domingo, 21 de fevereiro de 2010

Autobiografia noturna

“Era apenas um monte de noite chegando,
mas para ele, era como se fosse o mal da morte
contando suas tão antigas histórias,
tramando seus tão sabidos passos”
F.Milacaari – Prelúdio Noturno, 1974

De noite é que me dói mais a falta de sustento. Não os dinheiros que vêm pelo esforço dos braços. Mas aqueles ouros que nascem em medidas de abraço e palavras generosas de lealdade e conformação. É no meio do negro, no domo do mundo em transe que se me escapam as amarras e sinto a força absurda das engrenagens da solidão a me dobrar, fazendo-me exposto aos que não deveriam saber de meus ais. E lembro meus segredos graves e altíssimos a comover meus sonhos que vêm feito limiares felizes de dias que nunca chegam. Mas já estiveram. Sonhos brancos e festeiros, dissonantes dessas manhãs chuvosas e quase brancas do território que me escapa ainda mais. E ligo para tantos me buscando. E ouço tantos compromissos que me sinto nulo, sem função. E me aparecem traços e imagens que não saem, pois não tenho o dom da pintura, pois não sei talhar a madeira e fico me expressando como a conversa sedenta de anos antes, em que ela contava de seus enlaces e eu sonhava em ter o suficiente para lhe ofertar uma música pela rádio. Mas não tenho peso. E de repente me conformo com tudo novamente. “Ele é um tipo que desarruma a gente, isso eu digo”, penso na constatação dela, anos atrás. E entro naquele homem que eu quis ser. Acrescido das qualidades heróicas de poder saltar sobre uma bala em curso para o seu assassínio. E impedi-lo, ficando vivo para colher seu agradecimento. Todos têm seus segredos e aqui está o meu, deixarei que seja conhecido. Mas não assim, como pretendes. Não de forma descuidada e entregue que não possa caber numa noite de amor ou numa carta de declínio. Não abrirei essas comportas tão facilmente. O grito dos grilos na noite me acalma. E penso que há mais seres eternos de minhas memórias. Os escaravelhos que inscrevem zumbidos de anunciar as mortes alheias me acometem sempre. Temo que minhas lembranças me suplantem e quando eu morrer fiquem a vagar por ai, enchendo outras vidas de insônia e dor nas costas. Minhas lembranças em cujas densidades me arrisco a mergulhar. Essas histórias mais naturais do que minha constituição humana. Em que afagos são terremotos, em que beijos são brabos peixes a devorar os perdidos no mar da sorte. E nessa noite doída, em quais estrelas não encontro as lâmpadas de acender esperanças, faço meus passos procurarem o fim mais curto, amanhecer. E penso nela. Penso em sua ruptura. Em nosso ocaso. O mais real elemento de meus contrastes. Arranjo bem arranjado meu discurso e o procuro para dizer que me sinto um estrangeiro. Enclausurado nessa liberdade que promulgo há séculos. Um estrangeiro dentro das pontas do mesmo tecido grená que lhe serviu de manto e escondeu minhas chagas abertas. Uma noite é muito pouco para saber que eu a amo ainda. Longe na beira do mar alguém me disse que é perda de tempo. Senti pena daquele ser. Imaginário para si e para todos, sob cuja densidade láctea acomoda-se uma fúria não dita, partilhada com outros que nada mais podem ofertar senão o riso. E então chorei. Chorei o reconhecer de uma pergunta enrustida, impronunciável até este momento. Chorei à certeza de saber que tudo volta. Em círculos plenos e vigorosos, como as estações do ano, como esta saudade extremada e lancinante que me destrói e renova, estranhamente. Percebi, finalmente, que meu despertar foi apenas o acúmulo de outras escuridões noturnas a me gritar em seco brado que tudo a quanto mais resisto é, enfim, aquilo que mais me prende. Sua voz veio perto de eu morrer para dentro, incrustado nos corais de minha demência precoce, e me salvou dizendo assim: isso logo passa... J.M.N.

2 comentários:

Anônimo disse...

Devastador...
Linda tua escrita.

Bjs

Anônimo disse...

"adorava-te como aos salmos aprendidos na infância. D`orvalhada calma investida de saudade e silêncio. Adorava-te por estas palavras que antes da distância imposta, vazavam da tua boca. A saber paixões, a fazer novidades em mim..."

???

Teu texto fez-me lembrar destas coisitas... não pude encontrar a autoria.

Bjitos