quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Perguntas de Ontem

O carnaval passou, minha máscara caiu. Não há folia em meus salões e depois que a noite cai fica um silêncio que me assusta. As ruas não têm passistas. Alamedas não têm namorados. O som das coisas é apenas o cotidiano tomando corpo novamente – um bater de copos, afiar de facas, um sem fim de saudações sem sentido. A manhã depois de tudo acontece sem perdão. O sol é fustigante. Doem os olhos, as juntas, as paredes do coração e da memória. E apenas uma canção anima tudo. Fina, dissidente. A canção da esperança que sopra seus versos: foi melhor assim, vamos saudar o amanhã...

Pergunta de Ontem 1: o que farás agora que a tua máscara caiu?

Pergunta de Ontem 2: o que sopra tua canção da esperança?

Cartas a Ninguém (23.01.2013–19:47h)

Querida,

Há muito não te escrevo. Nenhum motivo à mão para te apresentar. Entretanto, não posso dizer que foi somente um silêncio. Existe um motivo, certamente. Mesmo que ainda me seja oculto, desavisado ou, simplesmente, reservado ao mundo discreto dos meus esquecimentos.

Dia desses fui à tua casa. Aquela sem portas e janelas. O abismo do entregar-se a qualquer preço, mesmo que seja a carne toda investida num único beijo. Fui para meditar sobre a frequência cada vez menor de minha angústia em relação à felicidade.

Como sempre, andando nos avessos.

E te encontrei por lá toda limpa, cores diferentes nos cabelos, nos olhos, no costume das roupas. Estavas na moda. Na velha vitrine que oferta e, cujo estilo, espera ainda alguém que desabotoe do engasgo finalmente. Estavas simples.

Fixei uns minutos tua presença. Não me viste. Não fiz questão de me mostrar. No fim dos minutos tudo passara. A saliva secou na boca. O vento extra da respiração exauriu. Mudou o ressonar de minha pele à tua presença. Eu estava descansado. Eu estava completamente.

Nesta hora tive a certeza de que em mim, o poeta nasceu primeiro que o homem. E o que mais o poeta encerra senão o mundo dentro de si. De maneira que minhas cicatrizes são as mesmas que separam os continentes e, no entanto, cabem em mim os bilhões de esfomeados que nos acercam. Os mesmo todos infinitos que esperam para ser o que eu já fui.

Soprei-te um beijo convincente. Passaste a mão na nuca, quase se declarando ao arrepio. De repente alguém chamou meu nome e eu voltei de onde estava enquanto te via existir tão distante. Voltei do mundo íntimo que me procria. Cheio de sal e textos e Orixás.

Sou aquele que protegido de mim mesmo, ainda comete infinitos em nome do que levo dentro. Uma inteireza por não saber nada sobre o futuro. Esta certeza de que meu passado não reclama mais o retorno dos meus passos.

Sinceramente,

J.Mattos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quem escreve os romances?

Ontem assisti minha terceira versão de “Os Miseráveis”, incrível saga sobre as condições de vida e relacionamento do povo francês com a justiça e outras instâncias estatais entre a batalha de Waterloo e os motins populares da Paris de 1832. É, para mim, além do mais, uma história sobre amor e revolução, esperança e sonhos maravilhosamente escrita pelo francês Vitor Hugo no século XIX. Sobre o filme-musical de Tom Hooper, diretor que já venceu o Oscar com o “Discurso do Rei”, tenho apenas uma coisa a declarar, e o farei com a mesma simplicidade entusiasta com a qual, imagino, o editor de Vitor Hugo tenha recebido os manuscritos originais: brilhante!

Emocionado pelos efeitos visuais e intenso apelo emocional que a história sempre me suscitou, passei toda a sessão em misto de enlevo e falta transido por um pensamento fixo, uma busca silenciosa por lembrança que fosse acerca de talentos contemporâneos similares aos de Vitor Hugo, Prosper Merrimée, Machado de Assis, Lúcio Cardoso, Juan Rulfo e tantos outros grandes escribas. Quem escreve os romances de hoje? Quem são os sagazes observadores de nossa sociedade, que emprestam talento e tempo para delinear nossas lutas e vitórias, nossas contradições e dissensos?

Talvez coubesse mesmo perguntar: quem se importa com isso nos dias de hoje? Tudo à mão, a reflexão entocada nas gavetas, as ousadias política e social sedimentadas por discursos sub-reptícios e estéreis, a imagética bombardeada pela TV e pela Internet, disparando preconceitos e compreensões totalitárias e perigosas sobre tantos assuntos importantes, permitindo a proliferação virulenta de expressões inconsequentes, de opiniões, de gestos. E, por outro lado, tantos assuntos emergentes sendo tratados com velhas fórmulas intelectivas, escumalhos de racionalidades cristalizadas e amiúde perdidas entre os momentos da história. No caso do Brasil, a não tão longínqua ditadura e a ainda não bastante amadurecida redemocratização.

O chavão “temos que repensar os paradigmas”, talvez requeira algo mais radical – o repensar da própria concepção de paradigmas. Não estaríamos chafurdando no caos de modelos defectíveis e ultrapassados? Pior, há modelos seguros a empregar?

Os personagens de Os Miseráveis encarnam, em meu ver, estamentos sociais que necessitam nossa permanente vigilância e revisão: Fantine, vítima do abandono e da injustiça – atacada por ser mãe solteira e obrigada a dispor de sua dignidade às margens da cidade, por leitos alugados, o corpo invadido; Jean Valjean, aprisionado por roubar um pão para saciar a fome de um sobrinho e marcado com um número que o descaracteriza como humano e o transforma em objeto do estado.

Mesmo tornado cidadão exemplar, Jean não se desgarra do passado, moldando-se pela culpa de ter sido substituído em juízo por outro homem e relutante em aceitar seus bons feitos como pago da dívida sagrada que mantinha com seu Deus. O duríssimo inspetor Javert, cuja insígnia policial e o passado militar o fazem executar as leis de maneira inflexível e impiedosa. Esta é a razão pela qual, ao ver-se conflitado pela busca de redenção de Jean Valjean e o seu ato de libertá-lo em vez de mata-lo na barricada por estar espionando os rebeldes, não suporta o conflito interno e tira a própria vida. Atira-se no rio, não sem antes questionar como seria possível viver com o peso de um condenado aos seus olhos, ter sido piedoso quando ele mesmo não conseguira ser. Este não é um conflito presente? Não está sulcado na textura social dos dias de hoje?

Sem perdão para si, o personagem permite que a culpa seja mais forte do que o perdão e atualiza a perspectiva de Hanna Arendt sobre o auto perdão como uma potentíssima via de acesso para um melhor convívio com a diversidade social. Assim como o auto perdão, o reconhecimento de um ato de amor transforma o olhar exclusivamente revolucionário do jovem Marius, em um sentimento de cuidado ainda mais profundo em relação à sua amada Cosette, filha adotiva de Jean Valjean, o rebento pelo qual Fantine lutara em busca de sustento no início da trama. Perto da morte, Jean Valjean é declarado quite em sua dívida com a vida, tanto pelo reconhecimento de Marius, quanto pela confissão de seu passado à Cosette.

Nesse emaranhado de sentimentos e símbolos, o breque da revolução tira a vida de jovens idealistas e corajosos, relegando-os ao abandono da camada à qual, precisamente, destinava-se sua luta e soerguia-se sua voz contra a tirania, a exclusão, a falta de direitos e quitais. Entrementes, a mesma revolução mobiliza outros tantos perecidos na tutela de um estado opulento e sectário, cuja abandalha atiça as brasas da pobreza para servir-se do conforto dessa fogueira de perdidos. Quem são Os Miseráveis afinal?

Ao sair do cinema, uma imagem ainda me arrancaria uma última lágrima. Uma senhora muito idosa sendo amparada por duas outras senhoras levantava de sua poltrona e declarava baixinho: que maravilha, que maravilha. Musicado, filmado, encenado com cores e luxo nas óperas de Londres e Paris, a história de Os Miseráveis é mesmo uma maravilha. Ler o romance, escutar as belas músicas criadas para potenciar os diálogos e incrementar a dramaturgia da trama é um excelente exercício de aprofundamento no espírito humano para qualquer pessoa em qualquer idade. Desde as que tiveram a oportunidade de ser educadas com romances, até aquelas que esperam ver resolvidas as tramas romanescas em uma imagem, nas letras da última legenda.

Quem escreve os romances de hoje? Minha pergunta, enfim, fica aqui sem resposta. Apesar disso, ao terminar este texto, me dou conta de que o mais importante é que o romance ainda existe. Pode ter o nome de maravilha, maravilha, pode ter o nome do amigo que me acompanhou ou da pessoa amada que segurou minha mão enquanto eu chorava no escuro. Basta-nos olhar ao redor, reconhece-lo, ter vontade de questionar e registrar pequenos gestos, grandes experiências. Quem sabe assim, o escritor do maior romance sobre nosso presente tão fecundo e ao mesmo tempo tão terrível, pode ser você. J.M.N.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Contra o trágico

Dói minha mão pelo não feito
Meu peito aberto dói igual
Arpoados nos leitos, nos fins, na desgraça
Os cardumes de amor
Nadam em fuga, tão longe de nós

O mundo dói em mim
Quando a vida de alguém termina
Dói semelhante quando nasce
Ao riso grotesco dói minha língua
Há sabores demais neste desamparo

E cuido menos quanto mais dói
Meu ser finíssimo vai desaparecendo
Dói o espelho ao perder sua função
Sofre do avesso o verso que escrevo
Dói afinada e entrementes cuida.

Prescrita contra o demais, a minha solidão.

J.M.N.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Somos todos um teu poema


Hoje percebi que os anos já te pesam como segredos de ex-amantes. Que contas histórias com nitidez de detalhes: a renda do teu vestido de casamento, o nome dos teus netos legítimo e dos contrabandeados por essa tua descendência sem freios. Narradora trabalhada nos preciosismos, mas que não lembra pra quem contou as histórias, repetindo-as como quem quer se eternizar.

Afumentar, jejuar, catar, alinhavar, cerzir. Esses verbos que, de tanto uso, só a ti pertencem. Dos tempos anteriormente a nós mesmos vão saindo psicologias que nos explicam a todos.

Daí de casa nos observa, rainha, como formigas morcegando a perdição.

Esses filhos teus. Já obraram coisas que mais se assemelham a oficinagens do capeta. Mesmo assim nunca abriste o portão desse vazio pros crentes que batiam. Te reservava às novenas e Deus te obedecia (ai d’Ele!). Quando salvar era a tua súplica, ele acorria. Quando era para o Bem trazer e o Bem deixar, Deus operava bonitezas de não poder. Inclusive na vida deste um no que a tua demão parece que já se desbota.

Mas não. Não te ponhas em engano. Eu cheirava os livros do Zeca a te buscar, essa tua ternura que eu fingia ser pra ele sendo pra mim.

Queria teu olho abandonando a máquina e rebrilhando a avivamentos como quando eles se fecham na roxura do açaí. Queria tua mão pintada e o teu cabelo, mais uma vez, vermelho. Poder te dar uma última chance de reveres os teus sete erros como quem mira sete versos, e não encontra um poema. Queria essa tua liberdade de viver apenas pra quem se ama. WDC

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Fúria

“Thou therefore whom thou only canst redeem,
Thir Nature also to thy Nature joyn;
And be thy self Man among men on Earth,
Made flesh, when time shall be, of Virgin seed […]”

John Milton – Paradise Lost, Book II, lines [280-285]

O Paraíso é certamente sem sentido. Dominante o gosto pela morte. Vem sempre a despeito de tudo. Remédios, coragens, escritos. Esforço-me para usar a maquiagem de todo dia, por o disfarce e sair por ai. Hoje não, hoje não. Espalho os frascos de mentira. Serei apenas eu e minhas todas desgraças. Hoje o contato com a mais secreta estrutura me acende. O mais essencial e primitivo me expulsa da cama com a força dos megatons de Hiroshima. Primeiro, esmurro a parede. Depois decreto a morte de alguns amigos de antigamente. Execro o sorriso dos vizinhos e vejo tão pouco à luz do dia que dispenso a visão. Será, então, o que sinto. Apenas isso. Mais do que posso diminuir com eufemismos. Prefiro a boca amarga da dúvida que de cima do muro acena solícita e sedutora. Como podem as ruas me dar caminhos? Não sigo seus mapas. Quero estar perdido. E quero tanto que orações invento, que deuses exumo. Não vou por essa retidão sem graça que me impinge os parentes, os professores o amor até. Vou degradado e sincero, a preferir o sangue dos pés que andam à saudável refeição de quem não sai do espelho. Isso me custa um bom pedaço. Pedaço que dou como fosse uma fúria, como se fosse a carne de Milton – “And be thy self Man among men on Earth, Made flesh, when time shall be”. E se é isso e apenas isso o que tenho – a fúria – dou-a também a quem neste dia se encontrar comigo. Fúria de ver tudo novo e cuspir aos que me acusam de absurdo, fúria de descobrir que nenhuma tragédia é maior do que o alcance das palavras que aprendemos. E continuar aprendendo palavras para escarnecer o sentido duvidoso da alegria, fazendo-a tão sensível ao corte, como é a solidão quando invadida. J.M.N.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Detesto Belém

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Escrevi esse texto em 2010, esperando poder publicá-lo numa revista da terra. Infelizmente não foi possível. O amigo Angelo Cavalcante o abrigou em seu blog Veia Pop e por lá ele ficou conhecido. Recebi uma ótima quantidade de e-mails comentando o texto e fiquei com a impressão de que tinha acertado a pena. Num começo de ano onde pipocam discussões acaloradas sobre Belém nas redes sociais, evolvendo, inclusive, amigos meus, acho que vale à pena reproduzi-lo em nossa casa. Entre idas e vindas, bem ou mal, falar sobre Belém é sempre instigante.
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Detesto Belém! Seus azulejos e sobrados antigos. Detesto esse charme de cidade-luz, incrustada na densidade das matas do Norte. Algo que não nos abandona nunca, mesmo que estejamos de passagem. Não gosto de imaginar as ruas cercadas de mangueiras centenárias por todo o centro da cidade. Muito melhor percorrê-las, sentir o corpo de suas lendas. E partindo de um desagrado ambivalente a respeito da sombra de suas árvores e da distância entre aqui e meus sonhos é que entendi que meu coração já estava cercado de presenças, da alegria dos encontros, dos cheiros esquisitos das coisas de minha terra. Descobri, em meio ao tumultuo de ir e vir, que o mais triste seria não ter raízes, não pertencer a lugar algum, não poder dizer que nasci em uma cidade cujo nome em si é um poema – Santa Maria de Belém do Grão Pará.

Em minha cidade tem chuva farta, a qual não cansa até que sequem as nuvens e estas, vizinhas da floresta mais imensa que já se viu, não sossegam assim tão fácil. O choro dos céus regula a vida das pessoas, ordena o dia e faz com que os amantes marquem seus encontros para depois de passar a chuva. Um banho nessas águas longas de, às vezes, dias seguidos é mais do que uma experiência, do que uma brincadeira infantil, é sentir-se limpando escaras escondidas no centro de nossa existência. A chuva de Belém é como um outro rio a descer sobre nós.

No mercado do Ver-o-Peso, mulheres certas das simpatias de amor vendem suas efusões em garrafas coloridas e perfumadas, chamando os clientes a resolver seus problemas sentimentais com alguns banhos de ervas e iguarias que só existem aqui. Há praças e cantos que exalam história e triunfos de civilidade e vanguarda. Foi de seu Forte do Presépio que partiu a primeira esquadra de guerra que acudiu o vizinho estado do Maranhão cercado pelos holandeses, no século XVII.

Quando estou longe, o pensar em minha terra dói muito além de meu peito. Dói no esqueleto que sustenta minhas aventuras pelo mundo e minha estrutura de gente recorre às linhas de Dalcídio Jurandir, Rui Barata e Paes Loureiro, além do Verde Vago Mundo de Bené Monteiro. Quando estou longe, doem-me os versos da canção de mestre Edyr Proença e Adalcinda Camarão, em cujas linhas se pode reconhecer um amor de adoração infinita pela cidade natal, traçado no morno de tardes descalças, nas lembranças do povo, do rio e dos peixes. Estas lembranças salvaram muitas noites solitárias em terras frias e distantes.

Tudo se vê em Belém. Esquisitos monumentos ornando as vias. Casas antigas com imagens de santos nos cumes mostrando a força de uma fé que congrega a todos e se renova. E a cidade anda pelo mundo. Seus filhos são fiéis adoradores do pertencimento, bem mais que simples bairrismo. Espalhados pelo Brasil e pelos continentes, ao falar sobre Belém, parecem querer traduzir a necessidade de levar a cidade no bolso, onde quer que se vá, como uma memória mágica, um amuleto para as horas de saudade intensa ou um código para o reconhecimento dos pares. As pessoas daqui não dizem que são familiares de Silvas, Mattos ou Oliveiras. Elas são de Belém.

A Belle epoque nos deixou o Theatro da Paz, onde ainda hoje podemos assistir festivais de ópera. Tem uma praça que congraça boêmios em frente a uma igreja, onde se podem escutar raridades da música brasileira ao ar livre, comendo um bom peixe frito e escutando as histórias dos loucos de plantão. A cidade tem tradição em reunir sagrado e profano, de concluir os rituais religiosos com festas pagãs de rara beleza e personagens inesquecíveis.

Em outubro de cada ano, as pessoas, como santos, andam e rezam e pedem graças, compõem ofertórios, visitam parentes, cozinham pato no tucupi, maniçoba e amenizam suas culpas. Caminham horas pelas principais ruas da cidade, numa procissão pela Virgem de Nazaré. Muitos destes fiéis vão atados a uma corda que, vista de cima, parece uma imensa cobra d’água a serpentear no sacrossanto espaço da fé – o Círio de Nazaré é para mim o boato mais forte de que neste ponto da Amazônia, encontram-se muitos dos bens celestiais, a confirmação de que o Brasil tem terra e gente abençoadas.

No último dia desta festa, os fogos abrem o manto negro da noite e riscam nos olhos da multidão como que estrelas efêmeras de cores várias trazendo para dentro de nossa genealogia, uma lembrança de existência bem próxima ao paraíso. Como não ter o ritmo do coração alterado ao ver o espetáculo da noite em festa? Como não percorrer o arraial e tentar a sorte nos folguedos? E como não provar as comidas, não querer saber da história ou conter os sentidos nesta girândola de novidades?

Assim como vive banhada pelas águas do rio Guamá, Belém banha as palavras que escrevo desde sempre. E essa presença em nossa biologia é difícil de vencer. Mesmo tendo de criar asas, de buscar fugir um pouco dos seus contrastes e derramamentos, e ir cheirar o mundo que sempre vi nas revistas e sobre o qual ouvia nas histórias de família e amigos, não foi fácil partir. Não foi simples deixar estas ruas. Impossível esquecer a arquitetura, ainda mais achando seus traços em lugares como Minas Gerais, Bahia e mais distante, em Portugal.

Detestei Belém por me causar esse tipo de espanto. Por se esconder em minhas histórias sobre o que temos aqui – palácios, palacetes, a Catedral da Sé, as obras de Antonio Landi, a igreja de Santo Alexandre. Por promover texturas em minha fala delegando-me um sotaque único.

Como tudo o que se ama e teme, Belém vive em mim como a morena que primeiro inspirou meus versos, como a cigana que leu em minha mão a verdade líquida de minha alma, sublinhando que eu vinha de um lugar onde o céu tem estrelas únicas, que só reluzem deste lado do mundo. Algumas vezes tenho vontade de partir, outras vezes vontade de nunca tê-la deixado. Belém dorme junto comigo sempiterna e dolorida quando me ausento, escancarada e turística quando regresso. Oferecendo sempre algum canto novo, alguma nova forma de me seduzir e manter.

Conquistei títulos, avistei lugares, li manuscritos de poetas admiráveis, mas voltei correndo. Cruzei o Atlântico sem pestanejar, assim que senti que os sabores daqui morriam em minha boca, que meus amigos iam ficando íntimos de novas pessoas, dos novos lugares, dos monumentos e prédios reabertos. Dá medo pensar que esta cidade pode me esquecer. Que pode pensar que eu a traí em outros portos, em outras praças, maravilhado pelas descobertas. Quando parti sentindo raiva por sua existência, remoendo o infantil apego pelo que não era meu – o desconhecido. Quando atinei para sua presença em minha saudade mais sofrida, achava, presunçoso, que ela era minha. Foi de longe que descobri ser seu prisioneiro e como nos versos do poeta português Luis de Camões, este, sem dúvida alguma é um estar-se preso por vontade. J.M.N

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Imprudência

Para A.P.D.

Poucas vezes vi tamanha confluência de perfeições.
Olhos, cor, cabelos negros, atrevimento.
Incômoda presença que não me está ao lado, mas numa tela, solando sua incrível textura de impossível por muitas horas da minha tarde sobre as ondas da rede.
Será possível que eu esteja vendo um ídolo antigo, esculpido em virtual realidade? Não em bronze ou pedra – carne, osso, funções renais, coisas assim.
Tão viva que nem a distância do espaço ousa calar o que ela causa.
Olho-a com os temores de quando eu descobria meu corpo e de pronto me vem uma janela suspensa.
À noite, relicário dos amores primitivos, entravam ilusões e cristais pelo balcão onde eu esperava que o mundo me conhecesse.
Ferve a têmpora desacostumada a ser tomada de surpresa. Sinto esse corpo que não pode ser meu. Tão potente. Tão estrangeiro.
A imagem dela mais que perfeita em seminudez projetada, feita pelas mãos do fotógrafo para desmantelar a gente.
Arrasto o trabalho. Golpeio tudo que não diz respeito à perfeição. O dolo acontece por tê-la na ponta dos dedos, tocada na inviolável figura de musa.
Ela cede ao meu olho e parece piscar-me de longe. Uma única chance.
Seu maneio de cabeça da foto seguinte foi para mim, certamente.
Vou com fome.
Boca aberta direto à luz daquela imagem.
A língua em pluma sente o deslizar estéril da tela. Led ao que parece, sem gosto algum.
Ela não entrará nos meus sentidos por essas vias. Não há tato que eu possa dedicar a ela e então construo o que me recompensa.
A ideia de que foi apenas intuição.
De que alguém assim não pode existir. Se não a vejo frente-a-frente, inexiste.
Minha tarde está refeita.
A partir de hoje andarei com a cabeça baixa, impune por ter lambido a mera possibilidade e com medo de encontra-la por ai, tornando-se aquela que me diria para eu ter cuidado com o que desejo. J.M.N.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Porque ela disse “quem sabe?”

“Na dúvida me reconheço.
Quando ela propõe incertezas,
amo-a de fazer universos,
amo-a
como um demente animal.”

Cantídio – O livro dos esforços mínimos

Hoje acordei propenso a simplicidades e idolatrias. Me vens sem compromisso, mas por primeiro. Não herdaste nada do nosso último encontro. Eu, entretanto, fiquei com os pesos, os ouros, trejeitos até. Aumentas a frequência da tua música. Impetuosa e certeira como uma corredora de curtas distâncias. Me chamas aos fatos. E pedes. Que nosso maior encanto seja o silêncio esmagador dos nossos olhos se encontrando, a despeito do toque e do sabor que dedicamos um ao outro dentro dos beijos. Aproveito para chorar. Pois é impossível resistir ao arrebatamento do que dizes e perfazes em mim com esses pedidos e tão poucas loucuras. De minha parte, tenho essa enorme agonia ao ouvir teu nome palpitando em mim. Um frenesi desalmado que me entope os ouvidos e não repara nunca se está sendo depravado ou íntimo, mortal ou singelo. Não acho que deva pedir desculpas. Nossa energia de atração é essa. Uma estrela gigante em permanente nascer. Nada há de mais enérgico do que uma estrela nascendo. E no que declaro isso em voz amena estou implicado. Enlaçado na possibilidade de mais ser. Agora sim reclamas teu lugar devido. E como não há mais tempo para distâncias, desalojo meus órgãos e te ponho pra dentro. Tal como te sinto, me sentirás intensamente em nossas próximas pulsações e sentidos. Mesmo que nosso tempo não passe de um segundo. J.M.N.

Um líquido

Sob o molho da chuva me esparso. Sinto-me líquido, porém impenetrável. Esta força decantada das nuvens me redime. Estou completo. Agigantado. De meus dedos aguados destila-se minha essência. Encontro-me com as plantas, com as náuseas dos outros, com suas esperanças. Como água, flutuo sobre os cantos do telhado, o passado descoberto por entre as frestas. Vou-me espalhando. Acabo em lago. A chuva para e eu deitado ainda insone. Esta noite lembrarei a experiência. Contarei a ela que me dissolvi em hidrogênios. Essa noite quando abraçar minha própria esperança, o etéreo e o límpido podem não estar, mas certamente estarão minhas certezas e, dentre elas, as vontades de um mar, o amor de um porto e o vento que me espalhou como chuva pelos quatro cantos do mundo pela manhã. J.M.N.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sobre o que foi decidido

Retorno do arco dos sonhos e o que vejo é a realidade ainda mais dura e inquieta. Falta-me o costume de receber as coisas com naturalidade. Cada nova beleza – uma conquista; cada tragédia – meu último dia. Sigo pensando: como fazer para abraçar o que é normal? A dúvida cai quando a lembrança engraçada reflete: não existe tal coisa – o normal. E então posso cantar para ela com seu enxoval costurado desde os 11 anos. Posso absorvê-la na indiscutível maciez de um desejo exaurido e gostar ainda mais do que ela me foi. No mesmo instante, outro me vem. Mesmo que negue, que surja de supetão uma saída para sua interminável tristeza, posso ver dentro dos olhos dele a comoção cruel que o tempo passado lhe causa e dizer-lhe com a mesma calma dos que aceitaram à pena: essa dor é para sempre. Este meu estado de agora, como uma era descrita em seus milênios, porém vivida todos os dias, como se fossem comprimidos de um passado secular. Vem em meus escritos o nome da casa. Ocorre-me o perdão que deve ter sentido o assassino ao morrer pelas mãos de um seu semelhante. E penso nela mais uma vez. Resistindo às evidências, apesar da razão pura que consagra. Deixo, sem rir, a sala das lembranças e vou direto ao porto do abraço. Envolvente. Sólido. Feito de humanidade e sentido. Interminável no tempo das letras, meu castigo se locomove entre seus braços. Enquanto escrevo romances e contos fictícios, ao mesmo passo que invento personagens e perigos, ela golpeia a realidade me oferecendo um suco, um doce ou outro abraço. Por um fino segundo. Espalhada entre o tempo de eras e a seta de tempo, indicativa do presente, ela é como ilusão e verdade, matéria e antimatéria. Contínua e descontínua em meus desejos. Fazendo-me bem quando necessário e talvez, por isso mesmo, eu sinta a voz da sabedoria e da idade, dizendo-me em tom solene e finalmente amigável, que eu tomei as decisões corretas, ainda que para mim, tenha sido tão somente a decisão de amá-la. J.M.N.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Para o ano que chegou

Todos desejam as suas felicidades antes que o ano acabe. Faço-o depois dele ido. Acho justo que descansem seus dias exaustos, e, desrespeitoso que se os esqueçam antes mesmo de acabarem. Pois com o ano que acaba ficam as coisas que já não suportamos, entrementes aquelas que nos foram caras em seu tempo e continuam. Termina-lo antes de seu último segundo é, com efeito, empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Um dia ela volta. Assim como amputar o efeito benéfico do que foi bom, faz da sujeira escondida o menor dos pecados.

Dou conta de que já estou no segundo dia de um ano novo quando a escuto dizer bom dia. E isso é hoje – presença e escolha acontecidas humanamente. E vejo que as coisas sucedem, não transgridem ou retornam. Nossa invenção mais funesta – o tempo em linha reta convoca. Há também um beijo longo e amoroso. O ano novo já é nosso. Finalmente novas horas e tragédias. Novas marcações do tempo, do que se deve fazer, do que não se fez. E o que ficou de anteontem, um ano antes?

Para o espelho mais uma ruga, uns cabelos brancos, minha tristeza costumas e bem aceita – minha propriedade. Veio ainda dormitando junto ao respirar espesso da manhã cinzenta, a ânsia descomunal de querer tudo o que é bom e justo ao meu filho. Além disso, a linha verde de uma esperança insistente e desejosa: a semente que espera florescer em breve e ser acolhida pelas mãos bentas das infinitas possibilidades próprias dos primeiros momentos da vida. Há um nascimento no porvir, maturado desde antes de minha espécie.

Ainda passou para este ano de agora a figura de minha avó depois de uma queda terrível, sorrindo sua simplicidade e resignação não como um castigo pelo que não sou, mas como a substância que, agora reconheço, também faz parte de mim – aceitar. A culpa segue seu curso e atesta suas obras por dentro de mim. Fiscalizo-a com a pertinácia devida – ela define, eu a defino – sou tanto dela como ela é minha e, portanto, somos necessários um ao outro, parceiros cooperados de um mesmo fazer – a existência.

O ano novo, propriamente dito, já veio riscado com meus planos, com a lista interminável de tarefas que tenho de cumprir para sobreviver ao dia-a-dia e mais aquelas que não serão cumpridas jamais, sobre as que o sótão da consciência atormentará ou simplesmente deixará na sombra, esquecidas mesmo, sem nenhum efeito deletério ou nostalgia atrelada. E todo risco se pode apagar. Não há tinta perpétua ou plano que não mude.

Então é isso! Feliz e infeliz ano de anteontem. Esteja bem na sua morada de história. Vou andando neste novo e ainda pouco bagunçado calendário. Ando por sobre. Vendo o que me é possível ver. Não pretendo que seja apenas feliz. Só a felicidade não conforta e não faz bem. Espero o que me espera à frente ou às costas dos dias. Branco, preto, azul cobalto. Espero que venha potente. Que me deixe puto, que me faça ultrapassado, que me cause mais cicatrizes e ódio e me faça cometer asneiras e ser o que se pode: imagem e semelhança do deus em nós. Seja ele quem for.

Mas quero também as janelas e portas. Novas em folha para que eu as ultrapasse e aceda aos novos cômodos do destino. Com camas macias ou pedras para fazer de travesseiros. Quero que o cuspe do outro me sirva de banho, me ponha no lugar da insignificância charmosa de quem usa, certamente, seus personagens como irmãos e como escudos. Vou dizer que quero a beleza impagável dos novos versos que eu comerei, das muitas pernas e bocas que me farão temer o que carrego no cerne da minha humanidade. E, sim, espero que cada um dos anos que me constituem sejam louvados, por preces, canções ou por meus votos de amor.

J.M.N.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Outro desejo


Senhora, tenho caminhado com ligeireza entre uma tristeza muito antiga – um banzo – e uma saudade aliviada. Por todo esse itinerário pousa um musgo escorregadio que é a seiva dos dias em que foste minha e eu fui teu. A época do ano corrobora uma certeza: eu não pareço mais comigo. Nas redondezas de ti eu ganhei um nome e quase um sobrenome. Fui de terreno baldio a apartamento em chamas.

Uma estrada assim, vazia e cheia de rastros de pneus e passos, coloca as gentes em desespero, tem vezes. Hás de entender um dia: tudo, pra mim, é viagem de volta. E, se voltares desse teu próximo retorno, tenho um pedido:

Lembra um tiquinho de mim, como quem recorda de uma febre pegada na infância e que, aumentada a gravidade pela preguiça de ir pra aula, serviu como doença de ficar em casa. A tua mãe não reclamou, por seu turno, de que observasses os cuidados que punha em cada tempero da comida que esperaria o teu pai. Como dobrava zelosa todas as roupas dele e como ficava feliz quando já faltava pouco pro meio dia.

Podes fazer isso? Lembrar o tanto que uma febre foi capaz de te ensinar sobre o amor? WDC

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ocupá-la

Descuidado, incerto ao pé de sua porta. O mero assopro do vento me desmonta. Espero desmilinguido que ela me recoloque nos eixos, reforme minha estrutura. A calma é apenas um detalhe frequentemente esquecido. Eu a chamo de minha, pois sou um incompleto, um idiota feito. Que a minha vontade era essa, prendê-la, guarda-la do mundo. Somos todos assim, os homens da minha idade, das idades antes e finalmente os homens de todas as idades. Mesmo os que dizem por ai que libertam. Fechar-se à fina tortura dos olhos alheios que a descobrem nos pátios do mundo não é liberta-la. É prender-se à estupida oferta da tranquilidade inventada. Sou todo o contrário do que planejei, do que me disseram para ser diante dela. Sou aquele que espera uma simbiose completa, porque assim poderíamos ter um único nome eu e ela. Líquen. Ou lume. Porque acendemos a noite e tudo se aquece. Porque parados num canto todos vêm a perguntar como fazemos. Não há resposta. Eu sou eu. Ela é ela. Que tal ser assim o estado de nossas coisas – encantado –, fico incrível, engraçado. Até comento sobre uma obra de arte. Pelas noites intumescidas ou dialogais o teto aberto traz o frio. Se eu espirro, ela me enxuga. Se ela treme, eu fico com parte do movimento involuntário de seu corpo. Ela descobriu que meu corpo é marcado, que sou descuidado com a saúde. Que estou cansado. Sua chegada, sua forma única de receber meus defeitos me faz lamber os ossos. As lembranças não doem mais. Sinto a fisgada aguda de uma nova modalidade de entrega – doar, fazer vontades, antever pedidos. Seu tato me convence que ainda narciso o ideal. Sou lindo e forte como ela me torna. Sem mais nem menos – convencido. Tenho essa vontade permanente de tirar suas roupas e ver novamente onde meus dedos cabem. E mais e mais vezes feri-la, abusa-la na medida em que possamos não ser desumanos ou julgados. E nesse começo de inquietação que se achega, prestes ao nosso jantar, tenho a completa visão das coisas: ocupá-la é ser o que sempre estive destinado a ser. Uma farsa, um impostor para meus pares. O amor da vida inteira para ela. Sim, isso me basta e realiza. J.M.N.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Um Desejo

 

Se eu tentar sair por aquela porta, por favor, senhor, me impeça. Não acredite em nada que eu falei, se o que sair da minha boca criar lonjuras entre nós dois. Usa da tua carpintaria pra mostrar como esse tempo todo estava tomada por esses caprichos de criança.

Chega perto de mim, com a serenidade de uma castanheira, e ouve cada palavra como quem olha pra um escaravelho.

Fala que o meu amor te salvou e que o teu é mais intenso que o sol. Que a tua paciência não finda e que a tua espera será mais forte que a vida.

Vem aqui em casa, diz que tudo é teu também. Vem te apossar dos teus despojos e que, bárbaro, seguirás me invadindo. Desmancha as minhas dúvidas junto com as rugas do lençol. Se eu resistir, sabes como me afofar. Se eu me abrandar, sabes em mim onde os incêndios todos estão. Se eu dormir, senhor, coloca a boca junto à algaravia dos meus sonhos, e pronuncia, num marulho, o meu nome. Te peço isso confrangida porque só nos volteios da tua voz descubro quem de fato sou eu. WDC

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Po(e)magem #7

Sobre a bela e trágica imagem
partilhada por Imad Alremony
Em: 06.12.2012

homeless

Trago nas costas a minha casa
Mas não sou um bicho, um crustáceo – fugitivo, refugiado?
Quem sabe circunscrito num mundo de mil imagens, afeto não
Estou à espera. No mesmo lugar de ontem
Nas mesmas perguntas, mergulhado há anos:
- Sou de quando? Quem me sabe? Quem redime?
E sigo calando a tua verdade – não há paz que se compre
Não há mundo melhor, sem que crianças não tenham abrigo
Sem que imagens denunciem o que não temos:
Razão ou tempo para cruzar os braços!

J.M.N.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Compromisso

Às três da manhã eu levanto em sede e sono, desregulado. Chego ao pote de biscoitos, encontro a sobra da carne do jantar. Minhas mãos caminham feito aranhas pelas paredes a procura de um interruptor. Tateio o macio molhado da esponja de lavar louças, penso no asco que sinto entre sabão e restos de comida. Certamente fiz uma careta. Meu joelho foi na direção da tragédia. Meu cotovelo beija a quina do armário. Um raio agudo percorre o corpo. Amanhã haverá hematomas por todo canto do corpo. Mesmo assim não acordo. Encontro a água, o copo transborda. Me farto na mentira de matar a sede que é própria de toda água, o copo flutua. Não sei de onde vem um cuidado secreto e quieto que me acompanha na vida inversa do meu sono andarilho. De repente tudo faz sentido na semi existência noturna. Volto por outro caminho. Não conheço obstáculos. Meu joelho parou de doer. Tenho um guia que me entrega suave ao mesmo ponto da cama. Os travesseiros se ajeitam. O cobertor vem por sobre. Calor e tranquilidade. De manhã sou sempre calado. Recebo um beijo. E finalmente ela pergunta se meu joelho está doendo, se eu tive um sonho ruim ou se sentia frio, mas não queria desligar o ar condicionado por sua causa. Segundos em silêncio. Seu rosto é tudo o que vejo. Agradeço no íntimo a sua presença. Não, nada me dói, nem sinto frio, mas desligaria o ar por sua causa. Ela me beija. Meu dia começa. Percebo que é sempre assim desde que ela está em minha vida. Sou guiado durante o sono, saudado na vigília e isso sem nem sequer haver um nome entre nós. Sem nem ao menos termos feito votos de comprometimento. Acontecemos, simplesmente. O rastro da proteção da noite ainda me encima. Hoje sou eu quem conduzirá a madrugada e ao seu mínimo desassossego, devolverei justamente o que nos une, aquilo que nem precisa ser dito para sabermos que se encontra, seja nos descaminhos do sono, seja na claridade do dia. J.M.N.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Naturalmente

Agora que o beijo é constante e as pragas enviadas supostamente pelos céus esmoreceram, pergunto fino na calada da noite: ainda tens o poema escrito que te fascinou noites atrás? É uma pergunta perdida. Uma retórica estúpida que pretende tão somente saber se ainda pensas naquilo tudo. Se teu sorriso incontido é sinal de que moramos secretos um no outro. Quero que saibas que tudo quanto ainda escrevo, faço por não te ter deixado morrer em meus escaninhos, nas minhas relíquias. E talvez seja esta minha maior inconformidade, pois no fundo sei que nenhum assassinato tiraria tua presença. Enquanto resolvo parte do suposto saber que nomeia agora meus planos para o futuro, vou enganando a fome da tua presença com mais páginas mergulhadas em confissões e alardes. Como se fosse natural contar coisas depois da morte. J.M.N.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A partir de ontem

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Já publiquei e retirei este texto várias vezes do blog. Já o inseri em coletâneas, em outros trabalhos. Vejo agora que seu lugar pétreo é aqui mesmo. Retorno-o pela última vez. Ele nasceu em 2010.

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Agora não existe barulho em meu sono. Posso dormir sossegado. Não há reajuste de corpos e cobrança de dívidas antigas debaixo das cobertas noturnas. Posso correr no torpor de meu cansaço, sem obstáculos.

Não há razão para comemorar.

Sem celebrações fica difícil entender se as horas passam e mesmo quando vejo o avançar dos ponteiros tenho dúvidas.

Hoje não posso dizer vulgaridades, não posso cantar por ver a manhã acesa em paz, café na mesa, livro na mão e poemas. Não posso comer falando absurdos. Teus barulhos se extinguiram.

Hoje estou entregue à minha chatice, meus obséquios para comigo mesmo. Estou servindo de alvo para o destempero que são meus atos sem as lutas frenéticas de nossas carícias mais aterradoras.

Machuca não ter intenção nos gestos.

Não consigo justificar meus abraços e os entes amados ficam a deriva, envolvidos por braços injustificáveis.

Fica decretado em estatuto que a vaga de tua presença jamais será preenchida. Que mesmo não voltando - por impertinência ou impossibilidade - não haverá outro para me reconhecer olhando para mim de onde estiveste, e, aquela que fui, nos segundos de nossas mortes sucessivas - as sedes infinitas - estará finalmente no seu calabouço, não haverá de ver a luz do sol nunca mais e sem saber como se parece com o passar do tempo, poderá ser uma pedra ou a própria cor da tarde, uma opção para o infinito.

Nessa condição, a única possibilidade de indulto é encontrar caracóis perdidos, que estes são mais lentos que o esquecimento.

Esta porção de meu ser – sem o teu reconhecimento – escreverá, um dia, um romance sobre o acontecido e não haverá pessoa que não chore, não existirá dureza que não ceda diante daquela história.

E quando deixarem de se encher meus pulmões e tudo for um grande e último espirar de despedida, teu nome retornará à minha boca e ao dizê-lo num riso sussurro, ficarás para trás.

Resumida a um último segundo de vida, a menos de um decibel de fala, como quando dizias que jamais te perderias de mim e quase arrancando meus cabelos pedias para eu dizer que te pertencia. J.M.N.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ocupá-lo

É como chegar a casa e tirar os sapatos experimentando o tapete da sala. Fisgar com os pés micro sensações incríveis de animação táctil que sobem e descem pelos caminhos do corpo, representando-me aos poucos, dando-me curvas e gostosura. Pondo-me com gosto para ser saboreada. Isso me desperta, me cura das suspeitas do mundo sobre meu estado de alma. Usufruir-me por um segundo de plenitude, os pés ambivalentes querendo me destinar à firmeza do chão e ao mesmo tempo impulsionar-me num voo sem fim. Rumo ao imaginário fulminante de suas fantasias. Usá-lo de qualquer maneira. Abrindo muito os braços em gestos esquisitos, inumanos ou como pássaros fazendo suas cortes. Plumas desreguladas pela euforia de descobrir que sou ainda mais eu quando perdida em casa do seu tato. Seviciá-lo, cuspir em seus restos, cumprir a maratona de agasalhos dos beijos noturnos, minhas costas esperando que ele se aloje. Eu cheiro. Cumpro-me, a perdigueira feita mulher cachorro, assim mesmo misturando os gêneros, como aquela do escritor de asneiras facílimas sobre o ridículo que é sentir amor em Terabytes e coloca-lo nas redes sociais. Lambo seus dedos. Dentro da mais cerimoniosa desposse eu sou tudo quanto queiram suas mãos de artesão. Chamo-o de homem. Nunca de meu. Sou antes, dele. Decido passar aos outros aposentos. E sem precisar de espelhos ou desguias, me perco. Ocupá-lo é como rastejar de sede no deserto e ainda assim não suportar uma gota sequer quando resgatada. Salva. É isso que estou. E num último gesto de redobro volto ao núcleo de mim – um feto – abraçando as próprias pernas esgarçando o couro dele que me envolve. Firo. Curvada sobre mim mesma. Vestindo sua pele cedida as expensas de uma intensidade que sempre quis e não suporto. Finalmente compreendo: ocupa-lo é ser o que sempre estive destinada a ser. Detentora de minhas incertezas. E nada mais. J.M.N.

Fotografia–Cenas da Cidade (Parauapebas, 2012)

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O olhar que os passantes lançam pra aquelas fotos é o mesmo olhar da criança que se vê pela primeira vez no espelho. A presença daquele estranho tão nosso, que nos imita em alguns gestos e palavras, incomoda e nos remove do meio das lembranças boas das origens. Logo somos expulsos pra dentro do mundo e, através dessas fotografias, nos recolocamos na cidade.

Parauapebas tem luzes insones na madrugada, dos trabalhadores do turno, dos ônibus que carregam gente pra cavar a terra atrás das preciosidades subterrâneas. Na madrugada ainda, nascem os primeiros seres que sentirão a maior saudade do mundo, a saudade da própria terra. Nas fotos apareceram crianças de uma pele cobre. Ao fundo o céu anil lhes convocando à permanente lida pela invenção de si mesmos e desse lugar que a cada prédio exige um novo olhar.

Graças aos fotógrafos Anderson Souza e Felipe Borges agora a cidade onde moram tem cartões postais que não se resumem a gaviões e onças. Das paredes do Centro de Desenvolvimento Cultural da cidade desabrochou como milagre um povo plural e, por isso, singular. Uma gente em estado bruto e, por isso, rara.

Trata-se de uma filigrana, um quase-nada, mas esses cliques são de um atrevimento desnorteante. Quem teria a ousadia de parar de espernear como um recém-nascido que espera a atenção de um cuidador que não vem? e, pior dos esconjuros, revelar a beleza que se nega? Esses meninos tiveram! Vamos odiá-los por isso. Por mostrar a nossa cara. Por mostrar que temos uma cara. Por nos lançar nessa aventura dolorosa que é o crescimento. WDC

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

No dorso do tempo

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Compartilho com vocês o primeiro texto de outro livro que finalizei e que, em breve, como venho me prometendo há tanto tempo, estará impresso e circulando por ai.
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Já vão fundas no meu dentro caduco, aquelas tuas imagens. Tua pele não é mais pele. Um manto. Proteção para saudade que frequentemente rompe e a deixa escapar. Me deixa escapar. O que disseste em linhas tão duras não durou mais que o instante. E resta da frieza do teu ferro, apenas o tal bolero com o qual dançamos nosso amor no escuro. Sem futuro, como um câncer decidido e bastante espalhado. Fomos desde o início, início e fim.
Nosso amor sexagenário dos quinze anos e depois dos vinte. Repetido pela estirpe precedente dos insondáveis, meus ratos imundos – a família ultrapassada pelo escuro. Passeantes da memória e dos conluios feitos antes de mim para que eu não chegasse a dar certo. Para que eu não resultasse.
Fico feliz por terem falhado. É o que penso. Era o que desejava desde sempre.
Nosso amor de descuido, de rua, caminhante. Repetido em termos e prazos, nosso amor fazia seus passos pé ante pé com a virtude que não geramos, que não quisemos. Alavancado por oboés sonhados. E aos suspiros, o mar de azuis e lençóis nos cobrou caro a entrega, força bruta pelo que não sabíamos. Cansaço. Um punhado de missas enjoadas e confissões pretendidas.
Nosso amor não alcançou nada além de si mesmo.
Nosso amor de mais nada formado senão do magma incandescente da pouca idade, do muito uso.
Haveriam de nos por limites as três grandezas indissolúveis da vida: o tempo dos anos que rói tamborins e deixa o som – antes ardente – meio murcho, mais inseguro; a quilometragem do corpo em uso, inconstante e sem jeito como qualquer carne pronta para o consumo; e o dorso do mesmo tempo sobre o qual escorria nosso amor e nossa parceria, escangalhados por tanta incerteza.
Trombetas dos que se foram. Assovios salientes. É isso o que ouço. E tu? Onde acabam teus ouvidos? Eles cansaram?
Aquela última grandeza, a mais sequaz, longilínea dentre as nobrezas que não funcionaram, dentre a destreza que se cancelou pela escolha – a incrível semelhança do que nos separou e nos uniu – vai descolorindo.
Já soa a nada esta lembrança agora e mesmo assim tem força.
Nesta lembrança, em cuja profundidade mergulhou meu som, faço silêncio. Deste passado tão presente em cuja distância reclama minhas faltas, faço questão...
Faço questão de te dizer que não sei nada e não quero nada.
A licença da lua será usada para por traços quando for procedente pintar, quando chegar meu tempo de não poder concatenar as ideias. Assim direi o que não posso. Estarei arrependido do que não sou agora, aquela imagem que queres ver em meus atos tão desesperadamente.
Vou dizendo este sem jeito que são as coisas. Esse negócio mal fadado que foi nosso último beijo. Apenas para que lembres – não fui o primeiro a dar de ombros ao que nos vinha.
Não fui sequer, tão obstinadamente o que te queria.
Tímido, desejo apenas não ter mais idade, não ter peso. Desejo que não me venhas com meus erros listados uma a um. Eu sei exatamente o que eles são e o que fizeste depois me socorrer dentre muitos.
Se não tens mais falas, fica sentada ao lado. Eu também já fui apunhalado tantas vezes pelas costas que é quase sem pele que me despeço finalmente. É assim que as coisas são.
Preciso decretar o fim, inventar que foi tudo por acaso. Assim poderei passar para os autos do meu tempo. Emergir. Poder, sem tempo ou carne, corpo ou percurso, usar de novo o emblema de amado. Estatelado e surpreendente.
Estampado com muito cuidado no acabamento. Como se fosse uma imensa flor de cacto cosida inteirinha numa de minhas camisetas mais anis. J.M.N.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O olhar sequestrado (ou a via da imagem eterna)

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Texto sobre o tema geral: “ícones da sedução em todos os tempos”, escrito para uma nova revista impressa que deverá circular em breve na cidade. Terei de escrever outro, pois ainda não sei calibrar direito a objetividade desejada para um texto de revista e o peso da poesia nas minhas palavras. Quem sabe não saiba mesmo fazer isso – ou não deva. J.M.N.
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O olhar é um grande descuidado! Suscetível aos perigos mais imediatos de um encontro. Talvez por sua infantil pretensão de alcançar todos os horizontes na visão, talvez pelo imperativo de comandar as regras na cegueira. Mesmo quando mudo – mergulhado momentânea ou fatalmente no silêncio da escuridão – arfa a compensar seu desespero por reconhecer e guardar na memória aquilo que o mobiliza, encanta, seduz.

Quando impresso no olho – uma visão, quando consumado em artefato – uma pintura, uma escultura, uma série de sinais com as mãos – outra linguagem. O olhar é transmutável. Seu encontro com objetos funde ideias ao poder dos sentidos. Resulta a imagem. A imagem alimentada pela imaginação se mostra um ícone. Representante sublime com o qual traduzimos o que nos captura no íntimo de todos os segredos.

O olhar é uma eterna vítima de crimes hediondos – especialmente o sequestro – relâmpago, de dias, meses, décadas. Sua única esperança é possuir meios de pagar o resgate, seja com a mais bela lembrança, seja com a eternidade de uma busca em repetir o sumo impressionante do primeiro encontro. Comumente não deseja escapar.

Entre sucumbir e viver devem ter ficado aqueles que em 1935, viram estarrecidos a aparição espectral de Bette Davis no filme Dangerous, ícone eterno do olhar da sedução. Sob suas safiras, como dizia devotadamente Arthur Miller – ao mesmo tempo em que estava marido de Marilyn Monroe – sucumbimos nós, meros espectadores, nós homens em sexo e desejo, e, sobretudo, nós do gênero humano, despossuídos da capacidade de suportar a presença daqueles olhos tão potentes, ao mesmo tempo, desejando-os intensamente.

Rita Hayworth revelou os estranhos sinos que vinham de além do tempo e espaço das salas de cinema e perpetuavam-se dias a fio, zunindo em campanários longínquos, transportando homens e mulheres ao incômodo reencontro com sua beleza ferina e sensualidade ainda sem pares, cujo maneio de cabeça e o balançar de cabelos marcou a forma como as mulheres deviam conduzir seus jogos de sedução a partir de então. Sua beleza flutuando sobre o noir do filme Gilda, nos anos 50 é mais uma destas materializações do sagrado artístico que nos enleva.

Carlos Drummond de Andrade, poeta dos muitos resíduos decretou que de tudo fica um pouco/ do meu medo/ do teu asco/ dos gritos gagos/ da rosa fica um pouco. Os ícones são gravuras que deixam suas marcas, gravam-nos de volta, espelham-nos. Amá-los, assim, como ídolos fica fácil. Basta lembrar Marilyn Monroe, Burt Lancaster, o automóvel Aston Martin dirigido pelo melhor James Bond da história: Sean Connery, a Vênus de Milo que requer a devoção do abraço, a Vitória de Samothrace e sua imagem decapitada a proteger marujos incautos.

Um sem fim de redutos para o deleite. Assim são os ícones. Elvis ainda me leva para o trabalho todos os dias, quase rezando a letra de suspicious mind, cuja primeira estrofe sentencia: fui pego numa armadilha/ não posso escapar/ porque eu te amo demais querida. Misturados os sentidos, o final do poema citado de Drummond, Resíduos, clama o fim do mau cheiro da memória pela simples abertura de vidros de loção. O olhar também pode ser seduzido pelo cheiro. O olfato é cúmplice habitual em seus sequestros.

Coco Chanel transformou a alta costura e influenciou definitivamente a perfumaria mundial. Como arma da sedução, seu Chanel nº5 atraiu muitos. Seus prisioneiros eram erroneamente advertidos pelo reduzido tamanho do frasco. Talvez com Chanel e sua invenção, o dito popular que toma por mais letais os venenos guardados em frascos pequenos tenha alcançado outra dimensão, refinando-se numa epifania garantida pelo deslumbramento das imagens de venda junto às quais o perfume era apresentado nos cartazes.

Nas artes, na moda, no cinema, na literatura os ícones abundam. A sedução, como resultado da mistura de elementos, desde a paixão do artista, do criador, até a ferida tocada no peito de quem admira a obra, o produto cálido da excitação instantânea ou duradoura que advém da imagem e sua luz, seu gosto, sua textura e seu cheiro fazem com que a experiência assuma um significado especial e particular, cosido em definitivo nas referências simbólicas das pessoas e repassadas ao tecido que as torna participantes ativas da vida através de histórias, demonstrações e repetição da exposição de seus ícones particulares.

Falar sobre o que é universal, assim, soa pequeno ou impossível quando a profundidade do que se sentiu diante de uma imagem só chega à compreensão externa quando outros elementos ajudam a retomar a força elementar da experiência. É o que penso. Desta feita, para terminar o que me foi pedido – falar sobre os ícones universais de sedução – recorro àquilo que me é mais caro e secreto atendendo ao impulso de registrar o vivido ao mesmo passo em que temo não ser compreendido ou parecer fora de contexto. Afinal, o universo está em cada um.

Meu ícone não é uma foto de Henry Cartier-Bresson a suspender o tempo e eternizar um homem que anda anônimo pelas ruas de uma Paris devastada. Não é um casaco Visom, um óculos de sol Dolce & Gabbana, um terno Armani. Nada tem a ver com Sônia Braga subindo no telhado de Nacib para pegar uma pipa fazendo com que a geração de meu pai não pudesse conceber outra mulher sendo a Gabriela de Jorge Amado, como disse o próprio autor, numa entrevista nos anos oitenta. Não é, enfim, a Carla Camurati, alma gêmea de um amigo querido, insuspeita diante da decepção que provocou ao não retribuir-lhe um olhar anos atrás.

Termino voltando ao começo, a falar sobre a via prima da sedução – o olhar, ícone do deslumbre. Constante e destreinado na modernidade apressada da produção em massa, das metas de trabalho, do impossível aos encontros com a família. O olhar como Coliseu das batalhas pela supremacia de quem quer ser apanhado no turbilhão crescente da entrega, do perder-se em si para ser recuperado pela voz e pelo toque do outro.

Falo do olhar como a suprema corte do que esquecemos em nossa humanidade; via que se refaz a cada novo brilho, em cada novo foco. Olhar de comer fotografias como em Chico Buarque ou como a lança da incerteza na Monalisa de Leonardo Da Vinci.

Meu olhar também foi sequestrado.

Meu ícone é esta pessoa de gestos simples e arquitetura morena que vem sempre antes do meu sono e diz que tudo está bem e que dormirei sem calor ou maus presságios. Esta pessoa de carne e osso que tem nome de santa, mas não o cumpre. Meu ícone foi “esculpida” em carne, ossos e ternura e me mostrou que estar em cativeiro por desejo é o contrário de uma prisão – é liberdade a dois. Não precisa, afinal, de um nome meu ícone, ela sabe o que representa para mim e o preço que pago por estar seu cativo é também um prêmio.

Um amor simples. Talvez a maior das artimanhas de sedução em todos os tempos, em todo lugar.

Belém, 28 de outubro de 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Palavras de Outrem

Vou publicá-lo. Nunca pergunto se posso. Assim vamos vivendo esses anos de amizade. Aparados pela possibilidade do encontro – quando der, deu. Ofertou-me generosamente este texto maravilhoso. Imprimo-o com dedicatória e tudo, pois como dizia meu mestre Sigmund, temos defesas contra os ataques e somos indefesos diante de um elogio, neste caso, uma dedicatória. Texto de Gustavo Autran Rodrigues

[Para José Mattos Neto]

ela é doce
ordinariamente doce
como a reconhecemos
como recolhemos seus sumos
como a redimensionamos
e, claro, isso também é ordinário
mas como ornas essa carcaça, esses ossos roídos pela flor dos dias
no teu fôlego
na lâmina do afago
nas janelas em chamas
chovendo tuas folhas
do cubículo úmido que cabe no teu salário
tuas fomes,
teus prenomes
outono, ourives
esquartejando a vida
ligando os pontos
não sei como fazes

não sei como engendrar teus cuidados
não sei como inventar teu hálito dândi
não sei como manufaturas
essa mentira primal
– onde nos refugiamos –
onde douras a noite, a cave
tentando tão somente
transgredir a morte

Anotações às margens do romance II

Nada explica essa falta. Nem mesmo a presença, o tempo transcorrido em dobro. Começo o dia de cabeça baixa, chamando atenção de ninguém. O espelho espera. O café sequencia meu abandono, sua fumaça fina e perfumada atraindo apenas quem não possui alimentos. Ao cabo de uns minutos a sensação perigosa da eternidade. Viver para sempre seguindo apenas o tempo. Um horror impensável. Nada explica esse momento de eternidade e instantânea agonia que se encontram ao mero sussurro do teu nome. Alguma coisa muda. Insignificante. É minha alegria debruçada na imagem finíssima do teu sorriso, no balanço dos teus cabelos. Onde andarás agora que nunca nos encontramos que a propriedade de tuas partículas é igual àquela teoria dificílima que diz ser possível um elétron passar por dois lugares ao mesmo tempo, desde que não estejamos olhando. Mas meus olhos estão tão abertos e voltados para o outro lado. Por que então não sinto sequer a tua presença? Me vem uma música e a última linha da peça de teatro que escrevo desde que foste embora: o amor é feito de pequenos atos e de pequenas palavras – amor, dor, sempre, frio, manhã e fim. Não queria ter escrito isso. Mas a música levou o crédito – When we woke up that morning/ we had no way of knowing. E sem saber começamos o dia. E sem o dia saber, foi o nosso último. J.M.N.