terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma palavra

É perigoso dizer teu nome. Já não escutas quando te chamo. Esse fosso, entre a súplica e tua identidade não me traz de volta. Vou declinando.

A existência sem tua voz é uma farsa. O que reconhecias de mim anda nas bocas. No lixo daquele lugar amistoso, porém falso que éramos nós. Um do outro, a ilha obscura da fatalidade.

Outra distância se me encurta. Meu passo a passo dado a nordeste. A fuga é como toda noite em que nos tínhamos – um fogo vermelho, incandescente, a supressão das vontades. Terminávamos nada, porque nada começamos.

Uma das coisas que ainda conto se trata em livros, amor de antes, outros tantos deuses. Nosso sagrado – corpo e sangue – a ternura indisponível aos que se seguiram apenas humanos. Eram pouco demais entre nossos prantos. Eram demais no apelo por nossas culpas.

Não as sentimos, esse é nosso trunfo. Será nossa morte, mas pouco importa. Se a manhã cumprir a promessa de se deitar sempre em nossas bocas, calaremos. Seremos nada. Verbos nulos. Seremos sempre mais próximos.

Logo, logo nos chega a hora. J.M.N.

Para ler escutando…

Insuspeito

Olho através da fechadura. Estou comprometido. Atrás de mim a pouca vida sem sentido que me havia. Do outro lado, através do pequeno furo, a imensidão de coisas que não tinham preceito no meu pensar. Não sabia que palavras fazer juntas para aquilo. Dei de inventar. Enquanto mais entrava pelo buraco, mais se espremiam palavras. De tarde sempre eu tenho invenção de pessoa, me furou o olho a impressão da mulher nua. Ali estava eu. Sentindo através da brecha. A fehadura corrompida. A porta fechada ainda. Atrás de mim não era coisa nenhuma senão soldadinhos sem missão e carros de aluguel para minha inutilidade. Ali sim, fazi sentido. O corpo que eu ganhara, o sabor da tarde nascendo na lingua – com pelos, pele escura, um peito enorme. Ali eu nasci para dentro. Foi meu primeiro parto. O nascer, assim dito, foi apenas a estréia da luz sobre o que eu tinha de carne e incertezas. Aquilo ali foi a minha primeira certeza e junto dela, eu tinha a palavra. Mas preferi ficar em silêncio mais um pouco. Enquanto ela fingia que se escondia e eu fingia estar entendendo que eu existia. J.M.N.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Anotações às margens do romance I

O outro jogo não se ganha. A vida passa depressa demais. Apostas na mesa. E... fim, 22 vermelho sangue. Meu dia de nascimento foi quente como não sido em mais de uma década. Ninguém sai do útero impune. Fui logo reclamando da medida das cobertas, do muito branco daquele lugar, da intempestiva decisão de se colocar o meu nome em mim. Mas não colou, tudo ajustado à vida alheia. Eu começando virei assim pro camarada que me pegava no colo feito uma mortadela degelada: qual é a situação desse lado de cá heim? A resposta foi um grande e melancólico silêncio. Só entendi o que viria depois quando já era tarde demais. Custo a entender por que nascemos. Mais fácil é saber a razão da morte, vem no laudo, naquele papel que te determina o fim da existência legal, quando jamais se vai poder comprar um pedaço de terra. O que eu digo além dessas coisas é pra esquecer. Hoje eu sentei aqui e me aconteceu de estar disposto a escrever sobre esse dia. Esse dia de muitos invernos atrás, quando eu sentei no corpo que me conduziria vida afora. Caucasiano de mentira sentado nas obrigações de antes de existir no papel. Foi isso que eu escrevi: às duas horas da tarde a sede apertou e eu não tinha nada para beber. Sem graça, expressão sublime de não ter nada a dizer e depois apenas um conforto imediato e puríssimo, resultado de uma expressão muito antiga e de cálculo fácil. A foto dela decepou meu estado de espírito. Fiquei vago, vagando. Vazio coberto de anteontens. Um sujeito que explode quando escreve e quando ama faz um bocado de merda. Naquele silêncio que me foi oferecido nunca ninguém me explicou com um olhar sequer o que são as palavras esvoaçantes que nos esperam do outro lado da morte, nem mesmo o silêncio me pode convencer que está tudo certo e que amar é isso mesmo. Sentei para escrever um romance e me veio quente e úmido a lembrança do nascimento, das coisinhas inúteis que fiz até suspender meu próprio corpo e errar o primeiro caminho. E se tudo mais que fiz de errado me veio à mente, talvez eu esteja pronto para seguir no trabalho. Escrevo um livro que se chama assim: ninguém devia usar o corpo. Há uma esperança neste título – me tronar parte da estante de alguém. Esse é o triunfo do romance. J.M.N.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Outubro Insano–Cinema e Loucura

No dia 10 de outubro comemora-se o dia mundial da Saúde Mental. É uma data reservada para a reflexão sobre o lugar da loucura e do louco. Além de marcar inúmeras manifestações pelo Brasil todo.

Esse ano resolvemos unir esta data à trincheira cinematográfica que se tornou a cidade de Parauapebas, graças aos corajosos membros do Labirinto Cinema Clube. Pra vocês terem uma ideia, esses caras fazem mostra de curtas (Curta Carajás), mostra competitiva, curso de roteiro e direção e rola sessão na Câmara de Vereadores toda semana.

Esse mês, eu e a Sara Giusti resolvemos provocar o Labirinto pra que todas as sessões fossem sobre filmes que abordassem a loucura ou a dependência química. Claro que, com um critério tão vago, daria pra fazer 10 anos de sessões só sobre cinema e loucura. Mas escolhemos os filmes que aparecem no cartaz.

Quem mora em Parauapebas, apareça nas sessões pra ver filme e conversar. Tem pipoca e guaraná de graça. Espero vocês. WDC

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O que nos faz desiguais

 

Ele tinha mais livros lidos e mais livros por ler. Ele tinha mais anos que ela. Ele tinha mais amigos que ela. Ele tinha mais família que ela. Ele sempre teve mais que ela, e quem olhasse de longe chegaria à conclusão óbvia que aquela era uma relação desigual. Poderiam pensar: quando tudo terminar, ele vai sentir menos saudade que ela. Depois do fim ele não estará tão à deriva quanto ela. O desespero baterá menos à porta dele à noite. A loucura e o medo não o ameaçarão. Já a ela...

A realidade das roupas não coincide com o real da pele. O escondido de todos nós é o que nos nomeia e, com uma fome incontrolável, vai comendo nossas certezas. Não segue lógicas, fala em outra gramática. Fala em línguas esquecidas, o amor.

Estas foram matérias vistas por ele nas primeiras séries da vida. Sempre passara arrastado, por isso não entendeu quando livros, amigos, exercícios, filosofias, todas essas quinquilharias não preencheram a vaga deixada por ela. Só percebeu que a fila não andava quando viu que o chão fugira dos seus pés.

Alguns paliativos ela tinha deixado: a promessa de, mesmo depois de 10 anos, lembrar do vestido azul marinho minusculamente florido que ela usava naquela manhã de sábado em que os dois ultrapassaram juntos os limites da cidade pra que ela pagasse contas. Meia garrafa de vinho na geladeira dela. O desejo compartilhado de que um dia a geladeira fosse deles e que aquela garrafa enfim se esvaziasse. As fugas. A timidez da mão dada no meio da rua. A lasanha que ele não esperava tão gostosa. O corpo dela que devagar se convertia no seu templo mais que sagrado.

A saudade lhe passava rasteiras, batia-lhe a razão, a estética. Afinal sentia falta de suas imperfeições. O nariz torto, o cabelo ralo, o lodaçal das palavras quando tomada pela ira, a bizarra capa amarela ocultando o estranho hábito de vestir-se no trabalho nos dias de chuva. A tolerância sempre ínfima com horários, com mensagens, com ligações, enfim, com o tempo que restava para os dois se pertencerem. WDC

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não fosse

Não fosse eu ter sonhado aquele tempo, não o teríamos
Não fossem meus primeiros passos, não darias os teus mesmo me seguindo
Não fosse a canção no escuro que dispersou teu medo, não dormirias
Não fosse eu, colado ao pé da cama enquanto tremias de febre, não estarias mais aqui
Não fosse eu ter sonhado o que não terias, ganhavas mais tempo
Não fossem teus passos prisioneiros, os meus não acampariam nos sonhos
Não fosse teu dormir mais que sossegado, não teria eu o medo de cantar no escuro
Não fosse teres estado aqui, a febre de viver colado não passaria, seguiria
Não tendo teus passos bem juntos, dei os meus passos sozinhos, pela primeira vez
Não dormisses sempre ao pé dos sonhos, cantar-te-ia mais o que me cantavam os meus
Não fosse ter sarado nosso tempo, ainda estaria colado, ao pé da cama, em silêncio
Esperando ter as respostas que nunca viriam

J.M.N.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O cacto

Vi o cacto morto, tombado desde o parapeito de sua janela até o vazio da área entre os quartos, espaço de nada guardar, de nada ser, sem serventia para a casa. O cacto partido com seus espinhos feridos e as fagulhas da tarde ensolarada lhe mordendo as últimas expressões de resistência. Tínhamos nos amado indecentemente naquele dia.

A plantinha tão dura e desértica que bebia tão pouca água estava morta. Não se sabe quem a jogou por desafeto aos seus espinhos. Jamais se saberá se decidiu levar seu tempo, por si mesma e atirou-se. Se assim foi, peço-lhe perdão por qualquer desgraça que lhe tenha feito. E entendo seu gesto como a última fortaleza do seu espírito de cacto.

Morria com seu verde desmilinguido o meu amor, morria. Naquela tarde de farpas heliocêntricas sobre o silêncio de nosso corpo único e desalmado em cama dela. Consumíamos um ao outro e ao lado, a dotação verde da esperança encarcerada de espinhos, falecia. Tão frágeis as nossas vidas no tempo em que o amor respondia por toda ferida, toda dívida.

O cacto se foi sem nome, sem deserto próprio para viver condizente. Foi ter com seus outros pares, as verbenas, os xique-xiques, outros cactos. Foi ser da aliança insuperável da vida eterna que se não nos chega. Deixou seus espinhos.

Quando me levantei de dentro dela para lhe sossegar o cadáver de planta banida, os seus espinhos ainda presentes perfuraram minha carne. Doer não doeu. Não causou uma assim ferida ou chaga. Mas um fio de sangue. Solitário e retinto de memória e nunca.

Aquilo devia bastar para que eu soubesse que “eu e ela – nós os dois” já era uma coisa só, que ia saindo gota por gota de dentro do peito. De seu último préstimo como ser vivo, o cacto, fez afluir o quilate sangrento do que morria. E deu sua vida para que eu compreendesse esse mistério.

O segredo de quando é o espinho que indica a validade das coisas.

J.M.N.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Coimbra

A pessoas que não me saem jamais da memória:
Alexandra Pereira, Noemi Cubas, Jonas Zavala, Pedro Hespanha,
Fernando Ruivo, Kika Freyre, Margreet De Looze, Bo French Baizas (Mel),
Ana Sofia Clareu, João Porfírio, Fernando Paixão, Elias Oliveira
Iver Moller, Alexandra Felipa, Stuart Holland, Inês Cerca,
Daniela Veiga e José Camilo Silva.

Ela me caça. Astúcia secular em suas ruas, as vias de meus encontros. Eu cedo. Vou aos cantos de sua tristeza nua, seus tijolos desgastados pelo ar do saber – há um peso de sabedoria em cada animal que transita pelos escombros, em cada pássaro que remonta a dança suave de seu céu tão anil. Sua sujeira ensinou-me quanto.

Ela me viola. Violenta e suja como uma qualquer. Sou perdido nela, com vigor de quem retorna sempre à mesma alcova, repetindo-se. Deu muito mais do que tomou. Na verdade não tomou nada. Ofertei-lhe o coração em pedra, a flor muito vermelha da lapela, meu sangue de estranho. Ela acolheu. Chorou comigo os últimos dias à capela.

Ela tem mais encantos na despedida. Tenho mais dela na busca que faço dentro de meus labirintos. A cidade inchada como uma vulva que parindo. Sangra um pouco cada vez que choro minha saudade. Sei disso em segredo. Como em segredo sei que as suas ladeiras me têm por certo. Cada beco em que me encontro, cabe nela.

Ela pousa na minha calçada todos os dias. Ativa, cercada e fortificada por seus segredos, por seus vãos onde os homens que a protegem deixaram as peles. Pétrea e fixa em seu patrimônio, tem meus espólios. Fina e fluida pelo Mondego, tem meu soluço. Sou-lhe a parte viajante e acidentada.

Em minha morada a cidade toda se conforma. Minha Coimbra sem tempo. A saudade vive a caminhar sobre ela. J.M.N.

Meus medos

O que faço com o que fica?
Essas chusmas de toadas e trovões me alteram
Alteram a face de como, antes de dar, eu recebi
Eu me escondo do agora. Esse tempo que carcome minha digital
Está o volume dos exemplares aumentando
De amores, os melhores; dos beijos, os mais molhados; está sobre mim o que eu fiz de errado
O muito de endereço, onde mora minha desculpa. Longa sala de espera
Os ossos culminando minha estrutura desde sempre abalada
Nasci, quem sabe, com um pedaço faltando
O que faço com quem me deu seus quartos, esperanças;
Com quem me deu esse lago de água mansa que eu não cuido?
Sou de lança e ruptura, não sufrago penas, as escuto; cumpri-las é outra coisa
De quando o vento assoprou os termos do absurdo, me sobrou a tinta
Com a qual traço o indigitável artifício de amar para sempre
De tudo o que ficou, das sementes, apenas a clareza é que cultivo
E ela não funciona quando, de olhos, fechados, peço perdão pelo que mais me assuta. J.M.N.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Micro-romance XIII (ou “Silogismo”)

Não, eu não disse nada a respeito, no início. Apenas sua presença aconteceu. Meu sorriso envergonhado porque ela estava ali, ao alcance do meu precipício. Mas não deixei escapar nada. Ela estava ali e era o bastante. A noite nos presenteara com um calor de conforto. Eu não tinha razão para sentir frio ou tremores, portanto. Mas ai ela saiu do carro. Íntima de toda minha saudade, essa estranha que elege os piores momentos para me lançar suas escrituras. Tenho certeza que meu rosto corou. Eu não sabia o que dizer e troquei seu nome. Ela riu. Mas, afinal, qual a razão dos convites? Enquanto eu repassava três tomos de um tratado qualquer em revista – um tenebroso exercício de medo e astúcia – seus braços me fizeram algo. Tomaram minhas certezas, escavaram os limites de meu canteiro de obras – reparos na estrutura mais profunda. Seus braços foram até o portal da minha entrega, e não ousaram ir além. Ela sabia. Sentiu no mesmo instante a fúria perigosa daquele apego repentino. Seu hálito me fez primaveras. Eu seria dela sem som algum. Próprio e completo como um ser que já viveu várias tormentas. Ou podia ser o que fui depois que sai de seu toque – alguém que a quer. Que ocupa o mesmo lugar comum daqueles que a veneram de longe. Que não sabe se isso chegará a se chamar amor um dia. Entretanto, alguém que seria dela caso seus braços ficassem ali por mais meio segundo que fosse. E ficaria entregue àquilo que seu código pessoal ainda não permite atinar sobre o mundo, sobre o cerne e a margem do leito, sobre a honra molhada do mais incrível beijo de amor. Aceitei seu convite. Com o temor de quem teria de conquistar um triunfo para voltar e ser aceito em Esparta. Aceitei o apreço fulminante que a idade imputa à debulha dos sentidos. Me vi saindo das favas, núcleo de alguma coisa que alimenta e deflora. Essa mão mágica da descoberta sobre o que não deve acontecer. Os mil tópicos da moral que se cobra por ai. Lambi os dedos, depois de enfiá-los na textura suculenta do que senti ao seu afago. Essa calma dominante e progressiva que não paralisa e dá mais certeza ao que virá. Depois do adeus, aquela orquestra imaginária que desanuvia. Altissonantes os acordes do impensável. Um sobre o outro imitam o que não foi dito, mas houve. Todos os sons apontando incertezas e todas estas descascando a fina pele protetora dos meus estragos recém-vividos. Não houve beijo, não houve muitas cores e, certamente, não haverá sossego até revê-la. J.M.N.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dos pais, um dia

Para o Cauê, meus Josés e o Leon

Meu filho tem quinze anos. Metade dos anos quais contava meu pai, quando nasci. A mesma idade em que eu descobri a ferida eterna de um beijo não acontecido. Disse-lhe algo sobre isso. Ele assentiu. Fez que sim com o dedo, meu menino. Hoje ele me chama pela palavra. Ancora-me sujeito. As três letras mais íntimas e divagantes do mundo. Ele me chama de seu para os amigos. Falando mal ou bem ele se instrui daquilo que pega nas minhas falas, nos meus erros. Ele se equipa do que eu sou para não ser repetindo as mesmas bobagens. Assim eu espero. Espero que de todo corte que lhe infligi, de toda ausência que eu tenha erigido e de toda resposta que não lhe tenha dado, ele passe por sobre. Faça suas pontes, descubra como cruzar lamaçais. Que eu tenha um dia a mais sobre este mundo. Mais um ano em sua admirável pergunta de sempre: quem tu és afinal? Que é a questão a interpelar minha inconstância. Recorrerei a mitos, a passados. Buscarei nas bocas que me pecaram as cotovias poéticas que resignam toda sorte de tragédia, pois suas asas batem ao por do sol. Escreverei, até que murchem os dedos e sangrem meus pulsos, os romances que inventaram quem sou, e soltaram mundo afora o personagem intranquilo que muitas vezes me cumpre. Quero que ele e mais ninguém sele meus olhos no dia final. Sopre em minha boca a palavra fim. Que seja a sua mão e de ninguém mais a me tirar os laços das garras para que eu toque a gente que talvez me espere do outro lado. Ele um dia me trará notícias. Farei como sempre fiz ante qualquer impacto. Um sorriso pequeno, essa glória nostálgica que é a constante vida que me executa, meu coração batendo a mando de um punk muito antigo. E direi resumido, como tem de ser: esta é a única coisa que te fará ser ainda melhor! J.M.N.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A arte de esperá-la

Toalhas e lençóis limpos. Sabonetes. Ligação dela informando “estou saindo”. Cálculos mentais. Preocupações com a estrada. Ligar para a pizzaria. Pedido: uma pequena de frango com catupiri e dois refrigerantes. Entregar apenas daqui a hora e meia. O jantar precisa chegar meia hora antes, pra que ela encontre a pizza ainda quente e o refrigerante gelado. Espuma de barbear. O passear lento da lâmina pelo itinerário que a língua dela encontrou no rosto dele. Banho. Desodorante. Roupas de aguardar. Folgadas pra que ela veja que ele a aguarda de corpo inteiro. TV. Jornal para mantê-la informada. Um pouco da novela pra puxar assunto antes do sono. Relógio e celular sempre na órbita da cama. Ansiedade pela chegada daquele segundo exato em que ela chega e sorri, e o tempo vai embora. WDC

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A rua continua escura, minhas certezas é que encontraram a luz

“É noite. A noite é muito escura.
Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.”

A Noite É Muito Escura, Alberto Caeiro
em Poemas inconjuntos

Não quero eucaliptos no meu banho quente. Nem esfoliantes ou coisas de cuidado, riquezas não quero, as possessões de minha pele. No ato, quero tocar e ir. Ir até os confins do mundo é o que eu quero. De lá para o sono, um pulo, e deste para a alegria, uma única imagem, a imagem da tua forma torturando minha espera em lindas saliências. Não quero contrastes sutis, nem esperanças morrendo, lascas da árvore dos meus genes ou dos teus, nosso dilúvio arcaico, não quero. Estou apto para revirar noites e esperar a poeira sentar sobre teu colo moreno, dormindo e se transformando em areia para castelos. A água os lamberá, nossas terras, teu raciocínio tão pronto e irredutível. Não arderá a pose para os retratos, minha postura, minha guia que não condiz com a tua religião não verá impiedades. Tua mãe preta assobia bênçãos e eu as elejo com a firmeza da entrega. Faço parte dos teus. Estou perto do achado, uma memória, meu melhor romance. Quietudes podadas, bocas serpentes. Não as quero. Não quero o mel duvidoso da paridade, do que só é igual quando me anulo. Semelhança impossível. Quero ser o que pretendes e até onde eu possa te seguir que quero ir. Quero esse rumo incerto para dentro do tempo e de mil álbuns com as fotos seletas de nossas aventuras. Quando chegar a noite e andarmos por ruas absolutamente desertas e escuras, começarei a te contar nossas histórias. Todo o horror passa. Passa inclusive o frio que por ventura caia. Em carne e ossos e urgência, encontraremos o fim para qualquer escuridão. J.M.N.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[...] que seja de amor

Se vires minhas garras, meu pelo eriçado, é sinal de que parto ao ataque. Se vires meu pranto, meu medo ou minha pata partida trata-se do preço que pago de olhos fechados por ser quem sou. Se antes da linha, por trás do desenho entrevires um igual é capaz de eu ter acertado no ponto, ter feito a escolha certa e a tinta do que somos é própria pra nossos rastros. Se de repente sentires vontade de perguntar, não faça. Saberás a razão às portas do céu. Se és quem dizes ser, presa fácil para essa totalidade que nos escalou e botou frente a frente com vidas sucessivas, aguarda, sente. Vibra estarrecida por termos a mesma frequência, sermos feitos da mesma carne. Se torceres pelo fim dos receios, pela compra de supérfluos ou viras a noite cantando velhas músicas que ninguém quer mais ouvir, dispara. Meu peito tem um alvo posto para esse teu tiro. Passarei devagar por tua mira. Acerta o que vires. Se sou o que sou, podes ser quem és. E se assim pudermos ser e sustentar juntos, que seja demais e absurdo, como apenas os desguiados e estúpidos poderiam querer. Ninguém mais merece explicações. J.M.N.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Exausta nota

É para sempre esta distância. Declaro a morte daquele meu último sorriso. E mais: estou com dores de idade, não consigo comprar fiado um único fósforo para acender a última fogueira, estou cheio de sorrir aos outros e mostrar meus dentes sem dar uma boa mordida na felicidade alheia. Enfim, civilizado. De tudo o que ficou – mais medo e experiência que qualquer coisa – esta violentíssima vontade de gritar teu nome. Por nada mais senão memória e vício, costume ou sintoma. Mas não sai. É para sempre este silêncio. Teu nome preso no meu engasgo. Agora é esquecer a condição de antes, aquela completude exuberante, lábios, poemas e pernas entulhados por todo canto da casa. Em cada veia, em cada tipo de circulação, teus nutrientes atingindo minha pouca alegria de espécime. Escavo papéis e encontro a saudade doendo e latejando sobre tudo. A cada palavra que descobri, perdi mais da substância que me fazia teu. E porque falei de tudo quanto sentia pelas linhas desta mortalha dos ditos e dos contos de amor, agora não irás à minha estreia. Sequer poderei te oferecer um livro. É para sempre este cansaço de esperar o que nunca mais virá. J.M.N.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Porque já houve um amanhã

Hoje penso no amanhã como uma janela sempre aberta. Nada de morrer novo e com muitas histórias mal contadas sobre mim. Amores por ai pensando no que fazer com minha loucura. O que fiz, fiz nesta existência, sob a ocupação noturna das estrelas. Em nome de romances que nem sequer escrevi, porém, contei a tantos. Vivi mais humano que muitos, subitamente entregue à manhã das manhãs. Acordei como água nascente. A lamber a terra de todos os caminhos. Algumas vezes fiz desgraças. O peso dessas lições ainda está. Por vezes eu fiz pessoas amadas sofrerem, mas não sem antes sofrer imenso. Há mais uma nota a ser escrita. Mais uma data a comemorar. O dia exato em que nasceram a latitude e a longitude do que fui e sinto nesta altura da vida. Este dia que vai morrendo. E porque o tempo já vai seguro em novo barco, posso dizer. Posso açoitar lembranças com as nossas lembranças. Posso fisgar os peixinhos cardumes de quando eu fazia a felicidade deste dia. Data de abrir-se. Entre abraços e cópulas com as palavras vou me saciando a existir, sem medo, nas lembranças deste dia. E se repito isso por mais um ano é por não haver razão em desfazer as relíquias. Ainda não há sentido fazer-lhes de testamento. Haverá o dia certo para esse pago. Enquanto isso, repito brados e a vocação de extinguir-me entre os braços amados, oferecer a distância segura e o morno da carne num beijo comprometido. Apenas para celebrar quem renasce em mim, independente dos calendários, de convites ou das palavras. J.M.N.

Para ler escutando…

terça-feira, 10 de julho de 2012

Império

Eles me disseram vem. Vem a nós com as próprias pernas, teus estranhamentos. Vem encarregado dessa coisa utilíssima que é a tua graça. Resina a unir nossas pontas soltas. Carrega outros quantos quiseres.

Eles estavam às portas do meu futuro, por onde entrei e finalmente encontrei a cama feita, meu suspensório da infância, minhas fotos dentro do circo, com muitos palhaços e seus malabares. Nenhuma das minhas roupas seria descartada ou se tornaria pano de chão.

Encontrei no calor de sua recepção a distante paz dos afastados, dos que se pedem por toda a vida, mas não chegam nunca a si mesmos. Eles. Feitos de cedro, cheirando a milênios e fazendo as mesmas imensas coisas de cuidar que faziam no vale das almas, antes do tempo. Amplidão sem tato que é o olhar daquela gente. Um universo inteiro em seu sorriso.

A gente de um presente mais que humano, a vencer o medo de se apegar fácil. Emprestam suas redes. Cedem seus quartos e penhoram a tranquilidade do sono para que eu esteja. Essas pessoas monumentos que não fazem abrigo, pois são abrigo. Sob quem eu felizmente esqueço a minha dor.

Aquela gente de um templo antigo, cuja reza, além da cura, traz a harmonia desejada desde o ventre. Gente que empresta seu Cristo não por caridade, mas por respeito. Gente sem a qual, certamente não haveria sentido em proclamar esperanças, afundar-se num abraço ou seguir adiante. J.M.N.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Palavras de Outrem

Esse cara de quem abaixo ponho uma poesia, foi a primeira pessoa que distribuiu um conto meu. Foi, na verdade, a primeira pessoa que abriu as portas da sua casa para eu ler minha pobre literatura e me ajudou a conseguir a façanha de pessoas gostarem de uma ou duas linhas.
Confesso uma alegria extra em poder chamá-lo de amigo. De Gustavo Autran Rodrigues... no Palavras de Ontem.

contrabajissimo

ando
ando e sei que sina
é esquina e susto

ando
e dobro apostas
como se tudo fosse caminho
como se nada medisse vida
como se os sinais nunca falhassem
como se o tango seguisse além dos quatro quarteirões

pra ver
que te ver me impele à vida
me impele à morte
algo de tragédia

rápida
ríspida
risível

quase leve
quase desejada

e que se volta
contra mim
num doente
contrabajissimo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Personagens Indistintas IV

Sim, elas me doem como a última expressão da liberdade que será perdida daqui a uns dias. Elas corroboram a minha condição sem mais nem menos, sendo apenas aquilo que eu não sou. Suas perguntas, minhas ofensas. Minha senha para a traição. A mentira de querer voltar para reparar tudo, pela última vez. Tudo isso me dói como se fosse uma mulher encravada no canto mais inflamado de minhas unhas. Queria me livrar delas, mas parece que estão nos meus átrios e ventrículos. Queria expeli-las tosse afora, mas estão oclusas em meus bronquíolos, em minhas vênulas. Mais secretas e artistas do que eu poderei ser um dia. Estas linhas delas. Minha rudez e preconceito se esvaindo pelo amor gutural que me preenche quando elas chegam. Aquela impressão de instantâneo que tem o filme recém-apresentado à luz. Tudo o que é delas me retrata, tudo o que eu sou já foi nelas também. E mesmo assim, secretamente fico incrível ao topar com uma novidade que explode num novo beijo. De dentro de um nome descoberto, de um adeus dado com mais entusiasmo. Essas mistura indivisível que nos torna elementos combinados da mesma substância. Procurá-las, vê-las, magoá-las e depois sofrer mais que antes é simplesmente ser homem. Função demais para alguns. J.M.N.

Lealdade

Eu não existo
Compulso
Réquiem do desejo

Eu não me entrego
Evoluo
À solidão acedo

Sou mínima aqui
Sozinha e láctea
Áurea

Mas não pura
Puta de mim
Primeira e última

Eu não canso
Possuo
Inimiga íntima

Morro
Na mesma boca
Que me promulga

J.M.N.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Isso é de quando eu morri

Eu inventava mundos. Era divino
Mamãe me passava pimenta para não roer os dedos
Eu chupava o ardor dos dedos que não roía
Eu matava a minha mãe, já muito pequeno
Não de ira, matava de horror. Ela não me sabia
Nem Ela nem ninguém me sabe. Isso é de vida
Minha dívida para com a sorte
Ninguém saber de você é não existir – diziam
Mas como eu vivo?
Isso não faz calo na minha pensa
Não diz mais que a certeza de que é cada um por si
Isso não é de quando eu virei amendoim de tanto que doía
Isso eu não aprendi no catecismo
Minha divindade padecera
Eu já não criava mundos, eu trabalhava
Eu era fiel. Trazia alimento a um amor de prateleira
Isso não era de estanho. Não durou o que eu durei
Isso é de quando eu morri

J.M.N.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Personagens Indistintas III

Mulheres de fogo e avencas. Mulheres lindíssimas de ornadas almas e tenebrosas mentiras. Mulheres que vivem para o sonho de outrem, que concorrem com elas mesmas pela posse de nada. Eu as quero. Eu as comeria impiedosamente fossem bater à minha porta. Sem demanda preestabelecida eu daria minha pele para segurar-lhes o orgulho no cimo de seus mistérios e a orfandade da beleza que os outros oferecem e tiram ao bel prazer. Eu calibraria todos os espelhos do mundo para evitar que sofressem com o tempo. Àquelas que estivessem de bem com os gracejos da derme, do desalinhar dos traços divinos, eu agradeceria a oportunidade de vê-las segurando suas maquiagens. Preparando-se para sair. Ir à missa, mais recatadas ou à noite, mais perigosas que nunca. Sim, eu esperaria as eternidades sonhadas pela volta do primeiro olhar e seria aquele caderno da canção para receber os traços, os dramas e suportar todas as faltas e também todos os excessos.

Aos amores involuntários

Eles me acontecem. Quando vejo sou esses amores sem piedade nem controle. Fui instruída a não voltar não abdicar de minha dignidade, mas amar com voracidade é um fator de risco que poucos tomam para si. Amar acordada e reles, quase uma sem nome. Se fosse Zé Régio e tivesse parte naquele seu cântico negro, diria que minha vida é um átomo animado. De tão potente que eu amo, decifro tão pouco dos outros, mas tenho a totalidade do que eu sou na palma da mão. Ao me acontecerem os amores sou completa. Sou toda. Permanente e mais dura que as rochas lambidas pelo mar. Cheiram tão bem esses amores urgentes e platônicos que eu não controlo. Que quando me escapam sou melhor do que eu costumo ser e a vida ganha matizes mais vivos e sagazes, estou pronta para as novas latitudes. Mandada para fora de mim. Ser do outro completamente é ser poderosa em tudo quanto não sou na solidão pretendida e difícil. Não sei para onde vou. Não sei se te direi quem sou. Não sei, sequer, abrir mão do anonimato que te invade e ocupa. Mas sei que não vou por ai. Ser involuntária no amor, não quer dizer estar perdida. Sei exatamente onde anda minha alma e minha harmonia. Dá-me um beijo e saberás o que eu digo. J.M.N.

Música de amores involuntários acontecidos…

sábado, 23 de junho de 2012

Personagens Indistintas II

Fedem nas manhãs em que acordo violado de bebida, as narinas cheias de acordeons e suficiência. Uma a uma me pedem abrigo. Eu dou tudo o que posso. O que devia guardar, inclusive. Estão lá, como montanhas ardilosas que me fizeram obstáculos no passar do tempo. Insuportáveis que me têm mais do que a mim mesmo. Sou delas, enfim. Ensinando e aprendendo. Lambendo os dedos pelos prazeres ofertados, pelos roubados, pelos inalcançáveis. O que querem de mim? Meu traseiro? Minha história? Querem ter esperança novamente? Eu pergunto isso com tamanha piedade e sou tachado de arenque, pervertido, um borra-botas que não teve coragem nunca de ficar. Às favas é o que eu digo. Estou com todas elas em meus cemitérios, na beirada de meus abismos. Estou colado a suas fotografias desde que os primeiros beijos surgiram e eu pude soprar-lhes um punhado das coisas doces que aprendi e faziam meu mundo melhor.

Personagens Indistintas I

Alumbram minhas noites as desgraçadas da ponte. Aquelas mulheres dependuradas. De umas vidas imundas à beira do mundo. Meu mundo as colhe e rapta para dentro do tesouro da letra. Viram Margaridas, Tulipas, Mirabilias, Vitórias. Mas a coisa feia de as ter comprado tão barato se insinua perpetuamente. Esfregam em meu rosto as minhas escolhas. As feias com as abandonarei se de seu amor sem rosto eu me venci e acordei para o mundo. Como negar as empregadas suspensas nas porções mais nostálgicas de minha adolescência. Todos escondiam ou preservavam-se para a pessoa certa. Sempre achei que a pessoa certa não viria. Como não veio sempre e como continuará sem vir. Pois certo mesmo é que aquelas mulheres me culminam. Admiro-as todas em seus corpos bem feitos, mal feitos, corpos esquálidos, corpos de sirenas, alados corpos de aves fugitivas.