sexta-feira, 30 de abril de 2010

E nós fizemos nosso caminho (ou “O estado de nossos passos não acontecidos”)

“É preciso sofrer depois de ter sofrido,
e amar, e mais amar, depois de ter amado”

João Guimarães Rosa

Andamos por muito tempo debaixo do sol enferrujado daquele lugar, onde as sombras, elas próprias, se escondiam do sol e onde suor nenhum respirava para além dos poros.
Deus estava noutra parte, eu cria.
O céu acontecia pleno, como indesejável elemento de uma paisagem mais abundante que minha esperança. Suspenso e limpo de não dar proteção nenhuma. Pensei que se o paraíso decidisse desabar sobre nós, morreríamos encontrados em qualquer parte do caminho, pois não havia abrigo algum naquele espaço.
A eternidade, às vezes, tem essa conjugação de desamparo.
Ela, ao meu lado, não dizia nada.
E andávamos.
Com nosso pouco alimento resistindo à fome de mudanças, íamos indo, sem para onde. Servíamos de trilha para o vento morto daquele caminho, que dissipava sempre perto dos longos fios de seu cabelo culminando, numa mesma porção dela, a resposta da natureza para a quentura e a razão de minha pressa por outra vida.
A prata da lua viria com ternura, sabor de abraço e talvez um beijo.
Jamais escrevera uma carta de adeus como aquela que deixamos no povoado. Jamais escrevera cartas. Todos os olhos deviam estar cobertos de lágrimas. Umas de perdão. Umas de tristeza. E outras, certamente, escurecidas no ódio da admiração do avesso – a inveja.
Era sempre assim. Recusar lugares faz cortes na carne da gente e deixa gentes entornadas nos rasos do mundo, esperando vocação qualquer para acontecer fora da voz dos outros.
Nossas células morriam lentamente no estuário de nossos corpos e o sal enraizando-se em nossas almas, cheirava a tédio e desconforto.
Ao lembrar os sons das ruas do povoado, tive medo. Medo de jamais avistar pessoas novamente. Medo de nunca encontrar sons apropriados para amá-la. Mas mantive meu olhar nômade. Pulando de estrela em estrela aguardando que a respiração dela ficasse mais fina e ritmada, sinal de que dormira. E quando isso aconteceu, pude então contemplar quem segurava em meus braços. Em nome de quem eu prometera tantas venturas e deixara tamanhas ausências em peitos habitados de somente minha pessoa.
Tive medo mais uma vez.
Medo de não ser dela o suficiente. Medo de que meus caminhos fossem agrestes demais para a sua pele tão macia. Era uma alegria a custa de sonhos alheios aquela minha, mesmo que de natureza pacífica. Mas me deixei ali. Com meus braços dormindo sob seus cabelos. Como minhas dúvidas sacramentadas na distancia percorrida daqueles dias.
E meu sono veio.
E mais um dia.
Novamente o astro acordado. Sol a pino.
Depois daqueles elementos todos de pensar e lágrimas secas, olhei para suas mãos provando o vento renovado da manhã para saber em que direção seguiríamos e confirmei que todo caminho queria trilhar com ela. Que toda a sorte de noites e ermos e páramos presos na pluma da noite, seriam apenas meus e dela. E quando ousei dizer-lhe para me esperar, ela já caminhava resoluta, suas mãos nos bolsos e passos fortes.
Olhando para trás ela me viu esperando e como se fosse a coisa mais simples de dizer, gritou-me com o vento a favor da sua voz: vem José, hoje a vida vai ser melhor que ontem.
Ela tinha toda a razão. J.M.N.

2 comentários:

Anônimo disse...

esse texto é magnífico. inspiração máxima sua. parabéns

Anônimo disse...

Li e reli este texto... acho que ainda não deram o valor exato dele. Muito boa a sua composição.
Parabéns.

Paulo Hummer - SC