Já não dou título para as coisas que me afligem as saudades. Antes me empenhava em descobrir simbologias, enfeitar com poesia e sofismas de abandono e dor, os meus insuspeitos suspiros. Abro a janela e o ar de depois da chuva faz sua mágica, convertendo as tramas de ausência em coisas cheiráveis, bebíveis, mastigáveis até. Choro até o ponto de ter matéria para misturar com esse ar de chuva e pronto: um novo gole acaba com o susto. Antes de eu ter essa facilidade da chuva, tinha o péssimo hábito de guardar os nomes, os tickets de teatro, de imolar os corpos santos sem regras ou religiosidade. Antes de dizer estas coisas eu era apenas aquele que sentia. Posso não dar títulos a coisa qualquer, mas ganho peso por esses quitutes de saudade e dor.J.M.N
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Constatação
Cinco meses de fortuna e ódio. Por um lado a destreza com os negócios me fez maior, mais enérgico, um tanto mais sozinho e afastado das coisas orgânicas sim. Separado do mundo por janelas de vidro à prova de balas cuja translucidez é apenas aparente e aumenta vertiginosamente minha miopia. Por outro lado a coisa de não poder comprar tudo, de não controlar o tempo e poder redefinir destinos recentes que foram parar na sarjeta. Desta feita, a carta que recebi pela manhã foi desesperadoramente intrigante, infinitamente mais absurda do que os movimentos financeiros. Terminava de maneira instantânea, quase estúpida: ainda bem que acabou! Isso depois de tantas declarações de amor. Nuca te entendi, essa é que é a verdade. Aliás, nossos enganos começaram muito antes do que nossos acertos e quando chegou o ponto de estarmos amáveis, entregues e completos, o passado já era uma bola de neve gigante descendo com força estupenda a montanha por trás de nós.J.M.N
domingo, 7 de junho de 2009
Biografia
Encontro-me à espera da idade para deixar os segredos de lado, como se fossem os anos que perdoassem as traições e soterrassem os mistérios das euforias romanceadas de tempos atrás.
Jamais soube o que me gritavam os homens do porto. Passei por eles ainda muito novo e indolente.
Um ano antes de morrer, deixei escrito em testamento: todo meu ouro, minhas palavras e as provisões de ano novo são para ti. Muda. Faz o que eu não fiz.
Se te deixei faltar algo, perdoe-me.
Escolhi o caminho adiante, sem curvas ou reticências. Não era natural?
Hoje eu sei cada vez menos e ainda me recupero da primeira morte que tive. Posso apenas te anunciar umas poucas verdades:
Meu brado é amargo e vazio. E sorrateiramente desisti da construção da casa.
Dei a ela os tesouros que nunca te dei.
Nossos filhos catam ventos sem ter nada para comer ou vestir. São livres, então.
Meu sofrimento está tingido de azul e a única coisa que me resta é uma vida toda para esquecer de ti.J.M.N
Pequena fábula de se tu estivesse
Na hora do rush te espero para almoçarmos naquele lugar de sempre.
Olha que a pressa um dia acaba e vamos todos andar de costas, a história ao lado.
Vamos para Atenas recuperar pedras, textos antigos e algum sentimento. Desafio o teu peito a esta busca e talvez cobre caro a tua eventual desistência.
No sábado que vem, podíamos catar conchas em Albuquerque, de calças curtas. Andar na areia pedregosa daquela praia triste. Lembrar de quem já foi, pedir por quem chegar. Reler Weber, Epicuro ou Dilermando e falar bobagens sobre cultura e TV em cores.
Na janela de nossa casa poremos dálias e estas serão regadas à nostalgia. Tive a informação de que florescem melhor assim, talvez tenham me enganado.
Onde andas que não enxergo mais teus passos?
Foste tão longe que só ficaram estas lembranças?
Amanhã te conto dos anos que passamos em Roma e na Riviera e talvez esqueça que nunca estiveste aqui.J.M.N
Amor em cores
Azul celeste ou encarnado, vermelho puro. Foi assim que criamos nossos gostos, um pelo outro, em contraste com a frágil presença do rosa em suas bochechas.
Fingíamos encontros ao mesmo tempo, depois soubemos.
Treinávamos as falas corriqueiras dos muitos anos do matrimônio esperado em frente às nossas cabeceiras, como artistas num palco iluminado.
O muro alto da casa dela era sempre um desafio, mas escapulíamos por entre as frestas da cerca velha e fazíamos nossos arco-íris no quintal do Venâncio.
Naquela época eu tinha uma barba rala e muito ímpeto e ela cultivava seus peitinhos nos vestidos leves e sem amparo.
Depois do verde das tardes entrelaçadas de mãos veio o intenso rubro dos beijos roubados e dos entregues também.
Nunca irei esquecer a dor de dormir sem escutá-la.
Lá naquela imensidão investida que foi nossa história, resta dormente, mas ainda viva a tez de aquarela dos nossos quereres.
Deixou a cidade uma semana depois.
Naquela tarde em que ela partiu, meu olho alegre decaiu muitíssimo e minha sombra encolheu antes de mim.
Cheguei atrasado para o embarque. Ela também. Vi apenas seu braço erguido, num arco longo e triste de adeus. Ficando cada vez mais longe com seus olhos açudes. Sua despedida fazendo ventos diminutos e doloridos, cinzas, como as tardes chuvosas de fevereiro.J.M.N
Marrocos, em agosto
Ouvi dizer que lá tem coisas fantásticas. Existem feiras ao ar livre e todo o tipo de coisas espalhadas pelo chão, para vender. Um dia vamos lá. Vamos descer até a Espanha e atravessar o estreito, com as mochilas mais vermelhas que encontrarmos. Em Rabat, pintaremos os rostos como vasos antigos e dançaremos adormecidos pelas ruas da cidade. Marrakesh não tarda. O farol será nossa lua. Teu beijo é mais demorado que de costume. Posso dormir aqui? Te perdi. Nos perdemos. Sob os meridianos atentos, a Terra se reencontra em nós. Estamos completos, cosidos como um tecido caro de textura fluida. Fomos por fora do mapa, através de Casablanca. Repousamos diante do mar e estamos queimados. Nossos corpos incomuns à beira da praia, derramados como líquidos que se misturam. Depois o sul, através de Settat. Chegamos ao fim. Rumo à casa que já não será a mesma. Nem sequer os olhos, ou os braços e os corações. Tudo ficou para trás. Como andarilhos desatentos, demos nossos passos para longe dos caminhos conhecidos – desconexos.
- Te mando uma carta no fim do ano.
- Vamos nos encontrar em Bordeaux e depois vamos a Lille, certo?
- Guardo para sempre o teu abraço.
- E eu a tua presença.
- Até mais. O fim do ano já chega.
- E a saudade?
- Repartimos. Espero que isso nos ajude a voltar.J.M.N
sábado, 6 de junho de 2009
A primeira ilusão
"Abrindo o olho para o que se sonha,
tem-se cautela ao que se descortina,
pode-se estar na diretriz divina,
pode-se entrar na direção medonha."
Catecismo - Paulo Cesar Pinheiro
João acordou ensopado. Teve poucas horas de sono. Um sono amargo, pouco descansado. Acordou no meio de um pesadelo e qual fosse real o que sonhava, continuou agindo. Sonho real numa manhã inventada bem antes do que deveria. Olhou para o lado e não havia nada. Nem o quente do corpo dela, nem a mansidão endividada de suas manhãs antes do trabalho. Lembrou que era melhor em dar amor do que solicitá-lo, pois assim teria que admitir que não tinha. Esse pensamento o confundiu um pouco. Estendeu o braço esquerdo à imagem que se formava meio translúcida e cultivou inoportunas violetas em torno dela. Levou uns minutos para se descobrir acordado. João, decerto, não intentou roubar a razão dos sonhos. Presumiu revoltado que a instalação daquela bruma era tudo o que restara da pequena ficção a que se dera direito desde que tudo começou. João enxugou o rosto, mas viu que continuava úmido. E entendeu o motivo, depois de sentir os olhos ardidos. Acordava como nas vezes anteriores em meio a um choro dormente. Vazio de contrários e vida contundente. Sentiu que a pressa passara, que a teimosia de não se conformar nunca, esta sim, adormecera e ressonava esquecida em qualquer quadrante de sua memória. Quando haverá outro dia esperança, quando? Jamais se conformaria com o fato. E sua glória administrada cedeu, uma culpa secular recobrou seus laços, atada permanentemente aos seus intentos. Ter sem culpa, não era possível. Com a triste combinação de verdade e impedimento que se lhe guardavam essas manhãs conturbadas. João chorava a falta. Simplesmente aquilo que já não tinha e que, demasiado tarde, descobriu que jamais poderia ter, pois tais apostas pedem riscos muito elevados. Definiu com a respiração ainda ofegante que aquele dia seria mais um dia. E somente mais um. Onde tudo começaria com o bagunçado envolvimento de seus sentidos com as horas inagurais da manhã e acabaria em sua escrivaninha, rabiscado nas folhas de papel branco, começando, quem sabe, as silentes profecias dos amores acabados de repente, as quais diariamente se convertiam em diários, cartas, e livros intermináveis. João, na verdade, queria apenas um pouco mais de sono, mas não conseguiu. J.M.N
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Diário da tua ausência IV
04.06.09 (madrugada)
Obrigado pela carta. Sei que foi tão difícil para você escrevê-la quanto foi para mim ler. Mas também sei que completudes é que lá estavam registradas, e isso me basta por agora. Naquele exato dia, em que recebi das mãos do carteiro usual tua correspondência, estive lutando com todas as minhas forças para não te ligar, internar-me no hospital em que trabalhas ou descer pelo telhado de tua casa para assaltar teu sono com meu desespero. A queixa seria a mesma... órgãos liquefeitos, torções de alma, essas extremidades dos meus sintomas mais diversos que conheces tão bem. Comi um pouco e flagrei dois vizinhos brigando alto por causa de uma conta de luz. Encostei-me na parede mais próxima ao som, e fechei os olhos para concentrar-me na briga. Deixei de lado meia maçã e todos os meus pecados recém descobertos em prol da desavença muito próxima. Em meio às reclamações dela, um punhado de coisas que nada tinham a ver com energia elétrica, ou a falta desta. Havia em sua palavras sulcos tênues de abandono. Por eles escoavam os raros, mas preciosos, ditos de pertencimento, de entrega e vício (por que não?). E nestes filetes que usualmente conduzem às dores mais violentas, ouvi transportarem-se esperanças, medo, pedidos para que aquilo parasse e a noite pudesse, enfim, dar-lhes o sossego necessário. Tudo acabou de maneira bruta, com um grito de ordem para que a conta fosse paga no dia seguinte. Uma porta bateu seca. De minha parte, segurei tua carta contra o peito e atendo-me às mais sutis veleidades de quem tem se encontrado mortalmente com a solidão das madrugadas, suspirei um quase riso, tão baixo como o tocar de pés de escaravelhos em fuga e me tranqüilizei, apenas por saber que naquele exato momento, alguém mais estava tão infeliz quanto eu.J.M.N
terça-feira, 2 de junho de 2009
Dois perdidos
Um par de coisas aconteceu entre o bater da porta e a descoberta da ausência, naquele dia. Poderia dizer que houve uma certa precipitação por parte de ambos e comentar que, afinal, o fim era o único caminho. Mas isso seria fácil demais, direto demais e para os autos, demasiado insignificante diante da história toda.
A despeito dos rumos tomados, não parece justo assegurar depois de tanto tempo, que ambos escolheram aquele caminho e enveredaram suas desavenças para as portas do inferno de uma vida a dois sem vida. Não. As coisas aconteceram como tinham de acontecer. E devo dizer que foi assim desde o início.
Dia de chuva…o rio tinha subido aos céus…
Chego atrasado se isso continuar. Nem me fale. Essas chuvas já estão fora de época. E de proporções bíblicas, não acha?. É mesmo. Quer um?. O que é?. Biscoitos de laranja. São caseiros?. Devem ser. Sinto muito, não posso aceitar coisas de estranhos. Você está brincando não é?. Claro que não, você é um estranho. Nestor, prazer. Lisa Maria, igualmente. Gostei. E os biscoitos?. Você disse que não aceitava. E você se apresentou. E?. Isso fez de você um conhecido!. Acabou. O biscoito?. Não, o tempo. Tempo de quê?. Da validade da oferta dos biscoitos. Mas estão cheirando tanto. E estão gostosos. Só um?. Não. Então para quê ofereceu. Para te conhecer. Eu me apresentei. Mas só depois de mim, e dos biscoitos. Mas você se apresentou. E antes te ofereci biscoitos. Débil mental. Sua sem biscoitos. Passa logo chuva. Não vai passar. Além de doido você é meteorologista?. Sou. Não pode ser, nunca conheci nenhum meteorologista. Onde você vive? Em Marte?. Grosso. O biscoito está uma delícia. Você vai me dar?. Só se você ficar surpresa com o que eu vou te dizer!. Como assim?. Que parte você não entendeu?. De quê?. Do que eu te pedi… de se surpreender. Não vejo razão para isso. Não quer os biscoitos?. Não. Ok, então me dá seu telefone. Nem pensar. Vai. Nunca. Palavra vasta essa. Escuta, você é mesmo um meteorologista?. Não. Há, agora é que não dou mesmo meu telefone. Você é um mentiroso. …que tem os únicos biscoitos de laranja desta parada de ônibus. Não acredito que essa chuva não passa. Não acredito que você acreditou que eu era meteorologista. Eu tenho fé nas pessoas, tá bom?. E eu tenho biscoitos de laranja. Chuva estúpida. Você vai para o centro?. Que te interessa?. Vai ou não?. Vou, e dai?. Não deixa de passar pela praça ao lado da prefeitura, é linda. Não passo por lá. Mentira!. Perdão?. Você tem de passar por lá para chegar ao seu trabalho. Como é que é?. Que parte você não entendeu agora?. Seu idiota! Que história e essa de… como você sabe onde eu trabalho. Calma Lisa. Lis… como você sabe meu nome. Você me disse ainda há pouco. Hã! E sobre o trabalho?. Eu trabalho no andar de baixo, edifício Avenida, 371 – sala 1005. Hã… o que é que tem lá?. Meu escritório. De quê?. Agora é sua vez… na praça do centro, perto da prefeitura, tem uma estátua de um infante, na base dela tem uma pedra solta que ninguém conhece, lá vai ter algo para você. Como é que é?. Ai meu deus! Você é difícil, heim?. Tô passada! Me dá um biscoito. Acabou. Vai à merda. Vai ao cinema comigo?. Nem pensar. Que pena, achei que valia à pena pegar essa chuva por você. Quem é você afinal?. Sou o Nestor, já disse. Não, digo, o que você quer?. Cinema com você. Nessa chuva?. Não, pensei em sexta-feira às 20. Já disse que não. Na verdade, você disse nem pensar. Você é irritante. Sou sim, mas também acho que você é a melhor coisa do meu dia. O que?. Você é distraída mesmo… semana passada, no seu consultório?. Que tem?. O cliente que saiu e te deu um abraço. Claro, mas, mas. Tirei a barba, como você disse para eu fazer. Eu não acredito. Sem problemas, eu aceito seu esquecimento. Não é isso…. Cinema?. Mas eu nem te conheço.J.M.N
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Excertos Terapêuticos VIII
Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.
Desencanto - Manuel Bandeira (em A Cinza das Horas)
Uma dessas coisas primeiro
"I could have been your pillar,
could have been your door
I could have stayed beside you,
could have stayed for more.
Could have been your statue,
could have been your friend,
A whole long lifetime
could have been the end."
(One of this things first - Nick Drake)
Foi justamente isso... Remissão e sacanagem.
Se eu dissesse que tinha sido amor estaria mentindo.
Caras e bocas. Invernos aconchegantes nas estâncias térmicas do país. Muito dinheiro gasto com sonhos e cachecóis.
Não compramos um apartamento. Nem lava-louças.
Deixamos às traças os livros raros que herdamos dos respectivos pais. Nódoas nos panos de mesa da avó dela. Mofo esverdeado nos carpetes. Tristeza. Espelhos partidos. Manteiga estragada e comida ruim.
O sexo foi o de menos. Havíamos piorado muito já no fim do primeiro semestre. Dai pra frente, amantes. De cá e de lá, pelo que sempre desconfiei.
Estávamos certos. Estávamos errados. Nos conhecíamos. Nos odiávamos por causa deste conhecimento e juramos ser amigos para sempre.
Nunca se falou em amor.
Nunca se falou em casamento.
Nunca se falou em separação e, no entanto, quase nos matamos umas três ou quatro vezes.
Olho aquele nada que foi nosso primeiro ano.
O segundo, nem isso foi.
Sua bunda já não era mais a mesma. A minha nunca tinha existido. Defeito de fábrica, preguiça dos meus pais, sei lá. Uma armadilha anatômica para os meus pés, que viviam desfazendo a barra das calças.
Nossas caras já não escondiam a vergonha e a antipatia daquela desgraça compartilhada.
Jantares interrompidos. Meu telefone. O telefone dela. Desculpas esfarrapadas. Bilhetes anônimos escritos por nós mesmos. Mentiras afluentes que nem se distinguiam das coisas doces que inventávamos de vez em quando para acreditarmos em nossa humanidade para variar.
Mas nunca, nunca a palavra adeus.
Certo dia, acordei às duas da manhã e chamei-lhe pelo nome. Obviamente estava sonhando.
Ela acordou assustada. Olhou-me e não disse nada.
Foi a primeira vez que vi lágrimas nos seus olhos.
Nenhuma palavra e o abraço mais seguro que já tive em vida.
- Desculpe! eu disse
- Não diga nada!
E dormimos assim, eu nos braços dela e minhas culpas debaixo da cama. Apenas por aquela noite carreguei o peso das coisas sozinho. Ela era sóbria. Eu, um covarde. Precisava como nunca daquele abraço.
Seus olhos brilhando. Minhas mãos tremendo. Eu encurtando. Ela me chamando de amor. Corações quase implodidos. Devaneios à madrugada sórdida. Desconcerto. Ternura. Rancores entulhados...
O abraço noturno seguiu até de manhã. O amor do avesso se acalmou.
Soltamos os corpos.
O vazio tinha outra forma.
- Quer café? Alguém disse.
Sem resposta tomamos um dejejum forçados.
Temperado pelas palavras malditas que se escondiam nas bocas medrosas.
- Banho?
Ela concordou.
Depois da água veio um calor insuportável e o cheiro espesso do cotidiano.
- Não vai pro trabalho! Ela pediu.
- Tenho uma reunião importante.
- Claro, claro. Desculpe! Ela disse com melancolia.
Pela segunda vez na vida eu a vi chorar... Desta vez sem lágrimas.
Voltei do meio do caminho.
- Cancela a reunião, pois tenho que amar alguém, foi o que disse para a secretária.
Dona Lúcia, minha companheira de tantos anos sorriu e disse do outro lado da linha:
- Já não era sem tempo.
Dona Lúcia me conhecia melhor que ninguém.
Cheguei em casa atônito. Com ares de amante latino. Muito vulgar, cheguei babando...
- Tira a roupa!
Ela nem sequer me escutou e pulou da cama me derrubando.
- Você acha que é tarde demais? ela perguntou.
- Não sei, respondi.
- Então me come.
Naquele momento impreciso dissemos tudo o que estava por vir havia tempos...
- Me destrói?
- Me culmina?
- Me atira uma pedra?
- Afoga minha ira?
- Me transpira?
- Me reinventa?
- Constrói um edifício pra mim?
- Te transforma numa estrela?
- Me chama de puta?
- Puta!
Eu cedi. Sempre cedia.
E acordei com a beleza daquela estranha que odiara por tanto tempo, transformada na obra divina dos meus ancestrais. A mulher prometida.
Olhei-me no espelho equanto ela dormia. Rugas salientavam minhas desgraças. A barba mal feita denunciou meu abandono e o corpo que ali estava, parecia ser de um outro alguém.
Apesar disso, ri e emprestei as lágrimas dela.
Disse para a imagem destroçada que via no espelho:
- Quem disse que se pode deixá-la?
Não tento nunca mais.J.M.N
Los dias sin dias
Em 2003, conheci este pequeno vídeo que me comoveu imenso. Depois de algumas perdas sentidas e viagens que renderam cicatrizes mil, lembrei dele quando li uma reportagem sobre como o mundo e as pessoas parecem cada vez mais desamparadas e precisando de cuidado, cercadas de medos e neuroses de angústia e ansiedade, esperando em silêncio que alguém as salve. Imediatamente pensei que era isso que este filminho representava - cuidado, o afastar do desamparo... Então, ai vai.J.M.N
Para o Super, com saudades
para um outro Neto,
que já foi descansar.
Ele é a primeira imagem de pureza de que me lembro. Na minha infância esteve ali, como um ser encantado que segredava suas origens para além dos dias da criação. Sua secreta linguagem de verbos e de corpo me aturdia como as coisas do além, sobre as quais depois descobri, o medo não deve repousar. Fez parte de muitas tardes felizes o Super, como disse que queria se chamar numa de nossas brincadeiras. Foi companheiro de muitos ofícios infantis, inclusive os inconfessáveis. Junto com seus irmãos encheu minha memória de sagrada presença.
Fui vê-lo no hospital. Já quase perto do fim. E tive a impressão de que minhas primeiras saudades eternas de pessoas de minha geração chegavam inelutáveis. Encontrei com parentes, irmãos, sua mãe sempre perto, gentil e cuidadosa, seu pai silencioso. E ali respirei um pouco do tempo em que estivemos juntos e muito do tempo que nos sonegou a vida. Senti, no fundo de algum lugar esquecido que queria as coisas diferentes. Irretocáveis, puras, cheias de descobertas e risos cúmplices como as tardes em Mosqueiro, há muitos anos.
Num tempo em que as pessoas mais intensamente se empenham em cultivar suas solidões e cumprem destinos cada vez mais opacos e sem sentido, acredito que Super cumpriu o seu com dignidade. Não deixou de sofrer por isso, mas mesmo no fim, a dor não corrompeu sua pureza, deixando tempo para gracejos e espontaneidades como as que nós - os outros, precisamos tanto nos esforçar para produzir e que por isso, talvez, não mereçam ser chamadas de naturais.J.M.N
Durma em paz...
Uma rua
Encontrei esta foto em meio às fotos preferidas. Lembras? É a reunião de nossos olhares desta cena tão comum. Uma rua estreita que tinha cheiro e guardava tão intensas memórias que podíamos tocá-las ao passar as mãos pelas paredes extremamente próximas. Não sei porque pensei em pertencimento, em estar próximo. Tão próximo que as paredes seriam invisíveis e que as coisas todas que acumulamos ao longo dos anos aparecessem compactas e familiarmente agregadas, como nesta rua, agora cheia das minhas saudades também. J.M.N.
Sobre os comentários
Caros leitores,
Ficamos muito felizes com as manifestações de satisfação pelo "retorno" por assim dizer. Elas chegaram, em sua maioria, através dos nossos e-mails pessoais e serão sempre muito bem vindas.
Decidimos abrir novamente a postagem de comentários sem moderação, pois isso, ao que percebemos, limitou bastante o número de comentários. É mesmo chato ter de ser moderado, pois nunca precisamos, reter nenhum comentário por falta de decoro.
Sendo assim, esta casa é mais sua do que nunca.
Um abraço,
Palavras de Ontem
Diário da tua ausência III
01.06.09
Ligaram de lá. Não deixaram muitas esperanças, mas, afinal, quase sem esperanças foi que vivi estes anos todos. O importante é que ligaram, dirias. Sinto falta desta tua força a me dizer que tudo vai dar certo e que um dia... Hoje o dia passou definitivamente sem razão. Louça suja me divertiu. Que azar ter encontrado a vizinha da briga de sexta bem na porta do prédio. Mais uma série de impropérios, baixaria ao ar livre numa segunda de manhã. Meu café da manhã só não voltou porque tomei as devidas precauções. O fato é que tenho algumas dúvidas sobre o sereno, dormir de bruços, arcordar no meio da noite e pisar descalço no chão frio. Muitas outras coisas me assaltam agora e o frio da geladeira indica toda a temperatura dos meus sonhos mais pungentes. Queria acordar disso tudo, mas hoje cortei o dedo com a faca de pão e o sangue me deu indícios de que desta vez não estou no campo do sono, não durmo ou estou sonhando. O incômodo desta constatação gera uma tensão absurda. O telefone faz parte da conspiração, calado me lembra que guarda a chave do meu destino e mais, grita malcriado a minha falta de coragem. Desisto. Lavei louça por diversão. Escrevi três linhas do relatório para o pagamento e me atirei de volta na cama. Um esforço estupendo este de existir. Sinto falta da tua força. De quando dizias que tudo daria certo e dava.J.M.N.
I think I need a new heart
É tudo sobre este título!
Pensei em começar falando sobre a música homônima de Stephin Merrit, do Magnetic Fields, abordando de maneira geral como ela se encaixa perfeitamente no conjunto de suas 69 canções de amor (69 Love Songs, 2004) e depois passar para um entusiástico elogio ao grupo, sugestão de outras faixas e CDs... blá, blá, blá. Mas senti que estaria perdendo uma grande oportunidade de me aventurar no mundo da crônica (apesar de nem ter pistas de como fazê-lo, por isso me desculpem se sair mal), pois a canção traz pérolas de inspiração, tais como:
Time stand still
All I can feel is the time standing still
As you put down the keys
And say don't call me please
while the radio plays
I think I need a new heart
E, afinal, quem jamais quis dizer ou disse coisas assim um dia?
O fato é que Merrit acertou em cheio, como fez tempos atrás ao enfiar numa música um refrão que dizia mais ou menos que ele dedicava aquala canção a alguém que o tinha feito realizar coisas desesperadas. E coisas desesperadas nos fazem querer um coração novo, fazem-nos querer escrever uma crônica... Mas também coisas belas, ternas e verdadeiras o fazem.
Como não descompensar quando se chega ao fim de algo tão profundo e importante em nossas vidas e ao ligar o rádio, ou abrir o music player de nossa área de trabalho no computador, achamos "engatilhada" a tal música, aquela que resume nosso estado de espírito diante da perda? Mais que isso, encontramos organizado de maneira nunca antes percebida, em suas estrofes, aquilo que queríamos ou deveríamos ter dito?
O Magnetic Fields também nos brinda, em 69 Love Songs, com uma música (the luckiest guy on the lower east side) que diz entre outras coisas que, apesar do protagonista saber que muitos outros caras e circustâncias fizeram bem à mocinha, eles têm um segredo, uma cumplicidade e que a manutenção disto é o que faz com que, em sua companhia, ela ria mais do que em qualquer outra ocasião. Numa livre imterpretação: acho que estou escrevendo isso, pois queria ter a oportunidade de fazer alguém rir de novo.
Pensei que a música título deste pequeno escrito, apesar de autenticar, um desejo de mudança, traz uma felicidade melódica que só se encontra em momentos de reconhecimento e entrega, de solidão e busca de si, onde a verdade daquilo que sentimos e somos não pode mais ser escondida, nem por todos os esforços sentimentais ou teatrais... Como em:
Cause I always say I love you
when I mean turn out the light
and I say let's run away
When I just mean stay the night
Queria, em muitos momentos, poder escrever 69 canções de amor para explicar os trubilhões por onde surgem nossas desagraças particulares (as minhas, pelos menos), os quais fazem surgir em nossas histórias os mais tristes e falhos atos de desespero e imaturidade, como também as mais belas lembranças de entrega, companheirismo e amor, mas decidi apenas apresentar Stephen Merrit e elogiar seus 69 achados de amor.
Na vida, como na música, as coisas se conjungam ou se distanciam, e muitas vezes correm mal e os resultados são terríveis: vendagem baixa, vaias em shows, descrédito na grande mídia. Mas algumas vezes é possível achar a combinação perfeita entre palavras e melodia, entre o dito e a presunção da verdade (e digo isso, pois a verdade é a de cada um) e nesses momentos eu sempre agradeço por ter a música em minha vida.
Em momentos assim, podemos, mesmo tristes e perdidos, solitários e intranqüilos, encontrar conforto e desejar o impossível - um coração novo que seja, mas também simplesmente cantar uma boa música, de olhos fechados, respirando devagar e lembrando que nem tudo o que nos condena, define aquilo que somos. É! Eu também acho que preciso de um coração novo.J.M.N.
_______________________________________________________
Serviço:
69 Love Songs - Magnetic Fields (Domino Records, 2004)
E esta é a música título (o vídeo não é oficial, foi a única versão que achei):
E mais uma preciosidade do mesmo album:
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Históras para depois do sono VII
A menina veio. Cabelos e vestido como um só, espanando o ar da praça com delicadeza infantil. Correu até ele e se atirou em seus braços. Não ouvi o que disseram um para o outro. Histórias de felicidade, talvez. Um algodão-doce prometido. E se foram de mãos dadas. Ele a cortejar as copas das árvores intentando mais além o céu que as recobria. O céu de suas descobertas, de suas virtudes, quam sabe pensava nos planos para o próximo trabalho. Ela, na altura de sua coxa, estourava bolas de sabão e se ria dos feitos como se estivesse inventando purezas e descobrindo céus encapsulados nas bolhas. Quem sabe fosse isso. Os céus de ambos estavam em dimensões diversas, mas afagavam-lhes os espiríritos de maneira tão peculiar e densa que a beleza da cena simples me encheu os olhos. Céus encontrados serão sempre motivos de alegria. J.M.N
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Diário da tua ausência II
27.05.09
Manhã cedinho. Coleto sangue para exames de rotina. A enfermeira brinca dizendo que nunca vira sangue mais vermelho. Respondo dizendo que, na verdade, é meu coração liquefeito. Sua risada dura apenas um segundo e ela percebe que falo sem alegria alguma. Talvez minhas células mostrem as coisas raras que a ciência chama de estudo de caso. De minha parte apenas a preocupação com um pulsar que parece vai diminuindo. Para além desse ritmo desacelerado, apenas as idéias intervalando meus sentidos como a redenção de tudo o que inventei para desfazer minha casa. No fim a enfermeira voltou-se para mim: isso passa! E colocou o curativo com um cuidado extra. Não fiz mais do que agradecer. Isso já passou, expliquei-me. E essa certeza liquefez meu coração. Amanhã, mais exames, vamos ver o que mais está se esvaindo de meus órgãos em agulhas e tubos de ensaio. Talvez fique o suficiente para contar a história de minha biologia, talvez tão bem analisado que te faça entender o que de confuso ficou indizível.J.M.N
P.S. não pude deixar de pensar nesta música, quando entrei no carro e senti-me só o resto do caminho.
Sentença
"É uma estrada nua,
nem mesmo a lua se atreve a lhe doar caprichos.
É pele inventada, destituída de músculos,
veias e sentidos.
Direção de nada."
(O oráculo do grão - texto XIII)
É quase certo que há vantagens no esquecimento, mas no fundo eu as substituiria todas pelas resistentes mágoas de um amor desfeito em meio a traições, perigos e não ditos. A humanidade tropeçou no amor e não o contrário. E havia aquela mulher atirada na varanda, chorando abandonada me pedindo pelo amor de deus para esquecê-la, pois seu desespero era não poder resistir às minhas investidas e eu, de minha parte, assaltado pelo terror de querer confessar minha vaidade, minha fragilidade e covardia diante do monumento de sua entrega, apenas enxuguei as lágrimas e essa foi a pior decisão que tomei na vida. Ao ver suas unhas bem feitas, seu vestido passado com gosto e cuidado, suas presilhas de cabelo bem postas conforme sua vaidade recente, tive uma raiva de mim mesmo, pois parecia que havia destruído a sua beleza natural, havia drenado suas forças para o vazio de minha espera pelas sombras de um passado, nem muito belo, nem muito amável. Olhei àquela enorme figura que se assomaria aos meus fantasmas mais assustadores – como quando em criança vi o seio avantajado de minha ama a procurar-me para o alimento da manhã. Em tons agrestes de verde e cinza, minha vista foi-se escoando de seus significados e passei a contemplar a mais bela forma que jamais vira, quase sem saber se existia ou se era produto de minha imaginação. Ali, estirada sobre seu choro corrido, olhei-a muito mais dona de si do que eu jamais poderia ser e soube que havia cruzado uma fronteira proibida. Havia alcançado às terras desoladas da doença de estar sem ser e como fosse possível esconder meus medos, dei-lhe a mão pedindo-a para sair. Foi quando ela me olhou nos olhos e disse sem nenhum tipo de mágoa ou amor: nunca mais sairei dai! E apontou para o meu peito. Naquele instante, soube de pronto que jamais estaria sozinho.J.M.N
terça-feira, 26 de maio de 2009
Holden - Fantomatisme
O meu conceito de um dia feliz inclui o reencontro, a amizade, o inesperado de coisas enternecedoras. Talvez por isso eu tenha passado o dia todo de hoje com um risinho meio contido. O disco da dupla francesa Holden saiu assim, sem aviso nem nada, pra que a felicidade fosse intensificada pela surpresa. Os compassos, os descompassos, as músicas delicadas e ao mesmo tempo complexas, com inúmeros andamentos, tudo nos leva num enlace com momentos bons, vividos com pessoas amadas, filhos e sobrinhos em volta, mesa posta, família. Tudo isso tem na música deles. Não sei francês, mas mesmo assim me sinto totalmente acolhido dentro desse disco que, como sem propósito, irá me acompanhar por algum tempo ainda. Deixo aqui a tracklist do disco novo e o vídeo do cartão de visita da dupla, a música Ce Que Je Suis. W.D.C
01. Les animaux du club 03:59
02. Dans la glace 03:32
03. MIA 03:47
04. La fin d'une manche 04:00
05. Un toit étranger 03:57
06. Où sont vos bras, Monsieur ? 04:15
07. Longue est ma descente 03:41
08. Maureen, Katie, Maya aussi 03:50
09. Les grands chevals 03:22
10. LA CARTA 03:28
Diário da tua ausência I
25.05.09
A porta bate. Existe no ar uma série de arranhões e ferimentos ditos. A vergonha impede o caminho do olhar - o meu. Outras coisas tantas retornam para somar-se ao nada que se instala. Vaga de conforto, de pertencimento. Uma sensação de estar sem dentro. No fundo do ouvido, um sopro de segredos ainda frementes, inegáveis, porém sinceros, mas que na luta por um pouco de razão agasalhan-se na confissão silenciosa de quem perdeu. E não saem; morrerão doídos feito mãos envergonhadas. Não encontro dádivas para ofertar. Oração nenhuma vai sossegar minhas noites. Nossa foto, abraçados no frio de fevereiro, voltou à estante. Ficará lá para sempre, reconhecida como a única sanidade habitada, como a felicidade que anunciaste irrecuperável. É irremediavelmente doloroso sentir-se demolido, aniquilado. Falido por não ter meios de limitar meus investimentos, meus gastos. A vergonha senta ao meu lado e toma uma dose de vodka. Acabamos juntos a bebida e ela - a vergonha - antes de mim anuncia seu sono. Neste preciso momento finalmente fiquei só. Lembra dos quebra-cabeças a dois? Não os tire de tua parede. Tento sem sucesso recompor o que me reuniu ao saldo dos desesperados, dos mortos de fome. Insaciáveis pelos gostos intensos, mas fugazes. Tento lembrar de quando virei este ser que desconheço, mas desisto quando me lembro de tuas palavras: foi assim sempre. Quase sem forças para botar-me na cama, deitei com o corpo dormente. Não lembro das rotas que tomei para o esquecimento, mas lá cheguei, quase perto de despertar e reconheci o fundo branco do recomeço, com menos brilho do que naqueles anos em que nos pertencemos... Por hoje, apenas por hoje, queria realmente saber te explicar quem eu sou e, não fosse pedir demais, saber um pouco mais disso para mim também. J.M.N
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Inconstância
Ainda que se acumulem os calores dos verões sensacionais da infância. Ainda que se descubram novas evidências de que somos mais animais do que humanos e que toda nossa enormidade de pensamento se descubra um coacho na história do mundo. Mesmo assim terei que discutir com a morte as condições de minha passagem para o lado de lá. Ou para o continente devolvido do antes de nascer e ser. Ainda que minerais constatem minha fragilidade com suas vidas milenares e aditivos de cobalto e radiação destrutiva reformulem meu dna e minha ontologia. Ainda que xamãs criem chuvas seculares, estarei esperando o sorriso dela. Suas mãos desconhecidas e ágeis desenhando gerâneos, arqueando as horas em meu relógio de pulso e fazendo os batimentos cardíacos erruinarem a compostura da troca sanguínea. Estarei seguramente entre mundos ficcionais, entre beijos apaixonados, mas estarei como o elemento imaginado dos gênios da física, para o qual um segundo é eternidade ao quadrado e uma vida inteira de espera é apenas a certeza de que é possível que os finais sejam começos e estes, apenas miragens de um fim constante, mas desejável. J.M.N
domingo, 1 de março de 2009
A Próxima Fuga
Esse asfalto angustiado cobrindo a estrada que se nos interpôs está me fazendo esquecer as lições antigas aprendidas com a ajuda do cinto do meu irmão mais velho. A cada dia enfraquece o solfejo do teu nome diante dos bilhetes escritos com a tua letra miúda a me lembrar o horário da nossa próxima fuga. Mais uma vez vais apontar o encardido no meu amor, as fraquezas, as desistências: o rol habitual dos meus tropeços, jogados sem hesitação entre os talheres do café da manhã. Se naquela noite de bebedeira e muita chuva tivesses repetido que querias viver comigo uma vida e mais um pouco, acho que me sentiria mais uma vez feliz, mas a tua presença já começava a se tornar abundante. A tua retidão aumentava os meus pecados; a incondicionalidade do teu amor subtraía uma parcela cara dos meus movimentos. Quando percebi que definitivamente algo houvera desbotado entre nós, desejei dirigir apressado pelas ruas sombrias. Queria o centro velho da cidade, o início das coisas, os antigos campos de batalha e de despedidas marítimas. Queria o vento na cara, decantando esse fastio que herdei quando matastes as minhas fomes mais inconfessáveis. As minhas fomes, esses vazios que me constituem mais que os seus contrários, os teus desígnios deveriam estacar em suas fronteiras. Mas não. Resolvestes vasculhar o meu passado, escanear fotos de minha primeira comunhão; procurar no meu corpo uma cicatriz deixada por um braço quebrado; inquirir minha mãe sobre a natureza do meu parto, se fui desejado, onde fui gerado. E assim, refazendo minha história de trás pra frente, querias que eu fosse teu mesmo antes do momento em que nossas existências se atravessaram. Quando não havia mais o que devassar, nem gavetas, nem escaninhos, nem envelopes ou bolsos, os mistérios se perderam. Deixaram meus papéis de sublimar cheios de vazios, amarelando em cima de uma mesa cansada. Os meus assomos de amante vespertino já não tinham os mesmos efeitos na exatidão dos teus quereres. Os planos de visitar a Irlanda, de comprar mais um cachorro, de morar na praia onde os seus avós viveram até o último dia. Tudo parecia ser desviado de rota com um sorriso sem graça. A gratuidade de certos gestos às vezes acaba por nos fazer acreditar que toda uma história não passou de um punhado de enganos. Eu, tão acostumado com as tuas curvas, agora tinha que me haver com esse voltar-se, cada vez pra mais distante, somando-se em breves acenos. Ficaram essas despedidas mal choradas compondo uns breves arranjos de esquecer. Balançar de lenços brancos. Paz pra ti. Pra mim, deserção de uma guerra onde se perdeu o interesse pelas riquezas presumidas do inimigo.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
O que não cabe
A despeito do que dizias fingi sentir o que sentias. E fingindo pude estar mais à vontade, como por argumentar vitorioso, que assim poderia viver sabendo do que sabias sobre mim e sobre nós. Mas esta tua fala do avesso que é a minha própria fala, descuidada nos silêncios, me devora e regurgita e me multiplica em horas, Eros e vergonha. Desculpa é dizer que me importo, que sou todo ouvidos diante desta marmota de sentimento que me aderiu por umas horas a um sono repleto de tudo. De saudações, de camaratas, ah! as valsas ensolaradas das manhãs daqueles dias. Replico veementemente aos teus chorumes e esforços e ao te dar meu silêncio quero que saibas que muito mais de mim levas contigo. Me esqueço nessas frases não ditas, reafirmo a inexistência obsoleta de minha valentia. Esforço-me para não te dizer essas coisas, mas olha: afinal, não me contenho. E fico todo aberto sentindo quando era para eu... sei lá. Vê se me enganas e abordas esse descontrole todo de forma bruta e severa para eu poder saber que me dizimaste no âmago do que digo e que me recolheste da palavra quase no abismo, uma mentira, uma entrega de vida inteira. Assim, ao desintegrares a palavra devoluta que eu te amo, poderei, enfim, ter paz nos pensamentos ou voltar aos meus silêncios imaginando o que estou te entregando aos gritos. J.M.N
