que dizer que te amo. Tenho que dizer que espero e esperarei sempre a tua chegada. Esperarei tua calma de antes do sono e tua ferocidade sobre eu ter esquecido de usar a aliança. Sobre todas as incertezas que ainda tenho sobre como seguir vivendo, eu te amo. E não tem rito ou crime que me façam desistir. Não há pessoa no espelho que me force a calar o que digo. Pois, se mesmo tão diagonais ou oblíquas nossas esperas se encontraram, quem sou eu para negar esse acaso fabricado tão naturalmente. J.M.N.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sarau Palavra Nuvem

Caros leitores e leitoras,

Amanhã 29.05 (quarta-feira), inaugurando a temporada de eventos mensais, os Blogs Palavras de Ontem e de Sete Meses receberão o escritor Caco Ishak no espaço Benedito Nunes na livraria Saraiva do Shopping Boulevard. O evento inicia às 19h. Compareçam e divulguem.

J.Mattos

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sobre o chão que não pisei

“Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre,
un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo.
Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.
Le apreté sus manos en señal de que lo haría,
[…] no pude hacer otra cosa sino decirle que así lo haría,
y de tanto decírselo se lo seguí diciendo aun después de que a mis manos
les costó trabajo zafarse de sus manos muertas.”

Pedro Páramo – Juan Rulfo

Eu bem que podia ser o que diz vim aqui, pois queria conhecer meu pai. E estar na presença deste homem. Que me feriu e ainda fere. Que me trouxe consequências e recaiu sobre minhas paixões inúmeras vezes. Podia ler essa palavra curta e funda em qualquer parede cheia de apelidos revolucionários – e quem sabe tê-lo por companheiro, camarada, revolucionário. Seria, seu emprego, contra os desmandos, a violência, aquilo que escapou à sua geração e que chegou pesado sobre a minha, tardando as escolhas, macerando a coragem. Usaríamos os dois o mesmo apelido. À paisana poderia andar secreto entre os caminhos do meu filho, pesquisando suas amizades, antevendo os perigos depois de cada esquina. Mas escolhi deixa-lo fazendo a trilha, apaixonando-se pelo que encontrar no caminho. Na paisagem queria ver o pai estancado como que fotografado pela minha lembrança na melhor viagem que fiz em sua companhia. Paira no ar meu desejo sempre que penso no que não disse, na valentia que se engaveta. Vira uma espécie de dolo, ao que parece – querer me encontrar sem um guia. Alguma coisa não acontece. Minha barba por fazer, sugere o descuido que eu mereço exercer. Sem que a amizade seja uma obrigação. Sem que campainhas lhe soem preocupantes anunciando uma ou outra insuficiência minha. O nome veio e não o conheço por inteiro. Ainda falta ir e dizer o que ando deixando de lado. Por hora um gosto indeciso. Compaixão pelo que não me significa e que é necessário significar. Queria saber a hora de espairecer as ideias. Ser leve e comer devagar. Enquanto não posso, digo por ai que sou um escritor e que meu estilo não tem nada a ver com a tristeza. J.M.N.

O jogo acabou e faltou um pedaço

Foram vinte e três tentativas. Todas ocorridas durante a noite, período em que estávamos mais vulneráveis. Montávamos quebra-cabeças. Peças espalhadas pela mesa, um bom vinho, pertencimento. Às vezes uma música clássica. Acalmava. Tudo posto. Quando acabávamos de montar mais um era o que dizíamos. Assim foi. Mais ou menos dez anos. Um quadro de Tarsila, obras de Paul Cézzane, pictóricos de Da Vinci. Uma coleção de arte feita a quatro mãos. Sob as vontades da noite, as tonturas do vinho, a arrebentação da entrega. Haveria de não compreender a razão de ela não acreditar em mim. Mas depois parei de pensar. Não faz sentido. Estou aqui todas as noites, construindo, montando o espetáculo refinado de nossos polegares opositores. Tínhamos talento. Eu nunca tive dúvidas durante aqueles jogos. Talvez por isso ganhássemos sempre. A única vez em que duvidei foi por causa de um monte de peças de cor escura que não se encaixavam de jeito nenhum. Era um trabalho complicado formular as bordas daquele puzzle em especial. Fui tomado pela dúvida. Duvidei da beleza, do almanaque de nossos dias. Duvidei que fosse capaz de garantir-lhe segurança, mesmo naquilo em que ela vacilava. Te perdoo por não acreditar. E nada mais. Nesse único e triste trabalho, falhamos. Um cão comeu uma das peças. Só vimos depois. O papelão tufado e estragado em saliva. Disforme o pedaço que já faltava. Não tivemos coragem de tocá-lo. Os contornos escuros, a indecisão sobre a validade do artista que emprestou sua obra ao nosso brinquedo. Mas, sobretudo, aquele pedaço que faltava. Aquele espaço no meio da completude. Um vão na beleza deitada. Completamos o mosaico de mil e tantas peças e por causa de um furo, abandonei o que foi feito. Nem vi que a luz também cabia naquele espaço não ocupado. J.M.N.

Para ler escutando…

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Teoria Geral do Esquecimento

Esse é o título do último romance do autor angolano José Eduardo Agualusa. O livro retrata as reivenções necessárias nas vidas de uma cidade sendo devorada pela guerra – no caso, Luanda. Ludo, a protagonista, sobrevive no seu auto-exílio numa mansão no meio da guerra, emparedada e se alimentando da carne de pombos e os restos dos tempos de fartura. Se aquece em fogueiras de livros e móveis. Mantem a sanidade com a companhia do cachorro Fantasma, e escrevendo. Primeiro em papéis e, quando estes acabam, nas paredes da mansão. Agualusa pediu à poeta brasileira Christiana Nóva que se vestisse de Ludo e escreve alguns poemas pra servir de epígrafe de alguns capítulos. Nóvoa concebeu os poemas “Haikai” e “Exorcismo”. Este último reproduzo aqui, pra quem ainda não entendeu, entenda que a escrita não é hobbie, é bote, é abrigo e trincheira. wdc

lavro versos

curtos

como orações

 

palavras são legiões

de demônios

expulsos

 

cortos advérbios

pronomes

 

poupo os pulsos.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primal

Sou um pouco de cada coisa que me aflige: a unha que soa a navalha, que risca a noite livrando o orvalho por sobre. Sou do apelo à pedra da ponte. A que segura o peso da minha tristeza quando a atravesso. Indo, as libras do abandono; vindo, as toneladas de mundo que me injetaram. Sei das coisas que me acalmam: a mão do filho igual a minha, suas notas desesperadas no caderno. Sou pelo beijo que a noite dá nos vagalumes. O lado errado do lençol na pele. Sou pelo desvio numa estrada que encima o ar. O tão longe da esperança que vai por ela. Aprendo a areia – o princípio delicado do vidro; aprendo a canção – inocência de quando meu pai era imenso; aprendo a morte – hematomas e vênulas rompidas na pele dela sem movimento, o lugar nenhum da minha solidão. São estas as coisas que aprendi. A partir das quais infiro ser deste ou daquele mundo. Dentro de onde o disfarce é meu rosto, o inimigo sou eu e a ponta da lança está a um dedo da garganta. E grito de todo meu ser – avance. J.M.N.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Reboco

Arranho as unhas nas paredes nuas
Firo, incontável
Perco o rumo, anão imenso esse amor
Me assusta e vence

Sou da parede quando ela me empresta a dúvida
A casa cai sem ela?
Subo as escadas, o paraíso
Ando por naves e níveis de pó

Oboé tocado assim quase me nasce
Mas intercalas
O suave meretrício da minha náusea
Com vícios de verme e pudor
Tuas pernas assim abertas

Comem o tato, a palidez da virtude
Expande, tudo quanto não nutre
Resseco, avassalado
A casa não cai sem ela

Eu é que não tenho onde morar

J.M.N.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Todos os nomes, toda essência

Qualquer nome te serve. Qualquer engradado te estoca. Posso te chamar aos gritos, te repetir como promessa, por vingança ou por crença na eternidade. És o maior suspeito pelos meus erros macabros. Mais ainda pelos meus acertos inteiros. Vens com lama pelo corpo. Límpido como quartzo esfumado. Vens. Alegre. Triste. Como um braço amputado que na canção padece com as fisgadas da saudade. Vens como o tempo que se uniu em minha inconsciência: ontem, hoje, amanhã e sempre. Linha junta no infinito. Fixo e enfocado como a imagem preferida de alguém. Trocado por uma carta alega distância ou medo. Covarde ou bravo. Em batalha ou calmaria surges e vens. Andando. Em berlindas. Sob o sol ultrajante dos desertos. Conquanto feliz por ser mais antigo que a antiguidade, fazes parte da primeira nuvem de poeira cósmica. Fazes parte da primeiríssima célula do mundo. Tantos te chamam de luto, melancolia, esforço sobre-humano de existência. Inalcançável te chamam outros e outras. Os esquecidos te chamam de qualquer coisa que podem levar à boca e matar um décimo da fome que os traga. Profuso, ostentando encouraçados, feito uma armada pronta para finalizar uma costa e matar todos com sua carga explosiva. Vieste desde antes de meu despertar. Vieste cheirar os restos da minha mãe sobre meu corpo logo após ela me dar à luz. Aquele misto de entes e entidades – surpresa e afeto – o só elemento que nos acomoda a todos pela primeira e última vez nas tenras horas de existência. Não dependo de ti. Mas me apresentaste a novidade da divisão, da partilha. E agora não chego a sozinho senão com esforço e faca. Eu que era só pra mim um naco de totalidade e pedra. Alguns te chamam de culpa, chamam desespero, dor que não cessa. A maior das alegrias, vivenda dos quereres e da entrega. Não sou eloquente. Não uso temas ou artigos indefinidos. Chamo-te pelo nome que aprendi ao lamber a solidão das descobertas e a quentura inquieta da carne fresca. Chamo como fosse um romance inteiro, tuas quatro letras amor. J.M.N.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Convite Especial - “Sabarau aos Vivos”


Segue o convite de nossa primeira promoção “aos vivos”. Felizes em poder realizar este momento na companhia de um grande parceiro: Gustavo Rodrigues e no espaço da Saraiva que tanto tem feito pela cultura de Belém, sob o comando da querida Tainah Fagundes. (J.Mattos)
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Sabarau III

quinta-feira, 4 de abril de 2013

As palavras a continuam

Ela sumiu completamente. Nem memória ela deixou.
Isso que se escreve quase sozinho sobre ela e o que não ficou é como um reflexo.
Incontinência das palavras que buscam significar até o que não significa mais nada.
Choveu muito naquele dia.
Choveu a chuva de dez anos.
O nível do rio subiu. Cardumes ficaram afogados.
Todas as pegadas e relíquias pré-históricas se foram. Mas as palavras continuam.
Tomam forma. Têm sequência. Não pensam, não adoram, não lambem os dedos por causa da intensidade do gosto.
Aquela chuva foi tudo o que eu queria chorar quando ela se foi, mas não pude. Porque sou apenas um homem sozinho e a água que eu tenho no corpo ainda precisa me dar sustento, fazer a maciez da pele para ser a cama de alguém.
Só por isso não chorei uma tempestade.
O que me sai quando escrevo essas linhas não é mais do que minha prisão de palavras.
Meu escravo se curva.
Sou sempre preparado para o trabalho de escrever. Por isso, mesmo não chorando, deixo derramar esse monte de letras e palavras sobre o sumiço dela e sobre o que ela nem me deixou.
Talvez as coisas sejam assim.
Uns choram e logo sua dor passa.
Uns se matam e logo viram nuvens que chovem feito a debulha de toda a água do céu.
E têm aqueles a quem não basta chorar ou morrer, torcer-se ou vingar.
Aqueles que vertem letras e escolhem palavras para fazer bem feita a ação de esquecer. Mesmo que o processo deixe o preto no branco.
Mesmo que outras pessoas se caiam sobre as teias finíssimas que sustentam esses escritos.
As intensas simplicidades escritas a respeito de alguém que se foi e sobre aquilo que não foi deixado e que, mesmo assim, incomoda e causa espanto.

J.M.N.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

cinco anos e o quê mais…

O amor nasceu na linha um. E fui tocando. Semelhante a um diário, um tratado de sem sentido, o gosto impune do beijo em cada vírgula, e, nas sentenças extremas, o tratar de feridas, costurar dos tecidos infeccionados e doloridos que ficaram ou que demoravam em cair. Pouco a pouco uma forma própria se anuncia. Novo corpo de vaidades e sentidos. Engolida a peçonha do tempo e da imprudência, nasce um furor como aquele de três décadas atrás. Um furor pelo novo, pelo nunca visto. E isso em mim foi como um banho de lavagem profunda, entre as camadas, as lâminas da consciência se afiando direto na carne. Dedicadas palavras. Palavras de cada dia e de tempos sem tempo algum. Os olhos de quem se foi, veias de quem ficou e perdeu no fim. Esse gosto de apelo na língua. Essa língua ocupada em criar a serviço da mágoa, do renascimento, da escolha, enfim, da saudade. Há quase uma era ando correndo por aqui. As letras se adiantam e como um raio destinado à catástrofe reaprendi a ver as cores do mundo, o peso das palavras, o infinito que pode ser morrer mil vezes antes acabar. J.M.N.

O homem dentro do que digo

Olhai e cobiçai minha derrota. Imolaram-me
Tornardes dente da engrenagem que me destrói
E com o corrosivo abraço, uma cadeia cinza
Envolve-me mais uma vez nos teus quetais

Tendes à boca, a víbora peçonhenta do algures
Ser nenhum assina tua obra – és um fantasma
Que quando aparece, açoita o escravo em nós
Teu pó viceja como a zoada do abate – o morto

E o morto soçobra de teus passos, agilíssimos
Embora finados esses mesmos passos, vilão
Tu és a oposta força que me escarnece, és nada
Tendes a lei e a doutrina como irmãs, e eu, nada

E teus tratados não conversam como eu, livres
Dos atentados da soberba, das miragens gastas
Internado no futuro, sou o que jamais serás
Homem, morno e estúpido, a carne simples

Feito a guisa de liberdade.

J.M.N.

terça-feira, 12 de março de 2013

Antecedente

“Parai tudo que me impede de dormir:
esses guindastes dentro da noite,
esse vento violento,
o último pensamento desses suicidas.”

O sono antecedente – Jorge de Lima

Aos que andam pela noite sem princípio nem fim, eu rezo com a voz nublada e sem limites – somos todos irmãos. Somos todos da mesma pedra no caminho de tantos.

Aos marechais das guerras vencidas por outrem, oferto meu uniforme de gala. A pose, a fome, meus objetos de pendurar luares. Somos todos, guirlandas de festa e fatalidades para algum covarde que não viu nossos sinais de alerta.

Aos homens do esgoto. Aos cérebros malignos. Às artesãs do corpo, minha coragem. Revolvem o que apodreceu, pensam em tantos assassínios que não lhes sobra vida para cultivar amigos e, por fim, dormem com tantos insones que não lhes sobra cansaço para que venha alguém e queira velar.

Aos amigos que partiram. Aos amores que morreram ou se mataram porque pequei. Aos fedores das lembranças sobre as cômodas de alguém, minhas desculpas mais sentidas. Não lhes soube as raízes e, portanto, não as alimentei. Não me soube a tempo e, portanto, envelheci.

E como aos cheiros não se emprestam carícias, sinto não ter chegado antes de ter sido usado. Apenas para evitar a lucidez tardia da derrota. Apenas para caber no tempo antes de toda a dor. J.M.N.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Desposse

Era meu apelo chamando e chamando
Agora, é o que não grita nem
Há silêncio em todas as notas
E avisto a distância impensável
Que antecede o lugar que me atém

O beijo fundo e sem gosto
Com que me gosma a língua do destino
Vai sucumbir – ferido e deposto
No que sentir a viva em seda
Nascente, doce e inteira

Do que não tenho, mas procuro
Um gosto que decerto antecipa
Lugar que não contem quase resposta
Todas as letras e, entrementes
Encontra-se toda a humanidade

Justo o que falta ao carrasco.

J.M.N.

Po(e)magem #9

Sobre foto de Affonso Romano (grupo Nanos)

image

Quando eu chego ao fim de tarde alaranjado
Venho minguado na grandeza que me alteia
Em todo canto me transformo e vou caindo

Não como os deuses de antigamente vou sumindo
Vou como homem me agasalhar adormecido
Dentro da noite que minha luz assopra e vence

Saudoso da eternidade em seu sorriso
Que ao ser solto me procura e reacende
Torna-me um sempre, ser alado e radiante.

J.M.N.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Porque voltei

Voltei por amor. Por medo. Por achar que não podia conquistar o planejado. Voltei por razões secretas, escusas até. Jamais simples ou impertinentes. Voltei porque a terra me saia da boca, porque meus olhos estavam cada vez mais admirados pelos campos de cereja em flor e pelas peles mouras dos cantos de lá. Sem mais, eu voltei.

Pisei os mesmos percalços, as mesmas intrincadas dúvidas sobre ser ou não ser. Pisei nas dores de outrem, nas esperanças de muitos, no silêncio insuportável de um. Pisei, afundando meus pés nas areias traiçoeiras do exagero, da instância última – a língua precipitada de afloramentos. Pisei meus princípios, meus medos, minha genealogia complicada. Cheio de forças, pisei no passado.

Agora a volta é antiga. A hora trágica da descoberta da solidão é um sonho repetitivo e as conversas sobre quem serei ou o que deixei do outro lado não andam mais na moda. Agora é o presente pastoso de pássaro sem grades, de monstro sem sustos e de canalha exumado. Meu amigo escravo persegue meus riscos. Agora é a memória dos amanhãs e a certeza de que muitos passos dados vazaram pelo caminho.

Voltei para repetir os triunfos sobre mim mesmo. E falhar mais uma vez às portas do tédio. Voltei para certificar os pecados mais desejados, os cumpridos, assumidos. Até aqueles, que levarei para o túmulo. Voltei, uma vez que por dentro eu era o mundo e por fora a mesma rua por onde passava a minha esperança de vê-la. Voltei para os pastos idosos dos meus campos da infância, ao choro fino pela morte de Dadá.

Voltei para esperar que meu dentro de mundo se revele e me rapte uma vez mais. Para mais um sempre medido – um ínfimo imenso. Quero que isso tome conta do que não suporto e me atire ao acaso. E me atire ao além do que é possível. Tão somente canção e poema. Tão somente o que sou mais no íntimo – tantos sentidos dentro do mesmo e finito conjunto de ossos. Um nervo percorrido pela vida.

J.Mattos

terça-feira, 5 de março de 2013

Sem defesas

Ando todo sensível.
Durmo quem nem por sobre um monte de plástico-bolha. O estalar crescendo, micro batalhas atestam-me a vida. Bolhas de ar extinguindo. Somos eu e minha ansiedade adormecendo.
Distante, o crepitar dum fogo. Lareira que dentro de casa acende o teu rosto. Venho atônito. Descambando. Tivesse escadas em nossa casa, eu teria caído. Tivesse a memória bem feita, diria meu primeiro poema como se fosse teu, que te espero uma vida e meia, inteirinhas.
Disseram que eu viesse aqui, sempre ao papel.
Confessar.
Fosse um padre, não falava.
Fosse meu pai, teria vergonha.
Fosse você, teria perigo para minha estadia. Podia afinar feito um líquido, indo seguir uma grota qualquer dentro da terra.
De tão urgente de ti, sou medroso.
De tão cheio de intento, meu tato sacode as palavras.
Elas se criam.
Comidinhas de nervoso e impressão belíssima sobre o que mais me agasalha – teu olhar me amando baixo e firme.
Não sou desse tipo que se renova.
E ao ficar mais velho, aprimoro o único sentido que me faz bem, o olfato. Com ele tuas distâncias se encurtam, os dias sem a tua presença se expandem e eu acrescento mil descrições sobre a perfeição de quando estás.
Faz-me uma certeza que seja. Morde meus livros, bagunça as fotos, termina minhas frases de despedida.
Faz isso para que eu supere a sensação desgastante de desejar ilusões. Para que não avoem as sementes envoltas de algodão – amor e medo. Fuga e fingimento.
Não que eu queira te dar todo o trabalho, mas experimenta levar um quarto do que trago nos olhos e entenderás.
Sempre que te vejo, são cem desertos que percorro, são mil as liras que me acompanham, são milhões os raios que me alertam e apenas uma a razão.
Vê o quanto o amor tem de companhia e a verdade ou os dias, têm tão poucas defesas contra sua chegada.

J.Mattos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pra quando a dona chegar

Sou teu de um tanto
que quando corto as unhas
faço como quem afia a lâmina
que revelará os teus confins.

Cuido dos pelos e dos cheiros.
Premedito o esquecimento dos cotovelos
só pra produzir a tua implicância,
pra que digas que tenho que me cuidar mais
e ofereça os teus préstimos.

Não te parece lindo
que todos necessitem de alguém
para se ter a si?

Por isso sou teu esse tanto.
E tomo banho como quem lava a casa
pra chegada da dona
E corto o cabelo como quem capina um quintal,
recanto de estar alheio ao tempo
E guardo lágrimas num potinho
que te envio por um conhecido
junto com um recado:

"Aqui quando chove
faz um frio maroto
que só aquele abraço de noite inteira
é capaz de extinguir"

E despacho o embrulho
imaginando que tingirá de verde
o teu olho alagado de saudade.
WDC