Era apenas por querer que a noite sempre se aproximava mais lenta. Desejava que viesse rápida, logo ao fim da manhã. Depois da primeira parte do trabalho já poderia ter aqueles olhos imensos a guardar-me toda a dor dos dias antes sozinhos, esquecendo-se de meus incômodos durante alguns momentos. Era apenas por que isso era impossível que mais o desejava. Como as verdades que ficam escondidas nas coisas brutas que saem das bocas durante as brigas de amor. Dizer que se não acontecer assim ou assado “vamos embora para sempre” é a pior desfeita que se pode pronunciar. Era por ter certeza de que isso um dia viria a ser verdade, que sumi. Mas deixei a porta entreaberta. Sempre há esperanças nas frestas das portas e nos espaços desconhecidos. Um dia ela chegou em casa e me disse que estava cansada. Resolvi que era comigo e mudei, de desejo para esquecimento. Hoje não há améns e nem as mentiras bonitas que me faziam tão feliz. Cansada de quê? Eu pensava. De mim, de nós? Deixei a porta aberta e muitos quereres não ditos e foi por isso que a noite entrou para sempre em nossa casa, porque não soubemos descortinar os dias pouco a pouco.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Habitado
Novamente habitado de estranhamentos e luzes. Como deixar a rota dos amores dantes caminhados em pensamentos, apenas? Como voltar? Um capítulo que seja, uma frase apenas, escreve-a, faz a sorte te revelar multidões. Com ternura assoberbada segue andando, pedindo mais e mais da vida. Faz como eu estou finalmente fazendo. É agora em mim. Estendendo-se pelas nesgas de minha saudade, inscreve-se um tratado de virtudes. As que nunca tive nem nunca quis ter. Ouço somente meus roucos sons de sono a bambolear freneticamente pela vigília desocupada de um amor recém desperto. Intocado ainda. O destino impreciso arqueia as vozes que me ditam mouras histórias do exílio. Um louco de rua, a estátua prostrada sem nada a dizer. Sou eu quem retorna das sombras do dia esperando ser novo, dizendo velharias. E como não fosse mistério, a voz que trago é ainda mais antiga, mais forte e veloz que meus anos vividos. Dobram-se nos compassos da minha história, as inocências concebidas entre beijos e sinceridades duvidosas. Novamente instado, ancorado em meu centro de pensa e desejo, o amor distribui as falas e as canções. Não preciso de pernas ou braços, não preciso de estradas ou sacrifícios. Instigado pela chama, minha alma se encarrega do caminho.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Excertos Terapêuticos VII
“Quase entendo a razão da minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minhas angústias,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.”
Ex-voto – Oráculos de Maio (Adélia Prado)
domingo, 30 de novembro de 2008
Desconserto
Naquele meio-dia e alguma coisa, diante da tua imagem que desapareceu atrás de uma árvore reaparecendo depois de dois longos segundos, eu pensei na palavra saudade, mas ela não me pareceu mais parte de mim que a fome que eu sentia àquela hora. Sei que a minha existência naquele momento e naquele lugar te afetava, assim como a tua também me afetava; os gestos confirmavam: passastes os dedos por trás das orelhas como se tivesses cabelos que ajeitar; eu te abracei de lado pra que não notasses o galope do meu coração.
Foi desconserto, senhora, eu confesso, e pela segunda vez alguém me cantarolou a música do Chico. Não que eu ainda te ame ou pense em ti – em nós – mais que quando sinto ciúmes de alguém ou pense no quanto devemos a Portugal, mas é como reencontrar uma parte de si que se perdeu, depois de já ter aceitado a incompletude. Não que eu busque de novo esse amor inapelável e sem abrigo que começou com um recusa minha e terminou assim, com um teu fastio.
Tudo não passou de ciladas e enlevos. De tesouros buscados e achados e, depois de achados, abandonados, pois precisamos estar permanentemente à cata de horizontes e abismos. No nosso caso, mais de abismos que de horizontes. Naquela manhã, quando confessastes que o teu amor esgotara-se e pedistes pra eu não vir mais à tua casa, pareceu-me que eu recebia um golpe de misericórdia, como se minhas costas recebessem o restinho de força de uma mão que apressava a minha queda. E eu me abandonei por inteiro ao desabamento, como um condenado por um crime de paixão se entrega à forca. O negrume insondável de treze noites apoderou-se de mim por meses a fio. Eu esperava o baque surdo, a última nota que meu corpo produziria, mas ele não vinha. Os abismos não têm fim, e esse era o meu único consolo.
Sem inspiração suficiente para pássaro, aprendi a planar sem me valer das cartas geográficas. Informo-lhe que ando fazendo o de costume: defendendo o salário que eu tanto reclamo; amando a esmo; colecionando coisas e sentimentos. Não, não é amor que nutro pela senhora. Talvez apreço, pelas lições de anatomia e pelos poucos sentidos que ficaram insatisfeitos. E também por essa dor que me destes, esse rasgo no peito que me divide e me faz maior.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Velando a ida, esperando a volta
Quando o barco se foi, pesou-me a triste ladainha da semana anterior. Mil terços não resolverão este adensar de confinamentos em minha alma. Ao longe um farol meio apagado, o peito demasiado fundo. Lá para as bandas de ontem, onde estes ingratos suspiros condensam, a festa é apenas pela lembrança – algo que foi, não é mais e continua doendo. Lembro de quando éramos jovens, alinhando as vidas com linhas de paixão. Espero que este barco volte trazendo as trouxas da ida. Num retorno perpétuo e esperado, amarras no porto norte, donde nunca deveria ter partido. Hei de esperar por ela, de pé, com o olho irrestrito pensando que nunca se foi. Haverá de voltar o barco negro com velas baixas e poucas almas. Sem histórias nem naufrágios, apenas repleto de sal e saudade.
Histórias para depois do sono VI
É como viver do avesso. A cada beijo, o rumor da vida escolhida por ti, bem longe dos nossos, bem longe de mim. Ah! as escolhas terríveis. Quereres e mais traços. Além dos olhares, adereços, poucos horizontes interessados em nós. Não quero saber das coisas eternas em ti. Caso não tenhas percebido esta noite não cobre meus sonhos. E quando acordo almejando teus lábios? Só o canto e o rádio-relógio me impedem de estar morto. E mesmo que esteja errado, não se esqueça do apreço, dos vícios de te querer, que são a mesma coisa que a morte. E acordo, de repente, nas bocas unidas em beijos, nas ruas vazias de luz, atrasado na promessa de te dar simplesmente tudo. Eu que vivo de amores espessos me encontro sem ti, atrás de um gole de água, ou de um pedaço de sombra debaixo deste sol infernal.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Anistia
Algumas vezes escutamos histórias ou passamos por situações que nem imaginávamos. Seguido a isso as reações são as mais variadas. Alguns choram, outros morrem um pouco, outros como meu grande amigo aqui homenageado, simplesmente escolhem viver e contar suas histórias. Este texto é para ele... meu amigo distante a quem carinhosamente chamo de "Grande Homem".
Enfim avistaram Calle La Salette. Havia mudado pouco. Os bangalôs erguidos sobre o asfalto ainda muito negro. As pessoas curiosas vendo chegarem juntos aqueles rostos atônitos. Ninguém pôde reconhece ninguém logo que se viram. E como um encontro combinado às escuras, aqueles que chegavam – ou voltavam – continuaram em passos lentos, apreensivos. Aqueles que estavam às janelas, de pacíficos foram ficando inquietos depois espantados e finalmente exaltados. O choro foi quase integrado. Uma orquestra de reconhecimento mútuo, de espanto, de esperanças justificadas. Um a um, os rostos antes pobres de expressões foram mudando. Angústia, medo, procura, mas, sobretudo, felicidade. Como havia muito não se sentia na cidade. Os abraços no meio da rua sucederam-se, criando um bolo de corpos que já se procuravam fazia tempo. Uns incrédulos, outros certos de que haviam deixado os pertences de seus entes nos lugares de sempre, pois haveria de chegar o dia do reencontro. Mães, filhos, irmãos, vizinhos apenas. Um mar de reencontros, mas também de notícias ruins. Talvez já não seja importante falar desses momentos, contar essas histórias. Ainda resiste o odor daquele dia e as paredes ainda guardam as tramas sigilosas. Nas ruelas tristes, nas peles cansadas, nos olhos desenfreados a consumir infinitos, existe tempo, existe vida. Voltaram de longe e com dores secretas. Os corpos não eram os mesmos. Voltaram sedentos pelo sono abundante, pelo pão das manhãs e as mornas toalhas de preparar as mãos para as refeições. Um dia haverão de contar seus estados, de dizer suas ruínas, apedrejados que foram por um regime absurdo. Um dia haverão de acordar e dormir como antes, remotas crianças da cidade a contar a história dos acontecimentos com a sabedoria dos antigos. Mas até lá, o forte cheiro do regresso é que fica e as tardes escuras anteriores ao reencontro, são apenas sanha e pólvora recém usada. Um borrão na saudade evidente.
Os sinos
O que eu ouço são sinos. Dobrando-se longe dos olhos que procuram. Porque soares de sinos têm de ser invisíveis. Ouço-os, pois sinto presenças. E também porque admiro. Os sinos soam em limites de dor e palavras que sangram. Como eu, algumas vezes. Tenho os sons dos sinos embutidos. Aliciando meus tímpanos, como se fossem conversas de amor. Não existem campanários para os sinos das minhas breves alucinações matutinas. Não estão eles em igrejas. Eles vêm de distâncias não sabidas. Ecoam porque limpos, banhados em orvalhos ou lágrimas, mas silenciam às claques absurdas, como quando ditadores se impõem às multidões. Meus sinos são sacros. Meus sentimentos inundam. Meus sinos, enfim, existem e dobram porque estás em mim.
[...]
Antes eu tinha mania de ser escuro. De andar de preto e versar sobre autores impossíveis. Criava os livros que eu desejava que ninguém conhecesse e também os labirintos nas falas e artimanhas de esconder minhas paixões. Vivi nisso até que ela me deteve. No dia cinco de Setembro de um ano qualquer. Ela derrubou meus muros com uma frase certeira: - tu és tão teatral! E foi assim que se instalou no meu palco. Como se nada mais lhe pudesse mexer ou desviar, ficou me olhando. Bem para dentro e cada vez mais. Até hoje. Escrevo estas linhas com ela fazendo alimentos para nossa fome de gente, enfiada nos trajes estampados que a fazem tão íntima. Ela se sente pequena e eu, demasiado teatral para fazê-la desacreditar em mim. Também já não posso. – Vou já amor, acabo de gritar. Tenho um presente para ela. Sei que vai amar. Depois da cozinha me fará cessar outras fomes e eu poderei lhe contar as histórias que invento apenas para poder ver em seu rosto, o sorriso de que tanto gosto.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Coisas de alma
Tenho tantas almas que agora dei de enumera-las. Faço de conta que têm privilégios os primeiros lugares e lhes dou a primazia das respostas, como se fosse um sistema de rodízio interno. Mas isso se limita às dez primeiras. Ando em confusão. Sobretudo em relação às sinceridades. Eduardo, minha alma de número nove, contou a mentira desmedida de que eu andava com saudades da Clementina, que prontamente se arrumou em seus vestidos de mau gosto e se plantou na porta do meu apartamento. Antes de eu a poder convencer de que tinha sido uma mentirinha boba de Eduardo, ela me estapeou e correu pelas escadas do meu prédio me chamando de louco. Pobre Clemê, ainda acredita em almas.
Depois disso foi a vez de Xenóbias, minha alma de número dois. Não pagou o aluguel e eu agora tenho que correr a cidade atrás de um teto levando apenas as sobras das roupas que peguei na lavanderia e uma cumbuca de porcelana que nunca usei, mas me pareceu muito sozinha quando estive pela última vez na cozinha e Vanda Flores, minha alma número sete, pediu-lhe emprestada a beleza esquecida com os rabiscos chineses que bem poderiam ser de Caldas Novas. Seu Roberval, o síndico, enquanto isso, lacrou o apê até eu pagar a renda. Ando atrás das almas estudadas para dar um jeito nisso.
E tem aqueles que não são ouvidos há muito tempo, os que fugiram às regras ou que as redefiniram e não conseguiram se incorporar, desistindo das lutas titânicas com a razão ou a criatividade. Sérgio, por exemplo, minha trigégima alma, anda aos murros com a Carminha, a número cinco que se disparatou e pediu por favor para entrar no banheiro das mulheres do shopping apenas para ver como ficava a calcinha recém comprada de uma dona que deu toda a pinta de que entraria no banheiro para experimentar a tal calçola.
Mas o pior de tudo, foi Antônio, o último da fila do meu dentro. Gritou, manhã dessas, que estava morrendo. Se eu não fizesse o que ele pedia, estaria condenando uma alma esverdeada e de bons costumes, como se definiu. Nem lembrava dele. Aliás, nem dele, nem de muitos destes pobres espectros que se me habitam. Mas fiz a vontade de Antônio, que afinal, não sou tão mal assim com as tais minhas almas.
Ele queria ver o mar.
Fui com Antônio e todos os outros para uma praia deserta e ficamos lá o dia inteiro. Ele acalmou. Fez até verso. Antônio tem disso. É dramático, mas boa gente e sabe bem a poesia reconfortante que se faz às pressas, para criar bonitezas de urgência quando o mundo não anda muito agradável. Antes de voltar para seu lugar, Antônio me perguntou se eu não me cansava de estar distante, no que eu disse: estar longe é para quem pode, Antônio, estou perto, mas já não conto que as distâncias são assim, distantes. - Olha, Antônio, tenho que me lembrar mais vezes de ti, disse afinal. Antônio riu baixinho e foi dormir em paz.
Atrás do espelho
Quando a cama parece maior. Quando o olho se reflete sozinho. Quando os quadros e músicas se eternizam e as coisas a dois se igualam ao respirar. É nesse momento que a solidão ganha sentido e tantas noites mal dormidas amanhecem. Tantos claustros desnecessários se tornam pátios e eu, com o riso dantes preso e agora público, aprendo a dizer - que saudade!
Solidão, enfim, é estar só, com uma vida inteira por detrás do espelho.
Farwell
Recuso-me a acreditar que não aconteceu. Que a palavra saudade é apenas um folguedo das minhas noites em claro. Escreveste que estarias aqui, todas as vezes que eu virasse as páginas do livro. De fato estás. Mas destas últimas doze vezes, imóvel. Em que esquina desencontramo-nos. Deixamos coisas demais por lá? Pelas estreitas vias de um passado recente? Não sou Drummond. Não és Cecília. Mas tenho os dois em um mesmo rascunho. Num pergaminho sacro que guardo com tanto carinho. Somos Forrest e Amèlie, andando depois do cinema, falando mal dos amigos. Criando questões sem resposta. Talvez não lembres dos ditos. Talvez não recordes do cheiro. Mas há sempre um registro esquecido. Um retrato roubado (e no nosso caso tenho muitos retratos doados). Não há como falar em retorno. Não se retorna nunca. Afinal as coisas acontecem a despeito de nossos quereres e, às vezes, de nossos atos mais desesperados. Continuo existindo em pedaços. Tem um enorme guardado nos confins do Mondego amado, esperando a urgência da fuga ou das ciências para subir à tona. Grandioso e melancólico como um sonho de amor. E sempre cheio de saudade - aquela dor que por vezes é a única que faz bem ao espírito. J.M.N
domingo, 26 de outubro de 2008
Cenas da Fé
Enternecedor é o livro com poemas de Emanuel Matos e fotos de Miguel Chikaoka. O livro me foi dado de presente pelo Neto, com carinhosa dedicatória do Emanuel. Presente bom é aquele que nos leva a outros mundos, outros tempos, aqueles de bem antes de anterdontem, como eu dizia quando moleque.
Esmagamentos e um sol de lascar, a mão firme de minha mãe segurando a minha e dizendo que já ia terminar – mais que respostas pra perguntas não ditas, lições para lidar com a ansiedade. Calças e camisas novas e sapatos lavados. Todo o exotismo do banquete paraense esperando na casa de algum parente. Um pouco de medo de ter que enfrentar os tios que sempre reclamavam do meu silêncio. Os dois pesadelos com aquelas bolonas do arraial: primeiro pesadelo: eu e meu irmão sendo engolidos por uma daquelas dentro do nosso quartinho da casa no Guamá; segundo pesadelo: minha mãe comprando uma daquelas e eu tendo que levar dentro de um Guamá Conselheiro atulhado de romeiros. Toda mobilização de nossos universos por causa da santinha que eu nunca via.
O Miguel enfocou bem algo que, em infância, eu nunca participei: a trasladação. Mostrou como são bonitos os fogos à noite, como a festa de explosões e luz pode compensar o barulho ensurdecedor. As imagens mostram ainda como a mãe de Jesus está entranhada nas vidas das pessoas em Belém (como na foto do que parece ser um açougue que eu coloquei no início do texto).
“A proposta do livro não foi fazer dos poemas legendas das fotos, e nem das fotos ilustrações do poema”, daí a liberdade com que Emanuel Matos espalhou seus poemas deliciosos pelas páginas de Cenas da Fé, polinizou mesmo, lançou os versos com mãos de lavrador. Sem pedantismos nem fanatismos, o poeta mostra como Belém se vê, pelos olhos da santa, em reflexos suavizados pelos ares de outubro. Como Belém construiu-se mais feminina que outras cidades por ter adotado como bordejamento para o desamparo uma rainha. O achado de Plácido parece ter sido mais que um milagre, foi o batismo de uma cidade da qual o livro me fez ter saudade.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Depois do abraço
19:30. Início de uma hora breve na qual acreditamos a casualidade do encontro. Hora das desventuras mútuas. De escutar o que o outro tem pra falar sobre os perigos da beleza e as lições da dor. Hora das gargalhadas rasgando o começo da noite e o disfarce dos sentimentos. Hora de estar de verdade com alguém, assim inteiriço, sabe? e, mesmo com o ar rareando no pulmão, tentar acompanhar a velocidade dos teus passos e frases. Aprender contigo: que quando se trata de vida, a aposta tem que ser sem reservas; que sofre aquele que tenta entender o feminino ao invés de simplesmente abandonar-se a ele; que sentir que o chão se foi é o primeiro passo pra estar nas nuvens. Depois disso logo deixas o meu ombro e procuras o colo da tua filha (ou vice-versa, dependendo de qual mulher estiver mais forte àquela hora). De longe, vejo que fizeste algo no cabelo que eu esqueci de comentar. Reparo ainda como sempre falta um abraço teu ou uma frase qualquer que expresse essa minha sensação de pilhas recarregadas e de coração azeitado após a tua ida.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
O guardador de águas
Sempre que estou obscuro, procuro Manoel de Barros. Este seu pequeno guardador de água é especialmente recomendado para aqueles dias em que estamos mais "atraídos pelas doenças das coisas que por suas belezas". Aqueles dias em que cabe benzinho dizer para o espelho: É homem proposto ao escárnio.
Manoel de Barros coisifica sentimentos ermos e sentimentaliza coisas inúteis como pregos e latas fazendo-nos crer que a língua na qual escreve não é a mesma nossa língua-mãe. Tão essenciais como o vento e o canto dos passarinhos, suas palavras atestam seu destempero com o mundo.
Mas este destempero não é desgosto, como no popular mexerico, não! É coisa santa de segredos de relva, casas que que falam de suas assombrações e Bernardo... Ah! Bernardo, o tolo da estrada.
Guardando águas, falando sobre as grandezas do ínfimo ou tratando do nada, Manoel nos inspira a reconhecer a tez primitiva de nossa história pessoal e a nos atar às coisas da terra e do ar como sendo as peles necessárias à proteção dos sonhos e ao entardecer de nossas angústias mais infantis.
Ainda bem que Manoel existe e nos diz clara e corajosamente sobre o seu guardador de águas: Um livro o ensinou a não saber nada - agora já sabe. J.M.N
Sem sentido
O pior de tudo é a espera, esse acúmulo de tempo sem sentido. Um silêncio desconcertante em que as mariposas não surgem e o telefone jamais toca. Como noutra parte escrito: só resta a prisão do corpo e a eternidade das fugas impossíveis. Enquanto tudo volta num turbilhão feroz de anotações e convites não feitos, no peito insinua-se uma velha lição - mais coração, mais cicratrizes. Houvesse paz nesses dias de espera incerta, o ritmo de nosso centro de existir descompassaria, diminuiria seu trabalho e as razões de pulsar extinguiríam-se. Mas o silêncio que fica é impressionante, executa a beleza das sinfonias, isola o sentimento de partilha e quanto mais prolongado fica deixa menos sentido para a saudade. J.M.N
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Fogos na noite
Apoxima-se o primeiro e único aniversário daquela noite. Nosso templo de renascimento, onde até o céu aquilatou suas cores e pendeu sobre nosso abraço satisfeito, transformado em sucessivas explosões.
Os fogos do Círio anunciaram nossa chegada como os primeiros amantes da fantasia de fé que se encerrara para os demais, mas que se firmava entre nossos beijos e as cantilenas de adoração e encontro. E naquele preciso momento, também os fogos inauguraram a nossa existência paralela.
Naquela noite houve lágrimas e êxtase, e a entrega ofegante de um encontro por ambos desejado. Naquela noite em que findamos nossa entrega na mesma hora em que o céu inaugurou suas cores fictícias, a sensatez deu um passo atrás e a esperança pela eternidade declarada se instalou como uma promessa inquebrável.
Inquebrável?
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Excertos terapêuticos VI
"Era apenas por querer que a noite sempre se aproximava mais lenta. Digo, sempre desejava que viesse rápida, logo ao fim da manhã. Depois da primeira parte do trabalho já poderia ter aqueles olhos imensos a guardar-me toda a dor dos dias antes sozinhos. Era apenas porque isso era impossível que mais o desejava. Como as verdades que ficam escondidas nas coisas brutas que saem das bocas durante as brigas de amor. Dizer que se não acontecer assim ou assado “vamos embora para sempre” é a pior desfeita que se pode pronunciar. Era por ter certeza de que isso um dia viria a ser verdade, que sumi. Mas deixei a porta entreaberta. Sempre há esperanças nas frestas das portas e nos espaços desconhecidos. Um dia ela chegou em casa e me disse que estava cansada. Resolvi que era comigo e mudei de desejo para esquecimento. Hoje não há améns e nem as mentiras bonitas que me faziam tão feliz. Cansada de quê? Eu pensava. De mim, de nós? Deixei a porta aberta e muitos quereres não ditos e foi por isso que a noite entrou para sempre em nossa casa, porque não soube descortinar os dias pouco a pouco."
O livro dos artefatos do nada - Cantídio, p. 78
Histórias para depois do sono V
Lembrete: parar além de Ceuta com seus dois céus mediterrâneos. Não ir a lugar nenhum enquanto dure um abraço. Os olhos impertigados de desventuras. Barcarolas ao longe me lembram o velho Francisco. Saudades dos portos conhecidos. Se vou adiante atrevo-me num mundo que nunca me quis e se ficar, posso até esquecer de onde vim. Qualquer vento por favor! É um pedido justo já que estou no limite. Ela voltou com água e docinhos estranhos. Deu-me um beijo e segurou a minha mão. – Vamos? Disse-me lenta. Eu fui. Ao longe, no outro lado, Gibraltar e a pungente existência dos amores e medos. Há terras que ainda ficarão desconhecidas e coisas em mim que nunca mais deixarão de existir. Como ela.
O que era para se dizer em abril
Te vejo fim de maio, em meio às sujeiras do deserto do Novo México, para onde vou afogar minhas mágoas. Aquela desculpa de estar cheia da insensatez que te causo não foi lá muito boa, mas acredito. Fica chato mesmo ser bom o tempo inteiro. Esqueci-me de como ser mau, perverso. Ontem fez um dia daqueles em que estaríamos sentados de pantufas trocadas, comendo Corn Flakes murchos com iogurte vencido, só por preguiça de ir ao mercado. Li o Neruda que roubei de ti e, a despeito do Chico Buarque, nunca mais te devolverei. Fico, agora, horas e horas escrevendo versos, mesmo detestando poesia. Escrevendo coisas infames tipo: roubei os traços ao mágico/interpelei minhas sensações/e estavas lá/ dormida num sono meu/tranquailidade nunca mais. Vou dar essas coisas para alguma banda local. Quem sabe pega. Os meninos de hoje tem um limite muito maior do que o meu para as coisas bobocas que se escreve. Filosofar nem pensar. Nem sequer um diazinho de raiva das coisas ridículas da TV e a aflição de se ler uma Sábato ou um Lautreamont. Foi disso que escapaste? Da chatice? Do surpreendente descobrimento de finitude? Do gosto pelas coisas que não são o gosto dos outros? Onde estás que não me respondes? Fico aqui a escrever estas barbaridades, esperando que um dia aconteça novamente aquele estado eufórico de te encontrar pela primeira vez. Protegido em meio à arrogância dos que julgam que nada existiu antes deste vazio. Eu sei quem foste. Sei que estiveste cá. Já não estás, mas ficaste de algum modo. Te vejo no fim de maio. Cheio do pó e da solidão do deserto. Mais seco e suave na pele e na boca. Com bom gosto para águas. Te vejo num fim qualquer. Desses meus dias no internato ou nos pontos finais que ainda surgirão na minha interminável busca por novamentes, retomadas e mais adiante, por uma vida inteira.
Aos leitores do Blog
Caros leitores,
Queremos agradecer os comentários e e-mails sobre os posts aqui publicados. Nossa intenção é estar sempre acompanhando a evolução de nossas visitas, bem como dar a melhor atenção possível àqueles que escrevem comentários.
Apesar das atribulações pessoais desses últimos meses, estamos tentando não deixar o blog muito tempo sem alimentação e instalamos um contador de visitas, cujo numerário nos enche de alegria sempre que constatamos o aumento das visitas, através do registro de novos IPs.
Tivemos que ativar o moderador de comentários, pois, infelizmente, nem todos os visitantes utilizam do espaço de comentários da melhor maneira e esperamos que isso não tenha desencorajado os costumases comentadores.
Estaremos sempre prontos a responder seus carinhosos e-mails e manter contato direto sempre que possível.
Um grande abraço,
Palavras de Ontem
domingo, 28 de setembro de 2008
Excertos terapêuticos V
"Este sonhar acordado, este cismar poético diante dos sublimes espetáculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu às almas de certa têmpera. Doce é gozar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o ácido poderoso que estimula! Tirai-lho fica insipidez; deixai-lho, ulcera por fim os órgãos: o gozo é mais vivo porque a acção do estímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne viva... agora o prazer é martírio".
Viagens na minha terra, cap. XXIX - Almeida Garrett, p. 183
Caminhos
Hoje eu fui ao restaurante que você tanto gosta. Depois fui ao mesmo café daquele sábado, lembra? A padaria onde lhe vi naquela manhã, de relance, tornou-se um mirante inevitável. Saindo de lá, costumo ir à praça que queria te mostrar, tem o busto de uma mulher que é muito menos bela que você. Também tem a seleção de filmes idiotas, com os quais iríamos nos divertir em pijamas, caso não houvesse nada mais para se fazer na cidade. Sentei no mesmo banco onde aquele monte de palavras estranhas foi dito em silêncio, porque não houve tempo para fazê-las ter som algum. O lugar de que você me falou na ilha, lembra? Fui só. Não tinha cor nenhuma. Um dia, quem sabe, ainda lhe mostro essas coisas ou, quem sabe, simplesmente lhe ensino os caminhos e lhe convenço de o quanto é bom poder ir lá com essas lembranças.
Noite meia... um estado único
Ah não! De novo não, tá? Isso de ser indelicada não te cansa?
Tópico um: Olha, devolve lá a cortesia que te dispensei.
Não podes ser assim tão antipática.
Briga?
Eu nunca brigo quando estou aborrecido.
A mentira entrou na minha vida há tempos e nem sei quem foi o primeiro que me disse: Isso está errado!
Vai ver não teve.
Nós dois estamos aqui. Com um problema sério a resolver.
A primeira vez que te quis foi com muita força.
Não sei explicar essas catástrofes cinéticas que arrebatam minhas vontades.
Posso te contar como é ser feliz? Faço isso em segredo que assim ninguém descobre que te enganaste, ok?
Então tá, fica com o teu vazio que do meu eu já estou farto.
Talvez tenha tido dores naquela madrugada, mas que te importa?
Pareces mais empenhada em ser assim... Como és! Eu também quero entender isso, mas prometo que vai ser a última coisa que tentarei contigo. Isto é, no dia em que me esforçar para entender, estou deixando o circo... Nada mais de espetáculos de conquista.
No dia do jogo de cartas eu estava nervoso.
Havia perdido a outra mulher da minha vida havia 30 minutos.
Tinha um nome antigo e um inevitável ar de distância.
Sabes o que eu disse?: Posso te beber?
Ela riu e disse: Claro!
Ai eu perdi o rumo... Isso sempre acontece.
Na praça tinham os espectadores do jogo de futebol. Vitoriosos e derrotados lado a lado embebidos de barulho e cerveja e eu ali, admirado pela beleza nada acidental daquela mulher.
Virei-me para ela e dei-lhe um beijo.
Nem sei para quê te conto isso.
Provavelmente já sabias da farsa toda... ou não?
Também tenho meus momentos.
Não podias achar que eras a única a desmantelar sentimentalidades.
Caso não saibas, treinei com a melhor das pessoas. Por acaso tinha o teu mesmo nome.
Como já te contei, ela me negou tudo. Mas tudo mesmo.
Ai me sobraram seus ensinamentos de silêncio, trago-os sempre que encontro pessoas assim... Isso, isso, como tu!
Agora já posso introduzir o tópico dois. Amor.
Não é justo que isso venha sempre por último, afinal, a busca de todo mundo acontece por ele, apesar disso e como recurso da minha embriaguez que assim seja.
Chega de drama, vamos ao que interessa.
Tens vontades estranhas ainda? Tal como agressões, cismas, mordidas e aquele suco na camisa branca para acabar de vez com qualquer expectativa de retorno?
Então estamos na mesma.
O mais engraçado é que meus braços ainda se lembram.
É difícil cultivar esquecimentos... Quando tentava, anos atrás, tinha dores de cabeça, coceiras e muita tristeza.
Agora acabou. Trago tudo comigo. Uma certa sabedoria dos anos em que andei sozinho, cultivando, igualmente, anúncios de eternidades.
Foi assim até aqui.
Agora tem um cansaço espaçoso que constrói muros e cercas aqui dentro. Não deixa as coisas que estão destinadas a sair seguirem seus rumos.
Também não sei se te interessa. Tampouco minha vontade de te contar é sincera.
Muito disso diz respeito às coisas que nunca ouvi de ti e talvez digam mesmo respeito àquelas que nunca te disse... Ou será que disse. Sempre falo demais.
Não esquenta, não vou começar nada. Tenho mais o ímpeto de fins.
Acertamos que aquela noite seria a última? Ou melhor, a única?
Nunca devíamos impedir as madrugadas desse jeito, não achas?
Se quero a tua opinião?
Não! Tenho as respostas. Só não esquece que o tempo consome tudo, ouviu? E para esse destino, só tem um remédio... Viver.
Dorme bem que eu já te perturbei demais.
Minhas lembranças pedem passagem. Um pouco da dor de ontem, também. Velhos vícios de querer demais.
Podes usar sozinha o sofá.
Talvez a friagem da noite te descubra e faça na tua pele aquilo que eu adorava ver acontecer. Não deixa o vento da noite te acariciar demais tá?, tenho ciúmes bem específicos em relação a isso.
Quando acordares esquece que isso se passou.
O tópico três vem para finalizar a conversa. Queria dizer isso de outra forma, atrever-me a interpretar esta tua permanência. Mas já não o faço.
Tenho nos olhos as ironias medonhas com que me presenteaste e o cansaço acumulado da ousadia.
Queria pedir-te mais da tua presença. Isso faria toda a diferença na partida, mesmo que essa fosse inevitável.
Tarde demais para impedir que entendas tudo errado eu sei, e mais, dói-me saber que assim o é. Sem coisas que ficarão ou se ficarem, estarão pela metade.
Paciência, o gozo disso tudo é saber que a alma existe e diz disparates vez por outra.
O amor... O maior deles. Aquilo que nem sequer ouviste de tão instantâneo que foi.
Espera...
Te espero desde amanhã. Desde que me bastava a poeira infantil das brincadeiras no quintal. Te espero atordoado com os braços retrácteis, aparelhos indispensáveis do agarrar e nunca soltar. Te espero durante a noite arquiinimiga de minhas virtudes, enquanto roubo cárdios-passos de outras bocas, enquanto escrevo imposturas para amores tristes e não usados. Espero que apareças dilacerada, estemporânea, e me roube a solidão crescente, a magnitude do estar sozinho, para que o ermo do costume neutro não se encarregue de mim jamais. Te espero vítrea, deslumbrante, salvadora, na pungência daqueles ritmos que só tu dominas. Esquiva, translúcida e momentânea, a indispensável matéria que me anima. Espero um momento de incontinência fluida em que nem os gritos, nem as grades, nem mesmo a morte possam nos impedir de nós mesmos.