terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Notas esparsas sobre o Oscar (II)

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right)

Depois de assistir Cisne Negro convém dar um tempo pra névoa passar ou pode-se também assistir Minhas Mães e Meu Pai. Um filme leve, apesar de tratar de temas difíceis, como a dificuldade de se construir uma família e a hipocrisia mal disfarçada dos arranjos familiares modernos. Nesse caso o casal de lésbicas Nic (vivida por Annette Bening) e Jules (Julianne Moore levemente masculinizada) cujos filhos, concebidos por inseminação artificial, encontram o pai biológico e passam introduzi-lo na lógica familiar, o que gera uma triangulação desestabilizadora.

A diretora soube mostrar como, apesar de não tradicional, o casal ostenta todas as expectativas e preconceitos já consagrados nas famílias tradicionais. Quando os créditos começam a ser apresentados, um leve sorriso nos passa pelo rosto. Aquele sorriso de quem viajou e no retorno encontrou as crianças bem e as coisas no lugar. WDC

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Eles que amavam tanto à revolução 2



Nós paraenses somos de uma região muito vasta. Verde pelo deslumbre da floresta Amazônica, pouco valorizada, em termos humanos, dado o modelo exploratório que se nos acerca desde tempos imemoriais. Sofremos também da classe dois da doença do esquecimento, mal social comum no Brasil, cuja classificação dois é a mais grave, pois tem como sintomatologia não apenas a superação inócua de fatos históricos, mas também a nefanda prática do silêncio acerca de nossos males de outrora e de hoje.


Dois exemplos de superação dessa condição são os livros Operação Araguaia e Sem Vestígios, cujo teor é tão contundente que requereu, em alguns momentos, pausas estratégicas para a recuperação do fôlego da leitura.

No primeiro livro, Operação... Taís Morais e Eumano Silva abordam com fontes muito bem apresentadas e exploradas, o vergonhoso esquema de negação e encobrimento que as Forças Armadas Brasileiras sempre fizeram em relação à Guerrilha do Araguaia, comandada pelo Partido Comunista do Brasil – PCdoB, nos anos 70. Segundo os militares todos os arquivos concernentes ao movimento ou não existiram ou se existiram algum dia, foram destruídos. Os autores provam que isso não passa de mais uma mentira fardada.

Em mais de sete anos de pesquisa e entrevistas com militares, os autores vasculharam documentos secretos que restituem imensas memórias de um período de luta armada, enganos, mentiras e confrontos ideológicos impressionantes. O livro conta magistralmente a história da primeira baixa militar do confronto, a do cabo Odílio da Cruz Rosa, fuzilado pelos guerrilheiros, assim como destaca a caçada feita aos guerrilheiros remanescentes. Assim como encontra os rastros de uma convivência da população com um grupo de jovens dedicados à liberdade e a derrubar a ditadura militar no Brasil, cujos frutos são histórias impressionantes de solidariedade e atuação social.

Já em Sem Vestígios, Tais de Morais, meio que “presenteada” por uma fonte que conviveu de perto com dos agentes secretos da ditadura militar, chamado no livro de Carioca, aborda um conjunto de registros em forma de um diário de culpa e atordoamento, mas também documentos que indicam de maneira crua as atrocidades que praticadas os porões da ditadura por este e por muitos outros peões do regime.

Em muitas passagens do livro, narrado em primeira pessoa, como e fosse a voz do além de um homem atormentado pelos serviços “patrióticos” a que foi destacado cumprir, soam como contos de terror, de realismo fantástico até, uma vez que imaginar tais cenas e requintes de violência e crueldade se torna bastante difícil longe do contexto daqueles dias, o qual longe de justificar, ao menos, evidencia a existência de uma dura oposição de ideais e concepções sobre a conformação de uma nação.

Carioca narra com detalhes, as ações que culminaram na prisão e morte de David Capistrano da Costa, para cujo final terrível foi convidado como expectador e teve, pela primeira vez em seu funesto trabalho, a sensação de que algo mais lhe saía das entranhas. Não apenas o mal estar pela cena horrenda de vilipêndio de um corpo morto, mas também o questionamento de se estaria servindo realmente a uma nobre causa.

Mergulhar com o coração apaixonado por este período da história brasileira, nas páginas de qualquer uma destas incríveis obras, é ter de enfrentar a sensação de impotência e revolta que cresce a cada avanço de linha e página e, igualmente, a cada escândalo eclodido no ventre de nosso Estado. Torna-se, pois, uma tarefa que deve ser cumprida com respeito aos limites de nossa indignação, pois em muitos momentos nos faz confrontar com a triste realidade do esquecimento, com as indecentes conexões que personagens, de ambos os lados, mantém atualmente com os bastiões do poder no Brasil, forçando às perguntas: com que ideologias ou preceitos, estamos sendo governados agora? Onde estancou a forja de nossa democracia? Ela existe de fato? J.M.N.

A história do beijo

Carlos Murcio ouviu o som novamente.
Uma porta batendo. Um estalo forte que reverberou dentro dos seus pertencimentos.
Sentiu-se virado do avesso. Uma coisa dessas não se sente assim todos os dias, pensou.
De repente, estava de novo no abrigo dos cegos, ouvindo o ruído das bengalas procurando os caminhos. Perdidos recentes da luz dos dias, tentando aprender a seguir vivendo.
Sem conter a ignorância de seus gestos, empurrava todos que cruzavam seu caminho.
Muitos cegos estatelados no chão. Bengalas voando pelo ar.
Carlos espantado pelo bater da porta. Não saia de sua cabeça aquele estampido.
Sentiu os avisos de sua avó abrindo-lhe a memória para inflamar o próximo passo: a vida é só uma para vivermos de convenções.
Corria cada vez mais. O diretor, os seguranças, as enfermeiras, todos o estavam perseguindo.
Foi aos tropeções que chegou ao quarto de Marieta Berma.
Ela estava sentada à beira da cama, contando os lírios que colhera no jardim.
Não houve uma palavra sequer. O cheiro inconfundível do que sentira antes lhe voltou como um soco. Um sorriso. Marieta voltou a sentir as pernas.
Reconhecidos no silêncio dos que se esperaram uma vida inteira, tocaram-se.
Passaram anos naquele reconhecimento mútuo, abrandando o fôlego que parecia precisar de todo o ar da Terra.
Foi Carlos quem quebrou o silêncio: um beijo, Marieta, um beijo apenas e a vida inteira para tentar.
Vai ser difícil, ela disse.
... a vida é só uma para vivermos de convenções, repetiu Carlos em voz alta. J.M.N.

Pesos e medidas

Enquanto dura essa trégua com minhas idades eu corro. Corro para o centro do mundo, batom bem vermelho para beijar o destino.
Sou novamente uma mulher com lantejoulas e brilho, ornada dos pés à cabeça para entrar dentro dele e fazer um ninho eterno, com novelos turcos, ácido e paixão fulminante.
Enquanto escuto o ronco do motor do carro, sei que ele me espera. Vindo de sabe-se lá quantas estradas e bocas. Mas não me importo, no fim das contas ele é meu. No fim da noite é minha carne que acoberta a carne dele. São nossas faltas que se aglutinam em sinal de remissão dos pecados.
O mundo se estende sob nós. Derrotados os olhares menos poderosos ao redor de nossa mesa. A fome que mostramos é civilizada, mas ambas as mão esquerdas estão descobrindo as plateias dos corpos por debaixo do pano da mesa.
Todos os dias ele me vê atuar como a genuína amante que se entrega ao espelho antes do trabalho. Meio esquecida de si. Um olho na roupa, outro na saudade que a imagem dele deitado em minha cama deixa.
Deixo-o ao longo do dia esperando para saber se ainda o quero.
Quando a noite cai, com seu veludo de ânsia e vulgaridade sou o que ele quer que eu seja. Pouco importa. Sou sua lupa para os detalhes do beijo, seu vegetal, sua puta. Posso encarnar a enfermeira ou a mulher que pede sempre mais desprezo e dor.
Posso ser menos que um grama do pior ouro, contanto que seja dele inteiramente.
Contanto que seja eu a decidir. J.M.N.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Notas esparsas sobre o Oscar (I)

 

Nunca dei a mínima para a premiação da indústria cinematográfica norte-americana, justamente por estar voltada muito mais para a indústria que para o cinema. Amiúde interessava-me muito mais o ganhador do prêmio de melhor filme estrangeiro, esses sim, produções voltadas muito mais pro cérebro que pro bolso dos seus expectadores.

Esse ano resolvi fazer uma exceção e estou assistindo todos os filmes concorrentes da premiação principal. Vamos aos filmes e às minhas pequenas considerações.

Cisne Negro (Black Swan)

De longe o melhor filme deste ano, o Cisne Negro mostra os dramas que percorrem a montagem do Lago dos Cisnes por uma companhia de balé. A bailarina que faz os dois cisnes, o branco e o negro, é vivida por Natalie Portman em atuação magistral. O conflito da mocinha perfeita que precisa encontrar seu lado obscuro revela a intenção do diretor Darren Aronofsky discutir a busca obsessiva da perfeição na arte, o interessante é que no Cisne Negro o perfeito reside justamente no erro e na loucura. O filme é recheado de cenas angustiantes, me lembrou Kubrick.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pureza

Sinto falta de panos, cueiros, das coisas guardadas em gavetas só minhas na casa dela. Era como ir habitando aos poucos sua vida, surrupiando quieto, todos os espaços por onde ela existia. Quietude e falta. Entrega e paraísos.
Não era rapinagem, oportunismo. Um pacto feito de granizos caídos. Com a pureza da atmosfera que encontra vapores nunca antes encontrados e se transmuta. Ocorre em outro estado exatamente por ter esbarrado em força plúmbea, atmosférica.
Somos feito de chuva. Eu e a lembrança dela. Eu me dissolvo inalterado desde antes dela me querer líquido, instável, fora de corpos definidos. Ela natural e florida como as beiras da estrada do tempo.
Eu me encontro com as muitas onde ia chorar sua risada diante de meu desejo. Ela escondida, apreensiva por não saber como entregar os pontos. Volta e meia eu me lembro dos nossos destinos. Volta e meia eu lembro de estar entre seus braços.
Acordando os anjos pelo caminho, julgando necessários lírios e remendos nas cartas rasgadas de antigamente. J.M.N.

Para ler escutando...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Reconhecimento

“[…] Só tu saberás o segredo da minha predestinação.
Só tu saberás a extensão de tantas caminhadas,
só tu conhecerás a casa humilde em que morei.
Quem saberia romper o sortilégio que me cerca,
ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.”

Lúcio Cardoso – A uma estrela, 1944

Fazes um som estranho quando estás com sono e teu espaço na cama duplica quando começas a pertencer à inconsciência.
Não sabes nem tocar violão.
Nunca aprendeste a escutar mil vezes a mesma música.
Quando queres muito uma coisa começas a deseja-la em voz alta indo ao redor de tudo quanto gosto para ouvir de mim que tens razão, que aquele sapato que queres faz todo o sentido em teu armário.
É por ai que busco entender porque amo tanto às tuas idiossincrasias. Mas, arremesso longe os pensamentos. Uma vez mais tenho que me convencer que já partiste.
Porém, fremes em minha vida de manhã à noite.
De madrugada não sei, pois agora tenho pílulas para dormir também. Meu sono é químico. Entretanto se eu puder reivindicar algo, que seja essa tua pequena culpa diante de tudo o que eu quis saber sobre mim: livrei-me dos adágios e contos secretos, mas preciso de pílulas para garantir o sono.
Me abraça mais uma vez.
Faz como nos ensinou Adélia, me abrasa.
Me vence mais uma vez.
Coloca tudo de volta no tonel esquecido na adega de meus pais. Aquele licor de afetos que libertei.
As tuas pálpebras inferiores escondendo as lágrimas depois que eu te feria, as abas de teu nariz operando uma respiração doida e raivosa, porém, assim mesmo, quente e macia.
Teus pés lembrando quelônios tranquilos indo de encontro à minha insensatez. Teus passos singrados em minhas ilhas desertas.
Me descobriste.
Me afloraste como ninguém jamais o fez.
Quero um barco pirata, as contas gregas que te dei.
Quero voltar à santidade do bem que exalavas.
Nem quero isso. É mentira. Não faz sentido. Aqui, é por onde começo a minha volta.
Dois dias depois estarei em Sevilha, esperando um trem para me levar ao teu encontro. Meu cachecol enroscou na roleta. Meu destino ficou por lá. Atrasado na estação central.
Mas agora tenho de esquecer.
Então te vi novamente.
Movendo-se e disposta a concluir teu plano.
Sou teu espectador mais exigente.
Me diz: como farás para esquecer que o mundo foi nosso um dia? J.M.N.

Absolvição

Diz pro pessoal que não é para mata-lo, Tonho. Não é para tirar a vida, não. Corre lá e diz pros moços que não foi bem aquilo que eu disse que ele tinha feito, o que aconteceu de verdade.
Vai Tonho, manda não matarem ninguém em meu nome.
Acho mesmo que foi tudo um engano. A tarde estava uma desgraça. Tanto trabalho. Minhas costas doíam feito pedra picada de estrada. Era minha décima viagem com a lata de roupa, Tonho.
Ele beirava sempre o meu caminho usando um livro como guia.
Parecia vir se arrastando atrás do bicho. Sempre lendo, sempre lendo. Mas não quero nem tiro nem faca. Não marca aquele peito bonito com risco na carne, não.
Vê se tem um livro com ele. Um de capa amarela com letra preta. Parecia bem surrado.
Vi aquele homem umas doze vezes esse último mês. Sempre no meu caminho. Nem bom dia, nem boa tarde ele dizia.
Tá me dando uma coisa, Tonho. Curiosidade de saber se era um sonho.
Pensando bem ele sorriu pra mim de um jeito simples, como quem chama uma flor qualquer de Rosa, feito quem se engana. Mas Rosa é meu nome. Ele estava falando comigo, então?
Ele estava falando.
Foi tudo tão de repente. Depois de doze dias, Tonho, sem nenhuma palavrinha. Ai saiu aquele monte de coisa mansa da boca dele. E foi me escorrendo dos ouvidos até o pescoço que nem rio desgovernado.
Desceu bem no meio da minha respiração e me deu um frio na barriga que só vendo.
E ele, ele falava aquilo olhando no livro. Estava engolindo as palavras e cuspindo para mim.
Mas com tanto cuidado que eu nem senti que elas chegaram. E foram abrindo um monte de urna que eu tinha no peito, Tonho. Dando um cheiro imenso nas coisas, uma vontade de ser mulher.
Foi como se eu me sentisse em mim mesma.
Acho que me deu medo.
Ele tem mágica de fazer o livro virar o que a gente quer.
Pede pra soltar ele, Tonho. Pede pra não cortar nenhum pedacinho dele não.
Corre pela campina que eu vou pela estrada velha.
Corre, Tonho, senão vão matar o amor da minha vida. J.M.N.

Serra da Estrela

A primeira neve daquelas vidas.
Gelo e vento emoldurando a foto, como um presságio para a eternidade inalcançável do seu mundo.
Um recorte nas vidas terrenas dos dois.
Antes daquilo, um passear nauseabundo de incertezas e coisas que deixavam acumular debaixo da cama.
Foi como se nunca tivessem escapado à nevasca.
Os corações perfeitamente conservados sob o branco daquelas encostas inexploradas.
Gelo, cristais de tempo pequeninos e infiltrados nos olhos, para além daquilo que se vê.
É como morrer um pouco essa lembrança.
É como um medo de revisitar tempos celestes.
Quando não tinham aprendido a destruir os anjos.

J.M.N.

Para ler escutando…

Antigamente

Para uma foto emoldurada em 2001.

Para lembrar, acenou à imagem no sonho.
Era como um inverno inteiro caído sobre sua voz aquela distância entre a imagem e a realidade.
Sonhava com ela como se fosse uma manhã de sábado.
Sempre as manhãs de sábado, quando em seus vestidos floridos o levava aos extremos da maciez e da entrega.
Não havia certezas além da presença dela, rumo a qualquer lugar que lhe fizesse sorrir.
Por isso o sonho doía a guisa de mundo frio ou de um país com dias de seis meses.
A imagem intocável daquela que seria o maior sinônimo para saudade.
Houvera um tempo, tudo quanto queria era ignorá-la.
E chegou esse.
Um agora que nem mesmo a façanha de se desmentir doente e vago conseguiu alcançar.
Tem essa imensa responsabilidade diante de si: sanar-se, viver, qualquer coisa que lhe sirva de motivo para ficar ou escrever.
Como ela em seus vestidos floridos, correndo ao seu encontro numa manhã de sol.
Aonde vamos?, ela perguntava.
E ele, completo como um pote de sal e lágrimas e séculos, respondia quase eterno: Você não sabe? Vamos ver se a vida suporta nossa felicidade! J.M.N.

As espécies e os deuses

Enquanto os deuses dormem, os homens andam por ai. Tropeçando em tudo como se fossem cegos, eles todos. Sou um destes aos tropeções. Andando por ai é que vou definindo onde posso e onde não posso ficar. Há lugares para sentar e ver o céu chegar bem perto da gente. Como se fosse uma borboleta desgarrada voando pelo cheiro da luz. Somos assim os homens que andam por ai. Cheirando o que não se deve cheirar, fatiando o ar em busca de novas dores, desde o princípio dos tempos.

Enquanto andamos, feito cegos em solo lunar, sem gravidade ou rumo, sem a maestria das cores enfurnadas umas nas outras como acontece no outono, os deuses confabulam se há acordos possíveis para nossos pulsos sem ritmo, para nossas andanças sem cuidado. Aqui e ali apiedando-se dos caídos em abismos, daqueles que retiram-se do palco antes mesmo de se anunciar o espetáculo. São assim os deuses. Não interferem, não arbitram. Apenas esperam. Um deslize, uma cópula, um poema cumprido na saudade perpétua do que perdemos.

Enquanto andam por ai as mulheres, nascem estações, alumbramentos. As nações se invadem consortes de paixões violentas. A navalha na carne, sempre bem fundo. Entre homens e deuses, a mulher triunfa. E sempre chega na frente. Enquanto todos dormem ou falam asneiras, elas parem nossos filhos amados, multiplicam a vida. Evocam a comunhão dos homens e dos deuses. Chacoalham suas estruturas e a música produzida interfere no trabalho, na rapidez da lida. Sabem a todo dissabor do mundo e, ao mesmo tempo, a toda vida emanada da gente. J.M.N.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ensinar

Quando vi este mundo tu já não o vias mais. O peso repetido da rotina foi aos poucos tornando desnecessárias também as tuas palavras. O soluço da mola do teu colchão pela manhã era o aviso de acordar. A queixa fina da porta do quintal era o convite para lida.

Hoje, segurando o couro duro da tua mão, senti o peso do terçado que trouxestes durante toda a minha infância, como uma extensão do teu próprio braço.

Eu te guiava até o local onde havíamos parado no dia anterior. Pousavas os teus olhos sem vida na direção da terra seca como se estivesses a ameaçar a vegetação. Então o cheiro de mato cortado se confundia com teu próprio cheiro. Eu acompanhava calado os teus golpes alinhavando o ar e inventando o vento. Me alegrava aquela chuva verde fazendo o sol em retalhos de luz.

Um dia te destes por satisfeito, e eu vi o horizonte que se escondia por trás do capinzal vencido. Nessa manhã terminastes de me exemplar com o teu trabalho, e começastes a me perder com a tua oferenda. WDC

Sobre o que não foi

Enquanto houver dias depois de meu sono, haverá um lugar para guardar o cheiro, para ocupar-me por inteiro esta saudade do que nem sequer tivemos.

Alerta-me o sentido do tato, as paredes por onde estivemos escondidos falam, pronunciam os nomes da cidade em que moraríamos, da filha que teríamos no ano seguinte.

Adoça-me a esperança esse canto, essa música passageira de janelas entreabertas para o campo. O verde não era à toa, afinal. Perto da casa, uns bichos se amavam livremente e dentro dela, consortes, trazíamos orientes à calma dos lençóis.

Isso que sinto, acocado entre a liberdade que determinei para meu corpo e beijo, essa efusiva novidade de ir e vir do desalento, como nunca inconstante, companheiro mais que tormento. É a coisa fundada depois de tua ida. Não apenas um informe, mas um decreto. Algo sem nome que me sabe à tua pele, à tua loucura, a tudo aquilo que era para ser e não foi. J.M.N.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Exército da salvação

Coube a Camilo a caixa com soldadinhos de chumbo raros, como espólio. Primeiro ficou chateado, jogou a caixa num canto qualquer da última gaveta do armário. Todos tinham recebido coisas melhores, pensava. Não podia entender porque seu pai havia deixado apenas os soldados de chumbo e não joias, ou seus discos ou dinheiro vivo, como esperava. Nem era mais criança, urrava, lembrando daquilo que recebera.

Uma semana depois de seu pai morrer chegou uma carta endereçada a Camilo. Seu pai morto era o remetente. Enviara de um posto dos correios próximo à sua casa. Na carta o pai informava que os soldadinhos de chumbo, na verdade, eram de ouro maciço e que seu pai, avô de Camilo, os havia pintado para esconder dos soldados que o levaram preso, em 1964. Eu os guardei como meu maior tesouro, dizia o pai na carta.

Além disso, havia um sem fim de declarações e revelações na carta de seu pai, as quais Camilo jamais imaginou poder conhecer um dia. Dentre elas, havia uma passagem que lhe mudou completamente o dentro. Às vezes sinto que vivo uma vida que não é minha, meu esquecimento entorta tudo quanto senti na vida e me leva para onde não há nada senão esquecimento. Só sei que estou de volta quando lembro de chamar por ti.

Camilo correu ao armário, retirou os soldadinhos da caixa e os dispôs em linha na prateleira que antes estava recoberta pelos eletrônicos que ganhara de seu pai, ao longo da vida. Aquele exército colorido com a alma de ouro puro guardou Camilo por toda a vida e o fez vencedor de muitas batalhas, mas, sobretudo, o fez saber que jamais estivera só no mundo. J.M.N.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Alimentar

José aprendera a andar. Muito pequeno dava passos profundos. A grama deitava para sempre depois de seus passos no quintal. Ainda não descobrira a sutileza dos mapas, as armadilhas do caminho. Sem escolha que fazer, José pisava o mundo inteiro num único passo.

Quando cansava pedia os braços dela, sempre aportados o mais próximo possível. E depois de lá estar, aconchegava-se na maciez que era sua idade inteira dedicada a ele. Um abraço que apenas era possível por ela ter sido dele duas vezes, desde o desejo de sua vinda até o primeiro mijo em suas roupas.

Ele a marcara.

Riscou fundo na carne dela essa necessidade de um amor que vem de antes das pessoas terem corpo. Antes mesmo de as almas ancorarem na matéria. Era uma troca fortíssima e intocável. Ninguém tinha o despeito de acabar com a escultura de abraços que forjavam os dois quando se estavam.

Depois do aconchego sentia fome, José pequeno. E seu olhar pedia a nutrição destinada a si. Carne, arroz, frutas ou pão, eram apenas os primeiros detalhes. Eram a entrada para a substância invisível que lhe cumpria a fisiologia indescritível das necessidades humanas mais básicas. Uma comida que era dada através do jeito de saciar-lhe a fome e não do alimento em si.

Naquela manhã de sol brando, José pediu o almoço com um sorriso e ela, impulsionada pela confiança que Olimpos e Édens festejam nos puros, raspou do prato uma porção do que estava dentro e com a própria mão levou à boca dele o alimento. E naquele ato de entrega e toque fundou-se algo. Uma espécie de completude permanente e secreta, como rir para as pedras ou confessar os pecados enquanto andamos sozinhos na estrada.

Ninguém sabe explicar a vontade que ele tem ainda hoje de possuir o alimento com as mãos, de sentir tudo quanto imagina saboroso na frente de qualquer gente e sem a vergonha costumas de quem só lambe os dedos no escuro. J.M.N.