“O som duma frase imageada vale tantos gestos!
Uma metáfora consola de tantas coisas!”
Fernando Pessoa – Livro do Desassossego
Sei que o tempo foi injusto conosco, Joaquim. Sei que agora há muralhas entre pleiteadas tardes de encontros e pão novo com café. Sei que não fiz a contento a instalação das liturgias de amizade e calor recíproco. Ademais, esta senda de escritos que perguntam tua opinião não inaugurada e outras coisas que, supunha, podíamos ter inserido entre as palavras, estes corpos que amamos. Lembro do que me falaste, a todo instante. Lembro de teu discurso pausado, de voz escolhida a dedo, com entrelinhas que me perscrutavam, seguiam feito caçadores infalíveis. Confessei que me senti trilhado, testado até. Mas no fundo havia uma alegria por teres escolhido orações e gestos com tanta elegância e bom acabamento. Fiquei contente de ter merecido teu respeito de acordo com tuas convicções que eu apenas posso imaginar, foram fortes o suficiente para que tenhas feito tuas escolhas. Ah, Joaquim, meu caro… Ainda me assaltam as perguntas que fizeste. Sem respostas, todas elas não passam de dúvidas. Não produziram proximidade, o íntimo que tanto se quer depois de conversas longas sob o lento de tardes confusas de sol e chuva. Não houve tempo para eu poder te mostrar o quanto amei e tive medo. O quanto fui dela e mesmo assim, pensava que tinha a obrigação de ser meu por mais um tempo, impedindo que nossas veredas nos levassem à loucura ou ao silêncio definitivo. Havia escolhido tua audição para esta confissão tão íntima, mesmo antes de saber quem eras ou o quanto podias me oferecer de conforto. Pensei tantas vezes que apenas me desejarias sorte ou que, talvez, me fosses dizer algumas verdades e inquietudes e nunca mais tocar no assunto. É possível que não saibas nada a meu respeito. É possível que sequer imagines quem fui, quem sou, como planejo continuar nessa existência que nos botou as mesmas dúvidas nos caminhos, que esgarçou a realidade com a força colossal de um maremoto e que no fim de tudo, mesmo aceita, mesmo conformada em nossos peitos sonhadores e febris, encontra assento em fraquezas tão antigas, nos domos mais negros das noites de solidão. É quase certo, Joaquim, que jamais possamos sentar e falar do amor pelas pessoas e palavras de nossas vidas, que nunca troquemos telefonemas de natal ou aniversário. Mas é certo meu irmão, que as ruas que percorremos são as mesmas e são as mesmas miragens que admiramos na distância desta indecifrável história na qual estivemos. De um lado eu com as ânsias e frêmitos dos beijos, desgraças e descobrimentos, e tu com a lança do desejo apontada para o lago em que Narciso se banhou, empunhando o troféu de ter dado vida ao meu abismo. Esperando uma mão que te salve por dentro, que te acalme os ossos e a lira, assim como eu também espero. J.M.N
5 comentários:
Lindo, lindo, lindo...
Intenso e tocante. O lirismo, o abandono e a forma e encontrar pequenas alegrias nas mais insignificantes coisas do caminho aparecem como os elementos principais dos teus escritos. Mostras a importância dos detalhes e a força das pequenas coisas nas histórias que contas.
Você já tem alguma coisa publicada? Colabora com algum periódico de literatura?
Se sim, me diz quais para eu procurar.
Maravilhoso.
Cláudia Estevino
Florianópolis - SC
O texto é fantástico.
Hellem.
O homem para quem escrevi tb. Apesar de, como disse no texto, não o ter conhecido direito.
Um abraço,
J.Mattos
Cara Claúdia,
Infelizmente ainda não conseguimos publicar nada. Porém há boas chances disso acontecer este ano. Caso aconteça, sairá no biog. Portanto esteja sempre por perto.
Obrigado pelo interesse.
Um abraço,
J.Mattos
Muito belo o texto.
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