quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Po(e)magem #7

Sobre a bela e trágica imagem
partilhada por Imad Alremony
Em: 06.12.2012

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Trago nas costas a minha casa
Mas não sou um bicho, um crustáceo – fugitivo, refugiado?
Quem sabe circunscrito num mundo de mil imagens, afeto não
Estou à espera. No mesmo lugar de ontem
Nas mesmas perguntas, mergulhado há anos:
- Sou de quando? Quem me sabe? Quem redime?
E sigo calando a tua verdade – não há paz que se compre
Não há mundo melhor, sem que crianças não tenham abrigo
Sem que imagens denunciem o que não temos:
Razão ou tempo para cruzar os braços!

J.M.N.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Compromisso

Às três da manhã eu levanto em sede e sono, desregulado. Chego ao pote de biscoitos, encontro a sobra da carne do jantar. Minhas mãos caminham feito aranhas pelas paredes a procura de um interruptor. Tateio o macio molhado da esponja de lavar louças, penso no asco que sinto entre sabão e restos de comida. Certamente fiz uma careta. Meu joelho foi na direção da tragédia. Meu cotovelo beija a quina do armário. Um raio agudo percorre o corpo. Amanhã haverá hematomas por todo canto do corpo. Mesmo assim não acordo. Encontro a água, o copo transborda. Me farto na mentira de matar a sede que é própria de toda água, o copo flutua. Não sei de onde vem um cuidado secreto e quieto que me acompanha na vida inversa do meu sono andarilho. De repente tudo faz sentido na semi existência noturna. Volto por outro caminho. Não conheço obstáculos. Meu joelho parou de doer. Tenho um guia que me entrega suave ao mesmo ponto da cama. Os travesseiros se ajeitam. O cobertor vem por sobre. Calor e tranquilidade. De manhã sou sempre calado. Recebo um beijo. E finalmente ela pergunta se meu joelho está doendo, se eu tive um sonho ruim ou se sentia frio, mas não queria desligar o ar condicionado por sua causa. Segundos em silêncio. Seu rosto é tudo o que vejo. Agradeço no íntimo a sua presença. Não, nada me dói, nem sinto frio, mas desligaria o ar por sua causa. Ela me beija. Meu dia começa. Percebo que é sempre assim desde que ela está em minha vida. Sou guiado durante o sono, saudado na vigília e isso sem nem sequer haver um nome entre nós. Sem nem ao menos termos feito votos de comprometimento. Acontecemos, simplesmente. O rastro da proteção da noite ainda me encima. Hoje sou eu quem conduzirá a madrugada e ao seu mínimo desassossego, devolverei justamente o que nos une, aquilo que nem precisa ser dito para sabermos que se encontra, seja nos descaminhos do sono, seja na claridade do dia. J.M.N.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Naturalmente

Agora que o beijo é constante e as pragas enviadas supostamente pelos céus esmoreceram, pergunto fino na calada da noite: ainda tens o poema escrito que te fascinou noites atrás? É uma pergunta perdida. Uma retórica estúpida que pretende tão somente saber se ainda pensas naquilo tudo. Se teu sorriso incontido é sinal de que moramos secretos um no outro. Quero que saibas que tudo quanto ainda escrevo, faço por não te ter deixado morrer em meus escaninhos, nas minhas relíquias. E talvez seja esta minha maior inconformidade, pois no fundo sei que nenhum assassinato tiraria tua presença. Enquanto resolvo parte do suposto saber que nomeia agora meus planos para o futuro, vou enganando a fome da tua presença com mais páginas mergulhadas em confissões e alardes. Como se fosse natural contar coisas depois da morte. J.M.N.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A partir de ontem

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Já publiquei e retirei este texto várias vezes do blog. Já o inseri em coletâneas, em outros trabalhos. Vejo agora que seu lugar pétreo é aqui mesmo. Retorno-o pela última vez. Ele nasceu em 2010.

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Agora não existe barulho em meu sono. Posso dormir sossegado. Não há reajuste de corpos e cobrança de dívidas antigas debaixo das cobertas noturnas. Posso correr no torpor de meu cansaço, sem obstáculos.

Não há razão para comemorar.

Sem celebrações fica difícil entender se as horas passam e mesmo quando vejo o avançar dos ponteiros tenho dúvidas.

Hoje não posso dizer vulgaridades, não posso cantar por ver a manhã acesa em paz, café na mesa, livro na mão e poemas. Não posso comer falando absurdos. Teus barulhos se extinguiram.

Hoje estou entregue à minha chatice, meus obséquios para comigo mesmo. Estou servindo de alvo para o destempero que são meus atos sem as lutas frenéticas de nossas carícias mais aterradoras.

Machuca não ter intenção nos gestos.

Não consigo justificar meus abraços e os entes amados ficam a deriva, envolvidos por braços injustificáveis.

Fica decretado em estatuto que a vaga de tua presença jamais será preenchida. Que mesmo não voltando - por impertinência ou impossibilidade - não haverá outro para me reconhecer olhando para mim de onde estiveste, e, aquela que fui, nos segundos de nossas mortes sucessivas - as sedes infinitas - estará finalmente no seu calabouço, não haverá de ver a luz do sol nunca mais e sem saber como se parece com o passar do tempo, poderá ser uma pedra ou a própria cor da tarde, uma opção para o infinito.

Nessa condição, a única possibilidade de indulto é encontrar caracóis perdidos, que estes são mais lentos que o esquecimento.

Esta porção de meu ser – sem o teu reconhecimento – escreverá, um dia, um romance sobre o acontecido e não haverá pessoa que não chore, não existirá dureza que não ceda diante daquela história.

E quando deixarem de se encher meus pulmões e tudo for um grande e último espirar de despedida, teu nome retornará à minha boca e ao dizê-lo num riso sussurro, ficarás para trás.

Resumida a um último segundo de vida, a menos de um decibel de fala, como quando dizias que jamais te perderias de mim e quase arrancando meus cabelos pedias para eu dizer que te pertencia. J.M.N.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ocupá-lo

É como chegar a casa e tirar os sapatos experimentando o tapete da sala. Fisgar com os pés micro sensações incríveis de animação táctil que sobem e descem pelos caminhos do corpo, representando-me aos poucos, dando-me curvas e gostosura. Pondo-me com gosto para ser saboreada. Isso me desperta, me cura das suspeitas do mundo sobre meu estado de alma. Usufruir-me por um segundo de plenitude, os pés ambivalentes querendo me destinar à firmeza do chão e ao mesmo tempo impulsionar-me num voo sem fim. Rumo ao imaginário fulminante de suas fantasias. Usá-lo de qualquer maneira. Abrindo muito os braços em gestos esquisitos, inumanos ou como pássaros fazendo suas cortes. Plumas desreguladas pela euforia de descobrir que sou ainda mais eu quando perdida em casa do seu tato. Seviciá-lo, cuspir em seus restos, cumprir a maratona de agasalhos dos beijos noturnos, minhas costas esperando que ele se aloje. Eu cheiro. Cumpro-me, a perdigueira feita mulher cachorro, assim mesmo misturando os gêneros, como aquela do escritor de asneiras facílimas sobre o ridículo que é sentir amor em Terabytes e coloca-lo nas redes sociais. Lambo seus dedos. Dentro da mais cerimoniosa desposse eu sou tudo quanto queiram suas mãos de artesão. Chamo-o de homem. Nunca de meu. Sou antes, dele. Decido passar aos outros aposentos. E sem precisar de espelhos ou desguias, me perco. Ocupá-lo é como rastejar de sede no deserto e ainda assim não suportar uma gota sequer quando resgatada. Salva. É isso que estou. E num último gesto de redobro volto ao núcleo de mim – um feto – abraçando as próprias pernas esgarçando o couro dele que me envolve. Firo. Curvada sobre mim mesma. Vestindo sua pele cedida as expensas de uma intensidade que sempre quis e não suporto. Finalmente compreendo: ocupa-lo é ser o que sempre estive destinada a ser. Detentora de minhas incertezas. E nada mais. J.M.N.

Fotografia–Cenas da Cidade (Parauapebas, 2012)

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O olhar que os passantes lançam pra aquelas fotos é o mesmo olhar da criança que se vê pela primeira vez no espelho. A presença daquele estranho tão nosso, que nos imita em alguns gestos e palavras, incomoda e nos remove do meio das lembranças boas das origens. Logo somos expulsos pra dentro do mundo e, através dessas fotografias, nos recolocamos na cidade.

Parauapebas tem luzes insones na madrugada, dos trabalhadores do turno, dos ônibus que carregam gente pra cavar a terra atrás das preciosidades subterrâneas. Na madrugada ainda, nascem os primeiros seres que sentirão a maior saudade do mundo, a saudade da própria terra. Nas fotos apareceram crianças de uma pele cobre. Ao fundo o céu anil lhes convocando à permanente lida pela invenção de si mesmos e desse lugar que a cada prédio exige um novo olhar.

Graças aos fotógrafos Anderson Souza e Felipe Borges agora a cidade onde moram tem cartões postais que não se resumem a gaviões e onças. Das paredes do Centro de Desenvolvimento Cultural da cidade desabrochou como milagre um povo plural e, por isso, singular. Uma gente em estado bruto e, por isso, rara.

Trata-se de uma filigrana, um quase-nada, mas esses cliques são de um atrevimento desnorteante. Quem teria a ousadia de parar de espernear como um recém-nascido que espera a atenção de um cuidador que não vem? e, pior dos esconjuros, revelar a beleza que se nega? Esses meninos tiveram! Vamos odiá-los por isso. Por mostrar a nossa cara. Por mostrar que temos uma cara. Por nos lançar nessa aventura dolorosa que é o crescimento. WDC

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

No dorso do tempo

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Compartilho com vocês o primeiro texto de outro livro que finalizei e que, em breve, como venho me prometendo há tanto tempo, estará impresso e circulando por ai.
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Já vão fundas no meu dentro caduco, aquelas tuas imagens. Tua pele não é mais pele. Um manto. Proteção para saudade que frequentemente rompe e a deixa escapar. Me deixa escapar. O que disseste em linhas tão duras não durou mais que o instante. E resta da frieza do teu ferro, apenas o tal bolero com o qual dançamos nosso amor no escuro. Sem futuro, como um câncer decidido e bastante espalhado. Fomos desde o início, início e fim.
Nosso amor sexagenário dos quinze anos e depois dos vinte. Repetido pela estirpe precedente dos insondáveis, meus ratos imundos – a família ultrapassada pelo escuro. Passeantes da memória e dos conluios feitos antes de mim para que eu não chegasse a dar certo. Para que eu não resultasse.
Fico feliz por terem falhado. É o que penso. Era o que desejava desde sempre.
Nosso amor de descuido, de rua, caminhante. Repetido em termos e prazos, nosso amor fazia seus passos pé ante pé com a virtude que não geramos, que não quisemos. Alavancado por oboés sonhados. E aos suspiros, o mar de azuis e lençóis nos cobrou caro a entrega, força bruta pelo que não sabíamos. Cansaço. Um punhado de missas enjoadas e confissões pretendidas.
Nosso amor não alcançou nada além de si mesmo.
Nosso amor de mais nada formado senão do magma incandescente da pouca idade, do muito uso.
Haveriam de nos por limites as três grandezas indissolúveis da vida: o tempo dos anos que rói tamborins e deixa o som – antes ardente – meio murcho, mais inseguro; a quilometragem do corpo em uso, inconstante e sem jeito como qualquer carne pronta para o consumo; e o dorso do mesmo tempo sobre o qual escorria nosso amor e nossa parceria, escangalhados por tanta incerteza.
Trombetas dos que se foram. Assovios salientes. É isso o que ouço. E tu? Onde acabam teus ouvidos? Eles cansaram?
Aquela última grandeza, a mais sequaz, longilínea dentre as nobrezas que não funcionaram, dentre a destreza que se cancelou pela escolha – a incrível semelhança do que nos separou e nos uniu – vai descolorindo.
Já soa a nada esta lembrança agora e mesmo assim tem força.
Nesta lembrança, em cuja profundidade mergulhou meu som, faço silêncio. Deste passado tão presente em cuja distância reclama minhas faltas, faço questão...
Faço questão de te dizer que não sei nada e não quero nada.
A licença da lua será usada para por traços quando for procedente pintar, quando chegar meu tempo de não poder concatenar as ideias. Assim direi o que não posso. Estarei arrependido do que não sou agora, aquela imagem que queres ver em meus atos tão desesperadamente.
Vou dizendo este sem jeito que são as coisas. Esse negócio mal fadado que foi nosso último beijo. Apenas para que lembres – não fui o primeiro a dar de ombros ao que nos vinha.
Não fui sequer, tão obstinadamente o que te queria.
Tímido, desejo apenas não ter mais idade, não ter peso. Desejo que não me venhas com meus erros listados uma a um. Eu sei exatamente o que eles são e o que fizeste depois me socorrer dentre muitos.
Se não tens mais falas, fica sentada ao lado. Eu também já fui apunhalado tantas vezes pelas costas que é quase sem pele que me despeço finalmente. É assim que as coisas são.
Preciso decretar o fim, inventar que foi tudo por acaso. Assim poderei passar para os autos do meu tempo. Emergir. Poder, sem tempo ou carne, corpo ou percurso, usar de novo o emblema de amado. Estatelado e surpreendente.
Estampado com muito cuidado no acabamento. Como se fosse uma imensa flor de cacto cosida inteirinha numa de minhas camisetas mais anis. J.M.N.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O olhar sequestrado (ou a via da imagem eterna)

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Texto sobre o tema geral: “ícones da sedução em todos os tempos”, escrito para uma nova revista impressa que deverá circular em breve na cidade. Terei de escrever outro, pois ainda não sei calibrar direito a objetividade desejada para um texto de revista e o peso da poesia nas minhas palavras. Quem sabe não saiba mesmo fazer isso – ou não deva. J.M.N.
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O olhar é um grande descuidado! Suscetível aos perigos mais imediatos de um encontro. Talvez por sua infantil pretensão de alcançar todos os horizontes na visão, talvez pelo imperativo de comandar as regras na cegueira. Mesmo quando mudo – mergulhado momentânea ou fatalmente no silêncio da escuridão – arfa a compensar seu desespero por reconhecer e guardar na memória aquilo que o mobiliza, encanta, seduz.

Quando impresso no olho – uma visão, quando consumado em artefato – uma pintura, uma escultura, uma série de sinais com as mãos – outra linguagem. O olhar é transmutável. Seu encontro com objetos funde ideias ao poder dos sentidos. Resulta a imagem. A imagem alimentada pela imaginação se mostra um ícone. Representante sublime com o qual traduzimos o que nos captura no íntimo de todos os segredos.

O olhar é uma eterna vítima de crimes hediondos – especialmente o sequestro – relâmpago, de dias, meses, décadas. Sua única esperança é possuir meios de pagar o resgate, seja com a mais bela lembrança, seja com a eternidade de uma busca em repetir o sumo impressionante do primeiro encontro. Comumente não deseja escapar.

Entre sucumbir e viver devem ter ficado aqueles que em 1935, viram estarrecidos a aparição espectral de Bette Davis no filme Dangerous, ícone eterno do olhar da sedução. Sob suas safiras, como dizia devotadamente Arthur Miller – ao mesmo tempo em que estava marido de Marilyn Monroe – sucumbimos nós, meros espectadores, nós homens em sexo e desejo, e, sobretudo, nós do gênero humano, despossuídos da capacidade de suportar a presença daqueles olhos tão potentes, ao mesmo tempo, desejando-os intensamente.

Rita Hayworth revelou os estranhos sinos que vinham de além do tempo e espaço das salas de cinema e perpetuavam-se dias a fio, zunindo em campanários longínquos, transportando homens e mulheres ao incômodo reencontro com sua beleza ferina e sensualidade ainda sem pares, cujo maneio de cabeça e o balançar de cabelos marcou a forma como as mulheres deviam conduzir seus jogos de sedução a partir de então. Sua beleza flutuando sobre o noir do filme Gilda, nos anos 50 é mais uma destas materializações do sagrado artístico que nos enleva.

Carlos Drummond de Andrade, poeta dos muitos resíduos decretou que de tudo fica um pouco/ do meu medo/ do teu asco/ dos gritos gagos/ da rosa fica um pouco. Os ícones são gravuras que deixam suas marcas, gravam-nos de volta, espelham-nos. Amá-los, assim, como ídolos fica fácil. Basta lembrar Marilyn Monroe, Burt Lancaster, o automóvel Aston Martin dirigido pelo melhor James Bond da história: Sean Connery, a Vênus de Milo que requer a devoção do abraço, a Vitória de Samothrace e sua imagem decapitada a proteger marujos incautos.

Um sem fim de redutos para o deleite. Assim são os ícones. Elvis ainda me leva para o trabalho todos os dias, quase rezando a letra de suspicious mind, cuja primeira estrofe sentencia: fui pego numa armadilha/ não posso escapar/ porque eu te amo demais querida. Misturados os sentidos, o final do poema citado de Drummond, Resíduos, clama o fim do mau cheiro da memória pela simples abertura de vidros de loção. O olhar também pode ser seduzido pelo cheiro. O olfato é cúmplice habitual em seus sequestros.

Coco Chanel transformou a alta costura e influenciou definitivamente a perfumaria mundial. Como arma da sedução, seu Chanel nº5 atraiu muitos. Seus prisioneiros eram erroneamente advertidos pelo reduzido tamanho do frasco. Talvez com Chanel e sua invenção, o dito popular que toma por mais letais os venenos guardados em frascos pequenos tenha alcançado outra dimensão, refinando-se numa epifania garantida pelo deslumbramento das imagens de venda junto às quais o perfume era apresentado nos cartazes.

Nas artes, na moda, no cinema, na literatura os ícones abundam. A sedução, como resultado da mistura de elementos, desde a paixão do artista, do criador, até a ferida tocada no peito de quem admira a obra, o produto cálido da excitação instantânea ou duradoura que advém da imagem e sua luz, seu gosto, sua textura e seu cheiro fazem com que a experiência assuma um significado especial e particular, cosido em definitivo nas referências simbólicas das pessoas e repassadas ao tecido que as torna participantes ativas da vida através de histórias, demonstrações e repetição da exposição de seus ícones particulares.

Falar sobre o que é universal, assim, soa pequeno ou impossível quando a profundidade do que se sentiu diante de uma imagem só chega à compreensão externa quando outros elementos ajudam a retomar a força elementar da experiência. É o que penso. Desta feita, para terminar o que me foi pedido – falar sobre os ícones universais de sedução – recorro àquilo que me é mais caro e secreto atendendo ao impulso de registrar o vivido ao mesmo passo em que temo não ser compreendido ou parecer fora de contexto. Afinal, o universo está em cada um.

Meu ícone não é uma foto de Henry Cartier-Bresson a suspender o tempo e eternizar um homem que anda anônimo pelas ruas de uma Paris devastada. Não é um casaco Visom, um óculos de sol Dolce & Gabbana, um terno Armani. Nada tem a ver com Sônia Braga subindo no telhado de Nacib para pegar uma pipa fazendo com que a geração de meu pai não pudesse conceber outra mulher sendo a Gabriela de Jorge Amado, como disse o próprio autor, numa entrevista nos anos oitenta. Não é, enfim, a Carla Camurati, alma gêmea de um amigo querido, insuspeita diante da decepção que provocou ao não retribuir-lhe um olhar anos atrás.

Termino voltando ao começo, a falar sobre a via prima da sedução – o olhar, ícone do deslumbre. Constante e destreinado na modernidade apressada da produção em massa, das metas de trabalho, do impossível aos encontros com a família. O olhar como Coliseu das batalhas pela supremacia de quem quer ser apanhado no turbilhão crescente da entrega, do perder-se em si para ser recuperado pela voz e pelo toque do outro.

Falo do olhar como a suprema corte do que esquecemos em nossa humanidade; via que se refaz a cada novo brilho, em cada novo foco. Olhar de comer fotografias como em Chico Buarque ou como a lança da incerteza na Monalisa de Leonardo Da Vinci.

Meu olhar também foi sequestrado.

Meu ícone é esta pessoa de gestos simples e arquitetura morena que vem sempre antes do meu sono e diz que tudo está bem e que dormirei sem calor ou maus presságios. Esta pessoa de carne e osso que tem nome de santa, mas não o cumpre. Meu ícone foi “esculpida” em carne, ossos e ternura e me mostrou que estar em cativeiro por desejo é o contrário de uma prisão – é liberdade a dois. Não precisa, afinal, de um nome meu ícone, ela sabe o que representa para mim e o preço que pago por estar seu cativo é também um prêmio.

Um amor simples. Talvez a maior das artimanhas de sedução em todos os tempos, em todo lugar.

Belém, 28 de outubro de 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Palavras de Outrem

Vou publicá-lo. Nunca pergunto se posso. Assim vamos vivendo esses anos de amizade. Aparados pela possibilidade do encontro – quando der, deu. Ofertou-me generosamente este texto maravilhoso. Imprimo-o com dedicatória e tudo, pois como dizia meu mestre Sigmund, temos defesas contra os ataques e somos indefesos diante de um elogio, neste caso, uma dedicatória. Texto de Gustavo Autran Rodrigues

[Para José Mattos Neto]

ela é doce
ordinariamente doce
como a reconhecemos
como recolhemos seus sumos
como a redimensionamos
e, claro, isso também é ordinário
mas como ornas essa carcaça, esses ossos roídos pela flor dos dias
no teu fôlego
na lâmina do afago
nas janelas em chamas
chovendo tuas folhas
do cubículo úmido que cabe no teu salário
tuas fomes,
teus prenomes
outono, ourives
esquartejando a vida
ligando os pontos
não sei como fazes

não sei como engendrar teus cuidados
não sei como inventar teu hálito dândi
não sei como manufaturas
essa mentira primal
– onde nos refugiamos –
onde douras a noite, a cave
tentando tão somente
transgredir a morte

Anotações às margens do romance II

Nada explica essa falta. Nem mesmo a presença, o tempo transcorrido em dobro. Começo o dia de cabeça baixa, chamando atenção de ninguém. O espelho espera. O café sequencia meu abandono, sua fumaça fina e perfumada atraindo apenas quem não possui alimentos. Ao cabo de uns minutos a sensação perigosa da eternidade. Viver para sempre seguindo apenas o tempo. Um horror impensável. Nada explica esse momento de eternidade e instantânea agonia que se encontram ao mero sussurro do teu nome. Alguma coisa muda. Insignificante. É minha alegria debruçada na imagem finíssima do teu sorriso, no balanço dos teus cabelos. Onde andarás agora que nunca nos encontramos que a propriedade de tuas partículas é igual àquela teoria dificílima que diz ser possível um elétron passar por dois lugares ao mesmo tempo, desde que não estejamos olhando. Mas meus olhos estão tão abertos e voltados para o outro lado. Por que então não sinto sequer a tua presença? Me vem uma música e a última linha da peça de teatro que escrevo desde que foste embora: o amor é feito de pequenos atos e de pequenas palavras – amor, dor, sempre, frio, manhã e fim. Não queria ter escrito isso. Mas a música levou o crédito – When we woke up that morning/ we had no way of knowing. E sem saber começamos o dia. E sem o dia saber, foi o nosso último. J.M.N.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma palavra

É perigoso dizer teu nome. Já não escutas quando te chamo. Esse fosso, entre a súplica e tua identidade não me traz de volta. Vou declinando.

A existência sem tua voz é uma farsa. O que reconhecias de mim anda nas bocas. No lixo daquele lugar amistoso, porém falso que éramos nós. Um do outro, a ilha obscura da fatalidade.

Outra distância se me encurta. Meu passo a passo dado a nordeste. A fuga é como toda noite em que nos tínhamos – um fogo vermelho, incandescente, a supressão das vontades. Terminávamos nada, porque nada começamos.

Uma das coisas que ainda conto se trata em livros, amor de antes, outros tantos deuses. Nosso sagrado – corpo e sangue – a ternura indisponível aos que se seguiram apenas humanos. Eram pouco demais entre nossos prantos. Eram demais no apelo por nossas culpas.

Não as sentimos, esse é nosso trunfo. Será nossa morte, mas pouco importa. Se a manhã cumprir a promessa de se deitar sempre em nossas bocas, calaremos. Seremos nada. Verbos nulos. Seremos sempre mais próximos.

Logo, logo nos chega a hora. J.M.N.

Para ler escutando…

Insuspeito

Olho através da fechadura. Estou comprometido. Atrás de mim a pouca vida sem sentido que me havia. Do outro lado, através do pequeno furo, a imensidão de coisas que não tinham preceito no meu pensar. Não sabia que palavras fazer juntas para aquilo. Dei de inventar. Enquanto mais entrava pelo buraco, mais se espremiam palavras. De tarde sempre eu tenho invenção de pessoa, me furou o olho a impressão da mulher nua. Ali estava eu. Sentindo através da brecha. A fehadura corrompida. A porta fechada ainda. Atrás de mim não era coisa nenhuma senão soldadinhos sem missão e carros de aluguel para minha inutilidade. Ali sim, fazi sentido. O corpo que eu ganhara, o sabor da tarde nascendo na lingua – com pelos, pele escura, um peito enorme. Ali eu nasci para dentro. Foi meu primeiro parto. O nascer, assim dito, foi apenas a estréia da luz sobre o que eu tinha de carne e incertezas. Aquilo ali foi a minha primeira certeza e junto dela, eu tinha a palavra. Mas preferi ficar em silêncio mais um pouco. Enquanto ela fingia que se escondia e eu fingia estar entendendo que eu existia. J.M.N.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Anotações às margens do romance I

O outro jogo não se ganha. A vida passa depressa demais. Apostas na mesa. E... fim, 22 vermelho sangue. Meu dia de nascimento foi quente como não sido em mais de uma década. Ninguém sai do útero impune. Fui logo reclamando da medida das cobertas, do muito branco daquele lugar, da intempestiva decisão de se colocar o meu nome em mim. Mas não colou, tudo ajustado à vida alheia. Eu começando virei assim pro camarada que me pegava no colo feito uma mortadela degelada: qual é a situação desse lado de cá heim? A resposta foi um grande e melancólico silêncio. Só entendi o que viria depois quando já era tarde demais. Custo a entender por que nascemos. Mais fácil é saber a razão da morte, vem no laudo, naquele papel que te determina o fim da existência legal, quando jamais se vai poder comprar um pedaço de terra. O que eu digo além dessas coisas é pra esquecer. Hoje eu sentei aqui e me aconteceu de estar disposto a escrever sobre esse dia. Esse dia de muitos invernos atrás, quando eu sentei no corpo que me conduziria vida afora. Caucasiano de mentira sentado nas obrigações de antes de existir no papel. Foi isso que eu escrevi: às duas horas da tarde a sede apertou e eu não tinha nada para beber. Sem graça, expressão sublime de não ter nada a dizer e depois apenas um conforto imediato e puríssimo, resultado de uma expressão muito antiga e de cálculo fácil. A foto dela decepou meu estado de espírito. Fiquei vago, vagando. Vazio coberto de anteontens. Um sujeito que explode quando escreve e quando ama faz um bocado de merda. Naquele silêncio que me foi oferecido nunca ninguém me explicou com um olhar sequer o que são as palavras esvoaçantes que nos esperam do outro lado da morte, nem mesmo o silêncio me pode convencer que está tudo certo e que amar é isso mesmo. Sentei para escrever um romance e me veio quente e úmido a lembrança do nascimento, das coisinhas inúteis que fiz até suspender meu próprio corpo e errar o primeiro caminho. E se tudo mais que fiz de errado me veio à mente, talvez eu esteja pronto para seguir no trabalho. Escrevo um livro que se chama assim: ninguém devia usar o corpo. Há uma esperança neste título – me tronar parte da estante de alguém. Esse é o triunfo do romance. J.M.N.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Outubro Insano–Cinema e Loucura

No dia 10 de outubro comemora-se o dia mundial da Saúde Mental. É uma data reservada para a reflexão sobre o lugar da loucura e do louco. Além de marcar inúmeras manifestações pelo Brasil todo.

Esse ano resolvemos unir esta data à trincheira cinematográfica que se tornou a cidade de Parauapebas, graças aos corajosos membros do Labirinto Cinema Clube. Pra vocês terem uma ideia, esses caras fazem mostra de curtas (Curta Carajás), mostra competitiva, curso de roteiro e direção e rola sessão na Câmara de Vereadores toda semana.

Esse mês, eu e a Sara Giusti resolvemos provocar o Labirinto pra que todas as sessões fossem sobre filmes que abordassem a loucura ou a dependência química. Claro que, com um critério tão vago, daria pra fazer 10 anos de sessões só sobre cinema e loucura. Mas escolhemos os filmes que aparecem no cartaz.

Quem mora em Parauapebas, apareça nas sessões pra ver filme e conversar. Tem pipoca e guaraná de graça. Espero vocês. WDC

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O que nos faz desiguais

 

Ele tinha mais livros lidos e mais livros por ler. Ele tinha mais anos que ela. Ele tinha mais amigos que ela. Ele tinha mais família que ela. Ele sempre teve mais que ela, e quem olhasse de longe chegaria à conclusão óbvia que aquela era uma relação desigual. Poderiam pensar: quando tudo terminar, ele vai sentir menos saudade que ela. Depois do fim ele não estará tão à deriva quanto ela. O desespero baterá menos à porta dele à noite. A loucura e o medo não o ameaçarão. Já a ela...

A realidade das roupas não coincide com o real da pele. O escondido de todos nós é o que nos nomeia e, com uma fome incontrolável, vai comendo nossas certezas. Não segue lógicas, fala em outra gramática. Fala em línguas esquecidas, o amor.

Estas foram matérias vistas por ele nas primeiras séries da vida. Sempre passara arrastado, por isso não entendeu quando livros, amigos, exercícios, filosofias, todas essas quinquilharias não preencheram a vaga deixada por ela. Só percebeu que a fila não andava quando viu que o chão fugira dos seus pés.

Alguns paliativos ela tinha deixado: a promessa de, mesmo depois de 10 anos, lembrar do vestido azul marinho minusculamente florido que ela usava naquela manhã de sábado em que os dois ultrapassaram juntos os limites da cidade pra que ela pagasse contas. Meia garrafa de vinho na geladeira dela. O desejo compartilhado de que um dia a geladeira fosse deles e que aquela garrafa enfim se esvaziasse. As fugas. A timidez da mão dada no meio da rua. A lasanha que ele não esperava tão gostosa. O corpo dela que devagar se convertia no seu templo mais que sagrado.

A saudade lhe passava rasteiras, batia-lhe a razão, a estética. Afinal sentia falta de suas imperfeições. O nariz torto, o cabelo ralo, o lodaçal das palavras quando tomada pela ira, a bizarra capa amarela ocultando o estranho hábito de vestir-se no trabalho nos dias de chuva. A tolerância sempre ínfima com horários, com mensagens, com ligações, enfim, com o tempo que restava para os dois se pertencerem. WDC

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não fosse

Não fosse eu ter sonhado aquele tempo, não o teríamos
Não fossem meus primeiros passos, não darias os teus mesmo me seguindo
Não fosse a canção no escuro que dispersou teu medo, não dormirias
Não fosse eu, colado ao pé da cama enquanto tremias de febre, não estarias mais aqui
Não fosse eu ter sonhado o que não terias, ganhavas mais tempo
Não fossem teus passos prisioneiros, os meus não acampariam nos sonhos
Não fosse teu dormir mais que sossegado, não teria eu o medo de cantar no escuro
Não fosse teres estado aqui, a febre de viver colado não passaria, seguiria
Não tendo teus passos bem juntos, dei os meus passos sozinhos, pela primeira vez
Não dormisses sempre ao pé dos sonhos, cantar-te-ia mais o que me cantavam os meus
Não fosse ter sarado nosso tempo, ainda estaria colado, ao pé da cama, em silêncio
Esperando ter as respostas que nunca viriam

J.M.N.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O cacto

Vi o cacto morto, tombado desde o parapeito de sua janela até o vazio da área entre os quartos, espaço de nada guardar, de nada ser, sem serventia para a casa. O cacto partido com seus espinhos feridos e as fagulhas da tarde ensolarada lhe mordendo as últimas expressões de resistência. Tínhamos nos amado indecentemente naquele dia.

A plantinha tão dura e desértica que bebia tão pouca água estava morta. Não se sabe quem a jogou por desafeto aos seus espinhos. Jamais se saberá se decidiu levar seu tempo, por si mesma e atirou-se. Se assim foi, peço-lhe perdão por qualquer desgraça que lhe tenha feito. E entendo seu gesto como a última fortaleza do seu espírito de cacto.

Morria com seu verde desmilinguido o meu amor, morria. Naquela tarde de farpas heliocêntricas sobre o silêncio de nosso corpo único e desalmado em cama dela. Consumíamos um ao outro e ao lado, a dotação verde da esperança encarcerada de espinhos, falecia. Tão frágeis as nossas vidas no tempo em que o amor respondia por toda ferida, toda dívida.

O cacto se foi sem nome, sem deserto próprio para viver condizente. Foi ter com seus outros pares, as verbenas, os xique-xiques, outros cactos. Foi ser da aliança insuperável da vida eterna que se não nos chega. Deixou seus espinhos.

Quando me levantei de dentro dela para lhe sossegar o cadáver de planta banida, os seus espinhos ainda presentes perfuraram minha carne. Doer não doeu. Não causou uma assim ferida ou chaga. Mas um fio de sangue. Solitário e retinto de memória e nunca.

Aquilo devia bastar para que eu soubesse que “eu e ela – nós os dois” já era uma coisa só, que ia saindo gota por gota de dentro do peito. De seu último préstimo como ser vivo, o cacto, fez afluir o quilate sangrento do que morria. E deu sua vida para que eu compreendesse esse mistério.

O segredo de quando é o espinho que indica a validade das coisas.

J.M.N.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Coimbra

A pessoas que não me saem jamais da memória:
Alexandra Pereira, Noemi Cubas, Jonas Zavala, Pedro Hespanha,
Fernando Ruivo, Kika Freyre, Margreet De Looze, Bo French Baizas (Mel),
Ana Sofia Clareu, João Porfírio, Fernando Paixão, Elias Oliveira
Iver Moller, Alexandra Felipa, Stuart Holland, Inês Cerca,
Daniela Veiga e José Camilo Silva.

Ela me caça. Astúcia secular em suas ruas, as vias de meus encontros. Eu cedo. Vou aos cantos de sua tristeza nua, seus tijolos desgastados pelo ar do saber – há um peso de sabedoria em cada animal que transita pelos escombros, em cada pássaro que remonta a dança suave de seu céu tão anil. Sua sujeira ensinou-me quanto.

Ela me viola. Violenta e suja como uma qualquer. Sou perdido nela, com vigor de quem retorna sempre à mesma alcova, repetindo-se. Deu muito mais do que tomou. Na verdade não tomou nada. Ofertei-lhe o coração em pedra, a flor muito vermelha da lapela, meu sangue de estranho. Ela acolheu. Chorou comigo os últimos dias à capela.

Ela tem mais encantos na despedida. Tenho mais dela na busca que faço dentro de meus labirintos. A cidade inchada como uma vulva que parindo. Sangra um pouco cada vez que choro minha saudade. Sei disso em segredo. Como em segredo sei que as suas ladeiras me têm por certo. Cada beco em que me encontro, cabe nela.

Ela pousa na minha calçada todos os dias. Ativa, cercada e fortificada por seus segredos, por seus vãos onde os homens que a protegem deixaram as peles. Pétrea e fixa em seu patrimônio, tem meus espólios. Fina e fluida pelo Mondego, tem meu soluço. Sou-lhe a parte viajante e acidentada.

Em minha morada a cidade toda se conforma. Minha Coimbra sem tempo. A saudade vive a caminhar sobre ela. J.M.N.

Meus medos

O que faço com o que fica?
Essas chusmas de toadas e trovões me alteram
Alteram a face de como, antes de dar, eu recebi
Eu me escondo do agora. Esse tempo que carcome minha digital
Está o volume dos exemplares aumentando
De amores, os melhores; dos beijos, os mais molhados; está sobre mim o que eu fiz de errado
O muito de endereço, onde mora minha desculpa. Longa sala de espera
Os ossos culminando minha estrutura desde sempre abalada
Nasci, quem sabe, com um pedaço faltando
O que faço com quem me deu seus quartos, esperanças;
Com quem me deu esse lago de água mansa que eu não cuido?
Sou de lança e ruptura, não sufrago penas, as escuto; cumpri-las é outra coisa
De quando o vento assoprou os termos do absurdo, me sobrou a tinta
Com a qual traço o indigitável artifício de amar para sempre
De tudo o que ficou, das sementes, apenas a clareza é que cultivo
E ela não funciona quando, de olhos, fechados, peço perdão pelo que mais me assuta. J.M.N.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Micro-romance XIII (ou “Silogismo”)

Não, eu não disse nada a respeito, no início. Apenas sua presença aconteceu. Meu sorriso envergonhado porque ela estava ali, ao alcance do meu precipício. Mas não deixei escapar nada. Ela estava ali e era o bastante. A noite nos presenteara com um calor de conforto. Eu não tinha razão para sentir frio ou tremores, portanto. Mas ai ela saiu do carro. Íntima de toda minha saudade, essa estranha que elege os piores momentos para me lançar suas escrituras. Tenho certeza que meu rosto corou. Eu não sabia o que dizer e troquei seu nome. Ela riu. Mas, afinal, qual a razão dos convites? Enquanto eu repassava três tomos de um tratado qualquer em revista – um tenebroso exercício de medo e astúcia – seus braços me fizeram algo. Tomaram minhas certezas, escavaram os limites de meu canteiro de obras – reparos na estrutura mais profunda. Seus braços foram até o portal da minha entrega, e não ousaram ir além. Ela sabia. Sentiu no mesmo instante a fúria perigosa daquele apego repentino. Seu hálito me fez primaveras. Eu seria dela sem som algum. Próprio e completo como um ser que já viveu várias tormentas. Ou podia ser o que fui depois que sai de seu toque – alguém que a quer. Que ocupa o mesmo lugar comum daqueles que a veneram de longe. Que não sabe se isso chegará a se chamar amor um dia. Entretanto, alguém que seria dela caso seus braços ficassem ali por mais meio segundo que fosse. E ficaria entregue àquilo que seu código pessoal ainda não permite atinar sobre o mundo, sobre o cerne e a margem do leito, sobre a honra molhada do mais incrível beijo de amor. Aceitei seu convite. Com o temor de quem teria de conquistar um triunfo para voltar e ser aceito em Esparta. Aceitei o apreço fulminante que a idade imputa à debulha dos sentidos. Me vi saindo das favas, núcleo de alguma coisa que alimenta e deflora. Essa mão mágica da descoberta sobre o que não deve acontecer. Os mil tópicos da moral que se cobra por ai. Lambi os dedos, depois de enfiá-los na textura suculenta do que senti ao seu afago. Essa calma dominante e progressiva que não paralisa e dá mais certeza ao que virá. Depois do adeus, aquela orquestra imaginária que desanuvia. Altissonantes os acordes do impensável. Um sobre o outro imitam o que não foi dito, mas houve. Todos os sons apontando incertezas e todas estas descascando a fina pele protetora dos meus estragos recém-vividos. Não houve beijo, não houve muitas cores e, certamente, não haverá sossego até revê-la. J.M.N.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dos pais, um dia

Para o Cauê, meus Josés e o Leon

Meu filho tem quinze anos. Metade dos anos quais contava meu pai, quando nasci. A mesma idade em que eu descobri a ferida eterna de um beijo não acontecido. Disse-lhe algo sobre isso. Ele assentiu. Fez que sim com o dedo, meu menino. Hoje ele me chama pela palavra. Ancora-me sujeito. As três letras mais íntimas e divagantes do mundo. Ele me chama de seu para os amigos. Falando mal ou bem ele se instrui daquilo que pega nas minhas falas, nos meus erros. Ele se equipa do que eu sou para não ser repetindo as mesmas bobagens. Assim eu espero. Espero que de todo corte que lhe infligi, de toda ausência que eu tenha erigido e de toda resposta que não lhe tenha dado, ele passe por sobre. Faça suas pontes, descubra como cruzar lamaçais. Que eu tenha um dia a mais sobre este mundo. Mais um ano em sua admirável pergunta de sempre: quem tu és afinal? Que é a questão a interpelar minha inconstância. Recorrerei a mitos, a passados. Buscarei nas bocas que me pecaram as cotovias poéticas que resignam toda sorte de tragédia, pois suas asas batem ao por do sol. Escreverei, até que murchem os dedos e sangrem meus pulsos, os romances que inventaram quem sou, e soltaram mundo afora o personagem intranquilo que muitas vezes me cumpre. Quero que ele e mais ninguém sele meus olhos no dia final. Sopre em minha boca a palavra fim. Que seja a sua mão e de ninguém mais a me tirar os laços das garras para que eu toque a gente que talvez me espere do outro lado. Ele um dia me trará notícias. Farei como sempre fiz ante qualquer impacto. Um sorriso pequeno, essa glória nostálgica que é a constante vida que me executa, meu coração batendo a mando de um punk muito antigo. E direi resumido, como tem de ser: esta é a única coisa que te fará ser ainda melhor! J.M.N.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A arte de esperá-la

Toalhas e lençóis limpos. Sabonetes. Ligação dela informando “estou saindo”. Cálculos mentais. Preocupações com a estrada. Ligar para a pizzaria. Pedido: uma pequena de frango com catupiri e dois refrigerantes. Entregar apenas daqui a hora e meia. O jantar precisa chegar meia hora antes, pra que ela encontre a pizza ainda quente e o refrigerante gelado. Espuma de barbear. O passear lento da lâmina pelo itinerário que a língua dela encontrou no rosto dele. Banho. Desodorante. Roupas de aguardar. Folgadas pra que ela veja que ele a aguarda de corpo inteiro. TV. Jornal para mantê-la informada. Um pouco da novela pra puxar assunto antes do sono. Relógio e celular sempre na órbita da cama. Ansiedade pela chegada daquele segundo exato em que ela chega e sorri, e o tempo vai embora. WDC

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A rua continua escura, minhas certezas é que encontraram a luz

“É noite. A noite é muito escura.
Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.”

A Noite É Muito Escura, Alberto Caeiro
em Poemas inconjuntos

Não quero eucaliptos no meu banho quente. Nem esfoliantes ou coisas de cuidado, riquezas não quero, as possessões de minha pele. No ato, quero tocar e ir. Ir até os confins do mundo é o que eu quero. De lá para o sono, um pulo, e deste para a alegria, uma única imagem, a imagem da tua forma torturando minha espera em lindas saliências. Não quero contrastes sutis, nem esperanças morrendo, lascas da árvore dos meus genes ou dos teus, nosso dilúvio arcaico, não quero. Estou apto para revirar noites e esperar a poeira sentar sobre teu colo moreno, dormindo e se transformando em areia para castelos. A água os lamberá, nossas terras, teu raciocínio tão pronto e irredutível. Não arderá a pose para os retratos, minha postura, minha guia que não condiz com a tua religião não verá impiedades. Tua mãe preta assobia bênçãos e eu as elejo com a firmeza da entrega. Faço parte dos teus. Estou perto do achado, uma memória, meu melhor romance. Quietudes podadas, bocas serpentes. Não as quero. Não quero o mel duvidoso da paridade, do que só é igual quando me anulo. Semelhança impossível. Quero ser o que pretendes e até onde eu possa te seguir que quero ir. Quero esse rumo incerto para dentro do tempo e de mil álbuns com as fotos seletas de nossas aventuras. Quando chegar a noite e andarmos por ruas absolutamente desertas e escuras, começarei a te contar nossas histórias. Todo o horror passa. Passa inclusive o frio que por ventura caia. Em carne e ossos e urgência, encontraremos o fim para qualquer escuridão. J.M.N.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[...] que seja de amor

Se vires minhas garras, meu pelo eriçado, é sinal de que parto ao ataque. Se vires meu pranto, meu medo ou minha pata partida trata-se do preço que pago de olhos fechados por ser quem sou. Se antes da linha, por trás do desenho entrevires um igual é capaz de eu ter acertado no ponto, ter feito a escolha certa e a tinta do que somos é própria pra nossos rastros. Se de repente sentires vontade de perguntar, não faça. Saberás a razão às portas do céu. Se és quem dizes ser, presa fácil para essa totalidade que nos escalou e botou frente a frente com vidas sucessivas, aguarda, sente. Vibra estarrecida por termos a mesma frequência, sermos feitos da mesma carne. Se torceres pelo fim dos receios, pela compra de supérfluos ou viras a noite cantando velhas músicas que ninguém quer mais ouvir, dispara. Meu peito tem um alvo posto para esse teu tiro. Passarei devagar por tua mira. Acerta o que vires. Se sou o que sou, podes ser quem és. E se assim pudermos ser e sustentar juntos, que seja demais e absurdo, como apenas os desguiados e estúpidos poderiam querer. Ninguém mais merece explicações. J.M.N.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Exausta nota

É para sempre esta distância. Declaro a morte daquele meu último sorriso. E mais: estou com dores de idade, não consigo comprar fiado um único fósforo para acender a última fogueira, estou cheio de sorrir aos outros e mostrar meus dentes sem dar uma boa mordida na felicidade alheia. Enfim, civilizado. De tudo o que ficou – mais medo e experiência que qualquer coisa – esta violentíssima vontade de gritar teu nome. Por nada mais senão memória e vício, costume ou sintoma. Mas não sai. É para sempre este silêncio. Teu nome preso no meu engasgo. Agora é esquecer a condição de antes, aquela completude exuberante, lábios, poemas e pernas entulhados por todo canto da casa. Em cada veia, em cada tipo de circulação, teus nutrientes atingindo minha pouca alegria de espécime. Escavo papéis e encontro a saudade doendo e latejando sobre tudo. A cada palavra que descobri, perdi mais da substância que me fazia teu. E porque falei de tudo quanto sentia pelas linhas desta mortalha dos ditos e dos contos de amor, agora não irás à minha estreia. Sequer poderei te oferecer um livro. É para sempre este cansaço de esperar o que nunca mais virá. J.M.N.