sexta-feira, 5 de setembro de 2008

No turno da noite

Agora que o álcool é apenas água e a noite trepida entre a euforia do encontro amigo e o desespero de te ver passar sem dar conta de minha existência, apetece-me vir aqui e escrever as memórias daquele pequeno resto de vida. Uma hora incandescente onde todos os espectros de minha alma estiveram a serviço de minhas sinapses nervosas e estas, como costuma acontecer quando estamos prestes a nascer ou morrer, evocaram estampidos coloridos como os fogos de artifício de nossa primeira noite inteira juntos - os fogos do Círio.

E quando se imagina viver novamente e se tem a impressão de que tudo acaba antes mesmo de começar?

Violinos solando tristes nos palcos que nem frequentamos. Eu imaginando tuas novas proporções femininas e algumas de tuas novas manias antes do sono. Nossa caixa vermelha em teu guarda-roupas. Meus segredos nunca antes imaginados.

À beira do lago, encantei-me com as marrecas que chegam ao outro lado sujas de lama, como Lygia. Queria que chegasses até mim suja e maltrapilha para que eu te pudesse cuidar, como se viesses de um fundo qualquer.

Ainda tem espaço para poemas? Quem cantará a música que te levava tranquila para o outro lado dos dias mais difíceis?

Agora que tudo passou, posso me encontrar com quem habita minha face, sem vergonha ou medo do impossível. Agora que as melodias tomam conta de mim e Marílias e Betânias embalam esta noite de trabalho solitário, posso finalmente pousar meus olhos no silêncio de tuas lembranças. É nessa hora que conto ao meu fiel amigo como deixaria tudo novamente para escutar as tais palavras e encotrar-me preso nos teus artefatos de nada.

Nada há que não retome as nossas conversas na varanda. O cheiro do óleo disel, a fuligem do meio dia, as janelas a espreitar nossas aventuras noturnas. Está tudo aqui. Presente. Como em um filme recém lançado. E estamos eu e tu presentes. Na mesma varanda. Mãos dadas. A perguntar se podemos nos gostar mais, se podemos viver mais um para o outro. Como se não houvesse a realidade de nossa derrota, como se fosse possível nunca ter deixado aquele adeus.

Excertos terapêuticos II

"Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquista, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.
Eu chamo de amor."

Eu recebria as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino, p. 229

Excertos terapêuticos I

"As almas existem. Quanto mais nos enterram no corpo, quanto mais nos imaginaram no pensamento, mais no nosso nome, mas só o nome, se tornou uma palavra corrente, cada vez mais evocada, sempre que a vida se mostra incompleta.

Não há nada debaixo do comportamento, excepto as razões que se vão arranjando para fazer as coisas. A ansiedade, natural, é combatida ferozmente, como se a esperança fosse uma doença."

A Vida Inteira - Miguel Esteves Cardoso, p.189

sábado, 30 de agosto de 2008

Relembranças

As dores são partes pequenas
de olhares tristonhos e horas de adeus
Meus ditos e verbos e risos vão soltos
barcarolas festivas dos anos em que fui teu

Escrevo este livro para saber que existo
senão a canção era capaz de morrer
Encaminha meus braços em torno de ti
e deixa a memória aberta,
como era, antes de eu nascer

A leveza de Rosália

Rosália, enquanto ele se esquivava dos apertos de mão, ao contrário, prestava atenção e tocava nas pessoas. Era afeita aos encontros e olhares diretos. Enqunto ele falava de ações, política e novidades eletrônicas, Rosália abordava simplicidades nem sempre bem aceitas naquelas rodinhas obviamente chatas. Foi quando narrou o caso do Pedrinho maneta, que roubava carros melhor que os melhores ladrões... e só tinha uma das mãos. Além disso, a outra não era completa, faltavam-lhe o indicador e o mindinho. Coisa horrível; barbaridade; pensei que falaríamos de arte aqui; que é essa? Rosália ouviu esses comentários e respondeu a todos: 1. e 2. tentem vocês roubar um carro com uma mão a menos e outra incompleta; 3. Pedrinho é um artista, nunca foi pego; 4. ora quem! sou a mulher dele... e apontou para o moço que a olhava com cara de reprovação. Direta e terna, Rosália desagradou. Haveria de passar por muitas dessas em sua longa vida e enquanto durou o casamento sempre teve os olhares de reprovação do marido, mas nunca uma palavra rude ou um gesto de contradição emanteve sempre a certeza de que era amada. Fez a festa no enterro do Pedrinho, que era seu amigo de infância, como ele pediu e deixou escrito. Botou na lápide: quero os seus aplausos, já que os meus são mudos. Sua mania de toque rendeu brigas por ciúmes, uns bilhetinhos atrevidos, mas nunca raiva ou destempero. Rosália podia ser. Acho que por isso andava com tanta leveza e quando ela passava todos os rostos mudavam e havia alegrias nos salões de festa.

Margarida

Nunca soube o seu sobrenome. Sequer sabia de seus gostos ou astúcias. Um dia caiu-me nos olhos e pronto, tornou-se uma paisagem constante, depois um estrabismo e depois uma miragem.

Vive num ponto do mapa que tenho na parede. A única marca do papel colorido. É branca, como a pele dela que eu conheci na noite do dia desessete. Acho que me conheces mais do que pensas, ela me disse. Nunca pensei nisso. Só a quis. E acho que ela também.

Eles que amavam tanto a revolução 1

Já se vão 40 anos dos episódios que balançaram o mundo moderno e abriram caminho para tantas inovações culturais e transformações históricas no Brasil e no mundo. 1968 deve ter sido um ano mágico, um ano único. Seus ecos ainda estapam comportamentos, orientam teorias e maquiam uma grande porção das atitudes vanguardistas e libertárias em relação ao sexo, uso de drogas, produção cultural etc.

Hoje, a mensagem daqueles tempos soa, muito mais pelos atores que propriamente pelo script, às vezes hidropônica - saudável, necessária, mas, talvez, sem solo para cultivo!

Este ano, em comemoração aos eventos daquele ano inspirador, a Jorge Zahar editora lançou o livro 1968 eles só queriam mudar o mundo e já pode considerar ter tido sucesso em seu balanço anual. Não que as vendas tenham surpreendido, o que, provavelmente, não aconteceu, mas a atitude valeu o investimento.

O livro de Regina Zappa e Ernesto Soto encanta pela edição em papel revista, variedade de fotos e "colunas" especiais escritas por colaboradores, o que dáo ao livro o ar de jornal em edição para colecionador.

O conteúdo é de uma riqueza natural e as mãos dos autores acrescentaram leveza aos temas mais duros como a tortura no Brasil, a repressão política, a censura, os combates no Vietnã, o plano Burnier, a primavera de Praga e tantos a contecimentos fascinates e terríveis daquele que seria considerado por Herbert Marcuse como o ano da revolução mundial.

A riqueza deste período deveria ser discutida nas escolas, mostrada incansavelmente aos novos estudantes ao redor do mundo, não como um líbelo à nostalgia e ao sentimento de incompletude que parece seguir sua história, mas com a intenção de inspirar, sensibilizar e (re?)mobilizar a todos para mudanças continuem sendo desejadas, sonhos continuem sendo buscados e que, sobretudo, tenhamos a certeza de que podemos mudar o mundo - a qualquer momento. J.M.N.

O ofício de Lázaro

Anda, que sem caminho não há aventura, não há amores.

Senta e descansa como um príncipe fatigado, mas não desiste nunca e atreve-te na conclusão dos teus sonhos e princípios, como se fosses o ferreiro a bater no aço e forjar cumes para abrir o peito do inimigo e ter nisso um ofício digno e a oportunidade de criar fortalezas e defesas próprias. Como se te opusesses a um ato tresloucado de outrem. Apenas um trabalho bem feito e que permita defender teu espaço.

Não te esqueças que isso demanda esforço. Calos nas mãos. Demanda perícia, estudo e mesmo que um dia te enviem para a luta de outros, vai e faz a tua parte. Sê amigo e manda cartas quando estiveres te aproximando de casa, dizendo coisas simples como se teu coração estivesse num azul celeste por estares te aproximando de quem amas.

E depois vai a casa e ama tua esposa. Uma noite inteira escuta as verdades dela. Diz que sim. Repousa no peito dela e encolhe as pernas para ela saber que te pode proteger, mesmo que longe dos olhos dos outros. Ela te pertencerá para sempre e tu a ela, sem força ou brutalidade, sem acertos ou papéis bizarros a definir teus sentimentos e quereres.

Espera, que o dia vem logo a seguir, trabalha de sol a sol e viaja nas marcas da tua labuta. Transporta-te para as pradarias das terras de cima ou para os lagos calmos da tua infância solitária. Lá, não estarás sozinho como antes. Não. Estarás com as palavras que aprendeste e com as paisagens que te comoveram. Terás idade e talvez uma culpa ou muitas. Serás um homem. Conhecido ou não, mas terás o amor. E com isso, podes ser o que quiseres.

Breve história sem tempo

Antes dela, escrevi que para amar era necessário deixar de ser, escapar-se. Amar completamente era desprender-se de si, criar uma entidade. Quase um fantasma. Era exigir dos olhos a certeza, da boca a fartura e crer que o azul celeste é sempre cinza diante dos confins dos olhos dela. Reconheço agora que isto era apenas a terça parte dos insumos. Um doar escasso para a imensidão do amor. Amar é a deserção de si, e ter em gotas o sumo da vida e praticar atentados às certezas de ontem. Armadilhar liberdades, cultivar entregas. Amar mais que tudo e sem caber é como dar o que não se tem e criar dívidas para outras existências e dimensões, para outros eus. É nunca estar, pois este estado é próximo de inexistência - antimatéria. Amor dá luz em pequenos frascos e apreço, muito apreço, menos por si e a quem canta serve o gracejo das melodias. O amor corre nos braços de violinos, violoncelos, instrumentos para poucos. Antes dela escrevi que amar era de verdade a quintessência dessa vida que, ao que parece é mesmo a última. Hoje digo que não sei de mais nada e prefiro deixar as versões escritas para quem tem propriedade de palavras. Eu tenho apenas saudade.

Histórias para depois do sono IV

Aos domingos as brigas eram piores. Razões de ser para mortes desesperadas e amores de urgência ao pé da mesa do café da manhã. Domingo era sempre um dia útil, apesar de tudo, com astral de fim de vida e por isso, parecia que a trama do amor se concentrava mais e mais nos segundos derradeiros das despedidas, ancorando-se nas pontas dos dedos que iam se perdendo um a um enquanto ele descia as escadas e ela entrava de volta em casa, para arrumar sua semana. Era um dia indiscutivelmente superável, mas com quê de necessário. Um limite entre o imaginário de suas esperas e a realidade em si do resto da semana. A linha última entre o eu e o nós, para ambos. Enquanto partilharam domingos, souberam exatamente o que significava viver um para o outro. J.M.N

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Atrás da noite

                                                "Nada há que não caiba no sono:
                                              Um dia vermelho, a dor de nascer sozinho,
                                                         tua vida sem mim, a minha sem ti.
                                                          Pouco há que me revista o tempo:
                                           Teu retrato ferido, tuas mãos a escolher-me,
                                                                       Poentes cantados a dois.
                                                                 O livro dos artefatos do nada

Foi lá para se consultar e terminou apaixonado. Apesar do desastre, nada mudou enquanto ele não disse que sentia saudades. Ela se iludindo porque não sabia se queria ser descoberta e ele assustado sabendo que se perdera. Um típico caso de amor em vieses, mas menos intenso porque a dona da coisa não ardia com inquietações apaixonadas sobre encontros e vinhos adormecentes. No dia do sushi, ele se admirou com a quantidade de coisas que ela podia falar num único minuto. Não conseguia acompanhar o ritmo dela. Deixou-se, por assim dizer, ser conduzido. E foi. Tinha uma certa esperteza e segurança naquelas coisas ditas sempre, em almoços de sábado. O que não havia era a intenção de amar. Pelo menos de sua parte, pelo menos naquele instante. Talvez de ambas as partes as coisas se tenham dado meio ao acaso. Se é que se pode dizer que as coisas ocorreram de lado a lado. Mas ai umas das dores se instalou primeiro.

Vamos aos fatos...

Não coração, prefiro não ir a essa micareta absurda... Muito barulho, pouca intimidade, sabe? Mas olha, posso te oferecer café da manhã, companhia e massagem nos pés. É claro que uma parte desse diálogo foi omitida (aliás, aquela em que era quase um pedido, a história de amanhecerem juntos) e mais ainda, as coisas que insistiam em se formar na cabeça dele... Caso não saibas, detesto carnavais fora de época... Terei que ir um dia desses com você?. Não faça isso, senão sou capaz de aceitar um novo convite. Muito estimulantes essas coisas que me dizes!

Ela mandou esta mensagenzinha maldosa para o celular dele e naquela hora, também o maldito aparelho se acostumou com ela, pois quando ela parou com as confissões medidas, ele teve a impressão de que sua bateria esvaia-se mais rápido a cada minuto de silêncio.

No sábado, depois do susto das descobertas recentes e um almoço intragável, pois sem ela a lhe ensinar malabarismos japoneses, mais uma vez ele fez o papel de entregador. Pôs-se numa bandeja e foi lá ter com ela. Sobrou um domingo inteiro de espera mutua. Depois das desculpas formais a sinceridade de estar se atrevendo a dar com os burros n`água.

Tenho saudades… Quero te ver... Quero mais da tua presença… Mais que qualquer coisa já quista... Um capricho é permitido... Andas muito ocupada com os cuidados para o alheio… Eu ando ocupado de ti... Se me incomoda?... Só quando isso não cabe nos teus dias de semana…

Mas deixando de lado as marmotas do acaso e da grave rebeldia que ela insistia em revestir de distâncias, a semana passou muito lenta.

Foi quando ele percebeu que as coisas eram mais complicadas do que já pareciam ser. Finalmente um grito do hospital de dentro, chamou-lhe para a realidade. Amor, de novo amor. Irremediavelmente. Os sábados não seriam mais os mesmos.

(Problemas e coisas que infestam pensamentos)

“As prestações vencem na segunda. Meus olhos estão murchando. Conto com as coisas inventadas para saber-me decente e merecedor de uma promoção. Minha chefa é uma débil qualquer coisa. Tudo vale no combate à dor de ontem. Quero os doces especiais de um lugar que não conheço. Amor! Acenda-me. Cuide-se, pois eu te quero. Eu não sou ameaça. Ameaçar é verbo que não pronuncias nunca. Deixa-me morar nos teus amanheceres?”.

Um turbilhão de coisas nefastas invadiu a cabeça dele. Para além de todo o rico vocabulário daquela situação de enamoramento, as palavras manobravam seus terrenos e alojavam-se como facas nas suas incertezas. Palavras por dizer: crença, mobília, novidade, viagem, sozinho, toalhas, cremes, costas, batom, esmeraldas, ladrilhos, beleza, tua, eu, quando, sozinho, sozinho, sozinho. Não.

Nas desesperanças daqueles dias infinitos ele deixou escapar-lhe mais saudades. Ela escapou com as coisas de sempre. Aquilo que se tem é o que se dá. O que se pode dar, melhor dizendo. Ele podia mais talvez, dada as circunstâncias e o histórico de baú aberto, sem tempo ou tampa que possa segurar dentro, as coisas que talvez não se deva contar a ninguém. Mas o pouco a se dar, naquele caso, significava um abismo imenso de coisas a fazer, dizer e sentir. Olha, confessa logo, vai! Não queres e pronto. Pára de fingir. Eu não suporto essa agonia adolescente de querer te ver a toda hora. Tô quase para fazer um diário. Enfeitar o calendário com cores absurdas, marcando as datas e lugares onde fomos instantaneamente felizes. Usar expressões do tipo, ficar e beijar longo, como se dizia quando era tudo bom e maior do que amores eternos. Na sétima série tinha mais amores do que os outros. E isso me fazia melhor?

A sugestão que segue é como se eu os conhecesse. Pudesse falar e fazer algo além de registrar essas linhas que contam pouco do muito que era visível estar instalado. É o seguinte...

Que isso acabe. Da melhor maneira. Com ou sem dor, que as coisas sejam atraentes o suficiente para numa noite qualquer daqui a vinte anos, um dos dois possa dizer... Uma vez eu tive esperança de estar amando (ou sendo amado). Dissipem a rispidez das defesas com a ternura quase santa da não despedida. Fiquem. Um no outro. Como pertencentes. Coisas mútuas, apesar de discrepantes. Mas com coragem para as diferenças. Olhem mais. Sorvam mais. Adotem coisas, filmes, animais e papel de pão para as coisas sem importância do dia-a-dia. Leiam clássicos. Deslumbrem-se. Animem-se ao sair de dia e ter a certeza de que terão alguém a espera. Mordaças já não cabem, assim como a escravidão. Não mintam. Digam. Não morram. Vivam-se.

Na sexta-feira, depois de muitos desencontros ele ligou.

- Queria ouvir tua voz.
- Fiquei mal desde anteontem.
- Viste minha mensagem?
- Já depois de um tempo.
- Quase vou ai.
- Ias me pegar de pijamas.
Queria muito. Tem flores ou super-heróis estampados? (Um não dito)
- Amanhã sei que vais estar ocupado, mas te ligo mesmo assim.
- Vou gostar.
- Tudo de bom.
- Pra ti também, mas também liguei para te dizer que não quero que te afastes.
- Isso não vai acontecer.
- Então até. Dorme bem. Como se eu mesmo estivesse ai para te fazer dormir e despertar em segurança (ou não dito). Questão: como deixar de dizer coisas assim?

Ele pensou que as coisas já se passavam e que, de alguma forma, suas esperanças deveriam encontrar um abrigo. Dormiu e acordou como fazem os loucos. Bebeu água. Transformou-se. Aflito que estava pela descoberta de algo novo. Queria contar a ela. Queria invadir seu apartamento de pantufas e cuecas de seda, pedindo-lhe simplesmente para ficar. Como não poderia mover-se daquele cansaço antigo, virou para o lado e cantarolou Tomara, do Vinicius. Torceu para que a manhã lhe trouxesse boas novas e descansou finalmente da sensação de estar sozinho. Mesmo que ela não o pudesse ouvir, foi o mais sonoro dos “boa noites” possíveis. Desfez-se a impressão de abandono e a noite se ergueu como um guia. Atrás dela, um sem fim de estranhos finais felizes, como filmes inacabados e ganhadores de prêmios, esperando para serem estrelados por eles. O sorriso já nasceu sem consciência. Sonhos, afinal, não levam mais que um segundo para trazer alegria.

                                         Swanage, 23 de setembro de 2003.

sábado, 16 de agosto de 2008

Recordações emprestadas

Recordo daquela mulher, correndo atrapalhada pela rua molhada, apressando-se para encontrar com ele. Debaixo da pele o fogo do reencontro. Seu desespero é sentido por todos e os homens que esperam pelo turno de trabalho abrem espaço para que ela passe e se atire contra o portão e peça com os olhos loucos que soe o sinal. Que sua espera acabe. Tinha voltado de uma cela. Desfeita num cárcere úmido em cujas paredes se cabaram sua lágrimas. Sua boca quase sem forma e movimentos. Suas carnes queimadas pela violência do sistema. Suas lembranças ainda explodem como um monte de fotos em sépia, encontradas nos baús da casa de seus avós. A sirene toca. Seu coração dispara. Os olhos todos agora esperam aquele que a fará ser novamente. Em frente à fábrica. Manoel aparece e corre em segundo e meio até a presença dela. Suas forças secam e o corpo dela se abandona nos braços do homem. Seu homem. Todos em volta retiram os chapéus. De joelhos e humildemente abençoam a cena. Um em mil, mas ali, bem à frente de seus olhos cansados de tudo aquilo. Amanda tenta dizer aguma coisa, mas já não há palavras em seus pensamentos, não há músculos que possam erguer palavras em sua boca e expressar a sofreguidão do encontro. Ela penas se deixa acarinhar. Manoel também não fala nada. Ninguém fala nada. Amanda expia. Deixa um último e livre olhar àquele que a esperou sempre.

Enlace

                                            A Wagner e Edna, meus afilhados...

Antes pensava que era coisa rara, umas vezes fajuta, nunca simples ou graciosa. Uma espécie de decreto instituído numa nação para dois e que, segundo os pactos lá escritos, haveriam de mudar as vidas de ambas as partes, sem imposições, talvez até com mutualismos mais que Rousseaunianos. Um papel que às vezes traduz a coisa que se desprende dos olhos quando simplesmente eles se expressam - os olhares?

Eu estava lá. Vi os dois jurando e orando (talvez mais ela, do que ele! Não por seu pretenso ateísmo, mas por sua história, afinal alguns pais são insubstituíveis mesmo), dizendo sins à sua maneira tão peculiar. E vi naqueles olhos que se encontravam mais uma vez, a certeza de que os verei sempre nas mesmas órbitas, ampliando seu espectro de mundo aos olhos de seu pequeno astro-menina.

Fui testemunha. No papel firmei minha crença naqueles olhos que também me econtraram e me atrelaram existencialmente às suas histórias, dando-me quem sabe um capítulo e desfazendo minha personagem (só vós sabeis). Tive tanta sorte de os encontrar que estiveram à minha espera com sorrisos abertos, mesmo quando eu desacelerava o curso inexorável daquela sua conquista.

Queria que minha barata literatura escondesse a obviedade que é meu sentimento por vocês, que desse conta de lhes criar um cenário mais rico ou virtuoso, contudo, deixo de lado o ofício e aqui transcrevo o que lhes quis dizer com toda a pompa e circustância durante a cerimônia e diante dos seus, pois sei que o curso normal de seu encontro se encarregará dos afetos e da escritura dessa história, agora oficial.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Lambarizinho...

Soube naquela manhã que algo lhe faltava. Sentiu o dia esvaindo-se, a noite chegando e alguma coisa continuava errada. Um mês inteiro se passou e ele com a estranha sensação de que alguma coisa ficou para trás. Indefinida. Montada num grande engano que ele não sabia como desfazer. Sentiu tristeza. Conformou-se com as poucas lembranças daquela última noite agitada e sozinha. Concluiu que não era uma forma. Não era um corpo ou uma foto não tirada que lhe faltavam. Não era o retorno, ou tampouco o edredon contra o frio. Era ouvir-se dizer um poeminha infantil àquela que, como ninguém, encheu de lambaris priscados os seus sonhos e deu-lhe os amanheceres mais felizes de toda a vida. Pediu permissão a Manoel de Barros e publicou em seu pequeno jornal de bairro, uma sua cantiga.

"De minha mão, dentro do quarto
meu lambarizinho
escapuliu - ele piscava
priscava
até cair naquele
corixo.
E se beijou todo de água!
Eu se chorei..."

Ele espera que ela sinta-se protegida onde quer que esteja...

domingo, 10 de agosto de 2008

Histórias para depois do sono III

Na distância se conhece a falta, inclina-se ao infinito, resguarda-se imaginações dos tempos antes de existir. Como passarinho, canta-se a pôres-de-sol. Estive a muitas milhas dos teus olhos e nessa imensidão horrível, a cor da noite foi desfazendo e, de repente, estava claro, moviam-se em mim os redemoinhos de reconquista. Mas não saí do lugar. Não apertei o passo. E a distância ficou. J.M.N

terça-feira, 29 de julho de 2008

Histórias para depois do sono II

Acredite seu moço, olhando assim ninguém diz, mas ela tem coisa estranha. Usa espelho de água e penteia os cabelos com os capins venenosos na estrada. Sentada estava na minha cama, quando aconteceu de esticar seus olhos e eles foram tão longe que o céu pipocou anil, as árvores choraram passarinhos e as pedras estiveram mais duras. Quando ela prometeu me fazer gente, cobrou cada segundo de vida e lambeu os dedos. Olha moço, pode ser que eu esteja enganado, mas acho que ela ficou com alguma coisa minha... sei não, parece que minha carne, minha altura ou meu nome por completo. J.M.N

Histórias para depois do sono I

Faz escuro no meu dentro e lambarizinhos espreitam meus abandonos todos. No meu quarto de existir, onde acontece de luz fraquejar para dormir, acredito em poesias pois encontrado estou num suspense de recém-amor. Apesar disso, ainda remonto, quando em quando, os brinquedos de inexistir e neles vagueio louco, como as minalbas que engravidam de céu azul e dão filhos branquinhos, branquinhos. Dei de encontrar verdes-piscina, fincar fura-fura no pé do tempo passado e estou propenso a criar as terras em que eu me encontre perfeito, olhos mirando os teus, pele aquecida e lenta. No abraço que dei naquele homem mofino, que se envergonhara de tanto querer, deixei teu nome num papelzinho roxo, cor que te procria, apenas para que ele possa saber que existes e assim, quando derramar lágrima que valha, saber que não está só. J.M.N

segunda-feira, 28 de julho de 2008

[...]

Hoje senti saudades das suas costas. Tomei um banho longo e abandonado. Não havia intensão de limpeza apenas, muito antes a de esquecimento. Mas este não veio. Não desceu por meu corpo molhado. Não encontrou o caminho do ralo. Ao contrário. Valeu-me o tempo da espera. A mistura de lágrimas e banho, o cheiro antiséptico do sabonete de que você tanto gostava, tudo convergiu para os minutos eternos em que você se dispunha a dividir as águas comigo. Seus pulos de frio. A hesitação em molhar os cabelos, seus olhos fechados quando minhas mãos lhe tocavam molhadas. Os sons engraçados que seus movimentos produziam em partes específicas do seu belo corpo. Tudo me lembrou de você. Queria que me escutasse ao menos uma vez. Que lembrasse de Vinicius a cantar Tomara e de mim a cantar tantas coisas antes do seu sono. Queria que soubesse que tudo não passou de um engano. Que seus espiões estavam errados. Tomei o mais longo dos banhos num dos mais longos dias dessa existência depois de nós. Precisei como nunca de suas mãos me enxugando. Não era para ser outro cuidado. Era para ser o seu cuidado. Aquele que me fez reviver, que me fez atravessar o mar de esquecimento em que me perdi ao longo dos anos. Minha pele limpa da poeira do mundo e minha alma ainda clamando pela limpeza do destino. Talvez eu consiga. Talvez eu continue procurando. Meus afazeres diários não são mais os mesmos. Tento desfazer essas marcas, mas a água que lhe atiçava o aconchego não dá sequer para acalmar o insuportável calor que minha solidão produz. J.M.N

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Não cometa a gafe de morrer sem escutar 8

   

... e na oportunidade, não deixem seus filhos, sobrinhos, filhos da vizinha, crianças que você chama de minhas, sem escutar também.

Como fui feliz na minha infância!

Tive as casas de meus avós. Quintais. Tive dúvidas e discuti com meu irmão mais velho. Quebrei o calcanhar, vi os peitinhos da empregada do Bruno, corri atrás de papagaio, roubei bombom no minibox (como o Renato e o Joel)... Ademais, tive Vinícius de Moraes, Chico Buarque de Hollanda, Milton Nascimento, Toquinho, Clara Nunes, Walter Franco e Bebel Gilberto, todos reunidos em dois espetaculares trabalhos: A Arca de Noé 1 e 2.

É muito difícil ser criança. Imagina sem essas coisas (discos maravilhosos) para acalentar sonhos, substituir os embalos da mãe, descobrir que podemos ou não ser os filhos ideais, mas que no fim o que importa é amar, despertar paixões, dentre muitos outros ensinamentos?

Os dois discos A Arca de Noé são essenciais. São obras-primas. Falam de amor, de meninice, falam de ficar juntos para que o trabalho seja melhor, falam de injustiças sociais, das dificuldades de ser, falam de esperanças, de espiritualidade, do desejo de que o tempo não passe para que nossas crianças - as de dentro e as de fora - permaneçam no tempo infinito de poder tudo, de querer (e, às vezes ter) tudo.

É simplesmente lindo ouvir as aberturas, cujas orquestrações magníficas preparam o terreno dos ouvidos e do corpo para uma experiência única, um misto de enlevo e deboche, com caricatura de circo, com referência a úteros, amores pueris, aulas de vida, enfim. Além disso, cada disco tem uma canção final que é pura entrega, amor paterno no melhor estado: menininha e o filho que eu quero ter.

Ouvir A Arca de Noé é transportar-se para um tempo que pode não ser mais este - o presente com sua dureza - mas é, sem dúvida um tempo que não nos abandona, mesmo que algumas vezes façamos de tudo para o negar.

Para lembrar:

A Arca de Noé 1:
1. A Arca de Noé
2. O Pato
3. Corujinha
4. A Foca
5. As Abelhas
6. A Pulga
7. Aula de Piano
8. A Porta
9. A Casa
10. São Francisco
11. O Gato
12. O Relógio
13. Menininha
14. Final (Orquestrado)

A Arca de Noé 2:
1. Abertura
2. O Leão
3. O Pingüim
4. O Pintinho
5. A Cachorrinha
6. O Girassol
7. O Ar (O Vento)
8. O Peru
9. O Porquinho
10. A Galinha D'Angola
11. A Formiga
12. Os Bichinhos e o Homem
13. O Filho que Eu Quero Ter

J.M.N

Quando voltas

Quando voltas o beijo da água é diferente, as sedes secam, as fomes dormem. O mar revolto me toma a língua e as hecatombes de meus desejos cessam por completo. Meu corpo existe e se torna mais jovem, como por encanto, como por te enfronhares nele. Quando voltas, atualizas as coisas sem lugar que espalhei pelos quatro cantos da casa e pedes notícias sobre os crimes do bairro. Arrumas as roupas, ocupas os espaços mínimos deixados por minha bagunça. Quando voltas, teus chinelos percorrem meus caminhos e é comum encontrá-los embaixo dos meus pés, protegendo meus passos. Há uma luz estranha que envolve todas as coisas que fazes e percebo que jamais fui tão feliz em qualquer outra presença. És capaz de deixar teus filmes de lado para que eu possa ver os documentários mais estúpidos. Contas meus cabelos brancos dando-lhe nomes de personagens famosos. Brincamos de acordar com os olhos fechados para que a suavidade do sono não nos abandone e quando acontece de eu abrir meus olhos, não raro encontro os teus bem abertos, já me olhando, e no teu olhar sinto a proteção perdida pelos anos. Estou inteiro. Um ser, enfim. Quando voltas, é como se eu próprio voltasse do lugar mais longínquo, das paragens impossíveis em que me abandono quando estou longe de ti. J.M.N

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Algumas coisas sobre Lívia (ou “devolva-me”)

Quando encontrei a forma neutra de lhe dizer que amava, sua arguta sinceridade me estancou e ela disse – então não te quero! Não devem existir gabaritos para esses emblemas, nem entrelinhas para as minhas veleidades. Gosto por inteira e intimamente, e se digo que estou pronta para morrer por ti, é bom que acredites!

Não houve susto ou diatribes. Não houve intento ou criação e ainda assim fui destroçado (retirado do meu centro), expropriado de algo intangível e constitutivo de cuja existência só dei conta quando subtraído, e isso logo assim que ela pousou seus olhos famintos e me pediu para que mudasse sua vida. Num instante estava encontrado, um tanto expropriado, açoitado talvez, noutro abandonado à modelagem de nossa entrega instantânea, efusiva.

Não vejo as horas como de costume. Como já te disse parece que, longe de ti, as coisas ganham densidades improváveis, duplicam, matam a razão. Nunca a espera foi tão longa, nem os dias tão obsoletos. Quero estar contigo a toda hora. Criando coisas, risadas, lugares comuns e incomuns... Estar. Tudo se tornou atenção a ela. Minha existência consignada.

Um pouco das lembranças…

“Ao longo da praia o vento se interessou por seus cabelos. Era estranho vê-la tocada por um ente sem corpo que a fazia sorrir e mover-se de maneira específica para se livrar dos cabelos nos olhos e da areia dos braços. Havia qualquer coisa de egoísta na forma como eu a queria. Estudava maneiras de lhe dizer que suas ancas estavam me querendo, que sua pele adormecida estava esperando que eu acordasse para saudá-la, no meio da noite e com exaspero de antanho. E quando achava que tinha respostas, ela me vinha sempre com outras perguntas, estranhando que eu não soubesse dos astros, do horóscopo do dia. Estranhando.”

Depois, talvez, o tempo passe, as tardes fiquem mais longas e abatidas – nem lembro de quando comecei a sentir desse jeito. Ainda penso nela, fresca naqueles seus trajes adoráveis à porta de casa, pedindo para entrar. Ainda penso nos olhos dela, quando alguém me olha por mais de cinco segundos, fazendo-me acreditar que existo. Pergunto, quase exaurido, se ela espera por um grande acontecimento ou se suas esquisitices seriam coisas normais. E nesses momentos secretos em que me endivido com o tempo, acontece algo estranho nos confins do meu ser. Às vezes acho que é a idade chegando. Talvez seja ela, acordando da sesta da tarde, amarrando seus longos cabelos negros e me chamando para deitar ao seu lado, aninhado na quentura que é própria de seu corpo.

Quem sabe meu ritmo cardíaco ainda seja seu maior troféu. Penso nisso como se fosse obrigado. Como se fosse um costume de tribo e acabo dormindo em seus braços, com a fome acumulada do dia, seco por um gole de água, destituído das certezas todas... mas isso, apenas dentro de mim. Apenas por dentro.

Seu gosto reside na culminância de minha alegria, na insurgência de meu tédio. Insinua-se ainda sua pretensão de ter tudo e nada entregar e quando o vento sopra, longe de nossas praias imaginárias, ainda há o cheiro de sua intimidade a aturdir meus sentidos, assaltando minhas reservas e decorando meus pudores com palavras sujas e hieróglifos em nossas peles. Ardor de entrega absoluta, inconsciente. Talvez indevida, talvez necessária.

Ontem me peguei passando pela portaria do teu prédio, apenas para sentir que meus caminhos mais adorados ainda existem. Não tem graça. A cidade fica triste. As madrugadas então... Volta logo. Acaba com esse mês indevido. Senta comigo e diz que me precisas como antes... Como nunca... Como jamais...

Não sei se ela ainda passará por aqui. O caminho é o mesmo, mas os sinais da estrada mudaram. Nunca antes as manhãs foram tão violentas ou desnecessárias, ou quem sabe simplesmente monótonas – não há estribilhos, acordes dissonantes. Não há música sequer. Sem sentido mesmo. Iluminado por um sol medonho sento à beira do caminho. Minhas pernas esqueceram da viagem. Enquanto aguardo o desespero de meu corpo ganhar forma e eu ter uma paralisia – ou sentir fome –, escrevo uma carta de amor. O conteúdo ela já conhece. A tinta no papel muito branco, as vírgulas, os pontos de exclamação. Apenas o desfecho é novo.

Nunca mais escreverei cartas de amor.

Sinto que tudo se resume em estar ou continuar. Estou, mas não sou. Continuo, mas não sei como. Minha outra pessoa reclama da tua ausência. Como não tenho respostas, por enquanto, digo apenas que um dia ela poderá te ouvir chegando novamente e enquanto isso, a fisiologia deste ente que se me habita cuida de tudo, pois não há vida deste lado de mim.

Estivemos entregues aos nossos limites. O meu: não desistir de ser inesquecível; o dela: esquecer-se de que foi esquecida. Talvez as mesmas ilusões em corpos distintos. Houve cumplicidade em todas as loucuras, em todas as razões. Houve espetáculo, grito, virtudes esquecidas e achaques, numa troca que certamente ensejava pactos oníricos, ancestralidades.

Nunca haverá de se repetir!

Esta é a certeza que me consome agora e apesar de ter sofrido igualmente pelo terror dos curdos, é a infinidade desse momento que me assombra, pois se o tempo passa rápido para o meu esquecimento, o espaço que ocupa meu sentimento é como uma supernova eclodindo, um universo a nascer dentro de mim enquanto ela se despede para nunca mais voltar. Isso deveria me dizer alguma coisa.

                                         Belo Horizonte, 03 de julho de 2008.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Quando vais

 

Por que quando vais levas a essência da casa? Levas aquilo que faz da casa casa, e não rua ou prédio ou bar. Aquilo que transcende a simples construção de tijolos, cimento e telhas. Lar mesmo. Abrigo. Lugar de partir e de chegar. Levas o beijo insone durante a madrugada. O despertar de duas horas. O banho a três. Levas a pressa pra ir pro trabalho e o já esperado aborrecimento do marido. Levas o grito diante da barata e a risada do marido. Levas o pedido de desculpas pela aridez das palavras e o sossego do marido. Levas o ficar de conchinha no sofá da sala e a felicidade do marido. Tudo transformado em um lugar estrangeiro, estranho. Mas o quintal ainda está lá, e nele as cachorras dormem ao sol. A televisão está desligada. A sala está desligada. A janela entreaberta olha tristonha a casa da vizinha fofoqueira. Espera um movimento qualquer que indique que ainda existimos pra alguém. A porta espera ansiosa uma chave que não é a minha. O quarto rosa espera as mãozinhas que voltarão com adesivos novos da Barbie. Ele a envolverá com sua mão de pelúcia, não importa se ela vem com catarro no nariz. O carro também espera, ele espera mais que todos a hora de ser ligado e partir, coração disparado, em direção à praia onde estão as risadas desbragadas e o sono com quem se ama.

sábado, 12 de julho de 2008

Do que fizeram com o teu coração

O roçar monótono da vassoura sobre o chão empoeirado lembrou-me o teu bigode grisalho e a preocupação em tingi-lo todos os sábados, assim o tempo não te causaria mais danos. O cheiro de nicotina insistia em te acompanhar discreto, sobretudo às seis, quando sentavas na porta pra colocar apelidos nos vizinhos e fazer funcionar o teu relógio automático. Havia uma linha que nos unia, uma das pontas permanecia amarrada no meu dente mole, a outra no meio dos teus dedos cotós. O momento era efêmero e fundante. Logo puxavas com força, levando dentes que nunca viravam moedas. Ao final do rito vinha a mulher curar as feridas deixadas, enxugar o sangue e as lágrimas. E isso dizia muito sobre nós: a necessidade da tua violência, a minha submissão e a presença apaziguadora da mulher entre os dois homens. Um dia vi no teu caderno de anotações o nome completo do Zeca escrito com a tua letra de calígrafo. Me deu vontade de perguntar se o mais velho foi feito com amor. Calei. Sabia que ias responder algo do tipo Fazer mulher é fácil, quero ver é fazer homem... eu fiz logo 5. Eu sou profissional. E se afastaria borrifando veneno nos caminhos que os cupins construíam na parede da nossa casa. Quanto a mim, ficaria ali parado me perguntando se realmente o teu sêmen encerrava uma alquimia qualquer. O que sei é que nem os médicos deram conta do teu hermético coração. Fizeram pontes onde havia paredes. Cortaram pedaços podres. Adiaram a tua morte, mas não te fizeram amar mais que os teus cachorros e netos. Aos sete filhos restaram as lições tácitas que nem todos aprenderam: pagar as contas em dia, ajudar a quem se gosta, não negar trabalho, falar o que tem que ser falado. Nesse sábado com o sol já alto, recuso a vício fácil da televisão e as palavras elegantes do velho Freud pra fazer o nosso melhor programa: vestir uma bermuda velha, posicionar a cadeira de frente pra rua, e passar a tarde toda escutando o teu silêncio.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Resposta

Ela me disse que eu tinha partido. Foi através daquelas palavras que não sei como saíram que me dei conta do que percorri. Cansei dos oceanos e das coisas baratas. Queria o peito dela de novo. Sua voz carcomida cantando para eu desistir. Um pouco do apego que aprendi por lá também me incomoda. Fica difícil construir estranhamentos diante de coisas que nos são tão íntimas. Através da porta eu lhe disse até logo. Eu menti. Eu fui sacana de novo. Mantive meus objetos estranhos do lado de dentro. As meninas que agora conheço acham que eu sou de verdade. Nunca ninguém me ensinou a abraçar. Aprendi as coisas da vida, inexistindo. Qualquer coisa que eu venha a dizer nessas linhas me perdoa tá? Tenho tantos erros nos passos que o caminho já me perdeu. Talvez as bailarinas ensaiem hoje. Um amigo meu tem um filho sensacional. Eu tenho um filho que é mais do que eu jamais poderei ser. Eu quero mesmo e ser o que sou. Um pedaço de dor encrustado na distância inventada entre velhos camaradas. Lembro com certo desgosto da minha partida. Das coisas insinuadas que ficaram para trás. Os trapos de noites que eu quero de volta. Tinha um vício que era o afastamento. Bem, aqui desse lado em que me encontro, isso é um luxo que não tenho. Ela ainda me diz coisas no escuro. Percebo pouco das suas alegrias.Ele me disse que eu parti. Naquelas letrinhas sofridas eu entendi que tinha ficado. Permaneço por aqui. Dentro das coisas que me levaram. Não dói acordar. Acostumei-me com o espelho. Na caixa de madeira que ela julgava ser o seu único segredo, descobri uns troços que ela me deixaria de herança no dia do nosso fim: Contas de cristal barato, as duas cartas do nosso amor e um pedaço de mim que eu não sei como ela conseguiu. J.M.N

O sal das lágrimas

Vou chorar agora. Entregar-me ao desespero de nunca mais levantar ao teu lado. Abandonado na compulsão do choro. Queria te levar para Paris e afundar meu rosto no teu seio contraído de frio. Ter com força, te machucar um pouco, como de costume. Começo a pensar que sou egoísta e que tudo o que fiz e faço é apenas para estar neste estado latente, como num precipício constitutivo, perto da morte, sempre. Meu choro comove a todos menos a mim. Estou tão cansado destas lágrimas que as desfaço com gritos de ódio. E sempre na frente do espelho. Plantei algumas árvores, tenho um livro à espera, viajei o mundo e me destruo pouco a pouco nessas inconsistências divinais de paixão e gozo. E tu que nada tens e tanto tiras dos outros, o que és? Por que me deténs? Que claustro é esse que me aninha? E quando sinto a hora derradeira me partindo ao meio, meus estertores são para aquele menino que nunca me abandonou, mas que foi imensamente abandonado. À própria sorte recorreu às mamas secretas, aos frascos de odores proibidos. Ainda que queiras sou demasiado antigo para que me destruas. Andei muito tempo nos jardins do éden, sem ter o direito, sem saber de paraísos, cantando as melodias dos banidos, dos mequetrefes da longa noite. Estive em Vênus. Andei por Tebas e ao fim dos dias de infância, já estava metido nas coxas graúdas, despojado de mim, entregue à ruminância da carne pela carne. Um aventureiro sem rumo, sem pudor, cujo menor pedido foi ter tudo. Acho que a morte me cai bem. Corrija-me se eu estiver errado a respeito das coisas nas quais acreditas:

  1. amor demais não é bom!
  2. nunca ter é sempre ter!
  3. juro que quero a normalidade, mas sabe do que mais, por que tê-la se não faz mal algum?

Um dia sento à beira do caminho. Vou para Lagash comer tâmaras perfumadas. Compro-lhe uma encharpe de seda pura e talvez passe em tua casa apenas para mostrar que, afinal, morrer também faz bem às vezes e aquilo que nasce com o choro de desespero, de abandono, não deve jamais ser esquecido.